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Yuri Firmeza

Viagens entre as camadas temporais

TEXTO Luciana Veras

01 de Junho de 2015

'Ação 5', um dos trabalhos em que o artista ratifica Foucault:

'Ação 5', um dos trabalhos em que o artista ratifica Foucault: "o corpo é a inscrição da história"

Foto Mateus Sá/Divulgação

Batizado em tributo a um famoso cosmonauta soviético, o artista cearense Yuri Firmeza promove viagens entre passado, presente e futuro em sua obra. Fotografias, vídeos, instalações e performances evocam várias possibilidades de reflexão sobre temporalidades e memória. A respeito de Turvações estratigráficas, individual sua no Museu de Arte do Rio/MAR em 2013, por exemplo, ele diz: “A ideia era falar dos estratos temporais que escapam dessa seta unidirecional entre o que passou e o que virá, de um emaranhando de tempos sem a lógica de repartição cronológica, como se ontem, hoje e amanhã fizessem parte de um mesmo aqui e agora”.


Viagem de pesquisa à Ilha Alcântara (MA) gerou imagens que se desdobraram em várias obras. Foto: Casa Triângulo/Divulgação

Naquela mostra em específico, o material arqueológico que veio à tona com as escavações na região portuária da capital carioca catalisou sua argumentação. “Cachimbos de escravos, moedas, escovas de dentes com as iniciais de D. Pedro II, utensílios domésticos e objetos de cunho pessoal estavam jogados ali por causa do desmanche dos morros do Castelo e do Senado. Casas destruídas pelo processo de gentrificação no arcabouço de uma região sobre a qual, tempos depois, o museu foi construído. A exposição foi pensada como uma plataforma de encontro com esse passado que está voltando”, comenta Firmeza.


Ação 1 é uma série de fotografias que repercute e amplia o ato performativo.
Foto: Simone Barreto/Divulgação

O embate entre as camadas do tempo se dá, também, em A fortaleza (2010), díptico fotográfico com imagens dele feitas na mesma varanda, com anos de intervalo. Na primeira delas, em pose de super-herói, está o menino que, antes da adolescência, já havia feito cursos de desenho, pintura, violão, flauta e guitarra e acalentado a vontade de desbravar o espaço sideral, em parte por ter herdado o nome de Yuri Gagarin. Na segunda, o artista que, graduado e mestre em Artes Visuais, também abraçou o âmbito acadêmico, lecionando na Universidade Federal do Ceará. Atrás, uma metrópole e sua “verticalização vertiginosa, violenta e irrefreável”.


Intervalo entre as imagens deflagra a verticalização da capital cearense.
Foto: Claudia Firmeza

A inserção do corpo nos trabalhos – como se percebe também na série Ação (2005-2006) e emForte e grande é você (2011) – é uma de suas características. “Foucault sustenta que o corpo é a inscrição da história. Quando surgem as questões que me inquietam, é impossível não me movimentar, não dar corpo a isso, seja entrando naquela estrutura carcomida do casarão e me sentindo afetado pelos musgos na parede, seja encontrando uma árvore que parecia estar à espreita, à espera de mim”, pontua. Ao mesmo tempo, ele rechaça qualquer sugestão de um personalismo exacerbado. “Em A fortaleza, por exemplo, não falo de mim, do pequeno eu, mas de uma cidade que perdeu o horizonte. Apesar de ser minha imagem, é um corpo indefinido”, observa Firmeza, cujo sobrenome, que não é um pseudônimo, vem do bisavô nascido no Crato, no interior do Ceará.


Exibido na 31ª Bienal de SP (2014), vídeo Nada é trafega entre passo, presente e ideia de futuro. Imagens: Casa Triângulo/Divulgação

Da família e suas relações, ele tirou combustível para Vida da minha vida (2011), na qual apresentava registros audiovisuais da avó, realizados ao longo de uma década, enquanto ela combatia a doença de Alzheimer. “Meu desejo não era acompanhar a evolução da doença, e, sim, ir atrás do lugar limítrofe entre memória e esquecimento”, assente o artista. Essa obra se desdobra em um filme em super-8, em três imagens (frames que ele recortou e aos quais, assim, auferiu o caráter de um trabalho independente) e numa videoinstalação.


Frame extraído de um vídeo se tornou obra com outra possibilidade de apreensão e leitura. Imagem: Casa Triângulo/Divulgação

Essa superposição de linguagens e suportes tem a ver com a “convocação” que recebe de cada trabalho. Nada é, exposto na 31ª Bienal de São Paulo de 2014, nasceu como uma série de fotografias de Alcântara, no Maranhão. Metamorfoseou-se no que ele chama de filme – e que, como tal, já circula por festivais, mas que poderia ser descrito como “videoarte”. Já as fotos passaram a integrar o Projeto Ruínas. “A escolha da linguagem não é um a priori. É muito mais um problema que me inquieta e que resolvo com uma pesquisa em vários sentidos. Escrevo, faço fotos, filmo. É como se o trabalho fosse uma questão que me atravessasse e, sem uma explicação muito racional ou um modus operandi, eu tentasse dar forma a ela”, revela.

Assim, entre a inquietude e a serenidade, ele segue a imaginar e conceituar o desconhecido, sempre em deslocamento – nascido em São Paulo, mudou-se para Fortaleza com três meses e de lá já saiu para expor na Espanha, na África do Sul e nos Estados Unidos. “Hoje, consigo enxergar que todos os meus trabalhos possuem uma relação com a ideia de futuro. Quando se anuncia o futuro, é quase um ato performativo. Torna-se cambiante o próprio presente, em nome de um progresso idílico, uma ideia de paraíso na Terra”, vislumbra Yuri Firmeza, tal qual o astronauta que um dia sonhou ser. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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