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Vitalino: Um mestre de muitos herdeiros

Aos 100 anos de nascimento do ceramista de Caruaru, filhos e amigos lembram o homem, para além do mito

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Junho de 2009

Foto Roberta Guimarães

Por volta das cinco da madrugada, diariamente, fizesse chuva ou sol, ele já estava acordado, banho tomado, pronto para mais um dia de trabalho. Bebia um café preto, acompanhado por macaxeira ou cuscuz, cujo milho acabara de ser ralado por sua mulher, Joana. Sentava numa esteira de palha, no canto da sala de casa, e se “danava” a moldar, no barro trazido do rio Ipojuca, suas invenções: ora gatos maracajás ameaçados por caçadores, ora bois, retirantes, procissões...

“Tudo o que lhe passava nas vistas e fizesse parte da paisagem do agreste era retratado. Especialistas contaram 118 temas feitos por ele, com o barro. Acho que fez ainda mais”, afirma Severino Pereira dos Santos, ou Severino Vitalino, 69 anos, filho e um dos seguidores do homem que completaria um século no próximo dia 10 de julho, se a varíola não o tivesse vitimado em 1963: Vitalino Pereira dos Santos, artista que deu alma e vida ao barro, transformando-o em matéria-prima e sobrevivência para a família – e para milhares de artistas que trabalham, hoje, no Alto do Moura, em Caruaru.

Homem simples, analfabeto, tinha como prato preferido peixe com pirão e feijão verde. Mas também cultivava seus vícios: jogava a sueca, um tipo de carteado; bebia diariamante uma “branquinha” e fumava cigarro de palha, feito com o fumo de rolo que comprava na feira. Aliás, a feira era um dos lugares de que mais gostava, a “galeria” onde, às quartas e sábados, impreterivelmente, montava o tabuleiro com as peças produzidas durante a semana; sentava num banquinho, e esperava a clientela chegar. Foi num dia desses, no ano de 1945, em plena feira, que conheceu o desenhista e colecionador Augusto Rodrigues que projetaria seu trabalho para além de Caruaru. No ano seguinte, já teria suas obras estampadas em diversas revistas nacionais, inclusive na então onipresente O Cruzeiro.

“Ele viveu, dos seis anos até a morte, exclusivamente da arte. Com ela, sustentou a mulher e seis filhos (teve 16, mas 10 morreram ainda bebês). Não ficou rico, apesar da fama, mas nunca faltou comida pra gente”, recorda Severino, que, assim como os outros cinco irmãos (um deles, Antônio, já falecido), cresceu ajudando o pai a moldar figuras e peças, algumas tão semelhantes às dele, que constam do acervo de museus brasileiros como sendo do próprio Vitalino.

IMAGEM E SEMELHANÇA
Além dos filhos – Severino, Manoel, 74 anos, Amaro, 75, o mais velho da prole, e o falecido Antônio (que morreu em 1977 e faria 66 este ano) – e das duas filhas, Maria, 71, e Maria José, 61, que quando crianças ajudavam o pai na confecção dos bonecos, a esposa, Joana Maria da Conceição, também contribuía com o trabalho. “Quando ele começou a fazer as esculturas coloridas, era ela quem fazia o acabamento”, relembra Severino.

A semelhança entre as peças de pai e filhos é evidente. “A gente faz réplicas, segue os mesmos temas que ele fazia. É difícil distinguir quem fez o quê”, diz Manoel que, assim como Amaro, teve paralisia em uma das mãos, e há alguns anos não trabalha mais com o barro. Apenas Severino, que é também diretor da Casa-Museu Mestre Vitalino, continua trabalhando. No museu, que abrigou o mestre em seus três últimos anos de vida, estão fotografias, a esteira, os utensílios, objetos pessoais do artista e peças produzidas por seus familiares.


Entre os netos, bisnetos e tataranetos, alguns continuaram o ofício do ceramista. Entre eles, um dos destaques é Vitalino Pereira dos Santos Neto, 36 anos, que não chegou a conhecer o avô, mas que o elege como ídolo. Outro herdeiro do artista é Elias Vitalino, também neto, apontado pelos parentes como um dos mais perfeccionistas da família.

HISTÓRIAS RECONTADAS
Filho de louceira, Vitalino nasceu no Sítio Campos, próximo ao Alto do Moura, e considerava natural que a arte de moldar o barro fosse passada aos descendentes. Sob a influência da atividade materna, fez e vendeu sua primeira peça aos seis anos. À época, o trabalho se destacou por ser totalmente diferente dos objetos confeccionados pelas crianças de sua idade – vendidos na feira como brinquedos – e das louças comercializadas pela mãe, Josefa Maria da Conceição, e pelo pai, Marcelino Pereira dos Santos.

