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"Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril"Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril

Além de expor obras nos tradicionais espaços expositivos de Kassel, como o Fridericianum, a Neue Galerie ou a Documenta Halle, a documenta também é conhecida por instalar suas obras monumentais ao ar livre. Como contrapartida artística, algumas instalações externas são concedidas a Kassel, mesmo após o fim da documenta. A obra Os estranhos, de Thomas Schütte, por exemplo, integrou a documenta 9, em 1992, e até hoje pode ser vista na Friedrichplatz. Isso faz da cidade um lugar onde sempre há arte a ser vista nos locais públicos, durante ou fora do período do evento. Nesta 14ª edição, a instalação monumental da artista argentina Marta Minujín tem conquistado a atenção e os olhares dos visitantes.

Montada na Friedrichplatz, praça de Kassel tão central e importante como a Königsplatz, a obra
Parthenon de livros foi erigida no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados, como resultado de uma ação nacional empreendida pela nazista União Alemã de Estudantes. O Parthenon criado por Marta Minujín é uma réplica do templo original encontrado na Acrópolis, em Atenas, onde a documenta também é realizada em 2017. A obra simboliza ainda as ideias políticas e estéticas daquela que é vista como a primeira experiência de democracia do mundo.

Localizado em frente ao Fridericianum, o Parthenon de livros foi formado com cerca de 100 mil volumes que já chegaram a ser censurados em outros lugares do mundo. Na lista, criada pelos estudantes de línguas germânicas da Universidade de Kassel, encontram-se, inclusive, os livros de Paulo Coelho 
O alquimista e Verônica decide morrer, que chegaram a ser censurados no Irã em 2011.

Além do Parthenon dos livros e do Monumento do estrangeiro e do imigrante (ver AQUI), que, pelo tamanho, chegam a chamar mais a atenção de quem está em Kassel, há outras instalações e intervenções espalhadas pela cidade alemã. Ecoando as mesmas questões trazidas pelo monumento de Olu Oguibe, a obra Nós (todos) somos o povo, de Hans Haacke, mostra, em diferentes línguas, a frase que dá nome à obra. Tanto em Atenas quanto em Kassel, foram espalhadas várias reproduções do trabalho, inclusive na fachada da loja SinnLeffers, ao lado do Fridericianum, onde, em cima, também há uma estátua de um grupo de imigrantes chegando a um lugar. 

Obra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara BurilObra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara Buril

Logo ao lado, na fachada do Fridericianum, onde antes havia simplesmente os letreiros com o nome “Museum Fridericianum”, vê-se a frase “Being safe is scary” (em português, “Estar seguro é amedrontador”). A obra, do artista turco Banu Cennetoglu, retoma o tema da imigração, que parece ser a questão mais cara a esta documenta 14.

Além das obras apontadas acima, é possível encontrar outros projetos artísticos igualmente interessantes por toda parte, como O moinho de sangue, de Antonio Vega Macotela, e Trassen (no Karlsaue), de Olaf Holzapfel. Para conhecer as obras públicas de outras edições da documenta, acesse o link: https://www.documenta.de/en/works_in_kassel

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

 

 

"Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril"Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril


A cidade de Kassel se vê realmente transformada durante o período da documenta. Desde a abertura oficial da 14ª edição, que aconteceu no sábado (10/6), o que se vê pelas ruas é um trânsito bem maior de pessoas, cuja diversidade cultural demonstra que vieram a Kassel por conta da documenta. Há também uma grande quantidade de policiais espalhados por vários pontos da cidade. No sábado, dia da abertura, até os céus estavam patrulhados por helicópteros da polícia. Isso tanto porque a documenta agrupa em pequenos espaços uma grande quantidade de pessoas, o que a torna alvo de ataques, como porque, na ocasião, Kassel recebeu o presidente da Alemanha, Frank Walter Steinmeier, e a sua contraparte grega, Prokopis Pavlopoulos. Steinmeier inaugurou a parte alemã do evento em frente ao Museu Fridericianum, antes de visitar outras exibições com Pavlopoulos.

O clima da abertura é realmente diferente. Para o estudante líbio Keil Büzedig, “aqui não parece Kassel. Não recebemos sempre muitas pessoas, então é uma novidade vermos tanta gente por aqui. Não entendo de arte, mas estou empolgado com o trânsito de pessoas falando várias línguas. Aqui só se escuta árabe e alemão e, de repente, escutamos inglês!”. Keil, que mora em Kassel há seis meses, tendo imigrado da Líbia, na África, para a Alemanha com o intuito de realizar um curso superior, refere-se, em sua fala, ao que se vê como a maior comunidade de imigrantes em Kassel: os árabes, de origens síria, turca, curda e libanesa. Por alguns lugares da cidade, é possível entrar no metrô e apenas escutar árabe. Pelas ruas, os restaurantes predominantes são as “Kebaphaus”, lanchonetes onde se vendem os famosos kebabs, e os “Shisha bars”, um mix de café e pub onde se pode beber café ou algo alcoólico, e fumar o que conhecemos como o narguilê.

