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A poesia além do gênero

O aumento na produção e visibilidade da nova leva de autoras é um dos responsáveis por oxigenar e polemizar o cenário da poesia contemporânea do país

TEXTO Marina Moura

01 de Fevereiro de 2016

Nova geração é integrada por  Alice Sant'Anna, Ana Guadalupe, Angélica Freitas e Júlia Hansen

Nova geração é integrada por Alice Sant'Anna, Ana Guadalupe, Angélica Freitas e Júlia Hansen

Fotos Divulgação

Em 2009, a professora de Literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloisa Buarque de Hollanda, organizou a antologia Otra línea de fuego: quince poetas brasileñas ultracontemporaneas (Maremoto, edição bilíngue). O livro está dividido em três etapas, de acordo com cores, para diferenciar as gerações das poetas. Na parte amarela, as nascidas entre as décadas de 1940 e 1950, a exemplo de Alice Ruiz e Ana Cristina César. Já a cor verde representa aquelas cujo nascimento data de 1960 a 1970, como Angélica Freitas. Por fim, a azul apresenta poetas mais jovens, da geração de 1980 em diante. Nessa última seção, encontram-se autoras como Alice Sant’Anna, Ana Guadalupe e Bruna Beber.

Otra línea de fuego talvez seja a evidência daquilo que pode ser um dos importantes fatores para oxigenar a atual poesia brasileira: o aumento da produção, presença e visibilidade femininas. Embora, entre elas, possam ser traçadas algumas semelhanças temáticas (algo como uma desmitificação do que seria considerado poético e uma valorização das sutilezas do cotidiano) e formais (fluidez no ritmo e na métrica, interação com a oralidade), não se pode dizer que haja uma escrita tipicamente feminina. Expressão, aliás, rechaçada por Heloisa no prefácio de Otra línea, no qual considera o rótulo “tacitamente excludente”. A opinião, aliás, vai ao encontro do que a filósofa teórica feminista estadunidense Judith Butler afirma em Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade (Civilização Brasileira, 2009): “Se alguém ‘é’ uma mulher, isso certamente não é tudo o que esse alguém é.”

Existe certa dificuldade entre teóricos e poetas da atual geração para definir se é dever defender uma poesia universalizante, mais aproximada do ideal feminista existencialista proposto por Simone de Beauvoir no século 20; ou se existe, de fato, uma representação, um território do gênero feminino que não pode nem deve ser ignorado. A poeta gaúcha Angélica Freitas, autora de Rilke shake (7Letras/Cosac Naify, 2007) e Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2009) lembra que, no começo dos 2000, era difícil até mesmo participar de leituras de poesia, situações formadas “predominantemente por homens, todos muito confortáveis nos espaços que ocupavam dentro da cena”. Ela acredita que “com a internet, os blogs, as redes sociais, as mulheres começaram a aparecer mais”. Porém, ressalta que ainda “não se chegou a um acordo sobre o que significa literatura feminina. Quando me perguntam se existe, sempre levo em conta duas coisas: quem está perguntando e por quê.”

Essa desconfiança em relação à utilidade dos rótulos foi demonstrada por Ana Martins Marques, em entrevista ao Suplemento Pernambuco de agosto/2015. A poeta mineira, que publicou A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011) e O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), se disse em uma “posição um pouco ambivalente (e talvez propositalmente e necessariamente ambivalente): me interessa afastar certos rótulos rápidos e a postulação de posições identitárias rígidas ou de uma ‘essencialidade’ feminina que se manifestaria nos textos escritos por mulheres, e, ao mesmo tempo, assumir uma atenção crítica em relação às questões de gênero no espaço literário”.

Há um problema linguístico e político, porque o termo feminino é por vezes, no Brasil, associado a estereótipos de feminilidade – doçura, sentimentalismo, fragilidade. Por conta disso, nos estudos acadêmicos mais recentes, fala-se em “literatura produzida por mulheres”, o que já abre discussões das diferenças e subjetividades dentro deste nicho. Essas questões também podem ser vistas na língua inglesa, em que se costuma diferenciar os vocábulos feminine (para questões de gênero) e female (aspecto biológico), e, portanto, resolve-se em parte certas conotações. Já no francês, utiliza-se a palavra féminine, que pode corresponder tanto a um texto com marcas do feminino como também a uma obra simplesmente escrita por uma mulher, a depender do contexto discursivo.

