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Portfólio

Maxwell Alexandre

Um olhar sobre o Rio de Janeiro

TEXTO ERIKA MUNIZ

07 de Março de 2019

'Só quando tu tá com as folhas geral gosta de salada', 2018, 320 x 476 cm

'Só quando tu tá com as folhas geral gosta de salada', 2018, 320 x 476 cm

imagem MAXWELL ALEXANDRE/DIVULGAÇÃO/A GENTIL CARIOCA

[conteúdo na íntegra | ed. 219 | março de 2019]

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Falando alto para sermos gigantes
Faltando algo, parecemos gigantes,
Avisa aos céus para sermos gigantes,
Dedo na cara, parecemos gigantes,
Conquistando planetas para sermos gigantes.
(Gigantes, de Bk’)

Crianças e seus sonhos apresentam-se gigantes entre monumentos do Rio de Janeiro. O Theatro Municipal, o Palácio do Catete, a Catedral de São Sebastião e os Arcos da Lapa dividem espaços na tela com o Outeiro da Glória, o Relógio da Central do Brasil e referências à UPP e à favela, provavelmente a Rocinha, de onde vem o artista visual Maxwell Alexandre. Jovens negros vestem camisas estampando “Rio”, em azul, ou “Adidas”, em laranja, além de máscaras e correntes de ouro no pescoço. Eles, entidades contemporâneas, brincam com viaturas da polícia e ambulâncias do Samu, entre ícones da arquitetura fluminense. A narrativa está em Crianças atrás de telas (2018), obra com mais de três metros de altura e largura, produzida especialmente para ilustrar a capa do álbum Gigantes, do rapper Bk’.

“A gente está falando sobre a mesma coisa, a complexidade do Rio de Janeiro. Cada um com a sua poética, mas encosta a todo momento”, pontua Maxwell sobre essa parceria. Mesmo antes de conhecê-lo pessoalmente, Bk’ já havia visto algumas obras do conterrâneo. Não é difícil. De 2017 para cá, o trabalho de forte apelo estético e político do carioca começou a despontar, sobretudo através das séries Pardo é papel e Reprovados. As obras de Maxwell Alexandre têm circulado bastante por instituições ligadas às artes, pelas redes sociais, ou, por exemplo, quando a consagrada artista Adriana Varejão o indica como sua aposta do ano. A partir de amigos em comum, Bk’ soube que uma pintura intitulada com uma de suas rimas estava no Museu de Arte de São Paulo. Em seguida, conheceu o autor e as afinidades aconteceram.

A obra em questão chama-se Éramos as cinzas, agora somos o fogo (2018), que, entre junho e outubro de 2018, ocupou praticamente uma parede inteira do museu, bem na entrada da mostra Histórias Afro-Atlânticas. A importante exposição, que selecionou 450 trabalhos, marcou os 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, propondo reflexões – e tensões – a respeito da cultura visual das Áfricas, das Américas, Caribe e Europa, em diferentes períodos históricos. A pintura selecionada pertence à série Pardo é papel, cujo título ironiza o sentido de “pardo”, uma das classificações raciais reconhecidas pelo IBGE.

Éramos as cinzas e agora somos o fogo, da série Pardo é papel, 2018, técnica mista sobre papel, 320 x 476 cm. Imagem: Maxwell Alexandre/Divulgação/A Gentil Carioca

Num país culturalmente racista (o índice de mortalidade de negros e pardos é quase três vezes maior que o de brancos, segundo dados do Pnad 2014, FBSP e Infopen), o termo pardo costuma ser alternativa para velar a negritude. Apropriando-se da semântica, Maxwell faz uso de materiais na cor parda para criar narrativas que enaltecem personagem negros. “Já que o pardo foi criado como desígnio para esconder a negritude, então, é algo pejorativo, usado para esconder. Num momento, comecei a pintar de pardo tudo o que eu não gostava. Escondendo algumas coisas, o cenário. Percebi, assim, que as figuras (que não estavam pintadas) vinham para a frente. O pardo, nesse caso, enaltecia e não era mais pejorativo”, explica a maneira que ressignifica e empodera a representação do negro.

