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A sambada do Sertão

Pesquisador percorre núcleos de povoamento urbanos ou rurais no Nordeste em busca de reminiscências do samba

TEXTO Tiago Henrique

01 de Janeiro de 2017

Roda de samba na comunidade de Mundo Novo, em Buíque (PE), fonte de pesquisa do fotógrafo (2014)

Roda de samba na comunidade de Mundo Novo, em Buíque (PE), fonte de pesquisa do fotógrafo (2014)

Foto Tiago Henrique

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 193 | janeiro 2017] 

“Quem jogou a primeira semente no mundo? Ninguém sabe. E elas continuam brotando e mudando e se transformando. Quando vai acabar? Também ninguém sabe! No chã da lavoura, o samba é isso: sem começo e fim.”

João Bezerra, Buíque (PE), 24/10/2014

Quando eu era pequeno, no bar que ficava na esquina da rua da minha casa em São Paulo, todo domingo tinha um samba. Hoje, eu sei que tocavam Demônios da Garoa, Martinho da Vila, Bezerra da Silva e outros. Na época, morava com meus avós. Vó Leonor, criada na Zona da Mata de Pernambuco, depois que se converteu, passou a detestar aquela zoada. Vô Antônio, um sertanejo sisudo da Paraíba, como fazia tudo o que ela queria, fingia que não gostava. A casa da minha família ficava em cima da deles e a escada passava em frente à janela da cozinha. Vô Antônio fazia o melhor café do mundo e toda vez que eu passava, parava no meio da escada e pedia um copo. Vô servia o café, às vezes reclamando das minhas traquinagens, da malcriação, de um vidro que nem tinha sido eu que havia quebrado, mas levava a culpa. Num domingo daqueles, ele escolheu ficar calado e o som do samba da esquina pareceu mais alto. Quebrando o silêncio com aquela voz grossa, disse: “Isso não é samba!” – puxou alguns versos, loas e lembro de até ter feito um repente.

Aquela exclamação viria a ressoar em minha memória mais ou menos 20 anos depois. No decorrer desse período, vô e vó faleceram, eu me tornei fotojornalista e resolvi morar entre o Agreste e o Sertão de Pernambuco. Foi durante uma das visitas a uma comunidade quilombola que já documentava há alguns meses, na zona rural de Buíque – onde vivo desde 2014, a 300 km do Recife – que ouvi os mesmos versos cantados por meu avô tanto tempo atrás. Era como se eu estivesse frente a frente com ele e o seu samba novamente. Os versos eram entoados por um senhor relativamente alto, pés descalços, suor escorrendo pelo rosto. Estava quente, mas ao pé da serra soprava uma brisa. Na mão, uma lata enferrujada, cujos grãos enfiados ali há anos a faziam de ganzá. “Eu tenho isso desde quando era novo, meu pai fazia samba com ele”, me disse, ofegante, Seu João Bezerra, 80 anos, um dos cantadores mais antigos ainda vivos da comunidade.

No mesmo dia, já em casa e meio atordoado com aquela experiência, revisitei as fotos que fazia durante as frequentes sambadas que aconteciam na comunidade. Percebi nas imagens a força dos laços identitários que transcendem a consanguinidade e o parentesco, e vinculam-se a ideias tecidas sobre valores, costumes e lutas comuns. Ali, o samba motivava tensões ao mesmo tempo em que realizava um papel ritualístico. Vi o movimento assumir vários planos de significação: dança, ataque, conflito, ódio, revolta, medo, prazer, riso, esperança e liberdade.

***

Mesmo correndo séria e talvez irrecuperavelmente o risco de tornar obscuro aquilo que, na melhor das circunstâncias, já seria difícil de dar clareza e intensidade adequadas em poucas linhas, minha busca aqui não é por primordialismo ou por uma “paternidade” do samba e, sim, por oferecer um contraponto que amplie a visão e a reflexão em torno de uma das maiores lacunas da história do ritmo musical que se tornou um dos pilares da identidade brasileira.

Por conta própria, comecei a pesquisar e a fotografar as sambadas em vilas, povoados, comunidades indígenas e quilombolas, do Sertão ao Litoral, investigando as reminiscências do samba, sempre traçando um paralelo com as realidades de quem as faz. Essa imersão em andamento me trouxe questionamentos que não fecham com a ideia do samba ter “nascido” no Rio de Janeiro. Num país como o Brasil, onde, de tempos em tempos, tem-se a sensação de redescoberta, pareceu-me curioso, para não dizer injusto, dar mais destaque a um fato repleto de controvérsias, como é a criação de Pelo telefone, do que às celebrações do centenário do samba feito pelas Irmãs Lopes de Arcoverde. A família de Ivo Lopes já sambava coco no Sertão bem antes das placas identificarem a cidade como a “Capital do Samba de Coco”. No Recife, a Nação Porto Rico também celebrou um século sambando maracatu na cidade. Isso, só para citar dois exemplos de comemorações de 100 anos em 2016.

Infelizmente, é escassa a documentação que se tem das manifestações do samba no Sertão, ao passo que as interferências criativas que se desdobraram na criação do samba carioca são fartamente documentadas – ao menos a partir do século XX. Em 2002, o livro A pré-história do samba, do pernambucano Bernardo Alves, foi modestamente lançado, com pouco mais de 300 exemplares, reunindo mais de 20 anos de pesquisa do autor em livros, partituras, notícias de jornal e gravações. A publicação estabelece a origem do samba entre os antigos índios kiriri do Nordeste brasileiro com informações detalhadas. A solidez dos argumentos reunidos na obra chamou a atenção do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, que, em 2006, esboçou começar um programa que visava à ampliação das pesquisas sobre o samba no Nordeste. Para contribuir com a empreitada, o ministro convidou o jornalista cultural e pesquisador Fábio Gomes, que é um grande divulgador da obra de Alves.

