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Com a América do Sul, sem fronteiras

Festival realizado na região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, é a prova de que fronteiras culturais são maiores e mais fluidas do qualquer barreira geográfica

TEXTO OLÍVIA MINDÊLO, DE CORUMBÁ*

25 de Maio de 2018

Fabio Kaida (MS) e sua harpa invocada

Fabio Kaida (MS) e sua harpa invocada

Foto Fasp2018/Divulgação

Fronteira, eis uma palavra para Corumbá, situada no coração do Pantanal, Mato Grosso do Sul. Soa óbvio afirmar isso, mas não se trata de uma questão meramente cartográfica, já que a Bolívia fica a cerca de 10 km daqui. Na cidade sul-mato-grossense onde agora acontece o 14º Festival América do Sul Pantanal (Fasp), a ideia de fronteira revela-se por toda parte – e toda parte vive aqui. Dos avisos nas portas do prédio da UFMS, onde lemos “Laboratório de Estudos Fronteiriços”, às falas, aos sons, aos rostos, às letras de música e às trocas evidentes na programação do evento, tudo remete à ideia de que nesta parte do país, seguramente as fronteiras unem mais do que separa. Na verdade, são mais delimitações geopolíticas, pois, em termos simbólicos, é difícil dizer onde começa a Bolívia e termina o Brasil, onde é Brasil e não Paraguai, por exemplo.

O Fasp surge justamente para celebrar essa peculiaridade local. Tanto é que as barreiras terrestres entre Corumbá e Puerto Quijarro, onde também há programação, estão liberadas até domingo (27/5), quando o festival chega ao fim. “Paraguai é Corumbá, e Corumbá é Paraguai também. Nos integramos através da cultura. Não pelo que definiram os políticos em algum momento da história. Estamos nos expressando e a arte é significativa para essa integração da América do Sul”, disse o poeta, escritor e jornalista paraguaio Mário Rubén Alvarez, ao que emendou o secretário estadual de Cultura e Cidadania do MS, Athayde Nery: “Fronteiras são geográficas, não humanas”.

As falas se deram no contexto de uma palestra de Mário Rubén, na quinta pela manhã (25/5), sobre um dos homenageados desta edição do festival: o músico José Asunción Flores (1904-1972), paraguaio criador da guarânia (homenagem aos guaranis), nos anos 1920. Trata-se de um gênero musical melancólico e hoje profundamente arraigado à expressão cultural do nosso país vizinho, tendo se popularizado na América do Sul e sido gravado, inclusive, pelo brasileiro Moacir Franco.

Aliás, a presença de músicos e canções paraguaias figura como parte intrínseca desta terra “que um dia foi Paraguai”, como disse o poeta Paulinho Simões citado no prólogo do livro Prata da casa, do jornalista e músico Rodrigo Teixeira. Profundo conhecedor da música do estado, Rodrigo foi um dos responsáveis pela curadoria do festival e ressalta essa ligação do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, embora pondere existir hoje uma menor presença de músicos paraguaios na capital Campo Grande. “De toda forma, é difícil separar isso, porque já está no nosso DNA musical e cultural”, afirmou Rodrigo à Continente.

Inaugurando a programação do Palco Rio Paraguai, no porto de Corumbá, o instrumentista Marcos Assunção, de Campo Grande, deu uma demonstração bonita de como a noção de “fronteiriço” vibra por aqui e nas cordas de sua viola. Por sinal, um instrumento personalizado, de dois braços, que mandou confeccionar na intenção de sintetizar a sonoridade da guitarra semiacústica, da viola caipira e do violão brasileiro. Com instrumento, compôs músicas como a Polca pantaneira, que apresentou ao público no cair do sol, mencionando sua cultura fronteiriça, sua alma híbrida por cultura e cultivo, pois a polca, sendo um gênero europeu, chegou ao Paraguai e se espalhou por estas terras.

Uma das figuras-síntese desse espírito da região esteve no palco principal na noite de abertura (quinta, 24/5). Entrou animado, imponente, apresentando sua harpa como “meu ‘pequeno’ instrumento que gostaria de chamar de mundo”. Fabio Kaida veio de Campo Grande e é considerado um entusiasta e difusor da música paraguaia, embora tenha feito questão de homenagear a Bolívia, o Chile e a Colômbia em seu show, além dos ritmos caipiras de “raiz” que costuram a música sul-mato-grossense às de fronteira. Cantou em português, em castelhano e, com alma de roqueiro, evocou até o parceiro musical Michel Teló (conhecido pelo sertanejo universitário). A harpa cheia de reinvenções, acompanhada de baixo, bateria e violão dos demais integrantes da banda, agradou ao público que aguardava, em seguida, o show de Martinho da Vila. “Cabeludooo! Rapunzel, toca mais uma”, gritou um homem da plateia, referindo-se aos cabelos de Fabio Kaida, com cumprimento até o joelho.

Pouco mais de uma hora antes do músico subir ao palco, Elaine Ortiz assistia à solenidade oficial de abertura do festival, com a presença de políticos de várias partes do continente - do ministro de Cultura do Paraguai, Fernando Griffith, ao ex-secretário de Cultura de Medellín, Jorge Melguizo, presenças importantes nesta edição. Elaine é herdeira de uma das manifestações populares de Corumbá, o Cortejo de Andores do Banho de São João, que também se fez presente na abertura. Segurava seu andor todo enfeitado, em homenagem ao santo, enquanto conversava com a revista. Contou ter sido o "banho" uma festa criada por sua avó há mais de 80 anos, quando o filho dela (o tio de Elaine), encontrava-se enfermo. A senhora, então, pediu a melhora e o “santo milagreiro” concedeu, ao que ela retribuiu em forma de um ritual sacro e profano. 

De lá para cá, a festa teve continuidade, mesclando procissão, música e comidas típicas juninas na noite de São João (de 23 para 24 de junho), que também coincide com o início da diminuição do nível das águas do Rio Paraguai na cidade e para onde o cortejo se dirige na intenção de banhar os andores. Ela contou que esta foi a primeira vez deles se apresentarem no festival com a tradição, atualmente em luta para se transformar em Patrimônio Imaterial Brasileiro – hoje, são mais de 200 andores cultivados por diferentes famílias corumbaenses. Na curta apresentação, deu para sentir o propósito e ver a beleza de expressões espontâneas como esta.

Interessante perceber como o Fasp busca tratar com seriedade a importância da produção e da gestão cultural na sua potência crítica e construtiva. Está trazendo artistas e pensadores que contribuem nesse sentido, a despeito dos percalços, velhos companheiros dos festivais de cultura – já não há novidade nisso. Como o restante do país, enfrenta-se aqui problemas com a situação brasileira deste momento. Falta combustível (na Bolívia também, porque depende dos brasileiros na fronteira) e houve cancelamento de atração. Mas, de forma geral, o clima é de paz e celebração à cultura pantaneira e sul-americana. Além disso, encontramos um povo receptivo e uma cidade bem-cuidada. E somando-se a tudo isso, encontramos verdade na realização do festival, que atualmente prega a diversidade em seu discurso e a realiza na prática – com a ressalva de que a participação dos indígenas e das mulheres poderia ser bem maior e melhor.

OLÍVIA MINDÊLO é jornalista e editora da Continente Online.

*A repórter viajou a Corumbá (MS) a convite da Secretaria de Cultura e Cidadania do Governo do Mato Grosso do Sul

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