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“Nossos problemas são latino-americanos”

O maestro pernambucano Lanfranco Marceletti Jr. fala sobre os desafios de sua profissão, seja no México ou no restante do continente

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Outubro de 2016

O maestro e ex-pianista recifense Lanfranco Marceletti Jr.

O maestro e ex-pianista recifense Lanfranco Marceletti Jr.

Foto Divulgação

[conteúdo da ed. 190 | outubro de 2016]

O maestro e ex-pianista recifense Lanfranco Marceletti Jr. mal é conhecido pelo público pernambucano – a única experiência contínua de Lanfranco à frente de uma orquestra local foi com a Orquestra Criança Cidadã, de 2011 a 2013 –, mas a oportunidade de revê-lo acontecerá este mês, na abertura da turnê da Orquestra Sinfônica de Xapala pelo Brasil, de 7 a 16 de outubro. O primeiro concerto da orquestra sinfônica mais antiga do México será no Teatro Guararapes, dia 7, às 21h. No mesmo dia, pela manhã, os músicos da OSX conhecerão a sede da Orquestra Criança Cidadã e alguns deles ministrarão oficinas para alunos do projeto – Lanfranco fez questão dessa contrapartida social, que também será oferecida ao Instituto Baccarelli, em São Paulo.

Sediada na capital do estado de Veracruz, a OSX já organizou um festival internacional de violoncelos em 1959, que contou com a presença de Pablo Casals e Heitor Villa-Lobos, e trouxe para a turnê, que segue por João Pessoa, Natal, Rio de Janeiro e São Paulo, um repertório com peças de Marlos Nobre (1939), Silvestre Revueltas (1899-1940), Claude Debussy (1862-1918), o icônico Prelúdio para a tarde de um fauno, e Richard Strauss (1864-1949), a suíte da ópera O cavaleiro da rosa.

De Marlos Nobre, será tocada a Passacaglia, “peça que utiliza uma técnica de composição barroca, mas com usos de ritmos e melodias brasileiras”, segundo Lanfranco, que, em seu primeiro concerto como maestro titular em Xalapa (em tempo, leia-se “Ralapa”), abriu o programa com outra peça do conterrâneo: Convergências. “Era uma maneira de mostrar de onde vinha. E agora, na turnê, fazemos o mesmo. Queria que tanto mexicanos como brasileiros pudessem estar em contato com a música de tão grande compositor nosso”, afirma.

De Revueltas, a escolha foi pela cativante suíte Redes, escrita para um filme homônimo de 1936 dirigido por Fred Zinnman e Emilio Gomez, uma das partituras preferidas do regente. “Estou aqui no México há quatro anos e meio e tenho tido a oportunidade de me acercar muito à música deste grande compositor. E cada vez que eu a rejo, mais fico impressionado com a qualidade da música de Revueltas. É fantástico. Quero que todos no Brasil vejam que grande compositor é esse”. No intervalo de uma viagem entre a Suíça – onde participava de um projeto com a Sinfônica de Berna – e o México, Lanfranco concedeu esta entrevista à Continente, em que comenta sobre as similaridades do repertório erudito brasileiro e mexicano, a convivência com os maestros Alerto Zedda e Anton Coppola e a antiga carreira de pianista.

CONTINENTE A música sinfônica mexicana ainda tem maior espaço que a música sinfônica brasileira no repertório, e nas gravações, de orquestras norte-americanas e latino-americanas ou já há um equilíbrio maior nesse sentido?LANFRANCO MARCELETTI JR. Acredito que exista já um equilíbrio. O Brasil, com nomes como Villa-Lobos, Mozart Camargo Guarnieri e Marlos Nobre, e o México, com Carlos Chavez, Silvestre Revueltas e José Pablo Moncayo, têm um peso enorme nas Américas em relação à música clássica e também nas gravações que são feitas. Acredito que os países latino-americanos estão ganhando cada vez mais seu merecido espaço no mundo discográfico por terem uma música contemporânea muito inovadora e, ao mesmo tempo, interessante ao público em geral.

