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Heavy metal: A redenção de um gênero musical

Livro faz levantamento da história do estilo em Pernambuco, acompanhando o seu desenvolvimento até o ingresso do Recife na rota internacional

TEXTO Rogério Mendes Coelho

01 de Maio de 2014

Iron Maiden reuniu um total de 30 mil pessoas nos shows que fez no Recife em 2009 e 2011

Iron Maiden reuniu um total de 30 mil pessoas nos shows que fez no Recife em 2009 e 2011

Foto Divulgação

É notável o espaço que o heavy metal passou a ocupar nas últimas décadas em Pernambuco. Considerado por muitos um gênero musical hostil, em virtude da agressividade e ortodoxia de suas propostas, acreditou-se que ele estaria fadado ao ostracismo. Entretanto, recentemente, músicos e produtores locais tomaram iniciativas que promoveram formas mais objetivas de pensar e desenvolver o estilo.

Alheios a editais públicos de financiamento e contrariando uma prática comum entre os artistas independentes de Pernambuco, músicos e produtores de heavy metal investiram em projetos que fizeram do estado um dos principais polos da música pesada no país. Distante de apoios oficiais, a livre-iniciativa passou a orientar um processo de maturação empreendedora interessada em gerar público, profissionalizar músicos e eventos, e buscar parcerias com pessoas e coletivos de outras regiões.

Foi dessa forma que produtores tiveram uma contribuição significativa na maneira de (re)pensar a logística e apresentação da música “pesada” local. Os fãs acenaram de maneira positiva à iniciativa, e projetos engavetados, ambicionando protagonismos, começaram a sair do papel no interesse de atender aos anseios de uma demanda periférica reprimida. O resultado é que os metalheads cada vez mais empreendem e conquistam espaços e reconhecimento.


Casa de Humberto Brito foi um dos pontos de encontro do metal.
Foto: Reprodução

Além de festivais independentes, como o Abril Pro Rock – a exemplo do que ocorre em grande parte do mundo –, passaram a dar maior atenção às bandas de metal. Produções desse tipo têm acontecido com frequência, a ponto de colocar o Recife na rota internacional de turnês de artistas relevantes. O resultado é que a maior abertura da mídia e das produções têm sido importantes para a maturação do underground local.

Aos poucos, o “patinho feio” da indústria cultural local, não muito silenciosamente, ganha evidência, por mais que isso ainda pareça estranho a muitos. Mas quem são essas pessoas? O que querem? O que fazem? Como pensam? Essas e outras perguntas justificam a pertinência e receptividade do livro Pesado – origens e consolidação do metal em Pernambuco (Funcultura) que, depois de um mês do lançamento, já tem praticamente esgotada a primeira edição.

A concepção e planejamento da obra possuem natureza acadêmica, resultado de pesquisas desenvolvidas por um grupo formado pelos sociólogos e professores Daniela Maria Ferreira e Amílcar Bezerra, ambos da Universidade Federal de Pernambuco, e pelo etnomusicólogo Jorge de la Barre (Sorbonne/UFF), que já desenvolviam estudos sobre o metal como estética e comportamento. De eventual consultor, o jornalista e autor do livro Wilfred Gadêlha passou a participar das reuniões periódicas do grupo, até ser convidado para apresentar o resultado das investigações em publicação.


Show da banda americana Morbid Angel no Clube Português, em 2009. Foto: Reprodução

O livro fundamenta-se em relatórios de uma pesquisa anterior – A cena metal no Recife pós-mangue – iniciada em 2009, com apoio da Fundarpe, e pesquisas qualitativas posteriores, voltadas para as percepções do gênero musical nas cidades do interior do estado. Contar com Wilfred Gadêlha como o mediador do projeto foi oportuno, já que, ao longo de 25 anos, participou ativamente do processo de desenvolvimento da cena, atuando como músico – atualmente é vocalista das bandas Cruor e Câmbio Negro HC – e editor de fanzines. Mais: na condição de testemunha e cúmplice dos marcos e acontecimentos descritos, acrescentou à narrativa um tom memorialístico que proporcionou ao texto equilíbrio entre o pragmatismo acadêmico e o discurso afetivo, que tornou a leitura acessível.

ARTESANIA
Da inocência das origens à ambição do “protagonismo outsider” dos tempos atuais, o livro, numa estrutura que contempla três partes distintas e complementares – O som, O espaço e A imagem –, explicita uma genealogia composta por ações de jovens e condições de produção bem diferentes das atuais para desenvolver música.

O livro descreve uma época em que não havia internet e assessores de imprensa e contava-se com fanzines, feitos em ofícios datilografados e ilustrados por colagens e artes em caneta esferográfica, que eram fotocopiados e comercializados a preços módicos para divulgarem releases, reviews e entrevistas. Relata um tempo em que não havia streamings e redes sociais e reproduziam-se vinis em fitas cassetes, que se multiplicavam entre os amigos.


Cartaz de um dos projetos musicais promovidos no estado.
Imagem: Reprodução

Nesse contexto, era muito comum entre os headbangers não haver recursos nem acesso a lojas para comprar camisetas de suas bandas preferidas. Por isso, pintavam à mão logotipos e ilustrações das bandas dos amigos, que orgulhosamente eram exibidas em dias de trabalho e lazer. A artesania era uma marca valorizada que sempre acompanhou os metallers, na intenção de viabilizar projetos, quando nada parecia mais importante do que ouvir e tocar música.

Os espaços e as condições para desenvolver música não existiam. Tocava-se em pequenos bares de subúrbio e cada instrumento servia muitas vezes para vários músicos ensaiarem e se apresentarem. A história das origens e consolidação do metal em Pernambuco confunde-se com a história de um romantismo que se caracterizava pela inocência e improviso, em que a amizade e a partilha eram fundamentos importantes, não apenas porque eram convenientes, mas sobretudo porque havia a crença de que o sentido da liberdade e rebeldia deveria ser compartilhado e mantido.

O livro Pesado – origens e consolidação do metal em Pernambuco chega em boa hora, para contar a história de quem parecia não ter nem saber contar a sua própria história. As memórias contidas na edição luxuosa deixam um legado importante, ao recordar que, na construção do labor artístico, o protagonismo também pode ser coletivo e que ainda não podem ser considerados piegas valores como a amizade entre pessoas, cuja música é medida de distância que as une e distancia de mundos que as cercam. 

ROGÉRIO MENDES COELHO, professor de Literatura e Cultura Hispano-americana da UFRN.

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