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Diógenes Moura: O escritor que fotografa

Em 'Fulana despedaçou o verso', ficcionista e curador traz ao leitor a inquietante narrativa de um falso bloco de notas, na verdade, um livro de imagens

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Março de 2015

Diógenes Moura

Diógenes Moura

Foto Aristides Alves/Divulgação

No que serve como uma minibiografia do autor de Fulana despedaçou o verso, Diógenes Moura não diz que nasceu no Recife em 1957, mudou-se um tempo para Salvador e mora há 26 anos em São Paulo. Quer dizer, diz, mas de outro jeito, com vieses e comentários que não caberiam num texto convencional do gênero. Assim, ele não contradiz Fulana. Mas, antes de falar dessa narrativa fragmentária, só um pouco sobre o pequeno texto que o autor escreveu sobre si mesmo.

Diógenes Moura, mais conhecido como curador de fotografia do que como escritor, conta que passou a infância “entre os quintais, os pés de abiu e a linha do trem no arrabalde de Tejipió”. E que depois dessa infância bucólica recifense, viveu 17 anos em Salvador, “quando a cidade ainda não tinha perdido a memória”. Então informa que mora em São Paulo desde 1989. Como as informações são sincopadas, tentamos preencher os espaços: o que aconteceu ao longo desses anos que gerou o autor de Fulana despedaçou o verso? É claro, não precisamos disso para nos tornarmos fiéis da leitura, apenas fazemos isso, por hábito, curiosidade, fuxico.

A sensação de que muitas coisas não estão claras, que estão desfocadas, opacas ou parcialmente fora do enquadramento, e mesmo que há sobreposições, é frequente na leitura de Fulana despedaçou o verso. O que, a princípio, pode ser desconfortável, porque não nos permite domar facilmente aquilo posto, já que estamos inquietos com os “desajustes” e precisamos ficar atentos a eles. No caminho, entretanto, percebemos que o melhor desse livro – descrito como de contos e crônicas, embora você não precise aceitar essa catalogação – é que não pode ser apreendido em sua totalidade, que vamos sair dele com lapsos. As lacunas são inevitáveis. O mesmo que fizemos com a biografia do autor, quando a “preenchemos” com nossas intervenções mentais, fazemos com a leitura de Fulana, com uma pá de pedreiro na mão, colocando pedra e cal, construindo a nossa interpretação. E não há problema se erramos nesse intento. O erro é inevitável.

Na literatura brasileira contemporânea, há uma predominância do que podemos chamar amplamente de novo realismo, que dá continuidade às formas tradicionais de contar uma história, sobretudo a partir do princípio da verossimilhança, em que imitamos a realidade. Em termos comparativos, isso acontece também – e mais acentuadamente – no cinema. Esqueça esse estratagema quando estiver lendo Fulana, porque nele não há linearidade narrativa. Mas há atalhos para entrar nesse texto incomum.

Embora isso seja posterior à escrita, o primeiro indicador é o seu desenho gráfico em formato de bloco de notas e uso de fonte tipográfica que imita a de máquina datilográfica. Um livro-objeto que nos leva a um estado de suspensão. Outras pistas externas ao texto são o depoimento de Diógenes Moura de que sua literatura é “imagem” e a reiteração de que “só entende a fotografia vendo-a como literatura”.

Agora, vamos aos pedaços de texto: “Pensei que o quarteirão estava interditado para que as crianças pudessem subir nos brinquedos, sem automóveis no meio da grande avenida. Mas assim que dobrei a esquina vi a moto estraçalhada embaixo das quatro rodas. O corpo estava bem perto, coberto por um tecido azul, sintético. Tinha a mesma cor do céu daquela manhã de domingo. Parecia de veludo a pequena mancha de sangue, muito vermelha, recortada como uma bolha, como num diálogo de uma história em quadrinhos. Todo aquele mundo que existia dentro da cabeça do homem estirado no chão agora vazava sobre o asfalto. As crianças não estavam nos brinquedos do quarteirão interrompido”.

Esse é praticamente todo o conteúdo da página 49, que pode ou não estar articulado às páginas anteriores e subsequentes. Algumas das situações narradas podem ressurgir ou simplesmente desaparecer. Não há páginas pares em Fulana, portanto, na seguinte, a 51, lemos: “Minha cabeça dói por trás da janela de vidro desse mínimo quarto de hotel. O mercado está fechado do outro lado da rua. A mulher bem fininha dorme. O homem em silêncio sobre o asfalto escorre dentro do meu cérebro. Amanhã o homem estrangeiro dirá que o retrato do outro homem surgiu primeiro para inventar uma vida. Mercúrio. Alumínio. Iodo. Não se trata de uma ficção. Muito menos se trata de uma falácia. Perderemos a consciência? Quem de nós dirá não? Por que seremos eternamente retratados? Somos uma herança de passagem para outro? A mulher bem fininha acordou. Acaba de abrir a porta do elevador. O homem em silêncio não repousa mais sobre o asfalto. A mancha de veludo vermelha foi transferida”.

Nessas passagens, como em anotações desconexas, há frações de imagens sugestivas, trechos que se assemelham a pensamentos e questionamentos fugazes que trafegam pela nossa mente. Há também, nesse pequeno livro, passagens em que lemos fotografias com planos definidos, como “Do lado de cá do sanduíche dá pra ver as fatias do asfalto” ou “Um triângulo de vacas sobre o verde pasto”. Também, momentos deliberadamente poéticos como “O vento muito forte entra pela janela quadrada e as letras e as palavras voam e colam no seu rosto” e “O trem avança em direção aos ponteiros”.

Diógenes Moura conta que nunca foi muito afeito ao romance. Escreve desde os 12 anos e o contato com o primo em segundo grau Carlos Pena Filho foi epifânico em sua infância, pois havia algo de cerimonioso, mesmo sagrado, nas visitas do poeta à família, na casa do avô, no Bairro de Tejipió. Foi esse avô quem iniciou o menino na fotografia, pois lhe contava histórias da família mostrando-lhe os álbuns de imagens. Enquanto afirma o desinteresse pelo romance, Diógenes destaca seu gosto pelo conto, pela crônica, pela poesia e, sobretudo, pelo que vê ao redor. Sua formação acadêmica foi em Letras (Literatura Francesa) e Jornalismo, e ele diz que a vida o foi empurrando naturalmente para junto dos estudos sobre fotografia. “O trabalho como curador me projetou, mas sempre tenho sido escritor.”

Fulana despedaçou o verso está no meio do caminho. Compõe a trilogia de contos/crônicas iniciada com Ficção interrompida (uma caixa de curtas) (Ateliê Editorial, 2010) e está programada para ser encerrada este ano com De vez em quando era mais constante. Essas coisas ele conta que escreve com calma, editando tudo em baixa tiragem (300 a 500 exemplares), enquanto leva à frente projetos curatoriais, autorias, como a mostra A arte da lembrança – a saudade na fotografia brasileira, encerrada no início de março no Itaú Cultural paulistano, com previsão de montagem este ano no Recife, de acordo com Diógenes.

Como o presente são reminiscências do eterno vivendo, esse projeto de exposição de Diógenes Moura está enlaçado ao da feitura de uma novela, que ele denomina A placamãe. A narrativa vem sendo escrita há 10 anos, com um bocado das lembranças que ele cultiva, sobretudo da infância no Recife, onde havia quintais e pés de abiu que sobrevivem apenas na memória de um menino que cultiva a poesia em qualquer plataforma e há muito deixou a cidade de Carlos Pena Filho. 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora-chefe da revista Continente.

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