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Baralho: um curinga ao longo do tempo

De origem milenar, que remonta à China, século 13, ele atravessou gerações e culturas, reunindo pessoas em torno do entretenimento, além de servir à expressão artística e a jogos divinatórios

TEXTO Marina Suassuna

01 de Janeiro de 2016

Jogo de baralho

Jogo de baralho

Foto Leo Caldas

Se pararmos para pensar sobre o quanto o baralho está presente em nossas vidas, veremos que não se trata apenas de entretenimento. Quantas expressões oriundas do carteado se incorporaram ao nosso vocabulário rotineiro, como “colocar as cartas na mesa” ou “abrir o jogo”, equivalentes a revelar algo de maneira franca, sincera? Quem nunca usou a expressão “carta fora do baralho” para designar alguém que está excluído? Ou preferiu dizer “embaralhar” no lugar de desorganizar?

“Sentíamos adultos com as cartas na mão. Nós, as crianças, não podíamos mexer no baralho, que ficava guardado na cristaleira ou na gaveta do pai. Quando os adultos saíam, arriscávamos abrir aquelas caixinhas, uma azul e uma vermelha, e retirávamos as cartas mágicas. De maneira que, naquela idade em que nem sabíamos ler, as cartas do baralho nos davam identidade, foram os primeiros RGs de nossas vidas. E assim, antes de termos nos tornado adolescentes e jovens, havíamos sido nobres, reis, valetes (o que era um valete?). Eles foram parte do nosso imaginário na infância, do mesmo modo que os contos de fadas e as histórias de Monteiro Lobato”, recorda o escritor e jornalista Ignácio Loyola Brandão, no livro Copag, 100 anos no Brasil – Sempre dando as cartas.

A sensação de imponência que as cartas de jogar transmitem está associada à sua própria origem. Quando foi introduzido na Europa, por volta do século 15, o baralho era um artigo de luxo reservado aos nobres, que podiam pagar preços exorbitantes pelas lâminas pintadas à mão. Justamente por isso, até hoje as vestimentas reproduzidas nas pinturas pertencem à nobreza: rei, valete e dama.


Versão turca que se consolidou descende dos mamelucos. Foto: Reprodução

Tido como ofício nobre, mestre de cartas era o nome dado ao pintor ou estampador que se encarregava de colorir as cartas. De acordo com Ignácio de Loyola Brandão, para tornar-se um mestre, era necessário trabalhar três anos como aprendiz e depois mais três como oficial. Só assim, adquiriria domínio de toda a técnica da produção, que incluía desde a limpeza das ferramentas até a secagem e a colagem das três folhas de papel que, cortadas, resultavam numa carta de baralho.

Até meados do século 19, o ludus cartarum – nome dado genericamente aos baralhos – ainda era colorido à mão. No entanto, sua popularização foi possível ainda na segunda metade do século 15, graças à técnica da xilogravura, que reduziu os custos de produção de maneira significativa. A impressão a partir da matriz de madeira permitiu a sua distribuição em grande quantidade, tornando-o mais acessível a classes menos favorecidas. Além disso, o desenvolvimento dos métodos de fabricação de papel na Europa, na mesma época, propiciou o surgimento de baralhos em diversos países.

CARTAS DA CHINA
Até hoje, não foi possível precisar a sua origem. A referência mais antiga que se tem desse instrumento remonta ao século 13, na China. No entanto, as cartas chinesas pouco se assemelham ao baralho moderno. Com dimensões médias em torno de 10 cm x 2,5 cm, são mais estreitas que as cartas modernas, além de se diferenciarem destas no que diz respeito à composição dos desenhos e dos naipes.

Embora tenha sido identificado o desenvolvimento de lâminas em locais diversos durante um mesmo período da história, a versão que se consolidou acerca da origem do baralho moderno, com o qual jogamos pôquer, bridge, buraco e truco, descende dos mamelucos, povo turco que governou o Egito entre os séculos 13 e 15. São deles a estrutura e o padrão das cartas que hoje nos são familiares, com dimensões mais largas que as chinesas, totalizando 52 cartas, assim como as versões mais populares dos baralhos modernos.

