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Entrevista

“Não quero ser debochada, quero ser sensível”

Lançando 'Letrux aos prantos' este mês, a cantora, compositora, atriz e escritora carioca comenta sobre o novo disco, a sua carreira nos últimos anos e as forças que a compõem

TEXTO ERIKA MUNIZ, DO RIO DE JANEIRO

04 de Março de 2020

Letícia Novaes, ou Letrux, está em seu segundo disco-solo

Letícia Novaes, ou Letrux, está em seu segundo disco-solo

Arte sobre foto de Ana Alexandrino

[conteúdo na íntegra | ed. 231 | março de 2020]

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Com seu Letrux em noite de climão (2017), Letrux incendiou palcos em várias cidades brasileiras. Este mês, com o sol sob o signo de Peixes, a carioca nos convida a um mergulho com o novo Letrux aos prantos. “O choro é livre e, que bom, pelo menos isso ainda nos é permitido”, sugere a artista, ao anunciá-lo em suas redes socais. Desde então, o público – que a acompanha compartilhando sucessos como Ninguém perguntou por você, Vai render e Que estrago em shows catárticos – aguarda ansiosamente o lançamento. Enquanto, no Climão, é o elemento fogo que prevalece, neste, é a vez de a água conduzir esses prantos, que também são de alegria e ternura. Agora, o mergulho nas emoções, no subconsciente e nos sonhos será ainda mais intenso. Para lavar a alma, como um banho de mar é capaz de fazer. 

Compositora, cantora, atriz e escritora, são muitas as linguagens com que Letícia Novaes, 38 anos, estabelece conexões e desenvolve seus trabalhos. Já fez cinema, estudou teatro, tem livro publicado, escreve poemas, textões e, quando sente necessidade, transforma o que escreve em canções. Tem bastante interesse por astrologia, herança materna, e espiritualidade. É leitora assídua, fã de Clarice Lispector e Patti Smith. Às vezes, conta, chora com filmes vistos pela metade ou simplesmente com vídeos fofinhos de bichinhos perdidos pela internet.

Para quem tem tanto elemento terra no mapa astral – uma capricorniana, com ascendente em Virgem e Lua em Touro –, Letrux é dona de sensibilidade latente e comunicação quase imediata com quem a atravessa. De certa forma, em meio à intensidade, esse elemento lhe traz os pés apoiados no chão. Assim, ela dança, interpreta e encanta nos palcos. Por ter mãe pisciana, muitas águas – filmes, livros e emoções – sempre rolaram em sua vida. Antes de dar início à carreira-solo, Letícia – cujo sobrenome Novaes vem da família paterna oriunda da cidade de Floresta, em Pernambuco – já teve outras bandas. A Letícios, quando, aos 22 anos, cantava uns rocks. Posteriormente, era a vez da Letuce, seu projeto com o guitarrista Lucas Vasconcellos. Com o Em noite de climão, porém, junto a Natália Carrera, Arthur Braganti – talentos responsáveis pelos arranjos nos dois álbuns – e os outros músicos que a acompanham, vem, cada vez mais, demonstrando que, na cena da música brasileira protagonizada por mulheres, “isso aqui vai render”.

Num dia de verão carioca, marcamos uma conversa em um boteco na Tijuca, bairro onde a artista cresceu e reside atualmente. Silêncios, sons de ambulância, buzinas, gente passando e vendedores de pipoca costuram os áudios da entrevista, como se a cidade do Rio de Janeiro se comunicasse, inevitavelmente, com a gente. Esses diálogos com a urbe, aliás, são constantes pontos de partida para as criações de Letrux. Sobre esse seu modo de compor, experiências nos dois anos e meio circulando por diversos palcos do país – inclusive em importantes festivais –, os preparativos para o segundo álbum, astrologia, memórias, feminismos, sexualidade e música, Letrux contou um pouco das suas histórias à Continente.

CONTINENTE Agora você lança álbum novo. O que mudou na Letícia de 2017, antes do Em noite de Climão, para cá?
LETRUX Acho que não tem como passar blasé por uma situação dessa que eu vivi. É muito difícil fazer show no Brasil, no mercado independente, se não tem ajuda de novela, de jabá, de gravadora… Hoje em dia, ter gravadora nem significa tanto. Mas o mercado de sertanejo, de funk, ainda tem muito forte o suporte da gravadora. Ela consegue infiltrar as músicas. Tenho a sorte de algumas diretoras e diretores gostarem do meu trabalho. Aí, me chamam para fazer a trilha de uma coisa, para dirigir clipe meu. Foi tudo assim pequenininho, mas numa visão macro foi tudo grande, se parar para pensar. Tem gente que vê de fora: “Ah, a Letícia estourou”. Não é assim. É suado, é todo dia, é um pouquinho de cada vez, uma coisinha que vai crescendo, um degrau de cada vez. Observando agora… Imagina! Até esqueço os perrengues, os suores, as dores, as loucuras. Observando de longe, esses dois anos e meio são glórias. Mas, se lembrar do dia a dia, é claro que tem um milhão de neuras também. Sou muito grata. Acho que continuo a mesma Letícia, só que com mais rugas e mais manchas do sol, porque amo sol (abre um sorriso). Prefiro ter mancha do sol e rugas do que ter a pele “botoxicada” que a galera tem hoje em dia. Acho que é isso. Voltei para a análise também, porque é muita coisa acontecendo. Fazer análise, ficar mais velha, é você ficar livre para você ser quem você é. Se em alguma época eu pensei: “Vou ser essa pessoa que vai na dermatologista”, mentira, não vou ser essa pessoa porque… Legal, vamos nos cuidar, mas fui me despindo de coisas que a sociedade impõe. Acho que toda mulher passa por esse processo. Os homens têm, desde mais cedo, uma apreciação da liberdade que a gente não tem. Você vai ficando mais velha e vai percebendo. Gente, para que essas neuroses todas? Você vai se livrando. Acho que eu, de dois anos e meio para cá, fiquei… Sem dúvida, mais biruta, porque envelhecer é enlouquecedor. Mas também é libertador. Ah, gente, é isso.