CONTINENTE Que paralelo você traça entre o repertório sinfônico mexicano standard e o brasileiro do século 20?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Bem, temos caminhos muito paralelos nesse sentido. Por terem sido dois países de importância vital para os colonizadores – Espanha e Portugal –, o México, como a Nova Espanha, e o Brasil, sede do Reino de Portugal no início século XIX, tiveram uma atenção especial e oportunidades únicas. Então eu diria que, para começar, no século XIX ambos os países começam um processo de absorção da música clássica europeia, com músicos muitas vezes educados no velho continente e, ao mesmo tempo, com uma procura, mesmo que rudimentar, de uma voz própria, que chegaria mais tarde em nosso continente através da música nacionalista. Por serem terras privilegiadas pelos colonizadores, recursos existiam para esse tipo de investimento. No século XX, existe o encontro com a tradição folclórica nestes dois países. O Brasil e o México vão encontrando uma veia nacionalista forte que realça e reconhece as origens e realidades desses países-continentes. Em muitos sentidos foram pioneiros no continente latino-americano. O século XXI marca uma possibilidade de encontro com uma linguagem mais pessoal e, ao mesmo tempo, seguindo uma vertente global. Brasil e México têm uma incrível produção musical, com músicos contemporâneos jovens de grande talento e com uma visão que não deixa suas raízes, mas busca algo que nos una mais neste mundo cada vez “menor”.

CONTINENTE O que o levou a estabelecer-se no México, um país onde talvez nenhum regente brasileiro tenha seguido trajetória?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Pelo menos por cinco anos (2006-2011) estive colaborando com a Orquestra Sinfônica de Xalapa como regente convidado e tivemos a oportunidade de nos conhecer bem. Também fui conhecendo Xalapa e o México nesses anos, fazendo amizades e criando vínculos. Quando me elegeram diretor artístico, não tive dúvida de que queria trabalhar com eles. É uma orquestra de primeira qualidade e com uma grande tradição no país. O resultado é que adoro o México e sou muito grato pelo carinho e atenção que me dá.

CONTINENTE Em Pernambuco, você chegou a reger a Orquestra Criança Cidadã por cerca de dois anos e foi cogitado por músicos da Sinfônica do Recife, há alguns anos, para ser diretor artístico dela. Hoje, qual a sua ligação profissional com sua cidade natal?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Infelizmente, pouca. Espero com o tempo criar mais vínculos. Amo minha cidade e tenho muita admiração e carinho pelos meus colegas músicos. Espero um dia poder contribuir com o conhecimento adquirido em todos esses anos para criar mais oportunidades e público para a música clássica.

CONTINENTE Você também tem formação acadêmica como pianista, chegando a ser premiado no concurso Jovens Solistas de Roma, em 1988. Você ainda desenvolve a carreira de intérprete ou a deixou para dedicar-se inteiramente à regência?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Antes de começar a reger, deixei a carreira pianística. Foi um período em que desisti da música como profissão (aos 25, 26 anos) porque não acreditava que podia ir em frente com ela. E, nesse momento de distanciamento, conheci a regência por causa de um trabalho que fazia na TV Cultura de São Paulo. Realmente, aceitar-me como regente levou um pouco de tempo. É uma profissão de grande responsabilidade, difícil e com a necessidade de uma vida para se aprender. Nestes anos como regente, me apresentei algumas vezes como pianista, em recitais com cantores, de música de câmera, inclusive, regendo e tocando. Mas preciso de muito tempo para preparar-me e ultimamente não tenho tido esse tempo.

CONTINENTE E que outros trabalhos você vem coordenando ou executando, além do comando da Sinfônica de Xalapa?
LANFRANCO MARCELETTI JR. À parte os concertos que tenho como maestro convidado, decidi me dedicar completamente à OSX (assim a chamamos no México). Gosto de estudar, e para isso preciso de tempo. E como sou também responsável pela parte administrativa da orquestra, achei que, para poder fazer algo de relevante por ela, precisava dedicar-me. Porém, espero em breve começar alguns projetos paralelos, até porque em três anos termina meu contrato com a OSX. Pela regra interna atual, os diretores artísticos passam no máximo oito anos em frente à orquestra, o que acho muito saudável para ambos, regente e orquestra. Sou muito agradecido por ter sido primeiramente eleito e depois reeleito pela orquestra. É um grande motivo de orgulho.

