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Lançamento

Curtas narrativas sobre personagens célebres

Leia trecho do livro 'Pernambucanos imortais e mortais - trinta perfis e outras palavras', de Aluízio Falcão, que será lançado pela Cepe Editora

TEXTO ALUÍZIO FALCÃO

01 de Novembro de 2018

Ilustração Luísa Vasconcelos

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 215 | novembro de 2018]

Mário Pedrosa 

Um visionário da Política e da Arte

O pernambucano Mário Pedrosa nasceu em 1900, no Engenho Jurassau, em Timbaúba. Pouco depois, a família se mudou para a vizinha Paraíba. Ali, o rapaz estudou no colégio Diocesano Pio X e no Liceu Paraibano. Aos 13 anos, o pai usineiro decidiu que ele deveria continuar os estudos na Bélgica, em colégio dos jesuítas. Houve uma escala em Portugal, para recreio, mas o jovem adoeceu. Recuperou-se numa confortável quinta, em Viseu. Partiu em seguida para Château de Vidy, perto de Lausanne, onde se matriculou no Instituto Quiche e logo depois no Colégio Científico. Nele reuniu colegas brasileiros para formar um time de futebol. Destacou-se pelo ímpeto de suas jogadas e grande aptidão para brigas. Foi identificado pelo apelido de Sauvage.

No começo da Primeira Guerra, em 1916, Mário volta ao Brasil e vai morar no Rio, onde o pai é senador da República. Pratica o tênis e o futebol amador no Fluminense. Já meio cigano, estuda em Itajubá e faz provas em Campos. Empolga-se com os concertos no Teatro Municipal e com a leitura de Romain Roland. Assina revistas francesas, forma-se em Direito. Em 1924, conhece Mário de Andrade e outros modernistas. Interessa-se por suas ideias, mas a política é o seu maior entusiasmo. Ingressa no Partido Comunista, levado por Otávio Brandão. Funda uma revista, trabalha em jornal. Decide cursar uma escola “leninista” em Moscou, mas adoece no meio da jornada, em Berlim. Liga-se ao Partido Comunista Alemão, enquanto trata da saúde. Visita museus e vai a concertos. Decepciona-se fortemente com a expulsão de Trótski da União Soviética. Desiste de ir a Moscou. Em Berlim, inimigo feroz dos nazistas, mete-se em ruidosas brigas de rua com os milicianos de Hitler.

Em 1929, chega a Paris e lá permanece alguns meses. De volta ao Rio, reaproxima-se do Partido Comunista, mas enfrenta discordâncias, e prefere afastar-se. Mesmo assim vai a Buenos Aires e tenta convencer Prestes a reformular o Partido. Acaba por fundar com ele a Liga da Ação Revolucionária, que teve curta duração. O capitão Prestes dissolve a organização e Mário volta ao Rio, sempre buscando ação política.

Em 1930, é preso distribuindo panfletos “leninistas” na Praça Mauá. No ano seguinte, já em liberdade, adoece do “peito” como se dizia na época, ao diagnosticar tuberculose. Recupera-se durante 10 meses em um sanatório de Campos de Jordão. Vai para São Paulo em 1932, onde é novamente detido por dois longos meses, por atividades na Liga Comunista Internacionalista. Permanece na capital paulista até 1934, quando conhece Rubem Braga, simpatizante da esquerda, então com 21 anos. O jovem Rubem alegava reumatismo para não alistar-se no cangaço de Lampião ou na militância revolucionária.

Na biografia do cronista, escrita por Marco Antônio Carvalho, descubro a presença de Mário Pedrosa, sempre metido em situações de conflito. A primeira cena é uma batalha campal, na Praça da Sé, em 1934, envolvendo as Brigadas de Choque, formadas pelos integralistas, e seus adversários. “entre estes o crítico de artes plásticas Mário Pedrosa, que saiu da refrega com um tiro no pé e se tornaria amigo do forasteiro capixaba”.

Esse forasteiro era Rubem Braga, que assistiu ao tiroteio e publicou uma crônica em que criticou o bando fascista. Comentando centenas de prisões efetuadas na ditadura Vargas, o seu biógrafo informa que entre os presos estavam opositores do regime “que sequer apoiavam os sonhos de poder dos comunistas: os trotskistas de São Paulo, Mário Pedrosa à frente, que não concordavam com os métodos de Stalin, nem com a liderança de Prestes.”

