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Crítica

Berlinale 2020

Na edição deste ano do festival que ocorreu em Berlim, o cinema brasileiro exibiu a força das mulheres jovens e da sororidade

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE BERLIM

01 de Abril de 2020

Cena do filme 'Meu nome é Bagdá', de Caru Alves de Souza, premiado na 'Berlinale'

Cena do filme 'Meu nome é Bagdá', de Caru Alves de Souza, premiado na 'Berlinale'

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 232 | abril de 2020]

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O cinema brasileiro que frequenta festivais muitas vezes falou sobre jovens, só que nem sempre foi para jovens. Mas isso parece estar mudando. A prova é Meu nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza, Alice Júnior, de Gil Baroni, e Irmã, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, todos participantes da mostra Geração 14+, direcionada a adolescentes e jovens adultos, no último Festival de Berlim, ocorrido em fevereiro. “Acho que faltam trabalhos desse tipo no cinema brasileiro, mas, ao mesmo tempo, esse tipo de cinematografia tem crescido nos últimos anos”, disse Luciana Mazeto em entrevista à Continente.

“Filmes como esses três mostram a diversidade e a qualidade da cinematografia brasileira para esse público. Mas, quanto mais produções, melhor, tanto para o nosso cinema quanto para o público”, completou a diretora. Os três longas fizeram parte da enorme delegação nacional na edição deste ano do festival, que teve 19 filmes entre coproduções, curtas e longas. Na seção Panorama, o cineasta Karim Aïnouz mostrou os protestos pela democracia na Argélia, também sob o ponto de vista de uma jovem, no documentário Nardjes A.

Caru Alves de Souza, que ganhou em Berlim o prêmio do júri de melhor longa da mostra Geração 14+, tinha bem claro que queria fazer um filme sobre uma adolescente, mas não tinha certeza se ia ou não funcionar com o público jovem. “Tinha uma grande esperança de que sim, porque o filme foi muito construído com os esqueitistas e as esqueitistas. A gente os ouviu muito para fazer o filme e para entender o que fazia sentido para eles ou não. Então, havia uma vontade de que o filme também funcionasse com pessoas mais jovens. Mas a resposta que a gente teve em Berlim foi superpositiva. Estar na Geração foi mais legal ainda porque possibilitou isso. O que veio de retorno para a gente da plateia jovem foi muito positivo.”

Os três longas-metragens são muito diferentes entre si, vêm de três Estados – São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná –, mas dá para dizer que têm, pelo menos, dois pontos em comum: suas personagens principais são meninas que lutam contra as regras estabelecidas pelo patriarcado e mostram a força da união entre as garotas, ou, para usar a palavra da moda, sororidade.

Curiosamente, Meu nome é Bagdá é livremente inspirado no livro Bagdá, o skatista, de Toni Brandão, e se passa num bairro proletário de São Paulo – no caso, a Freguesia do Ó. Mas, muito no início do projeto, que começou em 2008, Caru, que escreveu o roteiro com Josefina Trotta, percebeu que queria mesmo era falar de uma esqueitista menina. “Até porque podia falar de ser esqueitista menina num ambiente masculino – na época em que comecei, realmente havia poucas meninas. Nos últimos anos, o esqueite feminino cresceu demais”, afirmou.

A diretora achou necessário incluir os coletivos de esqueitistas do sexo feminino para participar do desenvolvimento. “Isso foi mudando a história e o foco também. Em vez de ser só sobre as dificuldades de ser esqueitista, virou uma história de fortalecimento pelos laços que Bagdá estabelece não só com as meninas esqueitistas, mas com as mulheres na sua vida também”, disse Caru.

O filme tem três núcleos pelos quais Bagdá (Grace Orsato), 17 anos, circula. O familiar é feminino e formado por sua mãe, Micheline (Karina Buhr), e suas irmãs mais novas, Joseane (Marie Maymone) e Bia (Helena Luz). Micheline trabalha no salão de Gilda (Paulette Pink), que lá mora com Emílio (Emílio Serrano) – os dois sofrem preconceito por serem trans e homossexual, respectivamente. Outro lugar de acolhimento é o bar de Gladys (Gilda Nomacce). O do esqueite, em princípio, é totalmente masculino. Bagdá é a única garota num bando de meninos, entre eles Deco (William Costa) e Clever (João Paulo Bienemann). Mas logo chega Vanessa (Nick Batista) e, depois, as duas conhecem outras meninas que praticam o esporte como elas, o terceiro núcleo.