CONTINENTE Como é seu convívio com Alberto Zedda, grande especialista do repertório barroco e da ópera ligada à tradição do bel canto? O que você absorveu dele como pessoa e como músico?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Meu convívio com ele é um dos grandes presentes da vida. Conheço o maestro desde os anos 1980, quando dei aulas de teoria musical e solfejo à sua filha. Daí nasceu um carinho muito grande pela família. Mas nunca misturei minhas intenções profissionais com essa linda relação que tinha, e tenho, com eles. Quando comecei a reger, não quis dizer nada ao maestro, pois queria tempo para estar pronto para me apresentar como tal. Mas, em 2002, sua filha mostrou um vídeo meu regendo a Sétima de Bruckner com a Estadual de São Paulo e ele se interessou. Aí começa minha relação profissional com ele. Na verdade, estar com o maestro é como estar inspirado a tempo completo! Infelizmente, já não posso mais estar com ele como antes, quando passava pelos menos seis semanas por ano ao seu lado. Mas, quando posso, vou ajudá-lo no que for preciso e volto sempre regenerado, e ainda mais amante da música que nunca. Além de seu incrível conhecimento em Rossini, o maestro pode falar de todos os gêneros da música clássica com grande intimidade e conhecimento. Agradeço muito à vida pelo tanto que aprendi com ele. Sua imaginação musical é tão assustadora, que tudo o que ele toca toma vida, mesmo que tenha um valor questionável. Grande artista e homem.

CONTINENTE E com Anton Coppola?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Pensava justamente que a única pessoa que vivi o mesmo que vivo com Zedda foi com o Maestro Coppola. Nossa, que inspiração esses homens! Fui assistente dele na première de sua ópera Sacco e Vanzetti em Tampa, Florida, e tanto ele como Zedda têm essa característica de serem geniais, mas, antes de tudo, generosos e humildes. Eles te ouvem e aceitam sugestões. E se o que dizemos não tem sentido, se tomam o tempo (tomam o próprio tempo) para explicar por que não. Levo esses dois maestros todos os dias no meu coração, quando trabalho. São exemplos de um compromisso férreo com a música e de uma ética exemplar de comportamento frente às responsabilidades que têm.

CONTINENTE As orquestras sinfônicas mexicanas sofrem dos mesmos problemas que a maioria das orquestras brasileiras, como falta de patrocínio, de insuficiência de quadros e de subvalorização salarial?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Idênticos. Sempre digo aqui que nossos problemas não são “mexicanos” (ou “brasileiros”…), mas “latino-americanos”. Infelizmente, ainda temos muito trabalho pela frente para mudar essa situação. Existem as exceções, mas não deixam de ser exceções…

CONTINENTE E o que o público brasileiro encontraria ao assistir a um concerto no México com obras de compositores contemporâneos daquele país? Quais os nomes e as obras de referência no século XXI?
LANFRANCO MARCELETTI JR. Acho que nosso público brasileiro encontraria uma música com uma linguagem que, como disse anteriormente, pode trazer algo de mexicano (ritmos, melodias), porém com uma proposta acessível a todos, pois busca chegar a uma linguagem universal. Nossa, existem tantas obras fantásticas de compositores mexicanos contemporâneos! Arturo Márquez, Ana Lara, Gabriela Ortiz, Antonio Juan-Marcos e Georgina Derbez são só alguns exemplos de compositores mexicanos do momento!

CONTINENTE Você sonha em voltar para Pernambuco, para viver ou para trabalhar?
LANFRANCO MARCELETTI JR. É uma pergunta difícil de responder, depois de tantos anos fora do Brasil, mas tenho, sim, muita vontade de criar algo para meu estado e minha cidade natal. Somos um povo muito musical e com grande capacidade de trabalho. Faltam os recursos e o reconhecimento da importância desta arte para nossa sociedade. Gostaria muito de ser parte de um projeto de grande escala nessa direção. Quanto a voltar a viver em Pernambuco, deixo à vida essa decisão. Mais que sonhar em voltar, Recife e Pernambuco seguem vivos no meu coração e na minha lembrança todos os momentos. No meu mundo, estão sempre presentes e de uma maneira ou outra, dando sentido à minha vida. 

 

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