Em 1935, quando se envolve com a Aliança Nacional Libertadora, frente única de esquerda, Mário é procurado pela polícia, chegando a passar dias inteiros na Biblioteca Nacional, “onde nenhum tira se lembrará de procurá-lo”. É processado, consegue um passaporte falso, embarca para a Europa. Sua mulher, Mary, com quem já tivera a filha Vera, é presa no Brasil, por sete meses.


O crítico de arte, jornalista, professor e político pernambucano
Mário Pedrosa. Foto: Reprodução

Na Europa, em 1938, Mário Pedrosa participa da fundação Quarta Internacional Comunista. Integra um comitê secreto de três membros. Um deles desaparece misteriosamente e seu corpo, dias depois, aparece boiando no rio Sena, com a cabeça cortada. Mário foge para os Estados Unidos, sossega um pouco e vai trabalhar na United Artist e na União Pan-americana. Mary deixa o Brasil e vai unir-se a ele, empregando-se no Departamento de Estado. Em 1940, com várias escalas em outros países, Mário retorna ao Brasil. É preso, obviamente. O seu pai consegue uma carta da União Pan -americana, convidando-o a voltar ao trabalho e assim, facilitando a sua libertação. Nos EUA inicia uma longa temporada de estudos.

Numa revista Manchete de 1954, longa matéria de Rubem Braga conta a trajetória do amigo Mário, desde a infância até aquele ano. Em 1999, ele ocupa extenso verbete na Enciclopédia de Ipanema, elaborada pelo escritor Ruy Castro. Ambos, Ruy e Rubem, narram a trajetória de Mário Pedrosa, cada um a seu modo. Em toda a juventude, e até muito depois dela, Mário dedicou-se, como já vimos, a tumultuadas batalhas pelo trotskismo. Quando, afinal, decidiu-se por estudos relacionados com a estética, optou pelas vanguardas, também incompreendidas em todas as épocas. Mário, portanto, sempre remou contra a corrente.

Rubem e Ruy marcam 1940 como o ano da inflexão artística de Mário Pedrosa, quando ele foi trabalhar no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ali, estudou intensivamente estética, arte e filosofia. No Brasil, em 1945, escreveu artigos semanais sobre arte no Correio da Manhã. Produziu várias teses sobre estética e se tornou professor da matéria na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro. Destacou-se igualmente, naquela década, por uma conferência de grande repercussão em Paris, proferida no Museu de Arte Moderna da França.

A questão da moderna arquitetura brasileira também esteve no centro das preocupações de Pedrosa. Há um livro importante sobre o tema, escrito pelo professor José Lira, da FAU/USP. Focando a presença no Brasil do arquiteto russo Warchavchik e sua integração, juntamente com Mário de Andrade e Lúcio Costa, no triângulo de forças que marcou a geografia urbana do nosso modernismo, Lira identifica Mário Pedrosa como um dos intérpretes do movimento e do seu entorno político:

(...) Segundo Mário Pedrosa, o processo da moderna arquitetura brasileira teria gerado uma nova contradição: não tanto entre o movimento negativo das vanguardas artísticas e sua síntese construtiva encarnada na arquitetura moderna, mas particularmente entre os ideais democráticos do funcionalismo europeu e seu comércio local com a ditadura. Segundo Otília Arantes, não se tratava exatamente de uma contradição: o próprio movimento moderno reencontrava afinal sua verdade na periferia do mundo capitalista em sua antiga franja colonial.

José Lira referia-se à obra Mário Pedrosa: Itinerário Crítico, de Otília Arantes. Em seu livro sobre Warchavchik, o professor da FAU/USP reproduz uma sugestiva fotografia em que o arquiteto russo aparece confraternizando com vários brasileiros, entre os quais Portinari, Cícero Dias e Mário Pedrosa.

Voltando um pouco à biografia de Rubem Braga, lembremos o avesso de uma confraternização, que foi a famosa “guerra dos escritores”, travada, em 1949, nas eleições para a presidência de sua entidade representativa:

(...) Mário Pedrosa atacava violentamente os fascistas, os comunistas, os liberais, a todos, enquanto José Lins do Rego berrava “Abaixo os comunistas”! ‘Abaixo os comunistas!’ Até ver a cara zangada de Graciliano Ramos, sentado um pouco atrás: “Não é com você não! Não é com você não!” Logo depois Rubem Braga agarraria o disputado livro de atas: “Não sou contra vocês porque são comunistas: é porque são burros! Burríssimos!”

