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Obras de Paulo Nazareth da coleção "Produtos de genocídio". Foto: Alessandra Haro/Paço das Artes/DivulgaçãoObras de Paulo Nazareth da coleção "Produtos de genocídio". Foto: Alessandra Haro/Paço das Artes/Divulgação

Paulo Nazareth não conheceu sua avó, Nazareth Cassiano de Jesus, mas dela fez questão de tomar o nome próprio para transformar em “sujeito de arte”, como ele mesmo diz. Ela era uma indígena da etnia Borun, do Watu, o Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Por não ser submissa, e por ser índia, foi levada no “trem de doido”, como Paulo fala, para o Hospital Colônia de Barbacena. De lá, não saiu e o artista visual mineiro, um cidadão do mundo que produz e questiona arte contemporânea em qualquer lugar (Brasil, África, América Latina, Europa), tem buscado confrontar, em suas obras, as práticas de dizimação dos povos originários do nosso país.

Trabalhos como a coleção Produtos de genocídio, Genocide in America, Paralelo 11 e Direito ao funeral são explícitas ao abordar a violência perpetrada contra os indígenas. Seja por meio do empréstimo de sua cultura – em Coleção produtos de genocídio, de 2015, Paulo Nazareth questiona a noção despudorada de apropriação a partir de times de futebol, por exemplo, chamados Tupi e Guarani  ou seja por meio de sua aniquilação, é impossível não se chocar com os relatos por trás de Paralelo 11, que narra o massacre de índios cinta-larga, em especial de uma mulher que é cortada ao meio, a facão, pelos jagunços encarregados de persegui-los.

Em entrevista à Continente, concedida por vídeo, Paulo Nazareth considera que sua trajetória artística vem sendo construída “catando um pouco dessas memórias, entre um e outro lugar”. “Nazareth Cassiano de Jesus, a minha avó, não era uma mulher submissa. Ela lutava. Foi levada no 'trem de doido' junto a outros indígenas, a negros, moradores de ruas, adversários políticos, homossexuais, gays e lésbicas… Ela perdeu seu nome e passou a ser identificada por um número. Decidi carregar esse nome. Deixei de ser Paulo Sérgio da Silva e passei a ser Paulo Nazareth. Me considero afro-indígena, afro-Borun, o sangue Borun corre em minhas veias, então eu tenho que falar disso. Falo dos meus pares, dos meus parentes… Faz 517 anos que nós aqui estamos lutando para permanecer”, situa o artista visual.

Ele constata, entretanto, que por mais que tenha o dever de falar disso, não se trata de uma missão fácil. “É difícil se reconhecer como indígena numa sociedade que despreza o ser indígena, é difícil ser negro numa sociedade que despreza o negro”, opina. “Mas sigo a falar e tratar dessa questão, que é a morte de muitos povos, morte de cultura, de conhecimento. Quando um povo inteiro é dizimado e passa a nominar um biscoito, como os Aymorés, que sofreram genocídios durante cerca de 500 anos e até hoje são atacados”, complementa.

No ano passado, Paulo Nazareth foi o vencedor do Prêmio PIPA, um dos mais prestigiados no campo da arte contemporânea do Brasil, justamente com o trabalho da coleção Produtos de genocídio. Mas não se ilude quanto ao aumento da representatividade do indígena na cultura. Acredita, por exemplo, que cotidianamente se incorre no erro da “exotização” do indígena e que estamos, ainda, escondidos “atrás do mito da democracia racial”. “É difícil se reconhecer como negro e indígena numa sociedade racista, que está escondida atrás desse mito, porque todos vão dizer que amam os negros e indígenas, mas desde que eles estejam lá trabalhando, subservientes, para uma elite branca racista. Roubamos deles até o ser indígena e o ser negro, e eles passam a ser apenas pobres”, sintetiza.

Assista-ouça ao depoimento de Paulo Nazareth à Continente:

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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