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Vulcões: Pelos caminhos do Chile e da Bolívia

Paisagens inóspitas, calor e quilômetros de areia podem ser desinteressantes para muitos, mas não para os aventureiros que rumam ao Deserto de Atacama e ao Salar de Uyuni

TEXTO CLAUDIA CAVALCANTI
FOTOS MARCO CARVALHO

01 de Janeiro de 2016

Vulcão Tunupa visto do Salar de Uyuni

Vulcão Tunupa visto do Salar de Uyuni

Foto Marco Carvalho

A região mais árida do mundo não deveria ser o sonho de viagem de tanta gente que, como nós, contou meses, dias e horas para chegar ao norte do Chile. A melhor opção de entrada no Deserto do Atacama é por Calama, cidade dos arredores com aeroporto. O caminho de lá até San Pedro, com 3 mil habitantes e 2.400 metros de altitude, já nos mostra que aquela não é uma paisagem comum, tampouco para um turista comum. Com o decorrer dos dias e incursões a pontos sempre mais altos que San Pedro, os lábios racham e o corpo sente a enorme variação de temperatura num único dia (que pode ir de -9°C, numa madrugada, até 40°C, com o sol a pino).

Por conta de sua altitude, as nuvens que vêm do Pacífico não chegam a atingir a região. Do outro lado, os úmidos ares amazônicos são barrados pela Cordilheira dos Andes. Assim, o índice pluviométrico é baixíssimo, um dos menores do planeta. No entanto, os 105 mil km² de superfície predominantemente composta de sal e areia oferecem tamanha variedade de relevo (que pode chegar a mais de 6 mil metros de altitude) e de vales, lagoas, gêiseres, fontes termais e cânions – além do céu mais visivelmente estrelado do mundo –, que o turista logo esquece as dificuldades e, em pouco tempo, como que por encanto, está adaptado ao lugar.

O turismo de esportes também encontra nos acidentes geográficos uma fonte de renda específica. Adeptos do trekking,mountain bike e sandboard reconhecem no lugar um oásis, por assim dizer. Os praticantes de sandboard escolhem as areias do Valle de la Muerte para deslizar montanha abaixo, esquecendo que ali em cima, e sobretudo no contíguo Valle de la Luna, se pode assistir a um fim de tarde acachapante para uma primeira tarde no deserto. Com o passar dos dias, logo veremos que cada lugar disputa para si o espetáculo de beleza mais estonteante.

Além das paisagens díspares, que podem variar de total pobreza do reino animal aos encantos de dezenas de vicunhas soltas em vales com riachos semicongelados, a riqueza histórica e cultural do Atacama logo é descoberta por manifestações de arte rupestre pré-colombianas, assim como pela aldeia em forma circular de Tulor, datada de 800 a.C., ou pela fortaleza de Quitor, finalmente rendida pelos espanhóis. A região foi primeiramente ocupada por atacamenhos e pelos aimarás, a partir da era pré-colombiana.

O Deserto do Atacama também é, desde sempre, povoado por lendas e histórias que reforçam a impressão de que nada, das surpreendentes paisagens que tiram o fôlego a cada curva na estrada, a cada planície avistada, está ali por acaso, nem mesmo os enormes volumes de lavas vulcânicas transformadas em montanhas rochosas após milhões de anos. Esse tempo e o mundo natural nos lembram nossa pequeneza e insignificância. A altitude, por sua vez, nos mostra quem somos e onde estamos. É assim que tudo se encaixa naquelas plagas.


Pôr do sol no Valle de La Luna é atração local

Nesse cenário mítico, o personagem principal para o povo daquele deserto é o vulcão Licancabur (ou “montanha do povo”). Imponente nos seus 5.619 metros acima do nível do mar, e a 60 km de distância de San Pedro do Atacama, o vulcão é acompanhado pelo olhar do viajante em diversos pontos da região e, com mais proximidade, na travessia da fronteira com a Bolívia, até a Laguna Verde, depois da qual dá lugar a outros mitos, lendas e paisagens.