A propósito de escritores e livros, Jason Tércio, biógrafo de Carlinhos Oliveira, conta que aquele cronista e seu amigo Oliveira Bastos, numa fase de agudo anarquismo, dedicavam seus fins de semana ao furto de bons livros. Eles visitavam as boas casas do ramo e punham-se a folhear as páginas, com um olho nelas e outro nos vendedores. Quando estes se descuidavam, os bons ladrões enfiavam livros nos casacos e saiam tranquilos com o mais caprichado ar de intelectuais. Quem era o “receptador” dessas “infrações intelectuais”? O crítico Mário Pedrosa, que pagava bom preço pelas mercadorias surrupiadas. Mário certamente incluía os livreiros no rol dos capitalistas que se apropriavam da mais-valia de seus desatentos vendedores.

O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB) era um espaço ocupado pelos neoconcretistas do Rio, em aberto desacordo com Décio Pignatari e os irmãos Campos, de São Paulo. Nesse caderno, Mário Pedrosa e Ferreira Gullar discorriam sobre as novas linguagens universais das artes plásticas e seu uso no Brasil. Em 1661, os dois foram para Brasília, com sinal verde para as suas ideias transformadoras. Mário Pedrosa, como secretário-geral do Conselho Nacional de Cultura, e Ferreira Gullar, indicado por ele, como primeiro diretor da Fundação da Cultura do Distrito Federal. A vanguarda chegava ao coração do sistema. Mas não causou estragos porque o presidente da República, Jânio Quadros, tinha seus próprios planos de rebuliço. Renunciou ao cargo.

Quando você começa a ler prazerosamente o verbete Mário Pedrosa, na Enciclopédia Ipanema, de Ruy Castro, é impossível não concordar com esta afirmação: “Um dia ainda farão um filme sobre a vida do indomável, insubmisso, heroico Mário Pedrosa”. De fato, os acontecimentos de sua biografia, encadeados em roteiro cinematográfico, ensejariam um filme de muita ação e boas lições de entrega a uma causa política e às vanguardas da arte.

Depois do golpe militar de 1964, Mário tentou ser deputado pelo MDB, mas não foi eleito. Em campanha eleitoral, entre outros arroubos oratórios, fez um convite às massas para atacar o Ministério da Guerra, durante um comício ali perto. Em 1970, ele integrou uma rede clandestina que denunciava, no exterior, torturas dos adversários da ditadura militar. Foi anunciada uma ordem de prisão contra ele, que se asilou no consulado do Chile. Ali passou três meses, sem que o governo liberasse o salvo-conduto.

Artistas plásticos do porte de Pablo Picasso, Calder, Miró e Max Bill mobilizaram-se para exortar o ditador de plantão a permitir o exílio de Mário. Foram atendidos. Em Santiago, Mário liderou a montagem do que chamou de Museu da Solidariedade em homenagem a Salvador Allende, com obras desses grandes artistas. Veio o golpe de Pinochet, em 1973, e os militares de lá expropriaram as preciosas telas. Mário conseguiu escapar para a França. Ali criou o Museu da Resistência contra Pinochet e seus asseclas.

Voltou para o Brasil em 1977, onde passou a dedicar-se ao Museu do Inconsciente, organizado pela Dra. Nise da Silveira, com quadros pintados por artistas de talento e por portadores de distúrbios mentais. Os 80 anos de Mário, em 1980, foram comemorados com uma grande exposição de telas de grandes pintores do mundo, em Ipanema, bairro onde viveu.

Naquele penúltimo ano de vida, o quixote pernambucano tomaria uma nova posição política, igualmente à esquerda, como aconteceu em toda a sua jornada. Para recordá-la, cheguemos ao ano 2000, no dia 21 de agosto, quando se iniciou, em São Paulo, um seminário em sua homenagem, organizado pela Fundação Perseu Abramo. Mário Pedrosa e o Brasil foi o título do evento. Em declaração à Folha de S.Paulo, Antônio Cândido e Zilah Wendel Abramo comentaram a iniciativa. Disse Cândido: “Mário Pedrosa tem uma inteligência luminosa e uma grande originalidade de atitudes”. Para Zilah Abramo, “ele foi um militante político durante toda a vida. Assinou a ficha de inscrição número 1 do Partido dos Trabalhadores”.

