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Higiene: Um passado que nem sempre cheira bem

Fundamentais para a saúde, os cuidados higiênicos passaram por momentos inimagináveis para os atuais padrões de asseio, com impactos sociais que chegaram à dizimação por doença e racismo

TEXTO Gilson Oliveira

01 de Setembro de 2014

As suntuosas termas romanas se espalharam por todo o império, como na edificação de Bath

As suntuosas termas romanas se espalharam por todo o império, como na edificação de Bath

Foto Latinstock/©Robert Wallis/Corbis/Corbis (DC)

Romeu e Julieta nunca juntariam as escovas. Não apenas porque o ódio entre suas poderosas famílias – Montecchio e Capuleto – impedia qualquer relação amorosa entre seus membros, mas por uma razão muito simples: esse artefato de limpeza bucal ainda não existia na Verona do século 16, época em que, segundo a peça de William Shakespeare, os dois famosos amantes viveram. Não existia, pelo menos, nos moldes hoje conhecidos.

Em seu atual modelo, com cerdas de náilon, a escova de dente veio ao mundo em 1938 – invenção do norte-americano Robert Hutson –, mas já devia ser uma espécie de objeto de desejo do homem pré-histórico, que talvez não desse muita importância ao mau hálito, mas certamente dava grandes urros devido às dores de dente e gengivites. Uma tentativa de minorar o sofrimento era, de acordo com especulações, limpar a boca com galhos e folhas de árvores.

E não faltaram novas “tecnologias” ao longo dos tempos. Os assírios, por exemplo, recorriam aos próprios dedos. Os egípcios criaram, há cinco mil anos, um objeto visto como a mais antiga das escovas: um ramo de planta cujas extremidades desfiadas pareciam cerdas. Os romanos davam tanta importância à escovação, que alguns aristocratas tinham escravos exclusivos para essa função. O creme dental usado, no entanto, era um pouquinho diferente dos de hoje: uma mistura de ervas, areia e cinzas de ossos e dentes de animais.


Na arte, o hábito não raro é representado de
forma sensual, como na pintura de Alam-Tadema.
Imagem: Reprodução

No século 15, a China fez com que o porco, normalmente associado à sujeira, criasse vínculos com a higiene. Era um dos animais dos quais se tiravam os pelos para as cerdas das escovas, as quais eram feitas de pedaços de ossos ou de bambu. Mas, além da escovação não ser nem um pouquinho suave, os pelos permaneciam úmidos e mofavam. Como se isso não bastasse, as famílias usavam a mesma escova, compartilhando também doenças bucais. Em certo período da Idade Média europeia, uma fórmula usada para eliminar o mau hálito era bochecho com urina.

As experiências voltadas para a higiene bucal continuaram, com resultados às vezes estapafúrdios, mas esse processo terminaria com resultados louváveis. Um deles está registrado no site Brasil Escola: “Em 2003, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, publicou uma pesquisa em que questionava sobre o invento mais importante já desenvolvido (...). para surpresa geral, a maioria apontou a escova de dente como o mais importante invento da história”.

Derivada do nome Hígia – deusa grega da saúde e da limpeza –, a higiene, no que concerne a banho, é um cuidado que remonta a tempos imemoriais. Registros apontam que o ato de se banhar era comum no Egito, há cinco mil anos. “Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, acrescentando que os egípcios tomavam pelos menos três banhos diários, que eram verdadeiros rituais.

Em termos de banho público, o pioneirismo é dos babilônios, seguidos pelos gregos, cujos balneários atraíam também por razões esportivas. Inspirados nos helenos, os romanos criaram as suntuosas termas, que se espalharam pelo império. Por isso, várias cidades europeias têm no nome a palavra banho, como Baden-Baden, na Alemanha, Aix-le-Bains, França, e Bath, Inglaterra.


Os banhos funcionavam como ponto de encontro dos romanos. Imagem: Reprodução

As mais conhecidas hoje ficam em Roma e foram construídas pelos imperadores Caracala, em 217 d.C., e Diocleciano, em 305. Suas estruturas podiam receber, respectivamente, 1.600 e 3.200 banhistas. Com várias piscinas, inclusive de água quente, as termas funcionavam como gigantescas praças, por servir de ponto de encontro da população. Nelas se discutia tudo e havia também encontros homoeróticos, como descreve o Satyricon, de Petrônio.

PINTOU SUJEIRA
Na Idade Média, período em que a Igreja Católica influenciou profundamente a vida das pessoas, as termas, por serem locais onde predominava o nu coletivo, foram mandadas para o quinto dos infernos. O corpo passou a ser visto como um “lugar de tentações” e a nudez tornou-se questão política e administrativa, tendo o imperador romano Teodósio proibido os jogos olímpicos em 393, porque era pecado a exibição dos corpos dos atletas. Gregório I, papa entre 590 e 604, chegou a chamar o corpo de “abominável vestimenta da alma”.