CONTINENTE Então quer dizer que os shows do Climão não eram só glamour (risos)?
LETRUX (Risos) Lágrimas, se fosse. Imagina! É muito perrengue, gente. A gente sempre ficava: “Hoje é dia de glória ou hoje é dia de luta?”. Porque tem festival que é dia de luta, que o hotel é luta, que passar o som é a luta. E tem dias que você fala: “Ah, hoje é dia de glória”. Piscina, não sei quê, som bem-feito, nada dá problema. Ainda é 50 a 50. O mercado alternativo, de música independente brasileira, ele ainda é 50 a 50, mas já melhorou muito. No passado, já teve muito mais luta e, agora, cada vez mais, sinto as glórias se aproximarem (risos). Fico feliz já.

 
Capas dos discos-solo da artista: Letrux aos prantos (2020) e Letrux
em noite de climão (2017). Imagens: Reprodução

CONTINENTE Você tem medo do tempo?
LETRUX Já tive mais. Minha mãe fala que, aos cinco anos, no final do ano, eu falava assim: “Passou rápido, né?”. Ela achava aquilo esquisito, né? Uma criança falar a frase: “Passou rápido”. Achava estranho uma criança ter esse tipo de observação. Eu não lembro disso, ela que me conta e eu falo: “Nossa! É bem comentário que eu faço”. Significa que a gente ainda é o que a gente era quando criança. Só cresce pentelho, trauma e outras coisas, mas a gente ainda é o que era. E sempre foi. Já tive mais uma sensação de comparar tempo à morte do que hoje em dia. “Ah, envelhecer é morrer.” De repente, eu falei: “Para!”. Envelhecer é viver. É todo dia. Eu me encontro num lugar de devoção à vida. Tenho uma luz que, sei lá, metabolismo, educação, não tenho tendência à depressão. Eu me cuido muito para isso, mas tenho uma relação boa com o tempo, até quando estou numa zona mais sombria ou mais ao contrário. Às vezes, a gente está do avesso, mas me cuido muito nesses momentos. Entendo que o tempo vai ser senhor de algum nó, algum desafeto. Entendo que ele é soberano. Não adianta. Pode fazer mil plásticas, pode trocar o sangue. Sílvio Santos está aí, como? Todo “emplastificado”, trocando sangue, não sei o quê. E a cabeça? A cabeça dele parou até antes de ter nascido. Prefiro malhar o meu cérebro, a minha sensibilidade. Claro que é muito importante cuidar do corpo. Não estou falando isso para a gente ser desleixada em termos corporais. Até porque é muito importante. Nosso corpo vai ser nosso amigo para o resto da vida. Mas as pessoas, hoje em dia, às vezes, têm muito esse foco, né? Muito voltadas para as aparências, redes sociais. Vejo muitos artistas com o sovaco liso, virilha lisa, sem um pelo encravado. Fico: “Gente!” E nem são assim, é tudo na pós-foto. Crianças crescem com esses referenciais. Adolescentes veem e surtam. Também tive esses referenciais, mas ainda sou um pouco mais velha. Lembro que a Glória Pires era a musa de Vale tudo (novela da Rede Globo, de 1988). Ela tinha um pouco de buço, dentes amarelos e era “a gata”. É isso. Até peguei uma fase de mulheres mais naturais. Luma de Oliveira, Luiza Brunet, musas do Carnaval, naturais e gatas. Okay, cada um tem o seu corpo, suas regras. Se você quer ter esse ideal de beleza, é o seu. Só acho foda se você propaga que isso é o certo, o bonito. Tem que propagar que essa é a sua verdade, senão essas meninas crescem, se frustram e entram numa bad, uma deprê. Porque elas podem não conseguir alcançar, é muito difícil.

CONTINENTE Você costuma falar em entrevistas da sua mãe. Conta da relação de vocês duas. Como ela se chama?
LETRUX O nome dela é Sônia. Ela é pisciana de 10 de março. Todo mundo fala: “Ah, o que você tem em Peixes?”. Não tenho nada em Peixes, tenho a minha mãe e é louco isso. Em 2017, assim que tudo foi acontecendo e eu dando mais entrevistas, ela me mandou uma mensagem falando: “Nossa! Que incrível. Tava comentando com seu pai que tem tanta coisa que passou despercebido pelos meninos, mas que você absorveu muito, que você fala nas entrevistas”.