No texto Um socialista singular, Antônio Cândido estende-se a respeito do ser político incansável que Mário Pedrosa foi, em tempo integral, o que também prevalece neste perfil. Cândido, porém, faz oportuna distinção entre o militante e o crítico de arte independente e criterioso, neste ponto convergindo com Paulo Emílio Salles Gomes em suas análises sobre cinema. Ambos, ressalta Cândido, têm em comum “a exuberância, a liberdade intelectual, o desprezo pelas ideias feitas e a disposição para criar o escândalo sempre que fosse necessário”. Dois tópicos do artigo destacam essa posição autônoma e insubmissa:

(...) Mário Pedrosa trouxe indiretamente para a esquerda brasileira uma contribuição civilizadora de grande alcance por meio de sua crítica inovadora das artes. Estávamos impregnados por concepções de cunho, digamos, pragmático, favorecidas pela leitura pouco flexível que se fazia do marxismo.

(...) Em consequência, a crítica tendia a concentrar-se no conteúdo e negligenciar as questões de forma, inclusive a fatura. Ora, ele surpreendeu um pouco ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma, não hesitando em recorrer à psicologia gestáltica na tese com que concorreu a uma cadeira da Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1981, Mário Pedrosa ausentou-se do mundo real, que em vão tentou fazer menos desigual e mais justo. No universo da arte, praticou a mais progressista crítica especializada já produzida no Brasil. Traduziu cores e formas em palavras que nenhum outro escreveu em língua portuguesa. Visionário e inconformado, morreu sem jamais render-se à mesmice, tanto na arte como na vida.

Paulo Freire
Ele reinventou a educação no Brasil

O professor Celso Beisiegel, que era pró-reitor de graduação da Universidade de São Paulo em 1996, telefonou-me certa manhã avisando que se eu aparecesse em seu gabinete, lá pelas quatro da tarde, teria uma agradável surpresa. Nada perguntei, disse apenas que ali estaria naquele horário. A surpresa boa era Paulo Freire, que eu não via há mais de 30 anos. Foi um reencontro feliz, mais de três décadas após o fechamento do MCP, em que atuávamos no Recife.

Paulo, na maturidade, pareceu-me o mesmo que conheci no Movimento de Cultura Popular. Ameno, cordial, sempre cuidadoso no uso das palavras, não fosse ele um educador nato. Deu conta de suas viagens, falei das minhas dentro do Brasil em várias ocupações profissionais. Naquele momento, eu estava cumprindo longa e demorada escala na área de Comunicação SAocial da USP. Passamos em revista os dias idos, como acontece em todos os reencontros. Falamos dos companheiros do Conselho de Direção do MCP: Germano, Anita, Paulo Rosas e Abelardo da Hora, cada qual com o seu modo de ser e de agir, todos embarcados no mesmo sonho.

Havia grande pluralismo no MCP. As divergências não eram ideológicas, mas estratégicas, digamos assim. Alguns se empenhavam mais na implantação de escolas na periferia; e outros, embora não se opusessem a isso, trabalhavam mais na elaboração de estudos e projetos. O clima sempre foi harmonioso na busca de objetivos comuns.

Houve, recordamos, inúmeras reuniões para chegar a um consenso e superar essas divergências. Numa delas, estabeleceu-se que não haveria mais reuniões para discutir se haveria ou não outras reuniões. Risos à parte acertou-se que o MCP era um organismo democrático mesmo em relação às prioridades. Cada um, dentro dele, se concentraria no que julgasse mais adequado. Lembro-me de que, depois desse “acordo de paz”, na sede do Departamento de Documentação e Cultura (DDC), convidei Paulo Freire para festejá-lo tomando uns chopes no Savoy, ali perto. Ele agradeceu de forma bem-humorada e sugeriu que cada um festejasse a seu jeito: eu, boêmio, tomando chopes; e ele, abstêmio e católico, em casa, agradecendo a Deus esse “cessar- fogo”.