Como Meu nome é Bagdá tem um número grande de personagens femininas, é um sonho de representatividade: cada mulher pode ser do jeito que é, sem precisar se ater a um modelo predefinido. Bagdá é meio moleca, jogando papel higiênico molhado no carro do vizinho, tem cabelo curto, mas que ninguém ouse prendê-la ao estereótipo. “Ela tenta estabelecer as próprias regras e não se curvar ao que lhe é imposto. Ela caminha com as próprias pernas”, disse Caru. “Em relação à sexualidade, em princípio, ela parece gostar de meninos, mas também não fica claro que ela não gosta de meninas. Tem um visual mais tomboy, mas usa sutiã de rendinha e pinta a unha.”

Sua irmã Joseane poderia ser considerada uma adolescente mais padrão, usando roupas curtas e sempre de maquiagem. “Mas é uma escolha que ela fez. Ao mesmo tempo, é superamorosa, quer ser livre, defende a irmã, ajuda a irmãzinha, que quer ser astronauta. As três são muito diferentes, mas se apoiam, e está tudo bem. As mulheres são muito diversas e cada uma pode ser de um jeito, afinal.” Para a cineasta, as mulheres que fazem parte da vida de Bagdá mostram que os laços de solidariedade entre elas são necessários para ficarem mais fortes e poderem existir no mundo de forma mais leve e combativa. “Esse é o tema principal do filme: juntas somos mais fortes. Para qualquer população oprimida, soluções individuais são completamente enfraquecedoras. A gente se fortalece nos coletivos.”

Ela tentou aplicar isso na prática, contratando uma equipe majoritariamente feminina. “Não adianta fazer um filme com personagens mulheres sem ter mulheres construindo essa narrativa juntas”, disse Caru Alves de Souza. “Não adianta fazer um filme sobre empoderamento feminino, se você oprime as mulheres da sua equipe. Tem esse monte de filme de homem com mulheres protagonistas que, às vezes, até são personagens incríveis, e depois você vai saber que essas mulheres foram torturadas por esses diretores e por gente da equipe. Isso para mim não funciona.” Para ela, contratar não apenas mais mulheres, mas também mulheres e homens feministas tornou o set “mais solidário, compreensivo, leve, gostoso”.

A diretora de Meu nome é Bagdá se disse totalmente influenciada pelos movimentos feministas recentes, inclusive o Me Too e o Time’s Up, que tiveram repercussão no Brasil também. “Tenho acompanhado muito de perto todas essas discussões, desde que elas ganharam força. Acho que eu não teria feito um filme dessa maneira cinco ou seis anos atrás. Essas discussões são muito importantes para a gente refletir sobre o que faz”, pontuou.

IRMÃ
O roteiro de Irmã, escrito em 2016, também ecoa essa mobilização global. “Era um momento em que o feminismo no Brasil, e na América Latina, estava ganhando novo corpo, com novas gerações protestando por igualdade e a autonomia de seus corpos”, disse Luciana Mazeto. “Existia uma sensação de que algo estava por vir. Mas o que vimos foi uma onda conservadora surgir com muita força, não só no Brasil, no mundo – muito em resposta a essas reivindicações e protestos. No filme, utilizamos tudo isso como base para a construção das personagens.”

Na trama, a adolescente Ana (Maria Galant) e sua irmã Julia (Anaís Grala Wegner) vão para o interior atrás do pai, quando a doença de sua mãe se agrava. “Ana, a irmã mais velha, seria uma representação dessa geração contemporânea de mulheres que sabem dos seus direitos e não se curvam às imposições sociais. Já Julia, a irmã mais nova, nós construímos pensando em uma utopia. Como seria uma mulher que não foi ensinada a ter medo? Do que ela seria capaz?”