CONTINENTE Então, ela lê as suas entrevistas.
LETRUX Ela lê! Imagina que não! Meus pais são super pés no chão. Assistem aos shows e me dão parabéns. “Meus parabéns, minha filha! Muito profissional o seu show.” A primeira vez foi maravilhoso. Não é uma coisa coruja no sentido de: “Minha filha, meu orgulho, minha heroína”. Minha mãe não tem Instagram, ela mora no Rio, aqui na Tijuca. Sou da Tijuca e minha família também. Não tive nenhum artista na família, mas todos me incentivaram muito. Meu pai me ajudou a pagar meu primeiro disquinho. Preocupado se eu ia terminar a faculdade, mas, na hora do “vamos ver”, ele estava lá e compareceu. Minha família sempre bateu palma na hora que eu fazia o showzinho no Natal, sei que lá. Tinham o entusiasmo. Mas a figura mais importante foi a minha mãe. Ela que me levou para ver filme francês, me apresentou canções francesas também. Um mundo à parte daquilo. Eu também ia ver Xuxa, ia ver blockbuster, como qualquer pessoa, mas não ficou só nisso. E tem muita gente que fica só nisso. Ela me deu uma noção de lado B e de literatura diferente. Ela tinha diário e me deu um. Só o fato de ela ter me dado o diário, todo dia eu acordava e “Querido diário…”. Hilário começar assim. Às sextas-feiras a gente sempre ia ao cinema. Eu, minha mãe, meu pai, meus dois irmãos mais velhos. Sou a mais nova, a caçula, de dois meninos, então, suei umas vitórias de diferenças. Por mais que meus pais sejam incríveis, são frutos de uma época. Eu tinha que falar: “O Bernardo vai acampar? Eu também vou acampar”; “Ah, ele vai dirigir com 18? Também vou”.

CONTINENTE Já transgredia dentro de casa.
LETRUX Sempre. E foi muito importante isso de ter dois irmãos mais velhos, me deu noções de feminismo e machismo bem antes de saber sobre essas nomenclaturas, desde criança. Lembro que a gente ia ao cinema e meu pai queria ver filmes de ação, os meninos também. Tinha um dia que a minha mãe escolhia, o outro que meu pai escolhia. Minha mãe sempre escolhia filmes estrangeiros. A gente viu muita coisa, além dos franceses, como filmes chineses, canadenses, tailandeses, italianos. Vi filmes que mudaram a minha vida porque minha mãe escolheu. Acho que isso me alimentou muito enquanto a criadora e a artista que sou. Saí da curva, sabe? Tava ali a estrada e minha mãe zum! Saí da curva da obviedade, do comum, do banal e fui entender outras questões. Isso é lindo, sendo a minha mãe, porque me gerou. Tem toda essa loucura uterina e louca. É forte.

CONTINENTE Conta da sua infância na Tijuca.
LETRUX É hilário, essa é a rua em que eu moro, que a minha avó mora. Mas antes era mais para cima. A Tijuca é um bairro tradicional, muito comum. Sempre tive sorte ou destino, jamais saberei dizer, de ter pessoas atravessando a minha vida para me livrar de alguma situação que eu estava entendiada ou me sentindo medíocre. No colégio também. Tive uma professora de artes – claro! – que, no meio da aula, fez assim: “Você quer fazer teatro comigo? Tenho uma turminha depois do colégio”. Falei com minha mãe. Foi uma loucura, mas eu não pensei: “Ah, minha vida vai ser isso”. Eu vivia muito o momento. Estava ali fazendo teatro, quando a turminha acabou, fiquei meio triste e tal. Fui fazer vestibular. Fiz para Letras, porque gosto muito de escrever. Não pensei que poderia fazer Artes Cênicas… Não sei, também era mais medrosa. Não tive coragem de Artes Cênicas. Achei um pouco louco. Aí, minha mãe – de novo ela –, formada em Letras, viu que eu não estava feliz ali, não era meu ambiente. Ela me matriculou na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), que é um curso de teatro daqui do Rio. Enquanto várias mães não querem que os filhos façam teatro, a minha me matriculou. Fiquei meio assim, pensando o que é que ia ser. O primeiro dia já foi uma loucura, eu cantei. Era aula de música, cheguei atrasada porque moro longe da Zona Sul e nunca tinha ido para esse bairro Cosme Velho. Pega um metrô, dois ônibus… Cheguei atrasada. O professor me olhou e falou na porta: “Você aí, atrasada, canta alguma coisa”. Fiquei supernervosa, mas pensei: “Agora é a hora!” Cantei uma música da Janis Joplin. É louco porque quem é meu amigo dessa época fala: “Letícia, no primeiro dia de aula você cantou.” Minha amiga Kelly Freitas, que fez CAL comigo, diz que não esquece desse primeiro dia que eu cantei.


