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Acessibilidade: Novos passos para propagar a arte

Depois do bem-sucedido espetáculo 'Leve', Coletivo Lugar Comum promove oficina de iniciação em dança para pessoas cegas

TEXTO Maria Eduarda Barbosa

01 de Novembro de 2015

Foto Olga Wanderley/Divulgação

Tudo começou em 2011, quando as integrantes do Coletivo Lugar Comum – Renata Muniz e Maria Agrelli – encenaram Leve, durante o festival Palco Giratório no Recife. Além de ser o primeiro trabalho do coletivo, o espetáculo de dança foi precursor por ser o primeiro grupo pernambucano a proporcionar recurso de audiodescrição, que propõe a inclusão de pessoas cegas e com baixa visão em atividades voltadas aos meios de comunicação visual.

A apresentação de Leve desencadeou uma série de iniciativas do Lugar Comum envolvendo acessibilidade comunicacional. No ano seguinte à encenação no Palco GiratórioLeve manteve-se em temporada com audiodescrição e intérprete de Libras. Embora houvesse a disponibilização diária de 30 equipamentos de audiodescrição, a plateia tinha um, dois, às vezes nenhum espectador cego, exceto pelo último dia da temporada, quando o Instituto dos Cegos levou público à apresentação. Nesse dia, o número de espectadores com deficiência visual chegou a 20.

O coletivo passou, então, a questionar o motivo da ausência desse público, mesmo com a disponibilidade de recursos de acessibilidade comunicacional no espetáculo. Em 2013, a audiodescrição também foi inserida em apresentações de artistas do Lugar Comum, mas a ausência do público cego em alguns momentos levantou novas questões e iniciativas para aproximar-se dele. Um tempo depois, quatro integrantes do coletivo realizaram duas oficinas no Instituto dos Cegos de Pernambuco, com uma média de 15 alunos em cada.

Agora, em 2015, o grupo artístico possui um projeto maior, de iniciação em dança, com metade das vagas voltada para pessoas cegas que, junto a outros participantes, aprendem e compartilham experiências através da concepção do corpo e espaço. Com apoio do Funcultura, a oficinaMultiplicando olhares sobre o corpo que dança teve início em agosto e segue até dezembro, sendo ministrada pelas artistas Silvia Góes, Maria Agrelli e Renata Muniz.

As aulas acontecem uma vez por semana, mais precisamente às quartas-feiras, na sede do Coletivo Lugar Comum, que fica no Bairro de Santo Amaro, no Recife. Durante a oficina, desenvolve-se a conscientização e o autoconhecimento do corpo em um trabalho que desperta ações corporais, desafiando o participante a sair da zona de conforto e descobrir o potencial que existe dentro de si. “Isso tudo relacionando a autopercepção corporal e a percepção também do corpo do outro, através de sentidos potencializados para o corpo em estado de dança”, afirma Silvinha Góes.


O espetáculo Leve foi o primeiro de um grupo pernambucano a proporcionar o recurso da audiodescrição. Foto: Sílvia Góes/Divulgação

São diversos exercícios de ampliação da audição, sensibilidade da pele, olfato, emissão de sons, respiração, tudo desenvolvido em dinâmicas algumas vezes realizadas de olhos vendados. “A direção do olhar, o virar de cabeça são também movimentos de dança, e isso será trabalhado com os alunos cegos e com aqueles sem deficiência aparente que vão vivenciando juntos esse encontro”, destaca Góes.

No momento da reportagem da Continente, havia 20 vagas na oficina, com três alunos cegos inscritos. A quantidade esperada pelas instrutoras seria de 10 alunos com deficiência. Informações sobre a oficina, relatam as responsáveis, foram divulgadas em escolas, instituições. Ao longo das aulas, Silvinha, Renata e Maria informam que as mudanças nos alunos já são perceptíveis, como a superação de alguns gestos de retração e introspecção.

No final de setembro, o projeto contou com uma aula especial ministrada pela bailarina Joselma Soares, da companhia Giradança, de Natal (RN). Jô, como é chamada pelos alunos e integrantes do coletivo, mostrou que dançar vai além da movimentação do corpo. A bailarina perdeu a visão aos 24 anos de idade, quando teve uma inflamação rara chamada Doença de Coats. Desde então, seu trabalho volta-se inteiramente à dança. Inicialmente, ela procurou o balé clássico.