“Sem dúvida, é importantíssimo valorizar a literatura feita por mulheres. Mas tenho minhas dúvidas com o rótulo de literatura feminina, porque parece que assim a gente perpetua uma subcategoria, uma espécie de cota. Afinal, não existe a ‘literatura masculina’, e fica parecendo que o que os homens escrevem é a literatura padrão, universal, enquanto o que a mulher escreve é só para um pequeno grupo”, argumenta a poeta carioca Alice Sant’Anna, que possui duas publicações independentes, Bichinhos de luz (2009) e Pingue-pongue (2012), além de Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013).

Já a paranaense Ana Guadalupe considera-se feminista e, embora sinta certa dificuldade de chegar a uma definição pronta sobre o assunto, entende que “a literatura produzida por mulheres carrega, sim, o impacto desse papel e suas experiências, e por isso não é um produto idêntico àquele produzido por homens”. Ana tem poemas publicados na Espanha, no Chile, no México e nos Estados Unidos. É autora de Relógio de pulso (7Letras, 2011) e Não conheço ninguém que não seja artista (Confeitaria, 2015). A poeta paulistana Júlia Hansen concorda com Guadalupe, quando afirma que tudo o que escreve é feminista, mas avalia “que, se me rotularem ou rotularem o que eu escrevo assim, vão ter perdido um grande pedaço do entendimento”. Autora de Cantos de estima (Edição artesanal, 2008) e Alforria blues ou poemas do destino do mar (Chão da Feira, 2012), Júlia acredita que um dos grandes legados do século anterior foi o entendimento de que “não existe ‘a mulher’, existem ‘as mulheres’”.


Rua da padaria, da poeta carioca Bruna Beber, foi o 2º mais
vendido da Flip de 2013. Foto: Elisa Mendes/Divulgação

CONSTRUÇÃO
Heloisa Buarque, em declaração à revista Matraga (2010), referente à relação entre poesia e política, ressalta que o momento atual da literatura tem a ver com a negociação da subjetividade. “São várias demandas, não é a demanda. Antigamente, era assim: o sistema e o resto. Hoje, não se identifica mais o sistema. (…) Trata-se de uma democracia que radicaliza os nichos.” Sob esse ponto de vista, Angélica Freitas produziu Um útero é do tamanho de um punho a partir da inserção (ou não) de perspectivas femininas dentro de seu discurso poético.

Com 35 poemas, que estão, a um só tempo, entre melancolia, comicidade e ironia, o livro divide-se em quatro eixos temáticos: uma mulher limpa (“mas a heroína deste poema/ era uma mulher muito feia/ extremamente limpa/ que levou por muitos anos/ uma vida sem eventos”); mulher de (“eu me sinto tão mal por tudo que/ comi esse tempo todo/ tão mal e tem tanta gente passando/ fome no mundo”); a mulher é uma construção (“a mulher basicamente é pra ser/ um conjunto habitacional/ tudo igual/ tudo rebocado/ só muda a cor”); e três poemas com o auxílio do google (“a mulher pensa com o coração/ a mulher pensa de outra maneira/ a mulher pensa em nada ou em/ algo muito semelhante”). Ao longo do livro, Angélica reflete sobre o gênero a que pertence, sua diversidade, e expõe clichês associados à condição feminina, sem contudo direcionar a um olhar único ou estigmatizante. É assim que, em “metonímia”ela afirma que, no fim das contas, não queria “fazer uma leitura/ equivocada/ mas todas as leituras de poesia são equivocadas”.

A poeta pernambucana e professora de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Renata Pimentel, autora de Da arte de untar besouros (Confraria do Vento, 2012) e Denso e leve como o voo das árvores (Confraria do Vento, 2015), enxerga um momento positivo de abertura da produção feminina no campo da poesia. Ela entende este cenário como uma resposta ao engajamento delas (é o caso de Angélica Freitas) “em apontar o quanto os cânones foram formados em uma sociedade patriarcal e machista, que ainda impera”.