LICANCABUR
É do povo do Atacama a ideia de que os vulcões são do gênero masculino e as montanhas, do feminino. Assim sendo, Licancabur teria se apaixonado e casado com Quimal, que também foi cobiçada por Juriques, de tal forma que, um dia, ela não mais teria resistido aos encantos do irmão de Licancabur. Senhor dos vulcões, ativo até hoje e pai dos dois, Láscar achou por bem favorecer Juriques e, certo dia, lançou uma bola de fogo em direção a Licancabur. O destino quis que a bola atingisse Juriques, que hoje nos aparece como um infeliz e tímido decapitado ao lado do majestoso irmão.

Licancabur é venerado pelos povos das redondezas, que construíam suas casas com as portas voltadas para ele, pois acreditavam na sua proteção. Diz-se que na sua cratera está depositado um fabuloso tesouro, resultado da veneração dos deuses por ele ou mesmo dos incas, para quem as oferendas tinham um significado especial.


Comunidade ao redor do vulcão Tunupa vive do plantio de quinua

Quem quiser se arriscar a subir o vulcão, precisa, além de treino, caminhar por cerca de 12 horas para atingir seu cume e admirar o lago em sua cratera, que se congela no inverno e no fundo do qual repousaria o mítico tesouro. Já o viajante menos pretensioso, mas cujo espírito de aventura é imprescindível numa jornada como essa, poderá ver o Licancabur a partir dos 2.500 metros de San Pedro até os 4 mil da fronteira com a Bolívia, admirando suas diversas nuances, a depender da hora do dia e do lugar, como no pôr do sol da Laguna Tebinquinche.

Edison Mora, o guia que nos acompanhou no Atacama com uma Defender, sabe coroar o momento único com uma boa garrafa de vinho tinto, que ameniza o frio e nos permite sentar para admirar o espetáculo de quando o Sol veste o majestoso vulcão de variados tons de laranja, vermelho e, finalmente, da cor que a vista não mais alcança.

TUNUPA
Durante a exploração da Apolo 11, Neil Armstrong usava o Salar de Uyuni como ponto de referência, por conta de seu brilho singular. É para lá que seguimos depois de passar pela aduana da Bolívia. Lá nos esperavam Karen Guevara, nossa guia, e o jovem motorista Ariel, exímio no volante das Toyotas que costumam atravessar (e, caso não seja dirigida por um nativo, muitas vezes se perder) o Salar.


Sandboard é praticado nas dunas chilenas

A viagem parece não ter fim, as estradas são de terra (com muita sorte, de sal), mas aquelas paisagens inóspitas às vezes nos presenteiam com visões como as lagoas alto-andinas Blanca e Verde, já dentro da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa (de onde entramos, saímos e voltamos a entrar nos dias bolivianos), além das altiplanas Canãpa, Hedionda (pelo seu forte odor de enxofre) e Colorada, na região de Lípez. Esta última lagoa é avermelhada devido ao pigmento de algas e sedimentos vermelhos em combinação com o vento, que os mistura, mas sobretudo por causa das centenas de flamingos andinos reunidos em pequenos e grandes grupos, num balé em que parecem flutuar, ou mesmo em pleno voo. O Valle de las Rocas, naturalmente mais árido, também merece uma parada longa e atenta, para que se possa decifrar o que as rochas vulcânicas têm a nos dizer.

Para atravessar os cerca de 12 mil km² do Salar de Uyuni é preciso pernoitar em hotéis ora bons, ora mais precários, e aceitar as condições do país, menos favoráveis que as chilenas. Para não falar da altitude, que oscila entre os 3.656 metros do próprio Salar e os quase 5 mil de povoados nas redondezas. Ali, um hotel no meio do nada, ou exatamente do Deserto de Siloli, como o Taika el Desierto, já é um povoado em si, posto que a localidade mais próxima está a 300 km dali. Aos 4.900 metros de altitude, foi lá que pernoitamos no último dia antes de cruzar parte do Salar para voltar à fronteira com o Chile.

Antes disso, avistamos Tunupa entrando ou saindo do Salar. A diferença se faz pela perspectiva: ver o vulcão de frente, quando é possível perceber claramente a sua cratera escancarada a pouco mais de 5.300 metros de altitude – o que para nós, que no Salar estamos a quase 4 mil, nos parece uma bobagem –, ou de costas para nós, no caminho de volta.