A menina Letícia Novaes em primeiro plano e, ao fundo, sua mãe, em foto de arquivo publicada pela artista no seu perfil do Instagram. Foto: Acervo pessoal/Reprodução

CONTINENTE Qual música da Janis?
LETRUX Mercedes Benz, de Janis Joplin (cantarola “Oh, Lord, won’t you buy me?). Hilário, gente! Foi determinante fazer teatro para me tornar a cantora que sou. Depois fui fazer fono, aula de canto e de música também. Já tocava violão bem porcamente e fui me aprimorando. Às vezes, falam que sou instrumentista, fico com um pouco de vergonha, porque não me considero. Toco violão, toco piano, mas de uma maneira altamente amadora e supersensorial. Às vezes, sei o nome dos acordes. Às vezes, não sei e alguém me ajuda. Foram três anos e meio lindos na CAL. Mas já fui também pensando que a música era um lugar. Aí, montei uma banda de rock com uns amigos da Tijuca. A Tijuca tem uma cena roqueira hilária, bem forte. E eu me apresentei a primeira vez em abril de 2005. Este ano faz 15 anos, debutante.

CONTINENTE Como se chamava essa sua primeira banda?
LETRUX Ah, hilário! Chamava-se Letícios. Os nomes sempre têm a ver com o meu radical porque, dentro de uma lógica feminista, as composições eram todas minhas. Então, não queria que a banda se chamasse Corredores, Janelinhas, sei lá, Paralamas do Sucesso. Sinto que essas bandas, que têm nomes de grupos, são muitos compositores. Só que eu também não tinha coragem de usar meu nome. “Cantora Letícia Novaes.” Achava muito sério, muito cantora de MPB, mas quis usar algo que fosse do meu nome para dar algo: “Ó, essas músicas são minhas. Eu que compus”. Acho que já era uma afirmação de um lugar, o meu nome. Fiquei três aninhos com essa banda, cheguei a gravar um disquinho, mas não tem nas redes porque não dá (risos).

CONTINENTE Ah, é? Por quê?
LETRUX Não dá, gente. Eu era muito nova, tinha 22 anos. E era uma nova sem o acesso que essa garotada de 22 anos de hoje em dia tem. Com um debate afiadíssimo, sabendo muito mais do que eu sei, às vezes. Eram outros tempos, ter 22 anos em 2005. Tem uma ou outra música que você vê ali. Todas têm o humor, que isso é uma marca minha também, de observar o cotidiano com graça, mas tem horas que não consigo ouvir nem a minha voz. Um dia, talvez, eu disponibilize a menos pior, mas é difícil. É puxado.

CONTINENTE Isso que você fala, de “observar o cotidiano com graça”, chama bastante atenção na sua obra. O que aguça essa sua forma de olhar?
LETRUX Acho que tem o egoísmo natural de ser humano e de artista, mas também sou muito curiosa. Não confundir com fofoqueira, sou muito voyeur, aberta ao atravessamento que esse cara que está passando aqui com essa bermuda hilária me causa. Adoro viajar de ônibus, ficar vendo as pessoas, dentro e fora dele. Sou muito observadora, sou focada nas minhas coisas. Não me atraso… Capricórnio. Mas também tenho uma visão periférica muito forte, muito aguçada. É cada coisa que ouvi, desde criança. Tem muita música minha que nasceu porque ouvi uma frase e plagiei o mundo. Peguei uma palavra da mulher no ponto de ônibus, peguei uma frase de um poema, da mulher vendendo bala na praia. Sei lá. Ouço fone, às vezes. É engraçado que, às vezes, quem menos ouve música é músico. Não que eu não me baste, eu me basto, mas a vida é só isso também? Só prestar atenção nas minhas coisas e minhas sensações? Eu me analiso, me investigo, mas também tenho que abrir. O mundo é muito fértil. Muitas coisas acontecem. Tantas cenas. Se a gente fica só na “minha vida, minhas coisinhas”, perde uma beleza. No ponto de ônibus, o menino está olhando o céu. Aí, ele vira para a mãe e fala: “Mãe, no céu é outro país ou é água mesmo?”. Olha isso! Se eu estivesse com o fone não teria ouvido essa frase. Fiquei chocada com essa criança. A mãe era das que dizia: “Cala a boca, menino”. Triste, mas a poesia já estava feita. Então, foda-se a resposta dela. Tem várias histórias que vou guardando ao longo da vida, em caderninhos ou na mente, desses terráqueos falando coisas absurdas.

CONTINENTE Vi uma entrevista com a poeta Matilde Campilho em que ela fala que a arte captura momentos. Nos seus shows você fala bastante de poesia e, no álbum, tem uma composição com Bruna Beber. Como é sua relação com a leitura?
LETRUX Adoro! A minha mãe é professora, sempre teve muito entusiasmo por literatura. Desde que eu fui alfabetizada, ela sempre me deu muita coisa. De Turma da Mônica, literatura infantil, infantojuvenil e, depois, clássicos. Por sorte, gostei, me deu barato. Meus irmãos não são muito da literatura. Acontece, porque incentivo não faltou. Mas eles foram por outra pegada. Eu não, dei a liga logo. Desde o início da internet, sempre tive blog e tenho amigos disso. A Bruna Beber não é minha amiga de blog, mas a gente se afinou mais porque começou a escrever em um blog de escritoras sobre o Rio de Janeiro, o Metroblog. Tinha no mundo inteiro, todas as capitais. A gente fazia uns encontros. Eu e ela fomos ficando mais amigas. Hoje em dia, somos ultra-amigas. Não tinha como não chamar ela para fazer uma letra comigo. Acho ela gênia. A poesia dela é fora do comum. E acho que a literatura sempre estará presente nas minhas obras, porque adoro poesia. Quando alguém fala: “Ah, não gosto de poesia”, eu fico: “Ai, não fala isso assim. Acho que você não gosta do que leu”. É muito amplo “poesia” para se dizer que não gosta. Você pode ter sido apresentada de uma maneira estranha ou num momento tenso da sua vida. Nunca desista da poesia, porque a vida tem dinâmicas, né? Às vezes, você está num momento em que lê uma poesia e ela é salvadora. Todo meu trabalho tem influências de poetas ou algumas letras nasceram só da escrita. A maioria nasce com a melodia já, mas algumas frases… um dia, escrevi em um caderno e resolvi musicar. Encaro minhas letras de forma musical, sem dúvida, mas de forma poética também. Tenho uma preocupação muito literal, por isso que me cerco da melhor banda possível, para eles se preocuparem com todos os timbres e arranjos. A Natália Carrera e o Arthur Braganti, que produziram o Climão e estão com esse próximo. Preciso estar cercada de pessoas excelentes nessa parte musical, justamente porque minha preocupação vai mais para o lado da palavra. Claro que minha mente também é musical, mas sou muito da poesia. Fico ali com minhas preocupações de resolver uma letra. Isso para mim é o maior barato.