Aos 28 anos, Maxwell Alexandre já foi patinador profissional, evangélico praticante, cumpriu o serviço militar obrigatório e se formou em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Hoje é artista. Em 2018, realizou sua primeira exposição individual O batismo de Maxwell Alexandre, na galera A Gentil Carioca, localizada no Centro do Rio, além de participar de residência artística em Londres, a convite da Fundação Delfina. Neste mês de março, ele abre outra exposição individual, na França, a convite do Museu de Arte Contemporânea de Lyon. Com alguns trabalhos inéditos, a mostra segue aberta até julho na cidade francesa. Os organizadores da mostra conheceram o trabalho do carioca por sua participação na feira SP Arte com a tela Um cigarro e a vida pela janela, que agora pertence ao acervo da Pinacoteca de São Paulo.

A dedicação aos patins o fez esbarrar nas artes visuais. Escolheu Design, ele explica, porque tinha vontade de desenvolver ferramentas que contribuíssem à indústria do esporte que praticava. Na faculdade, em que foi bolsista, conheceu o professor e pintor Eduardo Berliner, que mediou seus primeiros contatos com a arte contemporânea. Além desse importante encontro e da formação acadêmica, o repertório pessoal, sua origem e personalidade conferem aos trabalhos de Maxwell várias idiossincrasias, desde as escolhas temáticas à maneira em que são apresentadas nas telas. Contrariando a vontade da família, cujo desejo era que ele seguisse a carreira militar ou arranjasse logo um emprego, foi ser artista, daqueles que cultivam o gosto pela experimentação e inquietude.

Referências a super-heróis, personagens de jogos de video game, músicas, e as vivências na Rocinha, jogando bola ou andando de patins, são ressignificadas em vários de seus trabalhos. Outro aspecto recorrente na iconografia de sua obra são as marcas de produtos. Pelo modo como os logotipos e objetos são apresentados, é possível perceber que Maxwell observa como as grifes moldam e comunicam nossos hábitos.

Não por acaso, comenta que, durante o curso, uma das áreas que mais o interessavam era justamente branding. Toddynho e Danone, por exemplo, aparecem bastante na série Reprovados. Essas marcas fizeram parte de sua infância e, pela representação delas em sua obra, acabam levantando questões sobre o acesso a bens de consumo em várias camadas da sociedade. “Eu achava muito louco o fato de não poder ter Danone e Toddynho na hora que quisesse. Só acontecia quando eu ia na casa dos outros e via a geladeira cheia. Esses são objetos que falam da distinção social, uma coisa que acontece na favela. Via os lanches de um amigo ‘regadão’, enquanto a condição da minha mãe nunca foi boa, mãe solteira e tal, comprava Danone a cada um ou dois meses”, contou, em conversa que tivemos em sua casa, sob trilha sonora de Bluesman, de Baco Exu do Blues.

Outro ícone fortemente presente são as estampas de piscinas de plástico Capri, ora servindo de pano de fundo, ora sendo as próprias piscinas suportes para obras de Reprovados ou Caravelas de hoje. “Fez parte da minha infância, faz parte desse vocabulário da favela. Esses símbolos que estão na sua vida, mas que você não percebe direito. Minha leitura sobre essas estampas tem a ver com autoestima, porque fala da distinção social que tem na favela, tipo quem pode ter laje está um step acima, quem pode ter uma piscina na laje, está mais alto ainda”, explicou, nesta entrevista à Continente.

