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Portfólio

Marcius Galan

Em relação com o espaço

TEXTO Jurandy Valença

01 de Abril de 2020

'Três seções', 2010, madeira, cera de piso e pintura sobre parede, edição: 1/3 + 1 AP, dimensões variáveis

'Três seções', 2010, madeira, cera de piso e pintura sobre parede, edição: 1/3 + 1 AP, dimensões variáveis

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 232 | abril de 2020]

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Marcius Galan nasceu em Indianápolis, Estados Unidos, mas desde os seis meses vive no Brasil. Radicado em São Paulo há duas décadas, vem construindo uma sólida e diversificada obra que reúne desenho, escultura, fotografia, instalação e objeto. Formado em Artes Visuais pela Faap, em 1997, o artista tem trilhado, nesses últimos 20 anos, uma trajetória ascendente no cenário da arte contemporânea brasileira.

Em 2003, foi selecionado para uma residência de seis meses na Cité Internationale des Arts, em Paris, e, um ano depois, foi residente por três meses no Art Institute of Chicago. Galan também foi finalista, em 2010, do Prêmio Pipa, no qual foi o vencedor da 3ª edição, dois anos depois. Em 2013, foi membro do Comitê de Indicação do prêmio, mesmo ano no qual participou no Programa de Residência da Gasworks, em Londres.


Obra de arte em cinco vias, 2012, jato de tinta sobre papel, edição: 3/3,
21 x 29,5 cm (cada 
uma). Imagem: Divulgação

O artista já exibiu suas obras em lugares icônicos da arte contemporânea internacional, como a White Cube, em Londres; o Guggenheim Bilbao, na Espanha; e o Palais de Tokyo, em Paris; e, não obstante todas essas credenciais, já participou de importantes mostras brasileiras como o Panorama da Arte Brasileira (2007), a 29ª Bienal de São Paulo e a 8ª Bienal do Mercosul, entre outras. Suas obras estão em coleções públicas importantes como a CIFO, Cisneros Fontanals Art Foundation, em Miami; a Jumex, na Cidade do México; no Instituto Inhotim, em Minas Gerais; no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; na Pinacoteca do Estado de São Paulo; e no Museum of Fine Arts, em Houston, Estados Unidos.

Nos últimos três meses, seus trabalhos puderam ser vistos nas exposições Livros de artistas da Biblioteca do MAM e O que não é floresta é prisão política, na Galeria (Re)ocupa, na Ocupação 9 de Julho, ambas em São Paulo; Canção enigmática: relações entre arte e som nas Coleções MAM Rio, no Rio de Janeiro; em Visão geral, em Inhotim, Minas Gerais; e Samba in the dark, em Nova York. Mas quem não viu alguma ou nenhuma dessas mostras citadas, tem até o dia 9 de maio para conhecer trabalhos recentes do artista. Ele apresenta a individual Fervor na Galeria Luisa Strina (SP), onde exibe esculturas inéditas feitas ou finalizadas com materiais que têm uma relação de incompatibilidade entre si, como, por exemplo, uma superfície áspera e outra lisa, um elemento de alta densidade e outro líquido/fundido. Em comum, elas têm o atrito e o contato entre materiais sensíveis ou agressivos como ponto de partida.


Monte-ilha, 2008, materiais diversos, 75,5 x 307 x 207 cm. Imagem: Divulgação


Straight segment, 2017, concreto, madeira e pintura
poliuretano, 140 x 30 x 64 cm. Imagem: Divulgação


