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Tradução

Congresso trabalhando

Sátira de Will Rogers compara o funcionamento do Congresso a uma comédia hollywoodiana

TEXTO WILL ROGERS
TRADUÇÃO LUCAS COLOMBO

05 de Maio de 2020

Ilustração Eduardo Azerêdo

[conteúdo na íntegra | ed. 233 | maio de 2020]

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Will Rogers (1879-1935) é um tipo de Barão de Itararé (1895-1971) americano: mescla de jornalista e humorista, muito atuante na primeira metade do século XX. Foi o colunista de jornal mais lido da época dele e chegou a trabalhar como ator em dezenas de comédias de Hollywood, tanto “mudas” quanto “faladas” (a partir de 1930). Morreu em agosto de 1935, num desastre de avião no Alasca. Seus textos estão em domínio público, mas nunca foram editados no Brasil.

Citações ao autor, porém, não faltam por aqui. Ruy Castro incluiu aforismos dele na coletânea O melhor do mau humor (para citar dois: “Nem todos podemos ser um sucesso. Alguém tem de fracassar para nos aplaudir” e “É muito fácil ser humorista quando temos o governo inteiro trabalhando para nós”); Roberto Duailibi também, na conhecida reunião de frases que organizou. Na internet, blogueiros lembram essas máximas e episódios da carreira de Rogers. Ele escrevia bastante sobre o tempo dele, é claro, mas os artigos conseguem transcender, ser universais. Os fatos históricos que abordou – crash econômico de 1929, estabelecimento da União Soviética e ascensão de Hitler na Alemanha, por exemplo – despertam, naturalmente, interesse nos leitores de hoje também. O pendor para a zombaria política, sem distinções ideológicas, ainda mais.

Essa característica é forte no autor, e fala especialmente ao espírito brasileiro atual, de descrença nos partidos e nos políticos. Embora ligado aos democratas – grupo político que, aliás, para homenageá-lo pela participação na convenção do partido que nomeou o candidato a presidente de 1932, deu-lhe os votos dos delegados de seu Estado natal, Oklahoma, enquanto ele dormia na cabine de imprensa (a “pré-candidatura” não passou daí) –, Rogers mantinha a artilharia apontada para políticos de todas as colorações partidárias e para os ocupantes de momento da Casa Branca e do Capitólio. No texto traduzido aqui, Congresso trabalhando (Congress at work, no original), de 1923, ele compara o funcionamento do Congresso Nacional americano à produção de uma comédia num estúdio de Hollywood, com o holofote voltado à aprovação da Lei Seca, da qual ele caçoa. Não era para menos: a Prohibition, que entrou em vigor há exatos 100 anos, em 1920, se revelaria um fiasco, ao incentivar a produção caseira, tóxica, de bebidas alcoólicas e a atividade de contrabando dos gangsters, marcadamente violenta. Acabou revogada em 1933.

Mas não só o caráter irrestrito do humor político de Rogers faz o leitor atual se reconhecer nos textos dele. De prosa simples, variando da ironia melancólica ao burlesco, suas crônicas sobre a ação do marketing eleitoral, slogans enganosos que candidatos usam em campanha, propostas malucas de governantes e casos de corrupção propiciam sorrisos de cumplicidade no público. “Já vi isso em algum lugar…”, pensamos ao ler. Mesmo as observações jocosas sobre a crise iniciada em 1929 valem para a atual situação brasileira: Rogers nota que a recessão veio depois de um período de euforia econômica, processo semelhante ao que vivenciamos aqui, nos últimos anos.


Will Rogers em fotografia de 1922. Imagem: Reprodução

Rogers também fazia humor de costumes. São divertidos, por exemplo, seu deboche da conduta de turistas na Itália (mesmo texto em que lembra que Roma já foi uma cidade murada e que “Esse negócio de muro não dá certo, nunca deu…”) e sua descrição dos efeitos da vodca em quem a consome.

Congress at work e os demais artigos mencionados aqui estão na coletânea A Will Rogers treasury – Reflections and observations, organizada por Bryan B. Sterling e Frances N. Sterling para a Bonanza Books (1986). São textos originalmente publicados em jornais e transcrições de piadas e histórias engraçadas que Rogers contava em eventos sociais e políticos (prática que, hoje, chamaríamos de comédia stand-up). Seria bem-vinda às livrarias brasileiras, e de produção não dispendiosa, uma tradução desses textos. O que importa, afinal, ao republicar um clássico é mesmo o diálogo com o presente, teste em que Rogers é aprovado com distinção. Por nos ajudar a refletir, com graça, sobre tudo por que passamos e estamos passando é que lê-lo vale a pena.