Conta-se que sua obra, nem bem pousou na esteira da feira, fez sucesso e foi comprada por dois tostões por uma senhora que viera do Recife e se encantara com a criatividade do garoto. Um grande incentivo para seguir adiante com seu estilo. Feliz com o ganho, ele dizia o que tinha pensado na época: “É tanto dinheiro, que eu não fico mais pobre!”, relata Severino, lembrando que, até os oito anos de idade, Vitalino trabalhava em casa, e sua produção era levada à feira pelos pais e irmãos. “Somente aos nove anos é que começou a acompanhá-los.”

A peça mais produzida por Vitalino, segundo os filhos, foi o boi, por ser a mais fácil de executar. As mais trabalhosas, na opinião de todos e do artista, eram as casas de farinha, pelos detalhes. Apesar de lidar desde cedo com a arte cerâmica, só mudaria para o Alto do Moura em 1948, quando já tinha quase 40 anos. Maior polo de produção do gênero desde então, hoje, o Alto do Moura tem um movimento comercial mensal de R$ 300 mil, nos 700 ateliês, segundo o coordenador de artes figurativas do Alto do Moura, Wellington Branco.

No bairro, distante sete quilômetros do centro de Caruaru, Vitalino morou em dois imóveis alugados, antes de comprar o terreno onde construiu sua última residência, na qual funciona atualmente a Casa-Museu Mestre Vitalino. “Foram anos bons, a gente ficava mais perto dos outros artistas, e vinha ônibus de turismo para ver as peças de meu pai”, lembra Manoel, destacando outra aptidão do mestre: o gosto pela música.

“Ele trabalhava o dia todo, ceava pelas 17h30, comia o mesmo do café da manhã. Quando chegava de noitinha, tirava o pífano do saco e ficava tocando. Era fã de Luiz Gonzaga, que esteve na feira algumas vezes. Não sabia dançar, mas tocava muito nas procissões, era o que a gente chamava de músico de novena, e participava de tudo quanto era festa de santo, o que deixava, às vezes, nossa mãe brava”, diz Manoel Vitalino, que lembra várias façanhas do “músico”: em 1960, Vitalino fez exibições para a alta sociedade caruaruense e, no Rio de Janeiro, tocou pífano com a banda de mestre Vicente. No mesmo ano, também na capital carioca, apresentou-se no programa de TV Gente de Caruaru e gravou seis músicas folclóricas nos estúdios da Rádio MEC. O compacto simples, uma relíquia, só seria lançado em 1972.


COMPADRES
Apesar da notoriedade conquistada nacionalmente, a imagem que ficou de Vitalino é a de quem nunca perdeu o jeito simples e camarada no trato com os companheiros do Alto do Moura. Tanto que, até hoje, artistas que conviveram com ele se referem a um homem generoso, boa praça, humilde. “Era um grande amigo, e olhe que, na época, já era bem famoso e popular”, resume Joaquim Francisco dos Santos, 84 anos, conhecido como mestre Elias Francisco.

Segundo Elias, que tem seu ateliê quase na frente da Casa-Museu, na rua Mestre Vitalino, a principal do Alto do Moura, o ceramista lhe repassava inúmeros trabalhos. “Era muito camarada, não tinha esse negócio de querer as encomendas só pra si. Eu gostava de trabalhar com moldes, de repetir um quadro ou uma cena; já ele, não, só fazia as peças da sua temática. Portanto, dezenas de vezes, quando eu via, entrava na minha casa com os turistas pra eu fazer o que eles queriam, me passava de mão beijada os trabalhos”, conta Elias, que ressalta: “Antes, muitos já trabalhavam com o barro, mas o primeiro a dar-lhe vida e arte foi Vitalino”.

O também mestre Manoel Eudócio, 78 anos, é outro que tem boas lembranças ao citar o companheiro. “Foi um dos maiores incentivadores do meu trabalho. Quando eu era menino, fazia os tradicionais brinquedos produzidos por todos, mas, quando vi as peças dele, descobri que podia fazer outras coisas, comecei a me inspirar em novos temas.” Num dia de feira, sentado ao lado do mestre, teve suas peças elogiadas por um turista. “Na hora, ele fez tudo pra me dar força, dizendo que eu era talentoso e me ajudou a ganhar uns trocados a mais.”

Anos depois, na década de 1960, já conhecido como um dos discípulos do artista, Eudócio viajou com ele para o Rio de Janeiro. Vitalino tinha problemas devido ao consumo de álcool, e, por respeito a Eudócio, que considerava como um filho, prometeu: “‘Manoel, pode deixar que, no Rio de Janeiro, eu não tomo nem um copo de soda! Prometo me comportar’. Ao que eu lhe respondi: ‘Mestre, não tem problema, não, o senhor pode tomar sua soda ou guaraná à vontade’. E ele replicou: ‘Se eu beber alguma coisa, filho, vou acabar querendo tomar umas pingas’”. A preocupação de ambos se devia a um fato: em ocasiões anteriores, durante viagens para fora de Caruaru, Vitalino já havia passado por vexames por causa da bebida.