Tunupa encontrou seu lugar no nordeste do Salar de Uyuni, divisa de Potosí com Oruro, estados do altiplano boliviano. Seu nome tem origem no deus andino homônimo, senhor de raios e erupções vulcânicas. Aos pés da poderosa, mas hoje plácida montanha, moram pequenas comunidades que vivem do cultivo da quinua e da criação de lhamas. Para reforçar as muitas curiosidades do lugar, inclusive da própria origem lendária de Tunupa, temos a impressão de que as lhamas, com seu olhar cândido, estão ali para pastar e, de vez em quando, cuspir na nossa cara. Mas trata-se de animais que dão um duro danado, percorrem longos trajetos em poucas horas e são capazes de carregar pesadas cargas.

No entanto, as lhamas não importam muito, e nem são vistas no meio do Salar, à medida que nos aproximamos de Tunupa. Antes de chegarmos, paramos na Isla Incawasi. As ilhas são uma singularidade do lugar, habitadas por cactos gigantes e centenários, de até 10 metros, que crescem a uma velocidade de um centímetro por ano. Puro exotismo, ainda mais que de lá de cima se pode ver Tunupa ao longe, antes de chegarmos mais perto para outro daqueles espetáculos do fim do dia.

A diversidade cultural dos povos andinos é tamanha, que, se para alguns os vulcões só podem representar o gênero masculino, para outros, como os aimarás, montanhas furiosas, profícuas reprodutoras de lavas, também podem evocar a feminilidade. Assim é que, das várias histórias que ouvimos e lemos sobre Tunupa, em algumas delas o vulcão tem características masculinas, mas em outras é capaz de expressar sentimentos comuns às mulheres, das simples mortais às legendárias divindades.

Sobre Tunupa se diz, dentre outras versões, que, há muito tempo, os vulcões do altiplano podiam deslocar-se. Nessa época, o único vulcão feminino era Tunupa, fazendo com que fosse desejada por todos os seus pares dos arredores. Tunupa engravidou e, como não sabia quem era o pai do seu filho, todos os vulcões reivindicaram para si a paternidade dele. Tanto fizeram que, uma noite, roubaram de Tunupa o seu rebento. Os deuses, de tão raivosos, tiraram para sempre dos vulcões o direito de deslocar-se. E a Tunupa restou chorar pelo filho lágrimas tão salgadas e derramar tamanha quantidade do leite, por não poder amamentar, que assim acabou por formar o Salar de Uyuni – chamado antes Salar de Tunupa, justamente por causa dessa lenda.


Lhamas fazem parte da paisagem de povoado boliviano no Sala de Uyuni

Para além de todas as narrativas, sabe-se que o Salar é resultado das transformações de diversos lagos pré-históricos. Estima-se que ali existam 10 bilhões de toneladas de sal bruto, das quais 25 mil são extraídas todo ano. Na sua crosta, estão concentrados de 50 a 70% de toda a reserva mundial de lítio, que começa a ser extraído paulatinamente.

Margeando o limite entre o Chile e a Bolívia, vemos finalmente um vulcão ativo, o Ollagüe, com 5.868 metros de altitude. Ao cruzar a fronteira, logo reencontramos aqueles que já nos faziam falta, depois de apenas quatro dias sem vê-los: o asfalto e o Licancabur.

Nesse dia, só paramos ao chegar em Santiago, que está a apenas 500 metros acima do nível do mar. Foi pena não termos levado para lá um pouco do lítio da Bolívia, que teria sido útil quando, dois dias depois, fomos presenteados com um pesado terremoto. Passado o susto, fica a impressão de que aquele talvez tenha sido apenas um dos muitos tembroles que a vida nos oferece a todo instante, mostrando que é preciso recuperar-se e seguir em frente para, afinal, termos o que contar aos nossos netos.

Não, Chile e Bolívia não são países para amadores. Em compensação, deixam lembranças e aprendizados inesquecíveis. 

CLAUDIA CAVALCANTI, pernambucana e paulista, germanista, editora, tradutora e viajante apaixonada.

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