A tese de doutorado de Celso Beisiegel, que ele depois converteu no livro Política e educação popular, é a mais detalhada e completa publicação sobre a teoria e a prática da pedagogia de Paulo Freire no Brasil. Reconstitui o contexto histórico em que floresceram as suas ideias: o primeiro livro publicado, artigos, experiências de trabalho na área educacional, opção religiosa, leituras de Jacques Maritain, e outros trabalhos posteriores. O livro incorpora depoimentos de Paulo e vários de seus companheiros de atividade intelectual ainda na década de 1950 e até o seu ingresso e posterior afastamento do MCP, quando aceitou a diretoria de Extensão Cultural na Universidade Federal de Pernambuco.

Para o educador Paulo Freire, a aprender a ler e a escrever é inserir-se historicamente no mundo. Foto: Reprodução

Paulo Freire, ao contrário do que supõe a maioria dos brasileiros, jamais se declarou um alfabetizador de adultos. O que ele sempre quis, e conseguiu com grande mérito, foi ser um pensador da educação. Em todos os seus livros, outros escritos e diversas palestras ou entrevistas, defendeu um modelo de educação que levasse o educando a entender o universo ao redor, ganhar consciência crítica e discernir valores.

O método de alfabetização de adultos não chegou a ser usado em sua completude nos “círculos de cultura” do MCP, e, sim, no sistema educacional do governo potiguar, em convênio com a UFPE, alcançando bons resultados. Esse convênio foi celebrado por exigência ética e louvável do educador, para que não o acusassem de tirar proveito pessoal das verbas aplicadas.

Sobre o papel do método em seu currículo, o livro de Beisigel reproduz incisiva declaração do próprio Paulo Freire:

(...) Desde o início dos meus trabalhos eu procurava alguma coisa além do que um método mecânico que permitisse ensinar rapidamente a escrita e a leitura. É certo que o método devia possibilitar ao analfabeto aprender os mecanismos de sua própria língua. Mas, simultaneamente, esse método devia lhe possibilitar a compreensão de seu papel no mundo e de sua inserção na história.

Os desentendimentos no âmbito do MCP não foram, portanto, motivos da saída de Paulo, mas o convite que ele recebeu da reitoria da Universidade Federal, cuja aceitação exigia tempo integral do educador. Na mesma linha do que estou dizendo foi o depoimento de Paulo Rosas, outro dirigente do Movimento, que deu extensas declarações ao autor do livro. Disse Rosas:

(...) Tínhamos o mesmo objetivo, quanto a isso não havia discordância. Todas as divergências, as “brigas”, surgiam em torno da definição de certas estratégias, como estas, iniciais, e que não eram ideológicas (...) Alguns julgavam que não havia tempo a perder, que a situação era dramática, e era mesmo, em qualquer lugar que se olhasse havia necessidade (...) era um grupo mais impaciente, queriam as escolas funcionando imediatamente, enquanto nós estávamos também preocupados com a ação, mas não com uma ação desligada de um certo apoio em ideias. Entendíamos, alguns, que era preciso em primeiro lugar fazer um estudo e em seguida a aplicação. Mas como a necessidade realmente era muita, havia mesmo a necessidade de tudo, uns continuavam a fazer aquilo que julgavam que deviam fazer, outros como queriam e afinal nos dávamos bem quanto a isso.

Paulo Freire disse a Beisiegel que considerava Germano Coelho o grande arquiteto do MCP. A propósito, eu soube que Germano publicou alentado livro sobre o Movimento, que deixei de ler porque não o encontrei nas livrarias de São Paulo. Embora tivéssemos uma clara dissonância a respeito de prioridades e temperamentos muito distintos, sempre admirei a sua inteligência e integridade pessoal. Para que se avalie melhor este quadro e o caráter salutar dessa “luta interna”, dei meu apoio enfático à cartilha escrita pelas professoras Norma Coelho, mulher de Germano, e Josina Godoy, frente a ressalvas do próprio Paulo Freire, que a princípio via esse instrumento como iniciativa de cima para baixo, um tanto conflitante com o modelo educativo que ele defendia.

Vejamos agora o que disse Paulo Freire a propósito da criação do MCP:

(...) “Germano, marcado pelo estudo na França, junto à Dumazedier, retorna ao Recife, e coincide que Arraes se elege prefeito, convida um grupo de intelectuais (eu não estive presente nessa primeira reunião) e então diz que como prefeito ele não tem empregos para dar, não tem verbas, mas que gostaria de ser ajudado por um grupo de intelectuais, artistas, povo, operários, e que, por outro lado ele ofereceria condições materiais para que esses intelectuais, esses artistas, esse povo, se juntassem para dar uma contribuição no campo da educação popular e da cultura. Germano apanha essa coisa e dá forma a ela, assessorado, me lembro muito bem, nas primeiras buscas, para formar aquilo, por Aluízio Falcão, que era um dos diretores de Arraes e que está desde o começo, por Anita Paes Barreto, Paulo Rosas e eu, que também entro nisso”.


