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“A amizade é a matéria-prima”

Alumbramento Filmes, produtora que se consolida no mercado cinematográfico nacional, ratifica potencial do audiovisual cearense

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Março de 2011

No filme 'Estrada para Ythaca', os diretores também dão vida aos personagens afligidos pela morte de um amigo em comum

No filme 'Estrada para Ythaca', os diretores também dão vida aos personagens afligidos pela morte de um amigo em comum

Foto Divulgação

Durante muito tempo, o audiovisual foi um campo de produção instável e escasso no Ceará. Assim como em Pernambuco, as articulações políticas e culturais favoráveis a esse campo surgiram paulatinamente e o que movia os realizadores, a princípio, era nada mais que a sincera vontade de filmar, mesmo com pouca ou nenhuma verba.

Com o surgimento do Cine Ceará, em 1991, inicialmente chamado de Vídeo Mostra Fortaleza, houve uma ampliação do espaço para debates e exibição. No entanto, apesar dos anos 1990 também marcarem a retomada da produção cinematográfica nacional, pode-se dizer que pouca coisa havia mudado para os estados do Nordeste, já que os investimentos ficaram centrados no eixo Rio-São Paulo, num primeiro momento.

A despeito das dificuldades, surgiram importantes diretores cearenses, como José Lopes Araújo, Wolney de Oliveira, Glauber Filho e Karin Ainouz. Ao mesmo tempo, veteranos como Jefferson de Albuquerque Jr. e Rosemberg Cariry se estabeleciam no cenário audiovisual do país. Esse último é a maior referência do cinema cearense, autor de uma filmografia premiada, formada por obras que lançam um olhar sobre as raízes culturais de sua região, como Caldeirão da Santa Cruz do deserto (1986), A saga do guerreiro aumioso (1991), Corisco & Dadá (1996) e Lua cambará, nas escadarias do palácio (2003).

Para a sorte dos entusiastas do cinema cearense, assistimos ao surgimento e/ou consolidação de um conjunto de fatores estimulantes às novas produções, a partir dos anos 2000: os projetos puderam ser barateados devido às novas tecnologias; a internet viabilizou o compartilhamento de filmes raros, o que ajudou a formar o olhar das novas gerações, assim como facilitou a divulgação de seus trabalhos; os editais públicos estaduais estimularam o surgimento de produtoras e foram criados cursos superiores para formar profissionais do audiovisual. O Ceará vislumbrava, portanto, o surgimento de um novo capítulo na história do seu cinema.

ALUMBRAMENTO
Entre os “filhos” desse contexto favorável, o grupo numeroso de cineastas que forma a produtora Alumbramento Filmes vem se destacando em importantes festivais do país. O coletivo, tal qual existe hoje, foi criado no ano de 2006, na época em que ganhou o incentivo do DocTV para filmar o longa-metragem Sábado à noite. Naquele momento, os integrantes perceberam a necessidade de ter uma produtora para organizar ações, buscar investimentos, disputar incentivos. Ao todo, a Alumbramento é composta, atualmente, por 13 pessoas: Luiz e Ricardo Pretti, também conhecidos como os Irmãos Pretti, Guto Parente, Ivo Lopes Araújo, Fred Benevides, Danilo Carvalho, Mariana Smith, Maíra Bosi, Ythallo Rodrigues, Themis Memória, Rúbia Mércia, Thais de Campos e Glaucia Soares.

“Foi um encontro de pessoas muito próximas, amigas, que já estavam produzindo juntas, pensando cinema juntas.” É dessa forma que Luiz Pretti avalia o surgimento da produtora, que mantém laços afetivos e profissionais com outros realizadores, como Pedro Diógenes e Uirá dos Reis. Essa afinidade prévia entre os membros da Alumbramento parece uma fórmula certeira para intensificar a criação audiovisual, a partir de procedimentos de valorização mútua das produções de cada um dos componentes do grupo. Quando assistem e avaliam o trabalho uns dos outros, a vontade é de potencializar a expressividade cinematográfica. “Não há egos. A gente decidiu se acompanhar; então, a competição não tem sentido”, comenta Fred Benevides.