Díptico Trem, da série Caravelas de Hoje/Reprovados, 2018, técnica mista sobre tela. Imagem: Maxwell Alexandre/Divulgação/A Gentil Carioca

O modo que ressignifica o espaço urbano em suas obras, e até sua expressão corporal, também se relacionam com as práticas de patins. Quando Maxwell utiliza suportes como portas ou janelas encontradas, por exemplo, em vez de telas convencionais, estabelece diálogos com o ambiente no qual está inserido. Em 2017, incomodado com a cena artística carioca, Maxwell e outros artistas, como Raoni Azevedo e Eduardo de Barros, seus parceiros, começaram a movimentar outra cena, paralela à que acontece na zona sul do Rio. A ideia surgiu a partir do filme Downtown 81, que narra as andanças do nova-iorquino Jean Michel-Basquiat – associação quase inevitável a Maxwell Alexandre, já que ambos têm trabalhos com pintura, mantêm forte relação com as músicas da diáspora africana e são artistas negros de destaque no circuito da arte contemporânea, majoritariamente frequentada pela elite branca.

***

No Brasil, a ascensão das igrejas neopentecostais é uma realidade, sobretudo nas comunidades, onde a presença do Estado se faz menos presente de modo a respeitar e promover os direitos das populações periféricas. Percebendo isso, Maxwell, Eduardo e Raoni atinaram para a força que seria se apropriar das estruturas que instituições religiosas funcionam, para subvertê-las e “colocá-las em função da arte”, conforme explica Raoni. Nasce, assim, a Igreja do Reino da Arte, formada por artistas e interessados, que percebe a figura da Noiva como seu principal símbolo de devoção. Os encontros costumam acontecer na Rocinha, na Travessa Mesopotâmia. “Fé na Noiva!”, cumprimentam-se os membros entre si ou nas redes sociais. Na liturgia dessa Igreja, as pinturas são chamadas de orações, cultos são as exposições e vernissages, as obras que costumam ser levadas a pé (procissões) do estúdio na Rocinha para as galerias na zona sul ou centro do Rio. Há também batismos de artistas, esporadicamente, em piscinas de plástico.

A escolha de certos materiais também tem significações na obra de Maxwell Alexandre. No início, a vontade de pintar sobressaía às possibilidades de acesso a ferramentas destinadas à pintura. Ele acabou, então, incorporando produtos do cotidiano, que atribuem diferentes conotações às obras. Exemplo disso é quando utiliza graxa ou o cosmético Henê ao invés da tinta acrílica preta. O produto capilar, que fez a cabeça de muitas mulheres que alisavam os cabelos crespos, sobretudo nos anos 1990, traz reflexões sobre a estética e seus desdobramentos políticos, nesse caso, com relação ao empoderamento e autoestima da negritude.

Sobre um fundo avermelhado, Cantos de esquina, imponente díptico da série Pardo é papel, é uma celebração ao negro ocupando espaços de poder. A temática é revisitada em outros trabalhos, como Só quando tu tá com as folhas geral gosta de salada (2018) ou Éramos as cinzas, agora somos o fogo, por exemplo. Novamente o título vem do rap, mais precisamente do refrão de O mundo é nosso, canção do mineiro Djonga. Representações de Basquiat, numa pose bastante conhecida, Kerry James Marshall, Marielle Franco, Rihanna, Cartola, Elza Soares, MC Carol, Michael Jackson e o artista Paulo Nazareth em sua série Objetos para tampar o sol de seus olhos, além de outras personalidades negras, se distribuem ao longo de mais de quatro metros de largura. “Quando você poderia ver essas personalidades juntas?”, pergunta Maxwell.

Há também referências próximas, como a artista Odarayá Mello. Por conta do traço livre, é comum que, em obras mais referenciais, como a citada ou Só quando tu tá com as folhas geral gosta de salada, o público construa as próprias interpretações sobre quem estaria ali retratado. Recentemente, veículos impressos mencionaram James Brown e Kanye West como alguns dos personagens retratados por Maxwell. No caso desses dois, ele desmente ter sido intencional, apesar de ser fã, mas aprecia as interpretações possíveis. Ao ser questionado por que as personalidades aparecem constantemente negras e loiras, ele responde: “É como se todas as minhas pinturas fossem autorretratos meus, por isso que são assim”. “O cabelo loiro é sobre superpoderes, sobre o empoderamento de você fazer o que quiser, foda-se se há estereótipos”, define. Mas sabemos que é sobre isso e muito mais.

ERIKA MUNIZ, estudante de Jornalismo, colaboradora da Continente.

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