O filme tem uma leve pegada apocalíptica, sem abdicar do lirismo. “Irmã aborda diversas questões pessoais para nós, sobre as relações familiares e nossas memórias”, explicou Vinícius Lopes. “Mas também aborda um sentimento sobre o país, mais precisamente o de 2016, que foi um momento de turbulência política e social, cujos efeitos continuamos sentindo até este momento. Vivíamos em um momento pré-apocalíptico naquele período.” A ideia inicial era ver as duas em uma jornada enquanto o mundo à sua volta desmoronava. “Daí o asteroide, os dinossauros e todos os elementos que compõem a narrativa começaram a se interligar. É o fim do mundo ou o começo de um novo?”, questionou Lopes.


Irmã, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, também participou da mostra Geração 14+, na Berlinale. Foto: Carine Wallauer/Divulgação

Tanto Caru Alves de Souza quanto Luciana Mazeto e Vinícius Lopes acreditam que as mulheres, hoje, estão mais equipadas a lidar com o machismo e a dizer o que pensam. “As meninas mais ligadas nessa questão de feminismo e da necessidade de ter esses laços de solidariedade estão mais preparadas para enfrentar juntas esse tipo de problema. O machismo não é um problema só de uma mulher, mas de todas nós”, disse Caru.

Para Luciana Mazeto, “não existe mais volta para o que aconteceu no país, nesse sentido”. Ela defende: “Essas gerações sabem dos seus direitos, sabem que a situação pode ser modificada, que existem outras formas de existir, de se relacionar, de se expressar, de expressar seu corpo, a sua sexualidade. Não importa o quanto tentem oprimir a manifestação disso na nossa sociedade, não existe mais volta. Quando acontece uma tomada de consciência, ela passa de mãe para filha, para o filho, de irmã para irmã, de amiga para amiga, das amigas para os amigos. Ela se multiplica”.

Os filmes são uma oportunidade de espalhar essa tomada de consciência para mais meninas e meninos, homens e mulheres brasileiros, e de garotas e jovens se verem representados na tela.

ALICE JÚNIOR E NARDJES A.
No caso de Alice Júnior, o diretor Gil Baroni espera poder despertar empatia e identificação em, pelo menos, alguns espectadores. A produção tem um tom leve e divertido, principalmente graças à sua protagonista, vivida por Anne Celestino Mota, que, como sua personagem, também é trans. Alice muda-se do Recife para o interior do Paraná por causa do trabalho de seu pai. Sofre bullying, mas resiste e conquista aliados no caminho. A aposta do filme é manter uma atitude positiva: Alice não é uma vítima, mas a heroína de sua história.

“Parece simples falar de primeiro beijo na adolescência, mas a complexidade surge quando o primeiro beijo acontece num corpo transexual, especialmente no Brasil, que tem a maior taxa mundial de morte de transexuais”, escreveu Baroni, num depoimento no material de imprensa do filme para o Festival de Berlim. “Alice é trans, e sua existência é sinônimo de resistência. Estamos vivendo um momento delicado no Brasil em que os conservadores estão ganhando espaço com discurso de exclusão, encorajando o ódio, fomentando o medo e insistindo em deslegitimar as novas configurações familiares. Gostaríamos que a história de Alice tocasse o coração das pessoas e aumentasse a conscientização daqueles que ainda não entenderam a beleza e a diversidade de cada ser humano.”

Alice Júnior não apenas escalou como ouviu sua atriz no desenvolvimento do projeto, na tentativa de ser mais autêntico e respeitoso com seu olhar e experiências. Meu nome é Bagdá também escutou Grace Orsato, sua atriz principal, e o coletivo de meninas esqueitistas. “Não dá mais para contar a história do outro sem a participação do outro. Isso não cabe mais no mundo”, disse Caru Alves de Souza. “Não quer dizer que eu só possa escrever histórias sobre mim mesma. Quem reivindica só quer que, se você vai fazer uma história sobre mim, que eu esteja nessa narrativa de alguma maneira. Todo cineasta e artista tem de começar a repensar. Por que escrever a história sobre o outro sem a participação do outro? Não faz nenhum sentido.”