Outro que se comove ao lembrar do amigo é Luiz Antônio da Silva, 74 anos, atualmente um mestre, mas, à época, outro menino talentoso, muito querido por Vitalino. Ele lembra cenas engraçadas envolvendo o homem que aprendeu a admirar e que lhe deu inspiração para se tornar um ceramista.

BOM HUMOR
“Era uma pessoa muito boa, mas também tinha um lado gaiato. Um dia, a gente estava na feira, o movimento já tinha acabado, e ele não tinha vendido nada. Botou os bonecos no saco, pendurou o saco nas costas e foi pro lado da Igreja da Conceição (centro de Caruaru), onde começou a gritar: ‘Cadê Juscelino (o presidente JK), que não ajuda Vitalino!?’ Foi uma graça só! Todo mundo na rua começou a rir dele.”


Luiz Antônio lembra, com bom humor, mais um episódio. Certo dia, o mestre foi intimado por um delegado de polícia. Motivo: explicar o porquê de ter feito uma peça em que um soldado da polícia aparecia batendo num bêbado. “O delegado disse que aquilo estava errado. Vitalino ouviu, desculpou-se, foi dispensado, mas na semana seguinte deu o troco. Ao chegar à feira, apresentou a todos a sua mais nova composição: desta vez era um bêbado batendo no soldado”, diverte-se o discípulo.

Luiz Antônio embarga a voz, quando lembra do último contato com Vitalino. “Ele tinha chegado do Rio de Janeiro, estava com umas fotos, que distribuiu para todo mundo no Alto do Moura, e chegou na minha porta, já meio embriagado, perguntando se eu tinha recebido uma delas. Eu disse que não, e ele ficou de voltar e me dar de presente para eu botar no ateliê. Foi a última vez que o vi. Dias depois, soubemos que estava doente, enrolado em folhas de bananeira para ver se curava a bexiga (varíola). Não saiu mais da cama. Morreu ali mesmo. Foi uma tristeza danada.” 

FENNEART: HOMENAGEM AOS 100 ANOS
A décima edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenneart) terá como principal homenageado o Mestre Vitalino. Além do material de divulgação ser baseado na obra do ceramista, a organização do evento montará um museu multimídia, que contará com recursos interativos, imagens e réplicas de suas obras. As homenagens seguirão durante toda a feira e, no centenário do mestre, dia 10 de julho, haverá uma programação artístico-cultural especial.

“O mestre tornou-se o primeiro artista popular a ter a autoria de suas obras reconhecida pela renovação visual na arte de esculpir o barro. Como consequência, gerações de artesãos puderam se dedicar a este ofício”, afirma Roberto Lessa, coordenador-geral do evento, justificando a escolha do homenageado.

Dentre essas gerações de seguidores, está o seu neto, Vitalino dos Santos Neto, que participará da Fenneart deste ano ministrando a oficina de trabalho
com argila.

Em 2008, a feira homenageou o artesão Manoel Eudócio, 78 anos, que mudou o rumo de suas produções depois que viu a obra de Vitalino.

Durante os 10 dias em que a feira ocupará o Centro de Convenções, de 3 a 12 de julho, serão esperados cerca de 200 mil visitantes. Mais de 800 estandes serão montados no local. No corredor de entrada da feira – a Avenida Mestre Vitalino –, os trabalhos de 39 mestres-artesãos pernambucanos ficarão à mostra para venda, privilegiando a produção popular local e autoral, diante dos outros 3.500 expositores.

ACERVO
O que visitar

NO RECIFE

Museu do Homem do Nordeste
Avenida 17 de Agosto, 2.187, Casa Forte. Fone: (81) 3073-6340

Museu de Arte Popular
Pátio de São Pedro, casas 45 e 49, São José. Fone: (81) 3232-2492


EM CARUARU

Museu do Barro ‑ Espaço Zé Caboclo Praça Cel. José de Vasconcellos, 100 - Centro. Fone: (81) 3721-3957

Casa-Museu Mestre Vitalino
Rua Mestre Vitalino, s/n, Alto do Moura. Fone: (81) 3721-3957


NO RIO DE JANEIRO
Museu de Folclore Edison Carneiro
Rua do Catete, 179, Catete. Fone: (21) 2285-0441

Museu da Chácara do Céu
Rua Murtinho Nobre, 93, Santa Teresa. Fone: (21) 2224-8981

Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco, 199, Centro
Fone: (81) 2262-6067

Casa do Pontal – Museu de Arte Popular Brasileira
Estrada do Pontal, 3.295, Recreio dos Bandeirantes.
Fone: (21) 2490-3278 

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