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Curtas

Sil Karla e Diogum Oliveira no Arts Emotions Afrikwa!

Mostra anual que acontece na galeria da subprefeitura do 16º Arrondissement de Paris exibe obras dos artistas pernambucanos

TEXTO Bruno Albertim

11 de Outubro de 2019

Diogum Oliveira e Sil Karla

Diogum Oliveira e Sil Karla

Foto Leo Caldas

[conteúdo na íntegra | ed. 226 | outubro de 2019]

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No primeiro domingo de setembro, Sil Karla e Diogum Oliveira receberam convidados para provar a moqueca com a qual o casal costuma brindar os amigos em situações especiais. À grande mesa do terraço, cercados por telas, esculturas de ferro, orquídeas, instrumentos percussivos e objetos votivos do candomblé brasileiro, no bairro olindense do Bonsucesso, estavam o alemão Klauss Meyer e o chileno-austríaco Juan Federer. “A gente queria agradecer tudo que está acontecendo”, diz Sil.

Meyer e Federer (este, um mecenas que se divide entre a América Latina e a Europa ao longo do ano) são sócios do Vila Ritinha. Impressionados com a boa acolhida de recente exposição com obras de Sil e Diogum no espaço cultural instalado num sobrado recuperado no bairro recifense da Boa Vista (dois mil visitantes em quatro semanas), resolveram levar a arte do casal para novas fronteiras.

A acolhida foi imediata: afrodescendentes e ainda não integrados ao circuito oficial das galerias e instituições de arte, Sil Karla e Diogum Oliveira são os únicos brasileiros a participar da exposição anual, em Paris, da Art Freedom, organização francesa de promoção de artistas, a maior parte dispersa pelo mundo através da gradual diáspora da escravidão colonial.

A partir de 18 de outubro, obras deles poderão ser vistas na Arts Emotions Afrikwa!, mostra anual na galeria da subprefeitura do 16º Arrondissement de Paris, organizada por uma associação de artistas locais e, numa ação concomitante, na prestigiosa Gekria Nesle, no Bairro de Saint-Germain-des-Prés.

“Não é sempre que encontramos artistas com poéticas tão originais. Nas telas de Sil Karla, é como se a obra de Juan Miró encontrasse a África. O vigor de Diogum, ligado ao ferro, também remete à ancestralidade africana no Brasil”, diz Federer.

A ida dos artistas à França é viabilizada pelo entusiasmo com o qual o príncipe Serge Guézo recebeu a obra dos pernambucanos. Criador da Fundação Memória da Humanidade, com sede no Benim, príncipe descendente dos antigos reinos de Savé e Abomé, Guézo é ativista internacional em favor de afrodescendentes, com uma produção de documentários sobre a tragédia humanitária da escravidão.

Além de atuar com africanos contemporâneos nos processos de imigração para a França, sua organização Art Freedom promove a integração de artistas afrodescendentes do mundo no mercado francês.

Diogo José de Oliveira, 37 anos, não tornava pública sua relação com a arte. Filho de serralheiro, confeccionava grades no andar térreo de um pequeno sobrado no Pátio de São Pedro.

Silvana Karla Silva do Nascimento, 44, era dona do espaço cultural e Bar Xinxim da Baiana. Tinha deixado pela metade o curso de Artes Visuais na UFPE, depois de ter ficado precocemente viúva do primeiro casamento – seu marido tivera um AVC durante um jogo de futebol na praia.

Quando se viram pela primeira vez, Diogum e Silvana sentiram uma paixão imediata. “Foi na festa da Lavadeira, e eu digo que foi um amor fulminante. Em menos de um mês, estávamos vivendo juntos. Diogo veio me ajudar com o Xinxim”. Silvana tinha um filho do primeiro casamento. Com Diogo, teria mais um rebento e o estímulo de retomar a arte, sempre latente.

Quinze anos depois, o casal decidiu deixar para trás o desgaste da vida noturna na condução do Xinxim da Baiana, hoje arrendado a um novo gestor, onde trabalharam juntos até 2018. A arte, então, saiu do segundo para o primeiro plano. “Resolvemos transformar nossa casa em nosso ateliê, invertemos as prioridades”, contam.

Silvana comenta ter o desenho como hábito desde criança. Quando seu marido faleceu, abandonou o curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco para reencontrar a família materna em Salvador. “Mas sentia como se a arte estivesse sempre me chamado de volta.”

Suas telas coloridas, ora abstratas, ora figurativas, com rostos-esfinges de mulheres localizadas entre o mundano e o arquétipo, como aponta Federer, remetem a um Juan Miró, ou um Jairo Arcoverde, mas com uma dicção afro-brasileira. São multicoloridas e unidimensionais, com pequenos signos que aludem à estamparia tradicional da África.

A partir do reencontro com a arte, Sil Karla realizou uma série de desenhos que Diogum Oliveira transpôs para o ferro. Além de esculturas cinéticas, ele molda pássaros antropomorfos em totens de tamanho médio. As peças trazem a força da ferraria dos terreiros, motivo pelo qual incluiu Ogum, seu orixá regente, ao seu nome artístico.

A inspiração vem da pesquisa de arquétipos relacionados à liberdade. Com ferro e cores essenciais, primárias como as forças da natureza, Sil e Diogum querem agora voar para outras paragens.

BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e escritor. Autor da biografia Tereza Costa Rêgo: uma mulher em três tempos.

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