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Dorinha Pankará por Eric GomesDorinha Pankará por Eric Gomes

Leia na íntegra depoimento vinculado ao especial de capa da edição 196 (abril 2017)*
*Registrado por Eric Gomes na Aldeia Cacaria, Território Pankará, em março de 2017


Acredito que ser indígena no Brasil é ter sua cultura, sua tradição, é a minha identificação com a indígena que sou. Não precisa que eu tenha necessariamente cabelos lisos, olhos puxados ou que eu ande nua.

Antes dos portugueses chegarem, realmente existia o índio puro no Brasil. E, ao longo dos mais de 500 anos de misturas, mudamos muito nossa fisionomia. Perdemos um pouco do nosso idioma, mas não perdemos nossa tradição, nossa cultura. Aqui perto, temos o povo do quilombo Tiririca dos Crioulos. E, diferente de outros lugares em Pernambuco, índio casa com não índio. Por isso houve essa mistura. Não tem mais índio puro, mas tem índio de cultura, de tradição e de luta. O que diz ser índio é o sangue, não é o cabelo, o olho. Tenho as ascendências que meus antepassados deixaram cravadas com sua história aqui, na Aldeia Cacaria. Esse nome vem desde a época em que os índios eram espancados e, muitas vezes, mortos. Eles eram enterrados em jarras (urna funerária) e hoje existem muitos cacos dessas jarras.

Antigamente, os índios eram mais isolados, não existia internet, celular. Eles se comunicavam pelos assovios, pelo canto dos pássaros: onde tinha um movimento de indígena, os pássaros avisavam. Hoje evoluiu e a gente tem que acompanhar a evolução da tecnologia: tenho que usar celular, internet, carro… Isso não tira minha identidade. Posso mudar meu jeito de ser, mas minha cultura não se tira. Porque nasci com ela.

Uma vez, eu estava em Serra Talhada (cidade próxima) e uma mulher perguntou: “Oh, mulher, você é índia? Usando celular?! Você anda nua?! Você come gente?! Onde você mora?!”. Eu disse: “Sou índia, uso celular, você não me ensinou?! Não como gente, mas se for pra comer, eu como; eu moro numa casa”. Ela: “E pode?!”. É cada uma… E eu não sou gente não? Sou bicho?! Para esse povo, é pra gente andar nu, comer gente e morar no mato. Essa é a visão de algumas pessoas.

Aqui em Pernambuco, somos quatro mulheres-cacique: eu, dona Ilda, dona Lurdes e Lucélia, em Itacuruba. Como sempre digo, ser cacique não é querer, é nascer. É uma escolha feita pela natureza e, quando fui escolhida, muita gente disse assim: “No povo Pankará num tem homem não? Por que uma mulher-cacique?”. Não é fácil, é uma luta muito pesada, principalmente para a mulher, por causa do machismo. Sinto muita dificuldade. Por exemplo, quando é para reivindicar um direito do meu povo, percebo que sou vista com outro olhar, do homem para a mulher.

Também tem a perseguição por parte dos não índios. Para eles, a gente cria índio. Eles não entendem que índio não se cria, índio nasce. Eles acham que a gente virou índio a partir de 2003 (ano
de reconhecimento étnico oficial pela Funai), mas toda a vida meu povo esteve aqui. Claro que eu não estava, mas antes de meu avô, do meu bisavô, já havia outros indígenas aqui.

Já tivemos a identificação e delimitação da terra. Há uns três meses, o pessoal (da Funai) veio identificar quem são os não índios e o moído foi grande. Chamei as lideranças de cada aldeia para que cada uma dissesse quem é o dono das terras. Acho que os donos de 80% das terras do território Pankará moram em Floresta–PE (cidade vizinha ao território indígena) e os índios que trabalham nelas têm que pagar renda. Quando a lista saiu, os donos de terra vieram pra cima: “Cumé?… você quer tomar terra da gente, é? Sabe quanto é que custa minha terra?”. Não quero tomar terras nem quero saber quanto custa, não sou eu quem vai pagar.

Em 2012, fui eleita vereadora em Carnaubeira da Penha–PE (cidade à qual pertence o território Pankará). No ano passado, tive mais votos que na eleição anterior. Mas não consegui me reeleger por causa de legenda do novo partido. Graças a Deus não consegui ser eleita: não sei fazer a política desse povo.

Muitos pensam que cacique é um cargo. Não! Para mim é uma missão que eu trouxe dos meus antepassados. Nasci com ela e tenho um contato muito grande com a natureza, com a força encantada. E, graças a Deus, sempre venci todas as batalhas.

Tem gente que quer declaração para estudar (documento reconhecido pelo Estado que atesta pertencimento ao povo Pankará e que permite concorrer dentro das cotas sociais). Para ter direito, a pessoa precisa participar, conhecer sua história, aprender a se identificar. Mas aparece até quem não sabe dizer a que aldeia pertence. “Sou da (aldeia) Pankará. Né na serra? Ah… num sou obrigada a saber não! Não quero saber de aldeia não, quero saber que tenho direito!” A declaração para estudo não é direito, é uma conquista muito árdua para o povo Pankará, não foi porque o governo é bonzinho e deu. A gente lutou muito. Aí, eu vou dar uma declaração a uma pessoa que não sabe nem se identificar?! Hoje, chegando numa universidade, vão perguntar “como é o povo, a organização?” Se não souber, a declaração tem validade nenhuma. Não é um papel que vai dizer se sou indígena ou não. O que vai dizer se sou indígena é minha cultura, é minha autoidentificação. Ninguém vai me identificar indígena, quem tem que me identificar sou eu, não tenho nenhum papel dizendo que sou índia. Meu cabelo, oh, duro; não tenho olho puxado nem ando nua (risos).

A coisa que mais prezo hoje é o nome do meu povo. Não é meu nome, Dorinha. Não! Minha assinatura identifica o meu povo, não a mim. Eu sou cacique porque tenho um povo. Então, tenho que respeitar e fazer valer o direito e a dignidade dele. “Ah… é só uma assinatura, mulher!…”. Sim, só uma assinatura que, pra você, significa nada, mas para o meu povo significa. E tem pessoas que vêm me perguntar “Ô fia, você sabe onde Dorinha mora? Num é Dorinha que assina uns papel aí pruns índios? Dizem que ela é enfermeira”. Se não sabe quem sou eu, eu vou dizer? Digo nada. Eu respondo: “Quem é Dorinha? Rapaz, num sei não”. Tem quem diga “Você sabia que eu tenho direito”. Tem dever. Primeira coisa que vejo é o dever que tem que ter, o dever de conhecer sua história, sua cultura e sua tradição. Depois disso, vem o direito. Por enquanto, vejo direito nenhum. Quem gosta desse negócio é papai (Pajé Pedro Limeira, 86, Aldeia Cacaria): “Dar declaração para quem não é daqui?!”. “Ah… porque sou nascente, eu nasci lá, tenho terra”. “Não! Mas de jeito nenhum!”.

Nasci índia e vou ser índia até o fim dos meus dias de vida. Continuo nessa luta muito difícil, muito perseguida, mas vou até o final, até o dia que Deus determinar. É uma missão que tenho e vou ter que cumprir.

VEJA GALERIA COM IMAGENS DE ERIC GOMES:

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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