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Objetos: Palavras, barbárie e marcas da intolerância

Em ‘Para nunca mais me esquecer’, José Paulo cria utensílios para incitar o público a pensar sobre as más escolhas da humanidade

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Novembro de 2011

A obra critica a relação da humanidade com ela própria e com a natureza

A obra critica a relação da humanidade com ela própria e com a natureza

Foto Divulgação

Em regiões de extensa atividade pecuária, havia sempre o risco de os animais de um fazendeiro se misturarem aos de uma propriedade vizinha. Para evitar qualquer tipo de disputa, o gado era marcado a ferro, com as iniciais do dono ou com símbolos que representassem a sua fazenda de origem. Uma marca para nunca mais ser esquecida.

Foi se apropriando do conceito atribuído a esses instrumentos de marcar animais, que nasceu a escultura-chave da exposição Para nunca mais me esquecer, do artista plástico José Paulo, em cartaz no Centro Cultural Correios, no Recife. A obra, que dá título à mostra, é composta por 28 peças que reproduzem os ferros de marcar boi, em uma escala ampliada. Ao realocar esses instrumentos, o artista faz uma crítica sobre a forma como a humanidade se relaciona com a natureza e consigo mesma – já que ferros semelhantes eram usados para marcar os escravos. Apesar das mudanças ao longo da história, esse desejo de dominação e de imposição continua sendo muito forte e se reflete nas práticas diárias – talvez, agora, diante das novas tecnologias, de forma diferente, porém com a mesma violência. “A ideia central dessa mostra gira em torno do comportamento humano, dessas atitudes bárbaras que continuam acontecendo”, afirma o artista.

Além desse eixo condutor, os cinco trabalhos expostos trazem outra temática bastante cara ao artista, e que tem aparecido em trabalhos desenvolvidos anteriormente. A sua pesquisa no campo da tipografia, das fontes e das palavras – já apresentada em peças da exposição Repetir, repetir, repetir – aparece com mais força dessa vez. Nas obras, ficam claras a visualidade e riqueza dos tipos móveis, das letras do alfabeto e da composição das palavras. Esses dois polos, aparentemente independentes, terminam convergindo de alguma forma: em todas as obras está presente a ideia de marcação, de perpetuação de um símbolo, de um conceito, algo que não deve, não pode e não será esquecido, ainda que se queira, justamente por esses vestígios, impressos no papel ou na carne.

Na obra Dor, o artista reproduziu o significado mais arcaico e simplório da palavra, numa espécie de matriz tipográfica, com as letras invertidas, todas feitas em cerâmica. A placa dialoga com o trabalho artesanal do universo do cordel. “Pesquisei os tipos, vi como eles eram feitos...Vi as placas, as gavetas dos tipos móveis. Escolhi trazer essa imagem do cordel para a obra”, explica.

José Paulo também dá seguimento às investigações sobre os carimbos. Mais uma vez, ele constrói os objetos em grande escala – uma marca do seu trabalho. A obra, batizada de Carimbos siameses, é formada por duas dessas peças, unidas por uma mesma haste. De um lado, uma palavra; do outro, seu antônimo: cópia x original, ordem x caos, positivo x negativo, sempre x nunca, aprove x deneid. Apesar de trazer alguns conceitos mais abstratos, o artista volta a discutir as ações e escolhas do ser humano, a mostrar que as decisões estão nas mãos das pessoas. Muitas vezes, uma simples mudança de direção pode fazer com que o carimbo penda para um lado ou para o outro. E quem nunca teve a vida para sempre marcada por um “positivo” ou “negativo”?

Para aqueles que tiveram a máquina de escrever como companheira, as 13 esculturas, de cerca de dois metros, reproduzindo os ferros com os tipos que marcavam a fita de impressão, podem trazer certa nostalgia. A proposta é resgatar uma memória, um sentimento de época, uma arqueologia da importância que esse instrumento teve até a década de 1970. O artista conta que sua intenção é revelar à geração Y as atrocidades cometidas no Brasil durante a ditadura militar. “Quero trazer a memória da tortura que, talvez para os mais jovens, não seja tão presente. Com essa maquinaria, pretendo fazer com que as pessoas se perguntem ‘o que é aquilo?’, ‘para que serve?’”, explica.

DESENHOS
Observando a trajetória de José Paulo, não é difícil perceber que seu principal interesse tem sido a construção de objetos. Nesse processo, o desenho aparece como um espaço para projetar e planejar o que será realizado. Contudo, nos últimos anos, esses desenhos de ateliê têm aparecido também nas salas de exposições. É o caso dos 40 exibidos por ele na exposição Retratos e autorretratos, no Centro Cultural Correios, em Salvador.

Em Para nunca mais me esquecer, a técnica também está presente. Voltando-se uma vez mais à questão da barbárie, o artista compôs uma série de três desenhos, nos quais reproduz os rostos de Elizabeth Taylor, Grace Kelly e Sophia Loren com os narizes decepados. A motivação para essa composição veio de uma foto, publicada na revista Time, de uma jovem afegã que teve seu nariz mutilado pelo marido, por ter fugido de casa. Apesar da repercussão, o rosto e a brutalidade do ato foram logo esquecidos. Ao cometer a mesma violência, ao mutilar simbolicamente o nariz de ícones da beleza ocidental, o artista deseja que o caso não seja esquecido, que ele se faça mais uma vez presente no debate público.

Como um “criador de objetos”, José Paulo apresenta, em cada uma das obras expostas, sua preocupação com os aspectos plásticos, acabamentos e detalhes. Ainda que a questão conceitual permeie todas elas, seu apreço aos objetos e à sua finalização se destacam. Algo raro nos dias de hoje. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da revista Continente.

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