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Luzes para a Turquia

Arte contemporânea do país firma seu lugar no mundo, tornando Istambul um dos pontos proeminentes do século 21

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Fevereiro de 2016

O Istanbul Modern é um dos ícones da cena de arte contemporânea da Turquia

O Istanbul Modern é um dos ícones da cena de arte contemporânea da Turquia

Foto Sahir Ugur Eren/Divulgação

A expressão turca çağdaş sanat pode soar estranhíssima a quem possui o português como língua-mãe. Mas se a traduzimos para o nosso idioma latino, desvendamos uma junção familiar de palavras que aponta a Turquia, e particularmente a sua metrópole Istambul, como centro das atenções pelo mundo. Não, não estamos falando dos acontecimentos recentes divulgados pelos noticiários internacionais, no que diz respeito a atentados e ao conflito com a Síria. Não exatamente. Na língua desse país-ponte entre o Ocidente e o Oriente, çağdaş sanat significa simplesmente arte contemporânea (ou contemporânea arte, na tradução literal). O termo, que passou a ser cunhado no Brasil entre 1970 e 1980, quando museus precisaram distinguir a nova produção de artes plásticas daquela consagrada como “moderna”, apareceu pela primeira vez na Turquia na década de 1960. Nesta época, ainda era atrelada, como analisa a curadora turca Duygu Demir, “ao desejo tardio do país de ser do seu tempo”. Enquanto isso, Andy Warhol preparava-se para expor suas latas de sopa Campbell na badalada cena cultural de Nova York. No Rio de Janeiro, Hélio Oiticica também ensaiava suas manifestações mais experimentais, com parangolés à vista. Os turcos não tinham a mesma ebulição, mas seus artistas começavam a sair da toca e a reagir às influências recebidas da Europa, principalmente de Paris, onde muitos deles foram viver ao longo do século 20.

Mais de 50 anos depois, não é difícil perceber o quanto esse cenário se transformou. Se há algum tempo, o mapa do mundo da arte incluía quase somente urbes como a própria Paris, Nova York, Londres e Berlim, no século 21 esse traçado se alarga, espraiando-se por fronteiras nunca dantes navegadas, ou melhor, muito pouco consideradas pelo “resto” do mundo. Bienais como a de Veneza e a de São Paulo, ou exposições como a Documenta de Kassel, na Alemanha, por exemplo, vêm dando evidências do quanto a produção artística da América Latina, da África, da Ásia, do Leste Europeu ou do Oriente Médio ganharam evidência no caldo contemporâneo. A Turquia não fica atrás, pelo contrário. Seu principal evento, a Bienal de Istambul, realizada desde 1987, se tornou um dos pontos cruciais dessa atual cartografia das artes visuais. Seus artistas, por sua vez, se multiplicam, encontrando seu lugar entre o público e o mercado internacionais. Sinal de que o país vai além dos clichês disseminados em redes televisivas ou em publicações de turismo.


Obra da artista  Nilbar Güres é conhecida no mundo pelo engajamento. Foto: Divulgação

Alguns creditam essa guinada ao dito crescimento econômico da Turquia nos últimos 15-20 anos, que reverberou no aumento da difusão e comercialização das obras locais. Outros acreditam em um movimento global. Enquanto isso, especialistas turcos percebem, na verdade, um amadurecimento interno e gradual desse campo artístico desde os anos 1990, consolidando-se nos 2000 com um processo de profissionalização e institucionalização da cena, que ainda enfrenta suas dificuldades. Sobre isso, a curadora Duygu Demir diz o seguinte, considerando a complexa história política do país, que viveu três golpes: “Com o estabelecimento da Bienal de Istambul, em 1987, e o fim da Guerra Fria, em 1989, laços mais fortes foram estabelecidos entre artistas que viviam na Turquia e o resto do mundo, como canais de comunicação, e uma influência de histórias concretas do Leste e Oeste criaram um território fértil de experimentação artística”.