Sobre a cena ainda desigual e masculina, há, em Um útero, o poema Uma canção popular (séc. 19-20): “uma mulher incomoda/ é interditada/ levada para o depósito/ das mulheres que incomodam// loucas louquinhas/ tantãs da cabeça/ ataduras banhos frios/ descargas elétricas”. O título enfatiza a temporalidade que retrata para se mostrar, irônica e infelizmente, ainda muito contemporânea. Por conta da evidente falta de balanceamento entre os discursos feminino e masculino, Angélica é taxativa acerca da produção de poesia feita por mulheres: “Você tem o direito de se enganar a respeito disso, tem o direito de querer a aprovação dos seus colegas homens, porque eles vão adorar quando você diz que é tudo igual. Mas não é tudo igual”.

PUBLICAÇÕES E PRÊMIOS
Professora da Universidade de Brasília (UnB), a crítica literária Regina Dalcastagnè realizou uma extensa pesquisa, entre 1990 e 2004, a respeito do número de publicações das principais editoras do país e a porcentagem de mulheres e homens nos prêmios literários. Ainda que em seu livro Literatura brasileira contemporânea – um território contestado (Editora Horizonte, 2012) o foco seja a análise de romances brasileiros, Regina declarou à Continente que analisou todas as categorias dos prêmios Jabuti de Literatura e do antigo Portugal Telecom (atualmente, chama-se Oceanos) e, nas publicações de poesia, o quantitativo de inscrições de livros produzidos por mulheres representava apenas 30%.

Para Regina, são muitos os fatores que explicam tal porcentagem. “O preconceito dos leitores, a falta de oportunidade editoral e o próprio fato de que talvez as mulheres escrevam menos, porque possuem uma vida doméstica com a qual precisam lidar além de suas atribuições profissionais, e ainda condições materiais muito diferentes das dos homens”, enumera. Ana Guadalupe propõe uma espécie de teste às cegas de poemas: “Acredito que seriam lidos de um jeito completamente diferente se tivessem um nome masculino”. Para Ana, a impressão é de que “o texto escrito por uma mulher ganha automaticamente um tom de feminilidade caricata, enquanto o do homem ganha um verniz de sagacidade. Até o design editoral muda quando o livro é de uma mulher, as cores e formas são mais suaves, ‘femininas’”.

Se o horizonte ainda parece desalentador, é inegável que a situação vem se invertendo e tende a um equilíbrio. Em 2013, quando participava da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), a poeta carioca Bruna Beber teve uma grata surpresa. Seu livro Rua da padaria (Record, 2013) fora o segundo mais vendido da feira. “Até então, nenhum livro de poesia tinha vendido tanto. O susto foi ainda maior, porque foi triplo: mulher, abaixo dos 30, poesia.” Autora de A fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras, 2006), Balés (Língua Geral, 2009) e Rapapés & apupos (7Letras, 2012), Bruna atribui o fato a uma clara abertura para as mulheres no mundo como um todo, inclusive na arte. Na Flip de 2015, o livro de poemas da portuguesa Matilde Campilho, Jóquei (Editora 34, 2015), foi o mais vendido do evento.

Não se quer aqui defender a tese de que mais vendas se traduzem necessariamente em leitores e que esta relação faz desaparecer a dificuldade dupla de ser autora de poesia e mulher no Brasil. Porém, os dois apontamentos não deixam de ser um indicativo positivo de que espaços de abertura para o gênero estão sendo ampliados.

Afora as diferenças de temáticas, estilos e posicionamentos sobre a sua produção, as poetas mulheres “ultracontemporâneas”, para citar mais uma vez Heloisa Buarque, irmanam-se sobretudo no que possuem de contemporaneidade. No entendimento do filósofo italiano Giorgio Agamben, “pertence verdadeiramente ao seu tempo aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões, e é nesse sentido inatual; mas, exatamente por isso, através desse deslocamento e anacronismo, é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender seu tempo”.

Tais como as antenas da raça de que fala o poeta e crítico norte-americano Ezra Pound a respeito dos artistas, a nova geração de poetas mulheres não se permite enquadrar no que quer que se entenda por feminino, do contrário correria-se o risco de perpetuar um longo histórico opressor a que se busca combater. A elas – é possível que caibam no que se poderia chamar de uma poética compartilhada –, os versos de Angélica Freitas: “Queria escrever um poema/ bem contemporâneo/ sem ter que trocar fluidos com o contemporâneo”. 

MARINA MOURA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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