Imagem: Francisco Brennand/Reprodução

A cartilha do MCP inaugurava uma nova era na alfabetização. Poderia aposentar uma lamentável Carta do ABC, na época impingida às crianças em muitas escolas do Brasil. A propósito desta maldita Carta, vejam o que escreveu Graciliano Ramos contando suas dificuldades, quando menino, para assimilar os seus conceitos:

(...) “Paulina mastigou pimenta”. Bem. Conhecíamos pimenta e achávamos natural que a língua de Paulina estivesse ardendo. Mas o que teria acontecido depois? Essa história contada em três palavras não nos satisfazia, precisávamos saber mais alguma coisa a respeito da aventura de Paulina. (...) O que ofereciam, porém, à nossa curiosidade infantil, eram conceitos idiotas: “fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”. Ter-te-ão! Esse Terteão para mim era um homem, e nunca pude compreender o que ele fazia na última página do odioso folheto. Éramos realmente uns pirralhos bastante desgraçados.

A cartilha de Norma e Josina, na verdade um livro de leitura, causou celeuma nacional, além de salvar as crianças brasileiras da maldita Carta de ABC em que Paulina mastigava pimenta. Recebeu o valioso endosso daquele que era o Paulo Freire de então, o lendário professor Anísio Teixeira. Foi em 1962, já no curso do primeiro governo Miguel Arraes. Escreveu Teixeira:

(...) O livro efetivamente ensina a ler como se iniciasse o analfabeto nordestino na sua própria vida. As palavras, as sentenças, as frases são as que fatalmente ocorreriam ao próprio analfabeto se fosse ele próprio que escrevesse sua cartilha. (...) Aprender a ler deve ser uma simples transposição de sua atual linguagem oral para a linguagem escrita. É isto que realiza de forma sem precedentes, o Livro de Leitura do Movimento de Cultura Popular, do Recife, de autoria das professoras Josina Maria Lopes de Godoy e Norma Porto Carreiroo Coelho. (...) Por tudo isso é que considero essa cartilha a melhor que até agora foi conhecida no Brasil. Os que a consideram subversiva devem considerar subversivas a vida e a verdade, e ordeiras a tolice a mentira.

O educador Paulo Freire conseguiu sensibilizar o então ministro de Educação do governo Jango, Paulo de Tarso, que incluiu o seu método no Plano Nacional de Educação, após estudos que o próprio Freire liderou. No aziago mês de março de 1964 o titular do MEC designava Paulo Freire para exercer a coordenadoria do PNE em todo o território nacional. Era um passo decisivo para que houvesse uma profunda inflexão no ensino de nível fundamental no país e também no sistema de alfabetização de adultos. O Brasil, certamente, jamais seria o mesmo depois da aplicação daquele projeto elaborado com a força do conhecimento específico e com o mel da generosidade. Deu-se, porém,15 dias depois, a tragédia nacional do golpe militar.

Paulo Freire, por suas convicções religiosas e visão de mundo, não era absolutamente marxista, e muito menos militante de qualquer grupo ideológico vencido pelos militares. Os fardados, porém, com a sua conhecida miopia, enxergavam nele um perigoso agente do comunismo internacional a ser desmascarado. Um coronel qualquer buscou, nos almanaques, nomes de teóricos da educação em vários países, para rechear os interrogatórios a que Paulo foi submetido em vários meses de prisão.

Com essa suposta e ridícula “erudição”, queriam os inquiridores enxertar “pegadinhas” no IPM. Constavam da lista os nomes de Montessori e Mackinder, misturados com designações de métodos como: “Analítico”, “Sintético”, “Analítico-Sintético” e outras barbaridades. Exemplos de perguntas, entre mais de 20, modificando-se apenas o nome próprio ou o adjetivo, em cada inquirição:

“Perguntado qual a diferença entre o seu método e o de Mackinder, respondeu que...”

“Perguntando qual a diferença entre o seu método e o método Analítico-Sintético respondeu que...”