Na visão de Esra Sarigedik, diretora sênior da Galeria Rampa, em Istambul, “nós estamos num tempo em que o mundo está começando a olhar o Leste mais do que a focar no Oeste”. Por “Leste”, entenda-se Leste Europeu (ou Oriente); por “Oeste”, países do Ocidente. Ou seja, enxergar a Turquia, e o que acontece em sua geografia de fronteira, é uma atitude política, sobretudo para nós, ocidentais – mesmo que isso signifique, para alguns, só um interesse de mercado. A performer turca Nezaket Ekici, radicada na Alemanha desde a infância, conta que, há uns cinco anos, a produção artística do seu país esteve super em alta na Europa, entre galeristas e colecionadores. Logo depois, veio o carimbo da editora norte-americana Phaidon, que colocou Istambul como um dos locais do futuro nas artes do século 21, com a publicação de Art cities of the future, em 2013.

O livro (336 páginas) reúne, além da metrópole turca, mais 11 cidades proeminentes, que vêm deslocando o eixo da arte contemporânea no planeta: São Paulo, no Brasil; Bogotá, na Colômbia; Beirute, no Líbano; Vancouver, no Canadá; Singapura, cidade-república; Seul, na Coreia; Cluj, na Romênia; Nova Deli, na Índia; Joanesburgo, na África do Sul; Lagos, na Nigéria; e San Juan, nas Filpinas. Em comum, a maioria delas possui o fato de serem centros urbanos relevantes em seus países, com estrutura significativa na área de cultura. De acordo com a Phaidon, são lugares que compartilham duas qualidades distintas entre seus artistas: um compromisso com a arte experimental e uma dedicação ao seu meio local. Ao todo, o volume apresenta uma seleção de 96 nomes (oito por cidade), responsáveis por sintetizar, apesar da complexidade da tarefa, uma parte desse mapa da arte contemporânea de nosso século, diferente em suas particularidades regionais, nacionais, locais e individuais, mas semelhantes, em relação a outras questões, como as linguagens utilizadas (instalação, pintura, desenho, objeto, vídeo, escultura, fotografia etc.) e, às vezes, o caminho poético percorrido. Obviamente, muitas outras cidades poderiam aí estar, mas as que aí estão não estão por acaso.

PLURAL, SINGULAR
“O mundo da arte turca é tão pluralista quanto em qualquer lugar do mundo e não há nenhum estilo ou tendência dominante”, analisa Marcus Graf, diretor de programação da principal feira de arte contemporânea da Turquia – a Contemporary Istanbul (CI), realizada anualmente desde 2006. Ele considera, porém, uma predominância de trabalhos de pintura, instalação e fotografia, em contraponto à performance e às novas mídias. Para Graf, essa cena é “caracterizada pelas mesmas tendências e estratégias vistas em todo o mundo”. “Existe uma espécie de linguagem global na arte contemporânea de nossos dias”, desmistifica o especialista, considerando, no entanto, que a Turquia tende a lidar com uma tradição cultural, um forte elemento narrativo presente nos trabalhos, e, em alguns casos, a lidar também criticamente com o “mundo social estabelecido”.


O trabalho do artista Halil Altindere se destacou levando a
periferia ao centro. Foto: Reprodução

A questão da pluralidade-singularidade. Do clichê global-local. Eis um paradoxo, aliás, que parece ter se transformado na mola propulsora da arte contemporânea no século 21. E isso ajuda uma cidade como Istambul, e sua cultura em mosaicos, a ser um ponto de luz para os satélites desse circuito global. Segundo Graf, a ebulição da cena artística turca veio a partir do momento em que ela “mudou de local e fechada para ser fortemente orientada para o cenário internacional” e “a imagem de Istambul foi de uma grande cidade ocidental moderna para uma metrópole globalmente interconectada”.