Desde 2008, quando Sábado à noite foi premiado na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a Alumbramento se tornou assídua do festival. Foto: Divulgação

O grupo parece ter levado ao pé da letra o comentário do diretor Rogério Sganzerla, quando afirmou que “a amizade é a matéria-prima de qualquer cinema de envergadura”. Assim, o resultado dessa parceria é uma inquietude estética que está se alastrando não só pelo Ceará, mas por todo o país. “Outras pessoas fazem filmes que acham que se comunicam com a nossa proposta, e divulgam como um ‘filme alumbramento’, às vezes à revelia da produtora”, conta Fred. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, esse fenômeno não agride ou incomoda os integrantes do coletivo: “Alumbramento é um estado de espírito e a ideia é espalhar, não fechar num grupo para legitimar uma estética”, completa.

Também é importante ressaltar a não restrição geográfica para o estabelecimento de identificação com outros filmes. A nomenclatura “cinema cearense” menciona, sim, o cinema produzido em uma localidade específica do país, mas não pretende estabelecer um conceito uno da manifestação audiovisual desse lugar. Tampouco obriga os realizadores a estarem necessariamente (e exclusivamente) em sintonia com seus conterrâneos. No caso da Alumbramento, destaca-se o diálogo que estabelece com as produtoras pernambucanas Símio Filmes e Trincheira Filmes e com a mineira Teia, no tocante à experimentação da linguagem cinematográfica, na direção de um “cinema de risco”.

TRAJETÓRIA
Desde 2008, quando o filme Sábado à noite, de Ivo Lopes Araújo, foi premiado pelo Júri Jovem na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a produtora cearense pautou muitas discussões audiovisuais no país. A partir de então, seus integrantes se tornaram habitués do festival mineiro. Na edição de 2010, o coletivo saiu consagrado com os prêmios do Júri da Crítica e do Júri Jovem pelo longa-metragem Estrada para Ythaca. Em Tiradentes, eles também exibiram, nos últimos três anos, os curtas-metragens Às vezes é mais importante lavar a pia do que a louça ou Simplesmente Sabiguaba, Azul, Flash happy society e As corujas.

Em janeiro deste ano, Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes, os mesmos nomes que partilham a concepção do filme Estrada para Ythaca, voltaram à mostra para exibir o seu mais novo projeto, Os monstros. Na ocasião, o cineasta Ythallo Rodrigues também apresentou o curta-metragem Lampião.

É de se esperar que esses projetos cheguem ao público recifense pelo IV Janela Internacional de Cinema, já que o festival, sob direção artística de Kleber Mendonça Filho, vem acompanhando a trajetória do coletivo desde sua primeira edição, em 2008, quando exibiu e concedeu menção honrosa ao filme Longa vida ao cinema cearense, dos Irmãos Pretti.

Quando o assunto é a produção da Alumbramento, fica difícil estabelecer os limites estilísticos e técnicos das obras. Mais frustrante é tentar classificar ou categorizar o trabalho dos cineastas sem soar redutor. A produção do coletivo possui um conjunto de aspectos recorrentes, porém não obrigatórios.

A preocupação em transmitir sentimentos e retomar ambientações percorre a trajetória do grupo, principalmente explorando um modo operacional de observação minuciosa do mundo, das pequenas ações. Outra característica presente em vários filmes é certa dilatação do tempo, resultado de uma desaceleração na representação das experiências.

Mas, como dito anteriormente, é difícil imaginar esses elementos como obrigatórios. O essencial de sua produção, ao que parece, é o compromisso e o manifesto por um cinema afetivo e incerto, como avaliou o próprio Fred Benevides: “O que os trabalhos têm em comum é o risco, eles nunca surgem de uma ideia cômoda. Nunca é um projeto que, a priori, a gente já sabe que vai dar certo”. Outra peculiaridade da Alumbramento Filmes é a economia de diálogos, muitas vezes combinada a minimalismos estéticos. Os filmes – que para alguns podem parecer herméticos – estão na maioria das vezes falando de nós mesmos, de impasses, assombrações e conflitos íntimos. 

GIANNI PAULA DE MELO, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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