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Como viajar sem sair do lugar

Narrativas de viagens levam o leitor a regiões e épocas diferentes, acompanhando o autor em seu deslocamento, suas impressões, dúvidas e angústias, num exercício de empatia

TEXTO Rodrigo Casarin

01 de Agosto de 2016

O navegador brasileiro Amir link leva-nos a lugares inóspitos e intocados do globo

O navegador brasileiro Amir link leva-nos a lugares inóspitos e intocados do globo

Foto Divulgação

[conteúdo da ed. 188 | agosto de 2016]

“As viagens têm um valor arquetípico. Especialmente as mais ousadas, para lugares distantes, de caráter exploratório. São uma força que move homens e mulheres de todos os tempos e de todas as partes a saírem da zona de conforto para se arriscarem na experiência do diferente, do estranho, do novo. Viajantes desse quilate são movidos mais do que pela simples curiosidade. São impelidos por um movimento psíquico, profundo, que faz um Richard Burton arriscar-se à degola, explorando sob disfarce a Meca reservada exclusivamente aos muçulmanos em peregrinação, proibidíssima aos infiéis. Que faz um Amyr Klink abandonar o quase paraíso tropical de Parati para colocar a pele à dura prova nas geladíssimas águas solitárias da Antártica. Suas histórias são impulsionadas pelo motor interno da expansão da consciência, que alarga o alcance da noção de quem somos, de quem é o outro, do que é o mundo, do que compõe esse oceano de diversidades de múltiplos níveis e dimensões onde estamos inexoravelmente imersos, como partículas supostamente inteligentes do grande mistério da existência.”

A citação acima é o trecho de abertura de Viagens, textos, interfaces, prefácio escrito pelo doutor em Ciências da Comunicação e viajante Edvaldo Pereira Lima para o livro Em trânsito — Um estudo sobre narrativas de viagem, resultado de uma pesquisa de doutorado realizada por Renato Modernell. Mas viagens do quilate das mencionadas pelo prefaciador costumam ser exceções na vida de qualquer pessoa – a não ser para aquelas que trabalham no campo ou dispõem de tempo e dinheiro para tais empreitadas. Na maioria dos casos, além de viagens esparsas, o que sobra para cada um é buscar alternativas para conhecer outros cantos do mundo. 

Uma forma de realizar deslocamentos incríveis pode ser a leitura de narrativas de viagens, tanto a de livros de ficção quanto de não ficção. Enquanto o corpo do leitor repousa onde ele se sente confortável, sua mente o transporta não apenas para lugares diferentes, mas também para épocas remotas. Mais que isso, em tempos de fácil acesso a imagens e informações de praticamente qualquer canto do planeta, acaba sendo uma experiência enriquecedora, lúdica e esclarecedora acompanhar um autor e vivenciar seu deslocamento através de suas impressões dos destinos, dúvidas e angústias. A viagem por meio de livros e, portanto, pela experiência de terceiros, acaba proporcionando ao leitor-viajante um grande exercício de deslocamento e empatia.

Isso, principalmente, na narrativa de viagem moderna. No artigo Viagens reais, viagens literárias, Sandra Nitrini, professora titular de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, aponta a mudança desse tipo de texto ao longo dos últimos séculos.“O gênero narrativa de viagem tem uma longa história. Para se ter uma ideia geral de sua transformação, tomando-se como ponto de partida o século XVI, o século das descobertas, a crítica tem assinalado a passagem da narrativa de descoberta e aventura, na qual o mundo exterior e seu (re)conhecimento seriam o alvo principal, à narrativa de uma experiência, que colocaria o indivíduo viajante no centro de suas preocupações. Esta evolução temática é acompanhada por uma profunda transformação das modalidades narrativas da literatura de viagem: a relação pseudo-objetiva de um narrador-personagem-testemunha perde progressivamente vigor e pertinência, para dar lugar à narrativa pseudosubjetiva de um narrador-personagem-ator: seu propósito não é mais apresentar um universo mais ou menos novo e desconhecido, mas o de dar conta dos ecos deste universo na individualidade de quem viaja e observa.”

Há diversos textos de grande relevância histórica que se encaixam na primeira onda, por assim dizer, da narrativa de viagem. Exemplo que nos é bastante caro é a carta que Pero Vaz de Caminha envia a Portugal logo que as caravelas lusitanas chegam ao Brasil. “Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e fruitos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”, escreve no relato sobre as terras e hábitos que desconheciam até então. Outro nome cujas anotações dos deslocamentos ficaram famosos foi o de Marco Polo, comerciante italiano que registrou em diversos textos o que viu na Rota da Seda que ligava seu país à China.

Indo na direção radicalmente oposta de Caminha e Polo temos  o contemporâneo Amyr Klink. Difícil pensar em uma viagem que represente melhor o “universo na individualidade” do que atravessar o Oceano Atlântico sozinho, dentro de um barco. Apesar de a aventura ser o grande mote de Cem dias entre céu e mar, são o aspecto pessoal, os sentimentos, as sensações e angústias de Klink que sobressaem na narrativa da obra, um dos best-sellers recentes do gênero no Brasil.