Dois livros há pouco lançados convergem num ponto potencialmente polêmico: a ascensão política e social da Igreja colocou a falta de higiene também no poder. São eles: O lado sujo da limpeza, de Katherine Ashenburg, e Limpo – uma história da higiene pessoal, de Virginia Smith. “Místicos mais extremados como São Francisco de Assis consideravam a sujeira um modo de penalizar o próprio corpo, aproximando o espírito de Deus”, explica Ashenburg.


Obra de Pieter Brueghel, O triunfo da Morte mostra epidemia de peste negra na Europa. Imagem: Reprodução

Nesse contexto, o banho passou a ser visto como um ato de luxúria e, em quase todos os conventos e monastérios, as pessoas banhavam-se apenas duas ou três vezes ao ano. O povo também seguia a regra, preferindo enfrentar a água nos meses de maio e junho, quando começa a primavera na Europa e o clima aquece um pouco. Seria essa a origem de maio ser conhecido como o “mês das noivas”. Era nele que as donzelas “encaravam o chuveiro”.

O uso do buquê de flores pelas nubentes, ainda segundo Ashenburg, seria um recurso adicional para afastar o mau cheiro. Não sem razão, fez muito sucesso o livro sobre higiene (!) Romance da rosa, de Guilherme de Lorris e Jean de Meun, que, no capítulo sobre o asseio feminino, dizia, entre outras coisas, que as mulheres deveriam zelar pela “câmara de Vênus”.

A situação começou a ficar literalmente irrespirável a partir do século 16, quando, segundo o livro O limpo e o sujo, de Georges Vigarello, os médicos espalharam aos quatro ventos que “depois do banho, a carne e o hábito do corpo amolecem e os poros abrem-se e, assim, o vapor pode entrar prontamente no corpo e provocar a morte súbita”. E não apenas isso: “A água prejudica a vista, provoca dores de dentes e catarro”. Por ironia, essas e outras teses haviam construído, durante séculos, um ambiente propício à propagação de terríveis doenças, como a peste negra, que, no século 14, dizimou cerca de um terço da população europeia.

Não sem motivos, quando os portugueses aportaram no Brasil, em 1500, espantaram-se com a limpeza dos índios, que mergulhavam nos rios várias vezes ao dia. O escrivão Pero Vaz de Caminha não poupou a tinta de sua pena para elogiá-los: “São tão limpos e tão gordos e tão formosos que não podem ser mais”. Os lusos acabaram assimilando o costume dos nativos brasileiros, menos os membros da corte, que estavam acostumados a passar meses até sem mudar de camisa.


Para São Francisco, a sujeira era um modo de penalizar o corpo.
Imagem: Bonaventura Berlingieri/Reprodução

Como se a sujeira fosse um dos símbolos da realeza, o rei francês Luís 14 só tomava banho por ordem médica e o palácio onde vivia, Versalhes, dos mais belos do mundo, era cheio de fezes nos corredores. Já Napoleão Bonaparte tem entre suas mais famosas frases a que escreveu para a mulher, Josefina, no fim de uma campanha militar: “Retorno amanhã a Paris. Não se lave”.

ELOGIO DA LIMPEZA
Mais conhecido pelo livro Elogio da loucura, Erasmo de Rotterdan também marcou sua época com Da civilidade em crianças, de 1530, obra que se preocupava com as boas maneiras sociais e a higiene. Lançada numa fase de transição da Idade Média para a Moderna, ensinava comportamentos coletivos civilizados, o que, na visão erasmiana, significava ter domínio sobre os instintos e as pulsões e desenvolver sentimentos como vergonha, pudor, repugnância, embaraço e delicadeza.

Referindo-se a Erasmo, diz Norbert Elias, no livro O processo civilizador, que ele “expressa uma nova exigência histórica, a de que os homens tinham que aprender a se comportar dentro de novas condições sociais. Com efeito, o mundo feudal findara-se e com ele a forma social de comportamento que o expressava”. Embora seja um clássico, Da civilidade... é repleto de conselhos que hoje parecem absurdos.


Em 1530, Erasmo de Rotterdan lançou obra que indicava atenção às boas maneiras e à higiene. Imagem: Hans Holbein/Reprodução

Sobre o comportamento à mesa, numa época em que até reis e rainhas comiam com as mãos e os animais serviam de guardanapo – pois era em seus pelos que muitos limpavam as mãos gordurosas –, Erasmo recomenda, entre outras coisas: “Se você quiser oferecer a alguém de quem gosta a carne que está comendo, evite isso. Não é muito decoroso oferecer a alguém alguma coisa mastigada”.