“Eu queria ser bailarina e só tinha como referência a bailarina da caixinha de música”, conta Jô, que depois migrou para a dança contemporânea. “Fui meio temerosa, mais pelo fato de, visualmente, eu não saber o que é a contemporânea. Está sendo boa a experiência na Giradança. Aprendo todos os dias.” A companhia potiguar é referência nacional e internacional na busca de uma linguagem própria na dança contemporânea.

Em sua aula, Jô trouxe uma concepção diferente sobre o que é dançar e olhar, proporcionando uma experiência de audiodescrição não como um recurso, mas como parte da encenação. Na ocasião, duas pessoas compunham a cena em conjunto, uma dançando e outra descrevendo. Às vezes, havia duas descrições ao mesmo tempo e, assim, as percepções em torno da dança eram multiplicadas. “O meu pescoço está falando para alguém, a minha respiração está falando, então tudo isso também se transforma em olhar”, enfatiza Jô. Sobre dançar, a bailarina caracteriza a ação como o todo: voz, respiração, gestos, ação e estado de presença. “Dançar não é só movimento e ritmo, mas tudo o que se move dentro de mim.”


Em 2015, o Coletivo Lugar Comum deu início às oficinas de iniciação à dança, com metade das vagas voltadas para cegos. Foto: Acervo Coletivo Lugar Comum

ENSAIO ABERTO
Como parte do projeto Multiplicando olhares sobre o corpo que dança, o Coletivo Lugar Comum promove uma vez ao mês, até dezembro, um ensaio aberto de espetáculos que trabalham com a audiodescrição como recurso comunicacional. O primeiro aconteceu no início de outubro e a encenação ficou por conta de Renata Muniz e Maria Agrelli, que colocaram Leve novamente em cena. A encenação possui a perda como temática e seus movimentos são metáforas concebidas através de pesquisas sobre sentimentos.

O momento do ensaio aberto contou com uma ajuda oportuna da natureza: o calor do entardecer tomava conta da sede do coletivo, levando ao maior acolhimento do público àquele ambiente simples. A audiodescrição ficou a cargo de Marcella Malheiros, da equipe VouVer Acessibilidade, que proporcionou novas percepções sobre a encenação das bailarinas. Após a apresentação, foi realizado um debate acerca da acessibilidade. Em meio aos espectadores, Girlane Balbino, de 22 anos, disse que ficou com a sensação de estar inserida na cena de Leve. “A audiodescrição me oferece possibilidades de participar e entrar na cena. Me emociono muito.”

Já Vinicius Passos, que também é aluno da oficina, conta que sentiu dificuldade em alguns momentos. “Na minha mente, foi difícil absorver tantas informações ao mesmo tempo. Mas o que seria de mim e de nós, cegos, sem alguém para descrever? Havia muitas cenas em que não dava para ter uma percepção, e a pessoa que estava descrevendo me fez enxergar”, destaca Vinicius.

É a partir dessa troca de experiências que o projeto consegue ampliar os olhares sobre a dança e dar voz a esse público, possibilitando que surjam propostas de espetáculos de dança com acessibilidade. Para a bailarina Silvinha Góes, há o desejo do grupo de que as aulas e os eventos se consolidem como espaço aberto para o intercâmbio de saberes: “Entre pessoas cegas, pessoas sem deficiência aparente que também estão iniciando o mergulho na dança, profissionais das artes cênicas que têm interesse em investir em acessibilidade, profissionais da área da acessibilidade propriamente dita, criando um território onde dar e receber se misturem”, completa.

Relatos, fotografias e vídeos realizados para o projeto podem ser encontrados no blog Multiplicando Olhares, que busca servir como um instrumento para artistas, produtores, grupos ou entidades públicas e privadas que pretendam garantir a acessibilidade aos espetáculos como direito do público cego e ampliar a presença dele nas encenações. “Fazendo com que o desejo da troca se realize e os equipamentos de audiodescrição nos espetáculos sejam mais do que recursos silenciosos esperando ansiosamente por um público que não chegou ainda”, afirma Silvinha Góes. 

MARIA EDUARDA BARBOSA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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