“Nos anos recentes, a cena artística turca cresceu em uma escala sem precedentes. Instituições culturais privadas e museus reabriram renovados, em prédios históricos multimilionários – no geral, antigas residências da aristocracia da cidade. Existem, pelo menos, duas feiras de arte competitivas (Contemporary Istanbul e Art Internacional Istanbul); relatos de quebras de recordes de leilões (domésticos e estrangeiros); uma proliferação de espaços sem fins lucrativos, programas de residência artística e iniciativas artísticas independentes; sem contar as galerias pipocando nos bairros do lado europeu da cidade (onde Beyoğlu é um ícone nesse sentido)." Eis as palavras de abertura do texto escrito pela curadora turca Duygu Demir para o capítulo da Turquia no livro Art cities of the future. Tendo trabalhado como programadora do Salt, um desses centros culturais de exposição e pesquisa em arte contemporânea que emergiram no atual cenário em Istambul, ela foi convidada pela Phaidon para selecionar artistas turcos representativos dessa nova cena no país.

Na sua lista, estão nomes já consagrados no circuito (para nós, difíceis de memorizar e pronunciar): Halil Altındere, Aslı Çavuşoğlu, Cevdet Erek, Köken Ergun, Esra Ersen, Nilbar Güreş, Gülsün Karamustafa e Ahmet Öğüt. Em sua maioria, são artistas nascidos na Turquia nas décadas de 1970 e 1980, com exceção de Gülsün Karamustafa, de 1946. Tida como “a rainha-mãe da cena artística de Istambul”, Gülsün, aliás, é um caso peculiar. Primeiro, por sua biografia: como estudante e ativista política, ela foi presa em 1971 pelo regime militar turco, tendo passaporte negado até 1986. Segundo, por sua carreira, cujo início teve foco na pintura e depois se ampliou para uma obra múltipla, em escultura, vídeo, fotografia e instalação, plataformas para discursos sobre as diferenças entre Leste e Oeste, rural e urbano, em estéticas pop e kitsch.

Além de sua lista oficial, a curadora menciona outros exemplos relevantes. É o caso de Altan Gürman (1935-1976), tido como um precursor. Segundo ela, Gürman foi o primeiro a transformar a herança das vanguardas europeias em uma abordagem crítica da realidade na Turquia – e não em mera imitação superficial dos modernistas a serviço de uma estética nacionalista, como aconteceu com alguns artistas enviados à França. Gürman viveu m Paris durante a Segunda Guerra e, no golpe de 1960, na Turquia, serviu ao exército. Ao emergir como artista, adotou técnicas dadaístas, como a colagem, para “questionar mentalidades burocráticas e militares”.

NOMES
Se antes era difícil identificar uma cena na Turquia, hoje é ainda mais para identificar quais os artistas merecem atenção em meio a tanta gente criando. Independentemente dos melindres e dos jogos que tendem a pautar o campo artístico, alguns entrevistados desta reportagem arriscaram fazer um apanhado de nomes relevantes, enquanto outros se esquivaram da resposta. Sendo assim, quais seriam, então, os artistas mais importantes do país atualmente? A resposta pode estar em acervos de vitrine, como o do Istanbul Modern, talvez o maior centro de difusão da arte contemporânea na Turquia; na lista de uma bienal; ou ainda entre os mais vendidos pelas galerias ou mais badalados pelo circuito internacional.


Gülsun Karamustafa apropriou-se da  herança otomana para criar esta colagem pintura. Foto: Reprodução

Em 2014, o site Art Radar – Tendências da arte contemporânea e notícias da Ásia e além publicou um artigo curto com o perfil de “10 artistas turcos para se dar atenção”. Nessa lista, estavam nomes da performance, como a já mencionada Nezaket Ekici (presente no acervo do Istanbul Modern); das grandes instalações, como Mehmet Ali Uysal e o seu pegador gigante, do site specific Skin II; das grandes esculturas, como Osman Dinç; da arte abstrata, como Ayten Turanlı, Nejat Satı e Gülay Semercioğlu; da arte figurativa, como Horasan e Ümmühan Yörük; das experimentações vanguardísticas, como Nancy Atakan; e das experimentações em objetos, como Volkan Aslan. Curioso perceber que são artistas de gerações e assinaturas muito distintas, mas, em boa parte, já consagrados no meio.