Para alongar o interrogatório, além dessas “citações”, eles também recorriam a expedientes como o que se segue: “Perguntado sobre quais as deficiências do método de ensino adotado pelo Exército brasileiro, respondeu que...”

Estas perguntas humilhantes feitas a um dos pedagogos brasileiros mais inovadores do século XX cabem perfeitamente na ficção de Kafka e Orwell sobre processos e métodos de terror nos sistemas totalitários. Será preciso que algum escritor jovem do Brasil de hoje, com acesso ao livro de Celso Beisiegel e documentação existente em múltiplos arquivos – e Germano Coelho certamente os tem – produza o texto de não ficção que ainda falta no catálogo das editoras. Infelizmente, o autor destas linhas está quase chegando ao repouso definitivo e se dá por feliz ao transmitir este recado. Não sendo historiador, tento ser pelo menos um estafeta da história.

Estudos e esforços de toda uma etapa de vida consagrada à educação eram submetidos a esses maus tratos no quartel da Segunda Companhia de Guardas do Recife, na presença do tenente-coronel Hélio Ibiapina, encarregado do IPM contra Paulo Freire. O educador que tanto combateu a diminuição do homem nos modelos pedagógicos via-se diminuído em sua dignidade intelectual pela estupidez de seus algozes. Um método concebido para ajudar o homem a humanizar-se mais ainda pela aquisição do conhecimento era pisoteado pelas botas de um militarismo sem noção mínima do verdadeiro sentido de Pátria. Querendo atingir supostos e inexistentes inimigos da ordem, eles acabavam por ofender a imagem do próprio Exército.

Os inquisidores insistiam em caracterizar o interrogado como adepto e disseminador do bolchevismo. Se a voz de Dom Helder Câmara, naqueles dias torturantes, pudesse chegar à cela de Paulo Freire, ele teria ouvido uma declaração do arcebispo a uma emissora do Recife: “No tempo em que nós nos preocupávamos em ajudar a manter a autoridade e permanecer perto de governos, ninguém nos acusava de fazer política. Hoje, quando é impossível deixar de denunciar as injustiças, embora o façamos sem pregar a violência, somos acusados de subversivos e comunistas”. Na interpretação de Antônio Calado, que escreveu sobre isso, quando a Igreja aplaudia César, tudo bem, mas quando piscava um olho para o filho de Deus, devia ser acusada e perseguida.

Quando saiu da prisão, Paulo Freire era constantemente chamado para novos interrogatórios e logo percebeu que não haveria pausas nesse ritual persecutório. Asilou-se na embaixada da Bolívia. De La Paz seguiu para o Chile, onde imediatamente foi chamado a colaborar no programa de educação do governo democrata-cristão de Eduardo Frei. Ali permanece até 1969, publicando, no período, os livros Educação como prática de liberdade e A pedagogia do oprimido. Interrompeu-se por 15 anos um processo que teria mudado a história da educação no Brasil.

Concluída a temporada chilena, Paulo atende a convite da Universidade de Harvard para lecionar ali durante um ano sob a matéria de sua especialidade. Suas ideias desprezadas no Brasil governado pelos militares ganham espaço internacional. Ele passa o ano de 1970 em Genève, Suíça, como consultor do Conselho Mundial das Igrejas (CMI) e participa de ações educativas daquele órgão no continente africano.

Em 1979, com a Anistia, regressa ao Brasil para dar aulas na PUC, e depois na Unicamp, durante 10 anos. Lança mais dois livros. Em São Paulo, durante a gestão de Luiza Erundina, ocupa o cargo de secretário municipal de Educação. Publica, logo em seguida, o livro A educação na cidade. É fundado, em 1991, o Instituto Paulo Freire. Em 1995 publica seu último livro À sombra destas mangueiras. Estes conteúdos, juntos, reinventaram uma educação popular no Brasil.

Em 1996, último completo de sua vida inteiramente dedicada ao povo brasileiro, Paulo Freire se reencontrou com este velho companheiro, que em sua memória escreveu estas páginas de admiração, respeito e amizade.

ALUÍZIO FALCÃO, pernambucano, jornalista atuou no Diario de Pernambuco, Rádio Olinda Última Hora – Nordeste, no início dos anos 1960. Presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Recife e integrou o Conselho de Direção do Movimento de Cultura Popular (MCP). É autor dos livros Crônicas da Vida Boêmia (Editora Ateliê) e Contos da era das canções (Cepe Editora).

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