Em seu livro, Nobert Elias também reproduz trechos de muitos outros tratados que circulavam pela Europa, inclusive entre a aristocracia, como Disciplina na corte, de Tannhäuser, no qual consta que “Se um homem bufa como uma foca quando come, como acontece com algumas pessoas (...) ele renunciou a toda boa educação”; “Não limpe os dentes com a faca. Não cuspa em cima ou por cima da mesa”; e “falar com alguém que está defecando é sinal de falta de educação”.

LAVOU, TÁ NOVO!
Sensação de rejuvenescimento, renovação da energia, ausência de cansaço e estresse, que parecem ter escorrido pelo ralo... Essas são algumas das experiências que o homem moderno costuma viver em banheiros cada vez maiores e bonitos, que guardam cosméticos, produtos dos quais o Brasil é o terceiro consumidor mundial.


Com os avanços científicos do século 19, o homem fez as pazes com a limpeza.
Imagem: Alfred Stevens/Reprodução

Foi a partir do século 19, época de grande desenvolvimento da ciência e da conscientização sobre a importância da higiene, que o ser humano fez as pazes com o banho e começou a se preocupar com outros cuidados íntimos. No que foi ajudado pela propagação da água encanada e do esgoto, além das invenções criadas sob a inspiração da Revolução Industrial. Caso da privada moderna, com descarga, que foi apresentada ao distinto público por George Jennings em 1884. O desenvolvimento da indústria da higiene, principalmente nos Estados Unidos, foi pródigo em novidades. É nessa época que ocorre a popularização do sabão/sabonete, que, embora conhecido desde o antigo Egito, sempre foi um “objeto de luxo”, pelos custos de produção. Outro fator de sucesso do produto foi a evolução dos recursos promocionais. “O sabonete e a publicidade cresceram juntos”, diz Katherine Ashenburg, em O lado sujo da limpeza.

A relação da indústria com a publicidade cresceu tanto, que fez surgir a expressão inglesa que designa a telenovela: soap opera, ou seja, “ópera de sabonete”, em referência aos patrocinadores desses programas. Considerado o primeiro absorvente íntimo, o Kotex, de 1917, chegou a ganhar um filme dos estúdios Disney durante campanha publicitária em 1946.

Desodorantes, pastas alcalinas, xampus sofisticados, perfumes estonteantes... É quilométrica a lista de produtos higiênicos hoje ao alcance das mãos (que agora podem estar sempre limpas e cheirosas). Quilométrica e desnecessária de ser elencada, pois quase todo mundo a conhece. Parece que, pelo menos em termos higiênicos, o processo civilizador continua em marcha no mundo atual (apesar de mercados, bares e restaurantes viverem sendo fechados por falta de higiene). Talvez a ponto de alguém, ao olhar para algum produto ou artefato higiênico moderno, perguntar: “Como conseguimos viver sem isso?!”

MUITO ASSEIO PODE SE TORNAR DOENÇA
Técnica de laboratório, função em que manipulava urina e fezes, Julia Abdullah, da Malásia, depois de certo tempo na atividade, começou a lavar as mãos mais de 300 vezes por dia. Atendida em um hospital de doenças mentais, o diagnóstico foi claro: ela era portadora de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), distúrbio psiquiátrico que gera profunda ansiedade, fazendo as pessoas repetirem compulsivamente certos atos.

Mas o cuidado excessivo com a higiene não expressa apenas comportamentos patológicos, ele faz parte das regras cotidianas do mundo moderno, no qual o avanço da assepsia pode ter chegado a extremos, como têm aventado médicos de todo o mundo. Para demonstrar essa preocupação, pesquisadores do Brigham and Hospital, de Boston, EUA, chegaram a divulgar um estudo intitulado Hipótese de higiene.

Publicado em 2012 pela revista Science, o documento diz que a superproteção com que as crianças hoje são educadas estaria debilitando as resistências imunológicas e aumentando a incidência de doenças alérgicas. “Se você tiver um gato em casa, antes do nascimento do seu filho, a criança nasce mais protegida da alergia que possa ser provocada pelo felino”, ilustra o diretor da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia, Evandro Alves do Prado.

Como se, ao contrário de Erasmo de Rotterdan, também fizessem um “elogio da sujeira”, investigadores alemães compartilham da opinião de Evandro Prado, afirmando que as pessoas que moram em áreas rurais, e vivem em contato com esterco, desenvolvem mais resistências a certos micro-organismos do que as do mundo urbano.

A preocupação com o excesso profilático volta-se até contra o parto cesariano. Segundo alguns cientistas, os bebês nascidos por tal método estão mais expostos às alergias, porque, ao não passar pela vagina da mãe, onde vive uma infinidade de bactérias, fica com o sistema imunológico enfraquecido. 

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