Letrux no show Línguas e poesias, no Sesc Ipiranga (SP).
Foto: Sillas Henrique/Divulgação

CONTINENTE Mas você também é uma artista muito do corpo, né?
LETRUX Acho que isso foi acontecendo, porque não me achava. Inclusive, eu me achava muito estabanada e desengonçada, mas fiz teatro, então, fui aprendendo a me mexer. Isso foi uma coisa que aconteceu no Climão mesmo. Com a Letuce eu dançava, mas era menos.

CONTINENTE Há uma tradição das cantoras que trazem o mar, o corpo. Sei que a sua poesia não é literal, mas na faixa Coisa banho de mar, tem isso de o mar e os corpos. De onde vêm os corpos e o mar que você canta?
LETRUX Acho que vem muito do Rio de Janeiro e do fato de eu ser uma pessoa com terra. Preciso de água. Apesar de esse show ter sido super “iansânico” (relativo à orixá Iansã), e de eu ter tido realmente esse amadrinhamento, sou de Iemanjá. Todo mundo acha que sou de Iansã, mas foi um amadrinhamento para esse trabalho. Sou muito mãezona, cuidadora, abraços, coisas, mar. Sou do Rio, né? A Tijuca não é perto da praia, mas, sempre que dava, a gente ia à praia. Ir à praia é algo que eu fui ficando mais velha e entendendo. Já morei em São Paulo e pensei: “Gente, não adianta, a gente tem que estar perto das coisas que fazem a gente feliz”. O que me deixa feliz é estar perto do mar. Pode ser bobo para algumas pessoas, para mim, é químico, vital. Não dei muito certo morando em São Paulo, em 2016, porque senti muita falta do mar. Às vezes, não tenho nada para fazer, sou freelancer, então, por que não passar esse dia na praia? Eu me sinto muito inspirada, muito conectada. O dia que eu vou à praia é o melhor sono à noite. Deito na cama, assim, um bebê e tenho sonhos. Enquanto pessoa que trabalha com criação, percebi que sempre me fortalece. Essa música Coisa banho de mar, o Arthur (Braganti, tecladista) fez a maioria. E fez assim, para mim: “Ó, amiga. Botei aqui a palavra ‘coisa’, mas você coloca um adjetivo. Eu falei: “Não, a música é Coisa banho de mar!”. Nessa música, só fiz aquele final: “Eu vou nadar pelada no mar” e o “Que brutal esse caldo.” Lá em Portugal, eles falam brutal, para o bem e para o mal, que nem a gente fala foda. “A festa foi brutal.” Bom ou ruim? E a gente tinha voltado de Portugal, estava com essa palavra muito viva. Falei: “Que brutal esse caldo”. A maioria dessa música, as estrofes são coisas do Arthur, que é canceriano e meu amigo de praia, absolutamente. A gente brinca de divã na praia (risos).

CONTINENTE Como é, para você, questionar-se sobre os problemas sociais brasileiros? O Brasil é um país com uma desigualdade social absurda. Como é sua sensibilidade em relação a essas questões?
LETRUX Outro dia estava pensando nisso. Sobre alguém ser bilionário. Fiquei pensando qual seria a diferença de ser milionário para ser bilionário. Se isso influenciaria muito no seu dia a dia, do tipo: “Bicho, não dá para ser milionário e doar?”. Existem bilionários, Bill Gates é um deles, que fala muito sobre isso. Ele é maravilhoso, vi um documentário sobre ele. Vai para a África tentar descobrir a cura de várias doenças, doa milhões para médicos fazerem pesquisas. Coisas que eram para o governo, sei lá quem, a Organização Mundial de Saúde, fazer. E ele dá milhões para médicos e cientistas acharem cura de doenças. Tem coisas que já eram para ter sido erradicadas e ele fala muito sobre isso de ser bilionário. Não dá para ser milionário? Só são bilionários porque tem gente passando fome. Se fosse mais equilibrado, não seria assim. É um horror. Não sei o que posso fazer, nem sei se faço muito. Tenho minhas doses de cidadania relacionadas à caridade, amadrinho umas crianças no Natal, volta às aulas. É até aqui no Complexo do Alemão, mas não é nada perto de uma mudança real. Tem muita gente de direita, “cidadãos de bem”, que faz: “Poxa, ajudei criança no sinal”. “Ah, e votou em quem?” Não mete essa do dinheiro no sinal, você não vai salvar o mundo com isso. Você vai salvar o mundo com novas leis, com taxas em rendas de milionários, bilionários. Tem que acontecer alguma coisa.