Antes da abertura da exposição, em fevereiro, durante uma troca de e-mails com Galan, ele comentou: “A exposição que estou pensando agora tem atrito, materiais que resistem um ao outro, ebulição; isso é reflexo da minha percepção do momento político de hoje”. Aproveitei para lhe perguntar sobre como a política se insere em sua produção, e Galan completou: “O trabalho de arte é um ato político em si. Mas as questões do dia a dia também estão refletidas de alguma maneira na minha produção. Em outros trabalhos, a divisão dos espaços, a linha como limite, o desenho que organiza os espaços em diagramas, equilíbrio. Tudo isso, de uma certa forma, são proposições de reflexão política”.Além dessa mostra recente, o artista exibiu obras na Espanha e prepara individual na Alemanha. Para a feira Arco Madrid, que aconteceu recentemente, Galan realizou um projeto com a artista mineira, radicada no Rio de Janeiro, Laura Lima, cujo trabalho principal é uma mesa de jogos na qual aparecem objetos que partem do repertório de cada artista dentro do contexto do jogo. E, no dia 1o de maio, ele inaugura a exposição They endured, em Berlim, na Galeria Gregor Podnar, na qual exibe objetos que podem ser reconstruídos através de vestígios e construções em desequilíbrio. Nessa mostra, além de esculturas e objetos, o artista exibe um vídeo sobre arquitetura em parceria com o diretor de arte de cinema e televisão Newton Leitão.

O espaço é o assunto principal de Marcius Galan. O que nos leva a pensar mais na maneira como ele apresenta a obra, do que na construção dela. O artista criou um vocabulário próprio, como se fosse – de certa maneira – uma topologia visual. Seus trabalhos se apropriam de elementos da arquitetura, do design, da escultura e do desenho e, como aponta Kiki Mazzucchelli – antiga e constante interlocutora do artista –, abordam temas como a funcionalidade e a subversão dos sistemas de representação. Por exemplo, a série Isolantes, iniciada em 2004, na qual ele usa apenas um elemento em comum para a realização do trabalho, a faixa amarela de plástico, que é usada para isolar espaços; são faixas dessas que encontramos em áreas de segurança, para sinalização. Galan isola objetos com essa fita, delimitando áreas, tornando-os não só inacessíveis, como também inúteis.


Isolante, 2008, madeira, ferro pintado, 40 x 145 x 250 cm. Imagem: Divulgação


Isolante, 2010, ferro pintado e prego, 170 x 240 x 5 cm. Imagem: Divulgação


Exercício de divisão de área, 2014, concreto e pintura
epóxi, 80 x 80 x 12 cm até 5 x 5 x 12 cm. Imagem: Divulgação

Sua penúltima individual foi em 2019, no Espaço Auroras, em São Paulo. Em Água parada, projeto site specific na piscina do local, Galan simula a decantação de água no fundo da piscina pintando um degradê que vai de um verde-escuro até um preto profundo. Como diz o artista e pesquisador Ilê Sartuzi, ao escrever sobre esta exposição, “o artista modifica o ambiente com precisão, pintando faixas de cor nos azulejos brancos. Essa imagem da água parada sofre uma mudança: em vez de se manter fiel ao nível horizontal, as linhas que delimitam essas marcas estão em diagonais. Essa estranha variação, quase como se o centro de gravidade do mundo fosse deslocado, insere a obra dentro de um campo impossível”.

Marcius Galan toma emprestado do cotidiano aspectos visuais e – principalmente – conceituais. Seus trabalhos mexem com a nossa cognição, subvertem a função de objetos, colocando em xeque a nossa percepção. É necessário olhar mais de uma vez, duvidar, para então apreender a obra atravessada pelo absurdo, pelo banal e pelo (sur)real. De certa maneira, em várias de suas obras, Galan opera como um ilusionista, fazendo truques de prestidigitação que levam o público a cometer erros de percepção. Seus trabalhos contêm um humor sofisticado que convida o público, o espectador, a brincar. Em relação a eles, podemos aplicar a palavra ilusão, com origem no latim e derivada do verbo iludo (formado pelo prefixo in e o verbo ludo, “eu brinco”), que, além de significar “divertir-se”, “recrear-se”, também significa “burlar”, “enganar”. Suas obras trazem também consigo algo muito parecido com “ironia”, termo da retórica e artifício do recurso em que o locutor diz algo fingindo dizer outra coisa, com o intuito do deboche.


