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Cobertura

O peso que é poder flutuar

No Palco Dominguinhos, vimos artistas como Felipe Catto, Johnny Hooker, Gaby Amarantos e até Beth de Oxum ecoarem um verdadeiro grito de liberdade à comunidade LGBT

TEXTO OLÍVIA MINDÊLO E SAMANTA LIRA

28 de Julho de 2018

Discussão de gênero marcou a penúltima noite do FIG, com shows de artistas como Gaby Amarantos e Johnny Hooker

Discussão de gênero marcou a penúltima noite do FIG, com shows de artistas como Gaby Amarantos e Johnny Hooker

Foto Felipe Souto Maior/Secult-Fundarpe

Enquanto a atriz Renata Carvalho resistia para realizar seu espetáculo O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu [saiba mais], artistas ligados à questão de gênero esbanjavam seu potencial transgressor no Dominguinhos, o palco principal do 28º Festival de Inverno de Garanhuns. Seguindo o que estava previsto (e foi cumprido) na programação oficial do FIG, a noite reuniu uma verdadeira cena LGBT: nos shows e no público – com exceção dos camarotes (visivelmente contrários ao que estavam testemunhando ali).

Sob os holofotes, vimos os cantores Romero Ferro, Felipe Catto, Johnny Hooker, Gaby Amarantos e até o coco de umbigada de Mãe Beth de Oxum gritarem a favor da atriz trans censurada, fazendo ecoar um verdadeiro grito de liberdade entre os presentes – parte ou não da comunidade LGBTQI+, mas no geral apoiadores da ideia de que arte é, por definição, um território de crítica, reflexão e libertação – palavra cada vez mais cara ao contexto atual brasileiro.


Mãe Beth de Oxum fez discurso em defesa das causas LGBTs. 
Foto: Felipe Souto Maior/Secult-Fundarpe


Felipe Catto apresentou o show O nascimento de Vênus.
Foto: Felipe Souto Maior/Secult-Fundarpe

Não faltaram homenagens a Renata Carvalho e aos povos historicamente oprimidos, como são as mulheres e as travestis: Beth de Oxum levantou a bandeira do arco-íris; Felipe Catto vestiu a camisa e a tiara para ela; Gaby Amarantos exaltou o direito da mulher com uma banda formada só por artistas negras; e Johnny Hooker, bem, saiu rasgando, já no final da apresentação, em sua crítica aos conservadores e ao FIG, que disse ser sua casa desde a adolescência: “Estamos aqui num festival de falso ‘Viva à Liberdade’. Liberdade para quem? Para quais corpos? Eu estou aqui hoje para dizer a vocês que Jesus é travesti, sim! Jesus é transexual, sim! Jesus é bicha, sim, porra! E como já disse brilhantemente Daniela Mercury aqui nesse palco, a arte é para livrar a cabeça da gente de merda. Viva a Renata Carvalho, Jesus Cristo, Rainha do Céu. Esses fundamentalistas não vão passar!”. A maior parte do público ovacionou, mas outra não gostou nada: dos camarotes, que quase se esvaziaram completamente depois do depoimento, ouviam-se vaias e viam-se até gestos obscenos, de gente estirando o dedo para ele.

Neste sábado (28/7), último dia do festival, Garanhuns acordou com uma nota de repúdio do prefeito da cidade, um dos responsáveis pela censura a Renata Carvalho. Leia trecho do texto publicado no perfil oficial no Instagram de Izaías Régis:

Vimos a público manifestar nosso repúdio às apresentações ofensivas e desrespeitosas que aconteceram nesta cidade durante a realização do 28º Festival de Inverno de Garanhuns. Aceitar esse tipo de apresentação é compactuar com o desrespeito. (...) Artistas sem postura, desrespeitando seus próprios fãs e os cidadãos de Garanhuns, proferindo todo tipo de palavrões e hostilidade. (...) Ontem, testemunhamos, perplexos, manifestações nocivas do cantor Johnny Hooker que proferiu palavrões, insultos e provocações contra símbolos religiosos. Reconhecemos que não se trata de um acontecimento isolado, infelizmente, durante a mesma semana, tivemos Daniela Mercury com o mesmo discurso de senso comum, simplista e arrogante.

Como disse à Continente, o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja, a liberdade é um território de luta. E haja luta. Ao menos, temos a arte e músicas como Flutua, de Johnny Hooker, um verdadeiro hino à liberdade e ao amor indiscriminado. A madrugada já passava das três e grupos de jovens cantavam em coro, pelas ruas cobertas de neblina, garoa e frio: “Flutuaaaa, flutuaaaa. Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”.

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