CONTINENTE Voltando à música, como nasce uma composição sua?
LETRUX Acho que a composição nasce de uma hora que me impressiono com alguma sensação. A sensação pode até estar lá e tem uma hora que eu tomo um susto. Falo: “Que estranho aqui, hein?”. Uma hora que dá uma cutucada para eu pegar minha lupa, meu microscópio e dar uma observada em uma sensação. Para me resolver com essa situação, tenho gostado de compor. Voltei para a análise, então, falo muito. Também gosto de escrever quando estou angustiada, mas tem coisa que não sei bem como falar e faço uma música. É a hora que eu investigo uma cutucada e resolvo fazendo uma composição. Uma coisa bem: “Estou aqui, com essa questão”. Aí, vou cantar. O famoso “cantar para subir”, né? Às vezes, estou ali, não consigo tirar aquela questão e, quando canto, parece que sai, desata algum nó.


Fotos: Ana Alexandrino

CONTINENTE Como é liderar uma banda e ver seu público cantando suas músicas?
LETRUX É chocante. Até hoje a gente fica: “Meu Deus! Você viu aquela hora?”. “Caralho, você viu aquela menina cantando mais alto que eu?” (abre o sorriso). A gente fica bem impressionada. Significa que as pessoas se identificam muito com essas músicas e querem viver essa catarse junto com a gente.

CONTINENTE É muita troca de energia?
LETRUX Uma troca de energia muito forte. Tão forte, que preciso me proteger. Não abrir meus canais para bebida, não faço shows bêbada, porque é muita loucura. Alguém tem que estar sóbria comandando esse barco. Um barco de malucos entre plateia e banda. A banda também vai, eu também vou, mas sou a capitã. A capitã não pode estar doida, então, estou doida de verdade. Sobriamente doida, que é o mais louco. Mas não posso dar chance para os devaneios que complicam também o ego, a vaidade. O álcool abre outros canais. Estou ali, com aquela galera, cantando com aquela banda, preciso ter um chão também. Embarco, viajo, mergulho, vou e voo, mas estou aqui também. E isso é muito importante. Às vezes, você vê shows em que fui embora e voltei.

CONTINENTE Você é bastante espiritualizada. Acredita em Deus?
LETRUX Não acredito em Deus, a figura que, talvez, a “população de bem” acredite. Um homem de barba, velho, sei lá, o pai de Jesus. Até tenho falado muito “graças a deusa” para mudar isso. Eu me sinto muito mais conectada às deusas. Iemanjá, Iansã, entidades femininas. Faço uma cura magnificada também que invoca Kuan Yin, que é a deusa da misericórdia. Vibrando muito a energia dela. Sem dúvida alguma, acredito que existe uma força superior à matéria, à carne, ao físico. Já fui apresentada a essa força, já estive diante dessa força algumas vezes. Não consigo não crer. Não consigo ir ao centro espírita e falar: “Olha lá, uma peça de teatro”. Meu pai é médium e incorpora. Desde criança, vejo pessoas incorporarem, darem conselhos através das entidades, sejam masculinas, femininas. Já recebi todos os tipos de conselhos. Desde criança, não consigo não acreditar porque, para mim, isso era tão real quanto ir ao colégio. “Hoje tem natação, aula, inglês e tem centro espírita”. Era um fato na minha vida. É um fato. Questiono algumas coisas, mas sinto arrepio. Minha mãe me ensinou que arrepio é confirmação. Se você está numa situação mais espiritualizada, em que você se arrepia, você não vai falar que é bobagem. Presta atenção nisso. Investiga essa energia.

CONTINENTE Você disse que o Climão foi mais “iansânico”, com as forças de Iansã. Letrux aos prantos você associa mais a que ou a quem?
LETRUX Acho que, de alguma maneira, foi um amadrinhamento para a vida. Aconteceu de vir nessa época do Climão, mas a força de Iansã, sem dúvida, ela chegou para dividir ali. Mas, depois de tanto fogo, preciso também de… Foi tudo muito intenso. Dois anos e meio pegando fogo, acho que este (novo) disco, talvez, pelo teor das letras, é mais emotivo, mais aquático, mais do subconsciente, mais de sonhos. Talvez o Climão fosse mais direto nas letras. Não sei. Neste, estou mergulhando em algo que envolva mais a emoção. Os últimos anos foram muito difíceis, a eleição de 2018 foi horrível. Percebi muita gente da minha família, pessoas do mundo, muito cínicas. Houve um deboche, que falei: “Não quero ser debochada, quero ser sensível”. Este disco é muito o de alguém que escolhe ser sensível e não debochada, que é uma coisa que está rolando muito. Amo rir, amo memes, amo piadas, mas tem hora também para se sensibilizar. Acho que é um discurso sobre isso.