Água parada, 2019, pintura sobre azulejo, dimensões variáveis. Imagem: Divulgação


Seção (prisma fumê), 2012, madeira, cera de piso e pintura sobre parede, Ed.3 + PA edição: 1/3 + 1PA, dimensões variáveis (site specific). Imagem: Divulgação

Quando lhe perguntei sobre seu processo de trabalho, o artista deu pistas de como o banal e o cotidiano influenciam sua pesquisa visual. “As coisas entram em sintonia. Numa caminhada, por exemplo, vejo um objeto no lixo que se relaciona com alguma ideia de trabalho que já estava quase pronta. Às vezes faltava um ângulo de apoio de um metal no outro que está ali resolvido dentro da caçamba. Sou bem atento às coisas da rua, muitas vezes falta uma palavra que pode vir de uma conversa na fila do supermercado ou de um livro. Não consigo precisar como acontece meu processo de pensamento para produzir um trabalho. Os já existentes também vão informando os próximos, é um desenho que vai se formando, incompleto. Também tenho cadernos que me ajudam, onde eu faço minhas anotações, desenhos sem ordem cronológica. E tem muitos artistas que me influenciam, claro. É uma lista extensa e que muda de tempos em tempos. Não consigo fazer uma só lista.”

Esse cruzamento do banal, do cotidiano e do absurdo se desdobram em trabalhos como Sino, obra de 1998 na qual o artista apresenta um sino cujo badalo não consegue encostar nas paredes, tornando-o incapaz de emitir sons. Dez anos depois, surgiria Seção diagonal, que foi exibida pela primeira vez na galeria que representa o artista, a Luisa Strina, em São Paulo. Nela, talvez a mais conhecida e popular dentre suas obras, Galan sugere a presença de um elemento que não existe no espaço. Ele pinta as paredes, o teto e o chão de um canto do ambiente com tinta verde clara, dando uma sensação de que há ali uma parede de vidro. Mas há apenas o vazio, que permite ao espectador atravessar o espaço. Só então a obra se revela aos seus olhos e, principalmente, aos seus sentidos. Por intermédio de uma área de cor, além de uma linha diagonal, o artista presentifica o contraste entre aquilo que é/pode ser real, tem matéria e peso, e o vazio.


Composição apagada (bicolor), 2013, borracha de látex sobre madeira, 34,5 x 47 x 5 cm. Imagem: Divulgação


Uri Gueller #2, 2011, ferro pintado e madeira, 110 x 150 x 116 cm.
Imagem: Divulgação


Nesse contexto, lembro a exposição O vazio, que o Yves Klein apresentou em 1958, em Paris. No dia da abertura, os visitantes foram recebidos por uma banda militar, contratada para a ocasião, e passaram por uma cortina tingida de “azul internacional Klein”, pendurada à porta da galeria. Ao entrar na exposição, entretanto, encontravam uma galeria vazia. A obra do artista francês incorporava a ideia da invisibilidade como parte de sua matéria principal e o vazio alcançava um status na arte até então impensável.

Seção diagonal não é um uma escultura tradicional, é um site specific constituído de espaço, luz e tinta. Quando vi pela primeira vez a obra, no Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto (SP), e, recentemente, em Inhotim (MG), a surpresa, o susto e alegria de (re)ver e sentir uma obra de arte foram os mesmos. Ela acontece dentro do espaço da galeria, do museu ou onde quer que seja montada. Em suas remontagens, o trabalho se apropria de cada novo espaço, com suas singularidades e desafios. Pode-se dizer que, em Seção diagonal, Galan cria contornos para o vazio, um vazio escultórico, quase um paradoxo. Uma presença ausente.

JURANDY VALENÇA, jornalista, artista visual e curador independente. É redator do Mapa das Artes São Paulo há 16 anos, e atualmente é diretor adjunto do Centro Cultural São Paulo.

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