Em Alice Júnior, o diretor Gil Baroni, busca despertar empatia dos espectadores com a sua protagonista trans. Foto: Divulgação

No caso de Karim Aïnouz, Nardjes A. era um documentário feito no calor da hora. Na verdade, o cineasta estava na Argélia para desenvolver outro projeto, sobre a guerra de independência do país e a história de amor de seus pais – ele é filho de um argelino com uma brasileira. Na primeira vez que tentou filmar, com uma câmera profissional, a polícia o impediu. “Vi que seria importante seguir alguém durante um dia nas manifestações”, disse o cineasta. Uma amiga o apresentou a Nardjes, uma atriz. “Eu a adorei”, disse. Ela topou ser filmada, com uma condição: que ela não fizesse o papel de ninguém, mas o papel dela mesma.

“Nardjes queria poder se manifestar como ativista naquele dia”, explicou o cineasta. “No momento em que filmei, não tinha certeza se ela era a protagonista ideal. Mas depois ela virou a protagonista ideal, porque acho que de uma certa maneira ela condensa, na história da sua família, a história da Argélia pós-independência: os avôs que lutaram na guerrilha contra a França, os pais que eram altamente engajados, o pai que era do Partido Comunista, muito envolvido na política de autonomia do país. Nesse sentido ela me parecia a nova geração, que era fruto de duas gerações que lutaram por um país independente. Para falar do que estava acontecendo, ela traria uma camada histórica, mas, ao mesmo tempo, muito viva. E isso era muito bonito.”

Nardjes A. capta a energia do momento e a esperança da jovem população argelina de construir uma sociedade melhor, mais democrática, mais aberta e justa. Nardjes A. é uma pessoa de verdade que vive na Argélia, mas seus desejos não são muito diferentes daqueles de Bagdá, Ana, Julia e Alice, personagens fictícias que moram num bairro trabalhador de São Paulo, em Porto Alegre ou no interior do Paraná. Colocar esses desejos na tela é fundamental para alimentá-los e para o futuro do cinema nacional.


Em Nardjes A., Karim Aïnouz acompanha a atriz argelina Nardjes durante um levante pacifista em seu país, ocorrido em 2019. Foto: Divulgação 

“Acho superimportante ter filmes para jovens que não sejam aqueles empacotados, que já existem. É fundamental pensar nisso, principalmente nos dias de hoje. Acho legal que tenha cineastas pensando nisso”, disse Caru. Luciana Mazeto e Vinícius Lopes quiseram colocar algumas experimentações de linguagem num filme voltado para jovens que não necessariamente estão habituados a esse tipo de cinema. “É um teste, uma aposta, um convite”, disseram os dois, que fizeram Irmã de forma independente, por não terem sido contemplados em editais de fundos municipais e federais.

Esses cineastas tentam olhar para o futuro do Brasil em personagens e em espectadores, num momento em que o futuro do cinema brasileiro está incerto. “A situação é periclitante, para dizer o mínimo”, disse Karim Aïnouz. “É muito preocupante quando se tem uma atividade econômica interrompida de maneira tão arbitrária, não clara – essa é a grande questão, quando não se tem um inimigo na sua frente, tudo é muito nebuloso. A Ancine existe, mas o trâmite dos projetos demora muito. É uma situação de grande instabilidade para uma atividade que estava indo de vento em popa.”

Sua preocupação maior é justamente com a nova geração – diretores como Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, que estão estreando nos longas de ficção com Irmã, e Caru Alves de Souza e Gil Baroni, que estão nos segundos longas com Meu nome é Bagdá e Alice Júnior, respectivamente. “Como essa nova geração vai conseguir fazer cinema como atividade profissional, não só como atividade amadora? Essa é uma questão muito importante”, afirmou Aïnouz. Que esses novos diretores tenham a garra de suas protagonistas para lutar por um futuro melhor, mais democrático, mais justo e cinematográfico.

MARIANE MORISAWA, jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais.

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