Pintadas à mão com detalhes em ouro, as lâminas mamelucas seguiam a tradição árabe de não reproduzirem figuras humanas. No entanto, já se identificava a representação de reis, primeiros vice-reis e segundos vice-reis de maneira abstrata. Coube aos europeus, no final do século 14, transformarem essas três figuras reais em dama, valete e rei. Isso foi possível graças à intensa relação comercial que mantinham com os mamelucos. Principais vias de acesso desse comércio, a Itália e a Espanha foram os primeiros países a terem acesso às cartas precursoras do nosso baralho moderno. Daí em diante, não demorou para que a novidade se espalhasse por toda a Europa, chegando às colônias e aos países de outros continentes.


Sequência evolutiva do padrão internacional. Foto: Reprodução

Um dos últimos locais aonde as cartas mamelucas chegaram foi a França, especificamente à cidade de Rouen, que nos legou o baralho de desenho e uso mais popular atualmente.

Durante a Guerra dos 100 anos, nos séculos 14 e 15, vários soldados ingleses voltaram da França com exemplares das cartas, que logo se tornaram oficiais em seu país de origem. Impressos em xilogravuras e coloridos com pochoir (técnica semelhante ao estêncil) desde o século 17, os baralhos franceses foram aperfeiçoados na Inglaterra durante o século 19, a partir das técnicas de impressão em relevo e da introdução da litografia. Hoje, configuram-se como o sistema de baralho adotado internacionalmente, por cassinos e jogadores profissionais, produzido por praticamente todos os fabricantes do mundo.

“Um dos aspectos mais interessantes e marcantes deste padrão é a manutenção, por mais de cinco séculos, das características principais dos desenhos das figuras. Talvez seja essa a concepção gráfica mais duradoura e copiada do mundo”, aponta o historiador e especialista no padrão internacional Cláudio Décourt.

Composto por 52 cartas, o baralho internacional usa o padrão de naipe francês: diamantes, corações, espadas e trevos. Constitui-se, ainda, de três figuras (rei, dama e valete) e de 10 cartas numerais para cada naipe. O sistema de naipe francês é, portanto, uma adaptação dos naipes mamelucos, que eram retratados a partir de objetos comuns daquela cultura: moedas, espadas, copas (cálices) e tacos de polo. “Não só os naipes franceses, mas também as figuras das cartas desse baralho possibilitavam maior facilidade de impressão gráfica que, somada à expansão do império inglês e à prática de jogos como o pôquer, o bridge ou o wisp, se difundiu pelo mundo inteiro, tornando-se assim o ludus cartarum por excelência”, descreve Armando da Serra Negra, no livro O que é baralho. Assim, quando redesenhado por diferentes fabricantes, o baralho no padrão internacional se ajusta aos vários exemplares desenvolvidos, mantendo seu conjunto de características genéricas.


Origem remonta à China, no século 13, mas cartas diferem do baralho moderno.
Foto: Reprodução


Outra peculiaridade desse padrão de baralho é o ás de espadas. Trata-se de uma carta com um grande naipe central, distinguindo-a das demais. Sua origem data de meados do século 18, quando o governo da Inglaterra mandava estampar um carimbo com o desenho oficial do governo, que identificava a tributação sobre o produto. Assim, os fabricantes geravam todas as cartas para seus baralhos, exceto o ás de espadas, sendo obrigados a encomendar essa carta ao governo, o que evitava falsificação. Se algum falsificador fosse identificado, era punido com pena capital. De acordo com Cláudio Décourt, há registro de um fabricante condenado à forca em 1805. “Esta sinistra pena deve ter sugerido a associação do ás de espadas como a carta da morte, superstição ainda vigente entre certos povos, principalmente no Oriente”, indica o pesquisador. Mesmo depois da identificação fiscal ter sido abolida, o ás de espadas continuou a ser fabricado com desenhos especiais, tradição mantida pela maioria dos fabricantes.

Também é possível reconhecer o baralho internacional pelos índices usados para designar as figuras, uma variação britânica do sistema francês: J, Q, K (Jack, Queen, King), que passaram a substituir V, D, R (Valete, Dama, Rei), respectivamente.