CONTINENTE Depois do horror, o amor resiste?
LETRUX Resiste sempre, porque, depois da paz, o amor é a coisa mais forte do mundo. Acho que a paz é maior que o amor. Vi isso em um filme, não é meu, não. Foi um desses filmes bem cabeçudos. É um holandês-mexicano e se chama Luz silenciosa (Carlos Reygadas, 2007). Filme difícil, que tem muita gente que odeia e outras que falam: “Meu Deus, amo!”. Polêmico. Eu amo, mas mandei uma amiga ver, ela fez: “Você está de sacanagem?” (risos). É um filme muito lento, com outro tempo. As pessoas estão mais acostumadas com séries, mas fiquei assim (faz expressão de espanto e admiração). Tem crianças no filme, amo filmes que têm crianças, porque têm uma fantasia que eu acredito. Não vou contar spoiler, mas a sinopse do filme é: um cara de uma religião, menonitas. Eles são muito ortodoxos. Holandeses que moram no interior do México. Não são mórmons. Os mórmons são poligâmicos e nessa religião tem que ser monogâmico. Estão lá, a mulher dele com sete filhos e ele se apaixona por outra mulher. O filme é sobre essa dor de você se apaixonar por uma pessoa fora do seu casamento. Uma hora eles resolvem que não vão mais ficar. Agora estou dando spoiler (risos). Cai uma lágrima do olho da mulher em um close absurdo. E ela fala: “A paz é maior do que o amor”. Do tipo: “É, a gente não pode ficar juntos. Nosso amor é grande, mas tem que ter paz. Vamos ter paz? Vamos nos separar”. Isso é maravilhoso. Eu era muito mais romântica, mais nova. “O amor vence tudo”, mas, não. O amor é importante, mas a paz vence tudo. Acho que, depois da paz, sem dúvida, a maior força do mundo, para essa engrenagem planetária acontecer, é o amor. As pessoas têm filhos por quê? Porque, se for para parar e pensar no mundo, tu não tens filho. Mas o amor de duas pessoas é tão louco. Não só de duas pessoas, de uma mulher solteira ou um pai solteiro que quer adotar. Ama tanto… Aí vem uma criança, que amor! O mundo só continua por isso, por amor.

CONTINENTE Você é uma pessoa que ama muito?
LETRUX Amo muito! Nunca amei pouco, sempre fui aquilo que te disse. Demoro, mas também, quando amo, sou uma desgraça assim. Romântica, cartinha, música.

CONTINENTE Cartinha?
LETRUX Cartinha, cartão, caligrafia, faço música, poema. Constrangedor, mando música, tudo. Sou ridícula. E tenho um tesão em amor, porque sem tesão também… Só amar? É bom, mas tesão é engrenagem do amor também. Tem muita gente que ama, mas deixa o tesão. Maravilhoso na entrevista do (ex-presidente) Lula saindo e falando sobre prazer. Porra, era tudo o que eu queria ouvir. Esse último ano, desses homens encruados, cinzas, fechados, que não têm boca, que não amam as mulheres e não assumem, caso amem homens. Então, aonde está o tesão dos governantes? Do Crivella, do Witzell, dos Bolsonaros? O que essas pessoas vivem? A vida é prazer. A gente nasce de um ato de prazer. O esperma vai de encontro. Não só prazer físico. Se uma mulher também faz fertilização in vitro, vai com prazer fazer aquilo. Imagina esse dia da vida dela? Estressante, mas é muito prazeroso e cheio de torcida, tesão, vibração. Esses governantes não têm um terço de vibração, de viço. Eles não têm viço. Quando o Lula sai da prisão e fala para a população ter prazer, eu derreto em casa. É isso, precisa de prazer. Amo muito e sinto muito prazer. Erotismo é um assunto forte da minha análise. Amor, tesão. Como ser mulher em 2020 e viver uma vida rompendo com várias coisas que a gente ainda aprende? Sobre tudo: sobre masturbação, sobre monogamia, poligamia, bissexualidade. E como olhar para frente? Como seguir a partir daqui? O movimento feminista chegou de uma forma avassaladora nas nossas vidas e me ensinou muita coisa. Como é que a gente vai encarar a estrada agora? Como esses desdobramentos feministas vão passar pela gente? É muito bom ter amiga, muito bom conversar sobre isso com as amigas. Nem só amigas, às vezes, alguém que você segue, que você curte a visão. É maravilhoso. Acabei de ver aquele filme, A vida invisível (2019), de Karim Aïnouz. Você viu? Gente, acabou o filme e só olhei para o Thiago e falei: “Ainda bem que nasci em 1982”. Só consegui falar isso. Chorei. Imagina essa mulher, a Eurídice; e a Guida também. Pensei muito nas minhas avós. É complicado. Hoje em dia também não pode, mas não podia fazer aborto. Talvez o moralismo já tenha diminuído, mas imagina uma mulher que não queria ter filho? A mulher queria ir para o Conservatório, o marido e o pai e a mãe calada ali, porque dependente. E é recente, não é longe isso. É chocante pensar que não é longe. Chocante pensar que se passa nos anos 1950. Se a gente parar para pensar, em termos de evolução do planeta, dinossauros, pré-história, é agora. Então, é chocante.


