Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Cobertura

"O pensamento de Galeano é muito atual"

Felipe Nepomuceno é diretor do filme 'Eduardo Galeano Vagamundo', um dos oito longas da competição do festival cearense. Leia entrevista com ele à Continente Online

TEXTO LUCIANA VERAS, DE FORTALEZA*

08 de Agosto de 2018

O diretor Felipe Nepomuceno em frente ao Cine São Luiz de Fortaleza

O diretor Felipe Nepomuceno em frente ao Cine São Luiz de Fortaleza

Foto Thiago Gaspar/Divulgação

Um encontro misterioso, que até poderia ter ocorrido no que se convenciona entender por vida real, mas que só se fez possível no cinema, tomou a tela enorme do Cine São Luiz na noite da terça, 7/8, a terceira da 28edição do Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema. Francisco Brennand, o pintor, escultor, artista e escritor pernambucano, encarava a câmera ao declamar um trecho do jornalista, escritor pensador uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) em uma das sequências de Eduardo Galeano Vagamundo (2018), documentário de Felipe Nepomuceno.

Um dos oito longas da competição do festival cearense, que prossegue até o sábado, 11/8, Eduardo Galeano Vagamundo é costurado por leituras da obra de Galeano (feitas por atores como Ricardo Darín, Paulo José e João Miguel, escritores como Mia Couto e artistas como Brennand) e ancorado em uma entrevista que o autor de As veias abertas da América Latina (1971) e da trilogia Memória do fogo (1982-1986) concedeu, ainda em 2009, ao jornalista Eric Nepomuceno, pai de Felipe. “Foi uma entrevista que nos serviu de guia. O filme foi rodado em quatro países diferentes, com nove fotógrafos diferentes, e pensamos em dar uma unidade na imagem para manter a mesma linguagem. Terminamos usando a fogueira, que é um símbolo muito presente na literatura dele”, conta o realizador.


O ator Paulo José em cena do filme de Felipe Nepomuceno. Imagem: Divulgação

Eduardo Galeano Vagamundo nasce como uma espécie de desdobramento do trabalho que Felipe e a produtora Tereza Alvarez constroem na série de programas Sangue latino, exibida no Canal Brasil desde 2010. “O Galeano foi a pedra fundamental do programa, o encontro com ele moldou o nosso projeto”, comentou Tereza durante a entrevista coletiva, já na manhã desta quarta (8/8). Uma das filhas do escritor uruguaio, Florencia Hughes, havia assistido ao longa pela primeira vez no São Luiz e não escondia sua emoção: “Foi uma sessão muito emotiva. A emoção de ver papai naquela tela grande é inexplicável. É difícil para mim falar do personagem, e não do meu pai, mas ele costumava dizer que precisamos amar os outros em suas luzes e nas suas sombras. E foi assim que convivi com ele, com alguém que amava o silêncio, que entendia o silêncio com fundamental para o ritmo da vida”.

De fato, o longa busca se equilibrar entre a clareza impressionante de Galeano, presente na sua fala e nos trechos pinçados pelo realizador que são declamados por vozes distintas, e respiros inseridos na narrativa – cenas de natureza, uma trilha sonora melódica - talvez para enfatizar o que há de mais delicado e perene na obra do escritor uruguaio. Percebe-se a ausência de uma maior reflexão política, algo que era de se esperar num filme sobre quem sofreu, na pele, as perseguições de ditaduras militares e sempre manifestou seu pensamento à esquerda. “A literatura dele é tão maravilhosa que muitas pessoas não chegam a ela por conta das posições que ele defendeu. Quis que filme aproximasse um número maior de leitores e espectadores dessa essência dele”, explicou Felipe Nepomuceno em entrevista à Continente.


O ator argentino Ricardo Darin no filme. Imagem: Divulgação

E sobre o encontro entre Brennand e Galeano, ele revela sua crença em algo que nem sempre é possível se exprimir em palavras, tampouco em imagens: “Galeano tem um livro chamado Palavras andantes, que é todo ilustrado pelo J. Borges. Nesse livro, tem uma história sobre a ressurreição de um papagaio, que inclusive se passa no Ceará. Ele tinha uma ligação muito forte com o Nordeste do Brasil. Quando fomos fazer o Sangue latino com o Brennand, ficamos pensando em gravar também com ele. Num certo sentido, tive a sensação de que ele e Galeano, que nunca chegaram a se conhecer, seriam pessoas que poderiam ter sido amigas. Ele nunca tinha lido, ficou muito tocado, inclusive, com aquele encontro, que só o cinema permite. Depois da gravação, fui para a casa da filha do Brennand e lá vi um quadro dele que tinha tudo a ver com o texto do Galeano que ele havia lido: uma mulher com um cesto, caminhando, o cabelo escorrido, a coisa de ser transportado para um outro tempo, um outro lugar. Fui olhar a data e descobri que tinha sido pintado em 2015, ano em que o Galeano morreu. Tem coisas ali que vão além do entendimento”.

Ainda não há previsão para a estreia de Eduardo Galeano Vagamundo, que, segundo Felipe Nepomuceno, deve "rodar o circuito de festivais" neste segundo semestre para depois chegar à grade de programação do Canal Brasil.