Segundo Fábio, Bernardo entrou em contato com ele pouco antes de falecer, em 2004, após ler seu texto O samba n’Os sertões, de 2002, no qual analisa a presença da palavra samba em algumas passagens do clássico livro de Euclides da Cunha, reforçando a ideia de que o termo já era de uso corrente no sertão baiano antes do século XX. Ambos tinham a intenção de trabalhar juntos na pesquisa, mas o falecimento de Bernardo pôs fim à ideia. Os planos com o MinC também não deram certo. O órgão encontrou, nas palavras de Fábio, “dificuldades em coordenar uma pesquisa tão ampla” e, mais uma vez, o trabalho não avançou. “Não se pode valorizar o que não se conhece” – me disse Fábio em uma de nossas conversas por e-mail, referindo-se à pouca amplitude e interesse em relação às questões levantadas na obra de Bernardo Alves.

Por mais que reúna informações importantes, o livro acabou não sendo bem-aceito no âmbito acadêmico. O professor dos programas de pós-graduação em Educação Contemporânea, Música e coordenador do Laboratório de Estudos Antropológicos da UFPE, Sandro Guimarães Salles, disse-me que conheceu Bernardo e que eles conversaram muito sobre o livro, mas não concorda com seu conteúdo por diversos problemas “teóricos e metodológicos”, e que “é provável que existam algumas relações entre os fenômenos denominados samba, mas essas relações não podem ser tratadas a partir dos pressupostos”.

O fim do século XIX viu o auge do pensamento nacionalista e o caráter multiétnico do país ser relegado por uma elite “intelectualizada” e “civilizada” à procura de um povo para a nação, como se refere Berthold Zilly, em Sertão e nacionalidade: formação étnica e civilizatória do Brasil segundo Euclides da Cunha. Um processo que, no sentido republicano do termo, formava cidadãos livres e iguais, com sentimento de identidade coletiva e um certo padrão de participação, ainda não  foi concluído e gerou estigmas sociais no Brasil contemporâneo. A perspectiva teórica reafirmada da origem do samba me parece ser a parte menos importante a ser debatida. A meu ver, é mais frutífera uma reflexão sobre o único ponto que, possivelmente, o samba dos sertões e dos morros tem em comum: uma história marcada por disputas, racismo, xenofobia e desigualdade.

MUNDO NOVO
O nome do lugar onde comecei a compreender minhas raízes não poderia ser mais significativo: Mundo Novo. Segundo a família de dona Josefa, presidente da associação quilombola do Mundo Novo, seu pai e seu avô chegaram ao município de Buíque com um grupo de escravos fugidos do Recife. A região é cortada por estreitas estradas abertas por vaqueiros e pelos antigos almocreves. O almocreve é uma figura importante para a disseminação do samba no Nordeste, por viajar longas distâncias levando mercadorias. Sr. Bentinho, 88 anos, é neto de almocreves e sempre morou na comunidade do Mundo Novo. Num depoimento, ele me disse certa vez:  “Minha família já possuía terras aqui quando eles chegaram. Os negros. Altos. Meu Avô já ‘almocrevava’ daqui para o Sul (Recife) e já sambava por aqui antes deles chegarem. Eles tinham o seu samba, nós outro… Depois misturou”.

Desde então, são os núcleos de povoamento urbanos ou rurais no Nordeste – que se formaram nas rotas de ocupação do Sertão até o Litoral, e onde há a presença de caboclos, indígenas e, posteriormente, negros – que investigo em busca de reminiscências do samba. Em cidades com essas características, como Buíque, Águas Belas e Pesqueira, a presença do samba é forte e nos remete a um período muito mais remoto.

Entre esses municípios, Arcoverde se destaca por conter uma história rica sobre o samba e boa documentação. Em 1916, a família Lopes saía de Correntes, Garanhuns, em direção à então Vila de Rio Branco, à procura de trabalho. Os avós e bisavós de Severina Lopes, 82, mestra do Coco Irmãs Lopes, nasceram entre índios e negros da região de Garanhuns e, muito provavelmente, foram eles que introduziram o costume na cidade.

Dona Severina conta que, na época, o samba tinha uma função específica: nivelar o chão das casas de taipa. Essa função é recorrente nas zonas rurais entre o Agreste e o Sertão. Seu irmão mais velho, Ivo Lopes, ficou conhecido na cidade pelas sambadas que promovia. Da “escola” que ele criou, saíram os grandes mestres do coco de Arcoverde: Lula, Damião e Assis Calixto, Biu Neguinho, percussionista responsável pela criação da batida característica do coco arcoverdense, e Cícero Gomes.               A história dessas pessoas e sua riqueza cultural me motivaram a começar o projeto que batizei de Chã: sem começo e fim, cujo propósito é documentar os elementos culturais associados a comunidades que mantêm as sambadas em suas tradições mais antigas, o cotidiano, seus contrastes sociais e a beleza de seus fazeres.

Os registros que tenho feito, detalhes sobre o projeto, além de um diário de bordo onde conto minhas experiências e as histórias detalhadas dos lugares por onde passo, podem ser acessados em www.semcomecoefim.com.br

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