Apesar de considerar uma tarefa difícil, a diretora da Bienal de Istambul Bige Örer arrisca mencionar alguns exemplos de artistas “com práticas interessantes” na Turquia: Aydan Murtezaoğlu, Bülent Şangar, Meriç Algün Ringborg e Cevdet Erek – este último também presente na lista da curadora Duygu Demir. Bige Örer ajuda a lembrar, como fez Duygu, que as artistas Ayşe Erkmen e Gülsün Karamustafa, também citada anteriormente, são exemplos de referência histórica, assim como Füsun Onur e Sarkis – sendo este último o único homem. Aliás, é bastante interessante a presença das mulheres na cena de arte contemporânea da Turquia, cuja fama é de ser uma sociedade machista e conservadora. Isso pode ser observado tanto entre artistas quanto entre especialistas, curadoras, gestoras, galeristas etc., o que acaba resvalando nas poéticas das obras, como veremos mais adiante.

Fazendo uma análise do boom da arte contemporânea turca, Bige Örer precisa o ano de 2010 como um marco, coincidindo com o fato de Istambul ter sido escolhida a capital cultural da Europa. “Essa energia continuou pelos anos seguintes, mas começou a declinar por volta de 2013”, acredita ela, lembrando também que 2013 foi um ano importante internamente para essa mesma cena. Sim, enquanto o Brasil vivia as inúmeras manifestações de junho, desencadeadas pelo Movimento Passe Livre, Istambul saía às ruas para protestar contra um projeto de especulação imobiliária, apoiado pelo governo, que poria abaixo o Gezi Parkı, na famosa Praça Taksim, para dar lugar a um complexo comercial-militar-religioso. Graças à mobilização, o parque foi salvo. “Acredito que a resistência do Gezi trouxe uma agenda importante para a linguagem da arte contemporânea na Turquia, com reflexo direto na sua realidade política, econômica e social”, analisa. Para ela, de todo modo, essa cena artística “precisa ter mais estruturas estáveis que deem suporte contínuo aos artistas, uma visibilidade maior à nova geração”, além de espaços para a experimentação.

Embora lamente a ausência de estruturas e aportes públicos para a cultura e a arte no país (e quem aqui já não viu esse filme?), assim como a ausência de espaços alternativos, Bige Örer considera a realização da Bienal de Istambul um preenchimento de lacuna de extrema importância. “A cada dois anos, a mostra cria um espaço para artistas da Turquia e ainda dá a eles uma visibilidade internacional. Além disso, tem a missão educativa de tornar familiar a arte contemporânea para os jovens; aliás, existem muitos cuja primeira exposição da vida é a bienal”, enaltece. “Organizada pela IKSV – Fundação de Istambul para a Cultura e as Artes, a bienal tem sido um alavancador para as artes contemporâneas na Turquia. Estabeleceu novas relações entre os espaços da arte e os espaços públicos, e a criticidade, como elemento do fazer artístico local, se espalhou pela cena por causa da influência duradoura da bienal e do debate sobre ela. Tais discussões geralmente focam no conceito curatorial do evento e, como resultado, um interesse em curadoria se desenvolveu na nova geração”, atesta a diretora, na função desde 2003.

Mesmo sendo um misto de publicidade e experiência, a fala de Bige Örer ecoa também, de forma mais ampla, entre aqueles que não trabalham diretamente com a bienal. Para Duygu Demir, o fato de a mostra “ter facilitado uma geração de artistas cujo trabalho confrontava temas sociais urgentes, como a islamização assustadora da Turquia, a batalha por igualdade de gêneros e o conflito curdo”, deu a ela uma legitimidade própria. Já Marcus Graf acredita que, junto à feira Contemporary Istanbul, a bienal é o mais importante evento de arte contemporânea no país.

Em suas posições solares, tanto Istambul quanto sua bienal acabam por fazer girar um sistema de “estrelas”, “constelações”, “asteroides” e “cometas” dentro deste mundo chamado arte. 

Ler também:
Bienal: A emersão de Istambul
Por uma crença na arte

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