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Edição #207

Março 18

Nesta edição

A epidemia da solidão

“Então, no dia seguinte, quando as quatro Marias cansadas foram trabalhar, ela teve pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão. Tinha um quarto só para ela. Mal acreditava que usufruía o espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! Usufruía de tudo, da arduamente conseguida solidão, do rádio de pilha tocando o mais alto possível, da vastidão do quarto sem as Marias.” Como sugeriu Clarice Lispector em A hora da estrela, a liberdade proporcionada pela ausência do outro – segundo Sartre, “O inferno são os outros” – é um elemento fundamental para que o ser humano aprenda a conviver consigo e aprofunde pensamentos e ideias.

A solidão é o motor para a criação e também contexto para várias narrativas (O grande Gatsby, O apanhador no campo de centeio, Dom Casmurro…), músicas (Dança da solidão, Paulinho da Viola; Solidão, Alceu Valença…), filmes (Cidadão Kane, Táxi driver, A liberdade é azul…).

Mas ela vem sendo apontada como o mal deste século, tão prejudicial à saúde quanto a obesidade. Vários estudos indicam que mais de uma em cada três pessoas sente-se frequentemente sozinha. Isso apenas nos países ocidentais.

Além de algo intrínseco ao ser humano, essa espécie de epidemia tem tudo a ver com a dinâmica do mundo contemporâneo moldado pelo capitalismo: longas jornadas de trabalho, engarrafamentos, isolamento em apartamentos, ausência de áreas de convivência urbana, falta de contato frequente com familiares e amigos, uso da tecnologia como mediadora das relações sociais e incentivo ao consumismo como escapismo.

Em janeiro, o Reino Unido, considerado o país mais solitário da Europa, resolveu lidar com a solidão não como um problema de ordem pessoal, mas como questão de saúde pública. O governo instituiu o primeiro Ministério da Solidão, para realizar ações socializadoras, com o intuito de diminuir, dessa forma, os gastos para tratar os efeitos negativos da solidão: diversas doenças, a depressão e o suicídio.

Neste mês, a nossa reportagem de capa aborda o tema, ouvindo pessoas que, por motivos variados, foram acometidas pela solidão, como também, profissionais que analisam as implicações do estado/sentimento de estar só, mesmo num mundo hiperconectado.

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