COMUNICAÇÃO POPULAR
“O que mais me fascina no baralho é o fato de ser um objeto de criação popular há mais de seis séculos que até hoje é usado para prática de jogos ainda muito populares. Nem a tecnologia moderna dos computadores eliminou essas cartas fantásticas de suas telas”, reflete Décourt.

Grande fonte de conhecimento no sertão nordestino, o livro Lunário perpétuo, tido como uma pequena enciclopédia bastante útil aos afazeres corriqueiros, trazia o carteado como um interesse do cotidiano, do qual se deveria adquirir domínio, assim como receitas medicinais, tabuada, horóscopo, astronomia e outros conhecimentos gerais. Escrita pelo matemático espanhol Jerônimo Cortez e traduzida em português em 1703, com linguagem precisa e minuciosa, a publicação levou a noção do jogo de cartas para os lugares mais remotos do universo sertanejo.

Não havia quem não consultasse o Lunário perpétuo, que viajava no lombo dos burros, algibeiras de padres e arcas de mascates até chegar às escrivaninhas, gavetas, redes de dormir ou ao lado do fogão de quem o consultasse. O lavrador, o comerciante, a cozinheira, o poeta, o cantador, todos esses tipos humanos absorveram as orientações e os conselhos trazidos no livro sobre o modo de compor o baralho para fazer alguns jogos, fossem eles enigmáticos, de adivinhação de carta ou de efeitos ilusionistas.


Governo inglês imprimia símbolo oficial do país no ás de espadas, para evitar falsificações. A desobediência podia levar à pena capital. Foto: Reprodução.

Se o interesse pelo carteado ultrapassa diferentes culturas e gerações, é porque há, neste instrumento, uma vocação para a tradição. Para a designer, pesquisadora e professora da USP Priscila Farias, o baralho mantém a sua identidade enquanto jogo tradicional graças ao design das cartas, dotadas de apego e respeito a convenções estabelecidas historicamente. “Os baralhos com os quais convivemos hoje carregam elementos visuais de muitas culturas, e traços da influência e predomínio dos ideais de jogadores e fabricantes que marcam nosso cotidiano e nossa memória”, observa a designer, para quem as cartas de jogar constituem parte de nossa história gráfica, afetiva e coletiva, associada à cultura visual e à cultura da impressão. “Se os naipes têm algo de familiar e eterno, se as figuras de reis, rainhas, cavaleiros e os misteriosos curingas remetem a verdades antigas de um mundo do qual temos nostalgia, apesar de não termos vivido nele, é porque fazem parte desta memória que é maior do que nós indivíduos.”

O potencial do baralho para instrumento de comunicação popular é apontado pela pesquisadora portuguesa Natali Assunção como essencial à permanência dessa prática. “Além da vantagem de um baralho de cartas ser acessível a todas as classes sociais, ele é autossuficiente, ou seja, não necessita de bateria ou energia elétrica para funcionar, é de fácil transporte e pode ser utilizado em ambientes fechados ou abertos.” Ela chama a atenção ainda para a importância daquela que se tornou a principal utilidade das cartas: os jogos de azar que, para vários psicólogos e historiadores, estão na origem de ciências como a matemática, o cálculo de probabilidades e até a topologia.

A obra Os jogos e os homens, de Roger Caillois, é tida por Natali como uma peça-chave na compreensão do papel das cartas de jogar na sociedade. Embora se refira aos vários tipos de jogos existentes, Caillois traça denominadores comuns entre eles, a exemplo da facilidade, do risco, da habilidade, descontração e diversão. Ele explica que os jogos sempre aparecem margeando a organização da sociedade: “O espírito do jogo é uma das molas principais do desenvolvimento das mais altas manifestações culturais em cada sociedade e da educação moral e do progresso intelectual dos indivíduos.”

Para Natali, as regras que conferem o equilíbrio existente num jogo de cartas podem ser comparadas à evolução da civilização, “que partiu de um universo rude para um universo organizado e administrado, baseado num sistema consistente e coerente onde os indivíduos têm direitos e deveres”. 

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