Uma atmosfera que pode, inclusive, nos fazer esquecer que estamos, afinal, na Alemanha. E é claro que esses ambientes mais árabes do que alemães nos fazem lembrar tanto do universo distópico criado pelo escritor francês Michel Houllebecq em Submissão, obra na qual ele desenha uma Europa futura na qual os árabes passam a ocupar cargos públicos na França e a ditar os costumes pregados no Alcorão, como nos levam a refletir sobre os significados da imigração e suas problemáticas. A Alemanha, de fato, abriu as suas portas para os imigrantes e esse ato de generosidade política e social, apesar de louvável, também guarda as suas ambiguidades e dificuldades práticas.

Cenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara BurilCenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara Buril

Trata-se de um tema complexo que, aliás, a documenta se propõe a abordar. De todas as obras possíveis de serem encontradas dentro do Fridericianum, Neue Galerie, Kulturhauptbanhof e documenta Halle, a mais impactante dedicada a essa questão é justamente aquela que se pode encontrar ao ar livre, na Königsplatz: a obra Monumento do estrangeiro e do imigrante, do artista Olu Oguibe. No obelisco de 16 metros, está gravada, em alemão, inglês, árabe e turco, a seguinte frase, retirada da Bíblia: “Eu era um estranho e vocês me acolheram”. A obra, por ter uma forma de obelisco e por se localizar na principal praça de Kassel, soa como um monumento de celebração e posiciona-se, assim, contrariamente a todos os movimentos antimigratórios crescentes hoje em dia também no discurso de líderes políticos da Europa, sobretudo ocidental.

Obelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara BurilObelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril

O próprio autor da obra, o artista nigeriano Olu Oguibe, viveu quando criança os horrores da Guerra Civil na Nigéria e cresceu na Inglaterra. No monumento artístico que instalou em Kassel, evoca a atual crise de humanidade em certos discursos políticos e reafirma os princípios atemporais e universais de cuidados sob perseguição e guerra. A obra, que ficará na Königsplatz após a documenta e será vista cotidianamente pelos moradores da cidade, parece ter um forte potencial de transformar, pelas vias da repetição visual, o temor e a antipatia à xenofobia.

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

Nikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

Após um percurso de cerca de 3 mil quilômetros, desde Atenas, na Grécia, onde também está acontecendo a documenta 14, o artista indiano Nikhail Chopra aportou em Kassel, mais exatamente na Kulturbahnhof, onde montou a sua obra Drawing a line through the landscape. A viagem de Chopra e sua restrita equipe compreendeu o cruzamento de montanhas gregas, a passagem por vilas desertas de antigas cidades soviéticas e por monastérios na Bulgária. Antes de chegar a Kassel, Chopra ainda passou por cidades como Budapeste, na Hungria, e Bratislava, na Eslováquia – armando a sua tenda ao longo do trajeto.

Ao optar por não percorrer os movimentos binários Norte-Sul ou Leste-Oeste, a obra se propõe a retomar as antigas rotas nômades, através das quais é possível encontrar cidades abandonadas, povos rejeitados e o cansaço de todos aqueles que vivem à margem dos caminhos tradicionais. A tenda, aliás, funciona exatamente como este lugar de acolhimento, na qual se entra sem pagar e na qual também se pode conversar, tocar música ou simplesmente dormir. A Kulturbahnhof, espaço cultural de Kassel, não se trata exatamente de um ambiente de agruras, mas ter o símbolo de uma tenda em uma estação de trem sugere exatamente o modo de socialização daqueles que estão de passagem.

Uma tenda na qual se pode entrar sem pagar oferece toda uma sorte de reflexões sobre a nossa lógica atual (capitalista) de socialização. Só interagimos se temos dinheiro, afinal. No entanto, o que não fica muito claro é como as rotas nômades foram percorridas com a van Volkswagen que acompanhou o grupo de artistas, uma vez que as rotas não tradicionais, na maior parte das vezes, carecem de local para a passagem de carros.

Nikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

De modo bastante contraditório, é preciso enfatizar que a marca de automóveis Volkswagen é a patrocinadora principal da documenta este ano. O patrocínio se traduziu tanto em um alto montante reservado para a montagem da exposição, quanto para a execução de obras como a performance de Nikhail Chopra, a montagem do Parthenon de Livros, da artista argentina Marta Minujín, e o acompanhamento do artista escocês Ross Birrell, no caminho de Atenas a Kassel à cavalo, que ele ainda percorre com a obra O trânsito de Hermes. O percurso de Birrell, que começou no dia 9 de abril em Atenas, durará 100 dias.