CONTINENTE Nos créditos de Eduardo Galeano Vagamundo, tem a informação de que a entrevista foi feita pelo seu pai, Eric Nepomuceno. As imagens já eram familiares para você ou chegou depois da morte de Galeano?
FELIPE NEPOMUCENO A gente faz uma série para o Canal Brasil chamada Sangue latino, que começou em 2010. A primeira temporada foi filmada em 2009 e a entrevista inicial foi com o Galeano. Nasceu junto com a série a vontade pela presença dele. Em outubro de 2009, uma equipe saiu do Rio de Janeiro para Argentina e o Uruguai e lá, na casa dele em Montevidéu, fizemos o Galeano. De lá pra cá, o Sangue latino já está na oitava temporada. Essas imagens do filme são uma coletânea do que foi filmado ao longo do tempo todo.

CONTINENTE Vocês foram aproveitando a presença dos escritores?
FELIPE NEPOMUCENO Mais ou menos. Quando fomos para Portugal com o Sangue latino, gravamos o Mia Couto, e eu pedi para ele ler o trecho do Galeano, que já havia morrido. Mia Couto é uma exceção. Todos os outros foram filmados em 2016 e 2017, já para o filme, inclusive a Lila, a garota que aparece, que é neta do Galeano. Filmamos na casa dele, era a primeira vez em que voltávamos à casa dele e da Helena depois da morte, então tinha uma sensação especial de estar lá.

CONTINENTE Quanto tempo tinha a entrevista original?
FELIPE NEPOMUCENO Cinquenta minutos. No programa, tinham entrado mais ou menos 15 minutos. Deixamos aproximadamente 35 minutos de material inédito e não foi todo utilizado do filme. Fiz uma seleção, mas isso é uma consequência do modo de trabalho do Galeano. Ele era muito rigoroso e severo no que diz respeito ao trabalho. E sim, era amigo dos meus pais de muitos anos. Eu, na verdade, conhecia o Galeano desde quando ainda estava na barriga da minha mãe. Ou seja, a conversa ali poderia durar 20 horas, até mais, seria uma conversa da vida toda ali, mas ele manteve um tempo que costumava dar para as entrevistas. Demorei a entender isso.

CONTINENTE Como se não tivesse te dado acesso especial porque era filho dos amigos dele?
FELIPE NEPOMUCENO A entrevista era para mim, mas era para meu pai também, e claro que era na casa dele e tínhamos passado o dia inteiro juntos. Mas, quando foi ligada a câmera, ele manteve o tempo de entrevista que costumava dar. Hoje, existem inúmeras entrevistas deles, felizmente disponíveis na internet, em que dá para notar, eu acho, uma intimidade dele com quem está falando.

CONTINENTE O preto e branco surgiu no início ou já na edição?
FELIPE NEPOMUCENO Surge com o Sangue latino, na verdade. Antes, não tinha nenhum programa em preto e branco na televisão. No Canal Brasil, também não havia. A origem se deve a um dos cineastas que mais me influenciou, o Fernando Faro, que dirigia o programa Ensaio, na TV Cultura. O Ensaio começou como preto e branco e depois passou para cor. De certa forma, isso contribuiu para que também quiséssemos fazer Sangue latino em p&b. Então, o material do filme já vinha junto com essa estética da série.

CONTINENTE Queria que você falasse do recorte do documentário, que termina abrindo uma janela para o pensamento de um dos mais prolíficos escritores da América do Sul, alguém que começa se descrevendo como um “exímio ouvidor de histórias” e que depois virou um exímio contador de histórias. Foi uma opção sua de não trazer muito as reflexões políticas dele, de não destacar o pensamento político sobre o continente?
FELIPE NEPOMUCENO Nunca falei de política com o Galeano. Nunca conversei sobre isso. Falamos, sempre, sobre assuntos nossos, sobre coisas pessoais, da minha vida, a vida dele e, claro, muito sobre futebol. Ele adorava futebol, torcia para o Nacional. Então, já existia isso de eu não ter tido uma conversa específica sobre política, apesar de que, depois, no material da entrevista havia uma parte em que ele falava sobre esse assunto. Acontece que eu acredito que o Galeano, para o bem e para o mal, atraía e afastava pessoas da literatura dele com seu posicionamento político. E acho que a literatura dele é tão maravilhosa que muitas pessoas não chegam a ela por conta das posições que ele defendeu.

CONTINENTE Como se as pessoas não fossem além de As veias abertas da América Latina?
FELIPE NEPOMUCENO Isso, as pessoas têm o Galeano como uma pessoa de esquerda, que sempre se posicionou. Então, acho que o documentário também foi uma tentativa de aproximar mais leitores, um número maior de pessoas e espectadores, da essência dele. Não penso que isso ficou datado porque eu acho que na América Latina, no Brasil e no mundo todo, na verdade, as coisas não mudaram. Estamos vendo ciclos se repetindo, então o pensamento dele é muito atual, mesmo para questões pontuais. Nunca pensaria nele como um pensador datado, e sim como mais atual do que nunca, principalmente no Brasil de hoje. Ele é ainda mais necessário, tanto na literatura como no pensamento, pois era muito aberto ao diálogo, a ouvir o outro. Isso é muito necessário.

LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica de cinema da Continente.

* A repórter viajou a convite da organização do festival.

Publicidade

veja também

No cinema, como na vida, o real está na travessia

O Brasil (ou o Chile) de 2018 pelos olhos do cinema

comentários