A cor vemelha dominou a produção de shows em torno do disco Letrux em noite de climão.
Foto: Sillas Henrique/Divulgação

CONTINENTE Como é ser artista, mulher e feminista no Brasil de 2020?
LETRUX Tem uma abertura muito maior, isso que a gente estava falando. Imagina se eu fosse artista na década de 1950. Não poderia falar nenhuma palavra das letras que eu falo. Todas as minhas letras seriam censuradas ou iam achar que eu sou uma Pagu, uma prostituta, uma louca. Iam me internar. Olha que sorte estar viva em 2020, ser mulher, feminista e poder falar “que estrago que você fez na minha casa”. E tantas outras letras. Têm letras que eu falo palavrão. “Nasci com o cu para a lua e o pé no mar.” Cabe, é gostoso, é meio sonoro. Não sou a favor de botar palavrão por botar. Para mim, é que nem outra palavra, tem que fazer sentido. Mas, que sorte ser mulher, feminista, em 2020, sendo agraciada por toda a luta de outras mulheres que vieram antes de mim. Batalharam e eu usufruo dessas lutas. Então, sou agradecida e tento dar continuidade. Não tenho sobrinhas, só tenho sobrinhos, mas isso é importante. Dei uma cozinha para eles, em algum Natal. Eles brincaram, a gente ficou lá horas brincando de cozinha. Tem que preparar as que vêm, mas também tem que preparar os meninos que vêm. Talvez seja até mais importante, porque o entrave é todo ali, né? As mulheres, elas têm já uma sabedoria corporal, mental, memória, sei lá. E os homens é que vão puxando, impedindo, cortando. Então, me sinto aí também preparando os meninos. Tomara!

CONTINENTE Em 2020, o que você quer falar para o seu público?
LETRUX Em 2020, quero falar para o meu público que é lindo se emocionar. O mundo se encaminha para um lugar mais robótico, mais “black mirror”, mais automático, das redes sociais, do like, do não sei o quê, mas você precisa tirar meia hora, três horas, um dia, um mês, três meses, o tempo que lhe for suficiente para enlouquecer se emocionando. Porque querem a gente muito pragmático. É importante também ter o lado prático da vida, mas sem esquecer da emoção, da ternura. Choro muito, sou muito chorona desde criança. Pego um filme do meio e já choro. Nem peguei do início. Thiago fica chocado. Choro com vídeo de cachorro, de gato. Nem tenho cachorro, nem gato. Mas choro. Vídeo de bebê, então…. Ah! Não só com história de superação, vídeo de superação, estou morta. Mas vídeos fofinhos mesmo. Acho que a galera gosta, mas curte e já vai ver outra coisa. Tem que dar um tempo para aquela emoção se assentar. E você entender onde isso bate. Sou muito assim com filmes. Vejo um, não consigo falar sobre ele logo. Fiz até um post recentemente. Fui ver Bacurau (2019), as pessoas gritavam no filme: “Olha lá, agora a menina vai morrer. Olha lá!” E faziam comentários. Fiz um post: “Primeiro sente, depois, comenta”. Primeiro sente, não fica comentando, senão você atrapalha a catarse alheia. Tem gente que é contra esse pensamento. “Não, o próprio Kleber Mendonça Filho disse que o filme é assim. É do povo. Todo mundo sentindo”. Como sou muito aberta ao outro, a catarse do outro, atravessa a minha e aí fica confuso para mim. Mas é de metabolismo, de espiritualidade. Prefiro me concentrar na catarse do cinema, uma troca do filme comigo. Prefiro dar um tempo. Primeiro sinto, depois, comento.

CONTINENTE E, para terminar, já que falamos de livros e música, o que você está lendo e ouvindo no momento?
LETRUX Estou lendo um livro de um neurocientista. Sonhos (O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho), do Sidarta Ribeiro. Fico muito nessa pegada. Voltei para a análise. Voltar para a análise é levar os sonhos para o divã. É muito longo, tem uma hora que fica bastante técnico com termos neurocientíficos, mas estou lendo aos poucos. O que estou ouvindo? Vou ver no meu Spotify (abre o celular). Não deixo de ouvir a Bahia. Caetano Veloso, que foi meu artista da década, e minha música do ano foi Spiritual, da Livia Nery, cantora baiana maravilhosa. Tenho ouvido uma cantora com descendência russa Michelle Gurevich. Estou apaixonada. Tenho ouvido muito mulheres. Toda semana, escuto uma mulher. Daqui da Baixada, também, tem a Banda Gente. Amo Luedji Luna, amo Xenia França, Liniker, a Céu. Quando a gente lançou o último disco de Letuce, ela participou do nosso show no Circo Voador. A Céu é muito uma mulher que todas as cantoras que surgiram nos últimos anos se espelham na trajetória de carreira que ela teve, porque ela conseguiu muita coisa legal. Foi para o exterior, grava discos com frequência, tem trilhas, novelas, cinema. Ela tem uma consolidação muito inspiradora. Discos maravilhosos, músicos sensacionais. É incrível. Amo também. Eu, Luedji, Liniker, Xenia e Maria Gadú, a gente faz o projeto Acorda amor. Essa tchurminha é maravilhosa.

ERIKA MUNIZ, jornalista e graduada em Letras.

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