Embora a Volkswagen já tenha apresentado o primeiro carro elétrico no ano passado, provavelmente a ser lançado em 2020, hoje a empresa alemã é a maior produtora de automóveis movidos a gasolina e diesel do mundo. Em 2015, por exemplo, a Volkswagen esteve envolvida em um escândalo após a descoberta de que os seus veículos a diesel continham um elemento que reconhecia o momento em que passava por um teste de emissão de poluentes para, somente durante os testes, diminuir essas emissões. Durante o uso cotidiano, estes automóveis superavam em até 40 vezes o limite máximo estabelecido pela legislação estadunidense para a emissão de óxido de nitrogênio.

Para um evento dedicado não só a questionar os desastres ecológicos em uma era neoliberal, mas os processos de desenvolvimento ambíguos no Sul político e econômico, o patrocínio da Volkswagen soa, para dizer o mínimo, um paradoxo. 
Já a obra de Chopra, apesar da perspicácia ao refletir sobre formas de socialização diferentes, poderia ser mais provocativa quanto ao modo nômade e ecológico de se locomove,  se tivesse sido feita sem um Volkswagen. 

Interior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara BurilInterior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara Buril

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

Artista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara MarquesArtista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara Marques

Em Kassel, na Alemanha, a documenta, uma das mais importantes instituições de arte contemporânea do mundo, reafirma, a partir deste sábado, 10 de junho, o seu compromisso de problematizar, através de uma curadoria eminentemente política, questões que atravessam as sociedades capitalistas neoliberais. Entre essas questões, estão a criminalização da pobreza, a empresa colonialista, a crise econômica, política e migratória, e a catástrofe ambiental. Na conferência de imprensa, na última quarta (7/6), no Kongress Palais, o diretor artístico da documenta, Adam Szymczyk, manifestou: “Não são apenas dinheiro e poder que devem comandar a nossa existência”, apontando para outras instâncias da vida que deveriam orientar a experiência do sujeito no mundo, incluindo a arte.

Mas não só ele. Na conferência, o diretor de Programas Públicos da documenta, o filósofo Paul B. Preciado, cujo trabalho questiona os limites das definições binárias de gênero, foi enfático ao dizer que, se nós usarmos a opressão e a violência como formas de governo, não viveremos neste mundo por muito tempo. Preciado, que passou recentemente por um processo de transição de gênero, reforçou que não só ele está passando por um processo de transição: vive-se um momento de mudança na agenda neoliberal.

Aliás, o que parece ficar claro é que a documenta busca, através de sua 14ª edição, questionar um modus operandi atual que parece nos ter sido imposto. Logo na abertura da conferência, o curador “at large” (“à distância”) Bonaventure Soh Bejeng Ndikung nos trouxe a possibilidade de retomar a nossa humanidade desafiando uma agenda que parece tirar do sujeito a possibilidade do cuidado de si e do outro. “A desorientação aponta para o esquecimento, para o descarte do convencional. Tem a ver com perder. Mas essa desobediência abre espaço para que aquilo que é subversivo possa emergir”, apontou.

Apesar das ambiguidades do nosso tempo, a reinvenção diante de um cenário político e social que parece ter regredido é apresentada como uma possibilidade. Como defendeu Dieter Roelstraete, também curador da documenta 14, a arte parece ser vista pelos alemães como um modo de organizar uma realidade fragmentada e desorientadora: “A documenta, em si, surgiu em um pós-guerra marcado pelo fragmento. A Alemanha, de alguma maneira, parece querer solucionar problemas políticos através da arte”.         

A reflexão de Roelstraete aponta que, embora muitos dos trabalhos não tenham sido produzidos em sua maioria por alemães, é evidente que a documenta é uma instituição alemã cuja epistemologia não pode ser ignorada.

No trecho do trabalho Quatrain, apresentado ainda na conferência de imprensa pelo artista e violinista sírio Ali Moraly, vê-se uma obra que parece digerir os horrores da guerra na Síria. Moraly, que pesquisava a música síria há alguns anos, teve que fugir do seu país quando a guerra desatou. Em uma das músicas, Graves in the sky (Túmulos no céu), sente-se um país cujo solo não foi suficiente para guardar os seus mortos. De algum modo, em seu discurso e escolha curatorial, a documenta parece apresentar a arte como uma possibilidade de terapia.  

O evento, que acontece a cada cinco anos, vai até o dia 17 de setembro em Kassel. 

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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