RUMO AO ORIENTE
Mas voltemos às narrativas nas quais o mundo exterior também ganha um belo retrato, dividindo as atenções com o universo interior dos escritores. Um dos autores mais procurados nesse campo é o norte-americano Paul Theroux, um apaixonado por trens que já escreveu sobre mais de 20 viagens. Em sua primeira experiência de deslocamento transformada em livro, saiu de Londres, perambulou por Bombaim, Kuala Lumpur, Saigon e diversas outras cidades e vilarejos até chegar a Tóquio. Da Inglaterra para o Japão e de novo para casa, utilizou quase que exclusivamente o transporte ferroviário, indo pelos famosos trilhos do místico Expresso Oriente e voltando pela congelante Transiberiana. A viagem aconteceu no começo da década de 1970 e foi registrada em O grande bazar ferroviário, um clássico do gênero. O trajeto foi refeito por ele há alguns anos e registrado no livro Trem fantasma para a Estrela do Oriente (2008), que, além de uma narrativa de viagem, constitui-se um precioso registro das mudanças ocorridas nesses lugares.

As viagens feitas por Theroux são marcadas também pela gente que encontra pelo caminho. São desde encontros fortuitos – o taxista, a recepcionista do hotel – até escritores renomados. Um desses grandes momentos se deu com Jorge Luis Borges, em Buenos Aires, durante uma viagem que cortava a América de norte a sul. Nesse fragmento de narrativa, presente em Até o fim do mundo, Theroux coloca o leitor na sala de um dos maiores artistas de todos os tempos. “Não havia tapetes no chão, para que o homem cego não tropeçasse; nenhuma mobília mal colocada contra a qual ele pudesse colidir. Não se via um grão de poeira no chão brilhante. As pinturas eram indefinidas, mas as gravuras em metal eram identificáveis […]. Havia uma grande variedade de livros. Um canto era quase todo ocupado por edições da Everyman, os clássicos em traduções inglesas – Homero, Dante, Virgílio…”, escreve, antes de contar como foi o encontro com o mestre argentino, que termina com Borges convidando-o a voltar na noite seguinte para lhe fazer uma leitura de Edgar Allan Poe.

As viagens de Theroux costumam ser um tanto convencionais, ainda que marcadas pela aventura. Há autores viajantes que optam por elementos pouco habituais para lhes fazer sair de casa, o que, invariavelmente, acaba propiciando experiências singulares também ao leitor. O italiano Tiziano Terzani, por exemplo, deixou sua terra natal e partiu para o Extremo Oriente sem pegar aviões por um motivo um tanto quanto excêntrico. Se Theroux fez caminho semelhante pela convicção de que por terra viajamos melhor – aproveitando cada cultura e dando mais tempo a nós mesmos para desfrutarmos os lugares –, Terzani seguiu por chão graças a uma profecia: um adivinho tinha lhe dito que não voasse de jeito nenhum ao longo do ano de 1993; as chances de morrer eram enormes.

Daí surgiu o livro Um adivinho me disse, que leva o leitor ao sudeste asiático, onde o autor recorrentemente procura outros adivinhos para confirmar ou não tal profecia. “Eu era o primeiro estrangeiro para quem lia o futuro. Seu método consistia em partir do ano do nascimento, perguntar um número inferior a 109, e com uma varinha de prata fazer complicadas contas nas cinzas, cancelá-las, fazer outras e traçar da vida um quadro que em um instante estava ali e no instante seguinte desaparecia com um simples movimento da caixa que devolvia às cinzas uma superfície lisa, sem marcas. Gostava dessas verdades porque eram mais efêmeras que os horóscopos escritos no papel”, relata em certo momento, colocando quem lê a obra também à frente daquele futurologista do outro lado do mundo, na primeira metade da década de 1990.

Outro escritor que vai para aqueles cantos do planeta propulsionado por uma razão heterodoxa é Nick Tosches, que deixou Nova York e perambulou pela Tailândia, Camboja e Hong Kong e com um objetivo claro: encontrar alguma casa de ópio para vivenciar a esfumaçada tradição relegada e ilegal em praticamente todo o mundo, o que invariavelmente leva autor e leitor para uma viagem pelo submundo dos países por onde passa. 

“É uma cidade de muitas cobras. A noite é abrandada apenas pelo brilho suave das lanternas coloridas. Com o canto do olho, vejo uma enorme criatura rastejando perto de mim: uma píton de espessura assustadora. Mas seus olhos se erguem e fitam os meus, e são olhos humanos: é um mendigo sem ombros retorcendo-se sinuosamente por entre as mesas, sobre a terra escura e fria. Seu olhar humano fica gélido como o de uma naja”, escreve, registrando um desses momentos nem sempre solares que costumam marcar qualquer viagem que não se limite a um resort em que se passa dias isolados da realidade.

Claro que viver o que Theroux, Terzani, Tosches e muitos viajantes-escritores – como Airton Ortiz, talvez o Paul Theroux tupiniquim, ainda que sem preferência pelos trens – viveram é a melhor opção para qualquer um. Só assim se pode ter as próprias vivências e reflexões sobre cada experiência. No entanto, se a quantidade de lugares a se conhecer é muito maior do que os recursos disponíveis, deslocar-se na companhia de escritores costuma ser um aprendizado deveras enriquecedor. 

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