***

Bom, semana passada trouxeram nossos soldados que estavam na Alemanha. Teriam trazido antes, mas ninguém em Washington sabia onde eles estavam. Tivemos que deixá-los lá, para que pudessem receber as cartas enviadas durante a guerra.

Seja como for, desde a semana passada muita coisa aconteceu no estúdio de Washington. Sabe o lugar onde são feitos os filmes em Hollywood? Nós o chamamos de estúdio. Nós e o Congresso somos muito parecidos, em vários aspectos. Fazemos o que entendemos serem dois tipos de filmes: comédias e dramas. Agora pense no Capitólio, em Washington. Trata-se do maior estúdio do mundo. Nós chamamos o que fazemos de “filme”; eles chamam o que fazem de “leis”. É tudo a mesma coisa. Às vezes o que fizemos achando que era um drama o público recebe como comédia. Então a incerteza é praticamente a mesma nos dois lugares.

O critério para avaliar uma boa comédia é quanto tempo ela terá de vida útil, quanto tempo terá gente comentando. O Congresso já determinou coisas que estão em vigor há anos e o povo continua rindo dessas coisas. Sabe como é, meninas ganham um pequeno concurso de popularidade nos seus estados, organizado por um jornal; e então participam de filmes que entretêm 110 milhões de pessoas que elas nunca viram na vida e de quem não sabem nada. Pois acontece o mesmo com os membros da Companhia Capitólio de Comédia. Eles vencem um concurso de popularidade em seus estados, organizado por um jornal, e vão para Washington fazer leis para 110 milhões de pessoas que eles nunca viram na vida.

Lá eles têm o que chamam de Câmara dos Deputados, ou Câmara Baixa. Compara-se ao que nós chamamos de Departamento de Sinopses. É aonde alguém chega com uma ideia do que pode ser uma boa comédia, discute essa ideia com a equipe e a faz ganhar forma. Ela então vai adiante, é impressa, ou fotografada, como dizemos, e sobe ao Senado, ou ao Departamento de Montagem e Pós-Produção. Em nossos estúdios, temos o que chamamos de Redatores de Humor, cujo trabalho solitário é prover umas piadinhas, ou emendas, conforme eles dizem, que vão fazer rir ou talvez mudar toda a situação à nossa volta.


Capa do livro no qual foi baseada esta tradução

Já o Senado tem o que é considerada a melhor e mais cara equipe de Redatores de Humor que poderia ser formada. Puxa, eles incluem tantas piadas ou emendas que o autor nem reconhece mais sua própria história. Acham que, se alguém do estúdio de Washington simplesmente incluir uma emenda marota em cada projeto de lei, ou produção, e essa emenda desfigurar o projeto inteiro, veja você: esse alguém é merecedor do salário que ganha. Pegue como exemplo o filme Lei Seca! Entrou na Câmara, ou Departamento de Sinopses, como uma comédia.

Aí, quando foi ao Senado, um dos humoristas, ou finalizadores, disse: “Tive uma ideia; em vez de isso ser apenas uma maldadezinha com tavernas e bares, olha só, vou incluir uma cláusula aqui que vai acabar com tudo”. Então eles mandaram a todos os bares de Washington, atingiram quórum para votar, e lançaram o que era para ser uma comédia inofensiva e virou uma tragédia.

E nós não fazemos outra coisa além de acatar leis malucas como essa, acostumar o povo a elas, até um juiz vir e dizer que a coisa não é bem assim. Semana passada, o juiz Knox apareceu e decidiu que um médico, em casos de doenças modernas, pode receitar a quantidade de álcool para “fins médicos” que ele achar necessária. Já segundo o texto da Lei Volstead aprovado no Congresso, ninguém é autorizado a se sentir “doente” por uma cerveja nem a cada 10 dias. Aí vem esse juiz e diz: “Deputados não são médicos (são todos pacientes). Como eles sabem quão doente alguém pode ficar? Ora, com um copo de cerveja a cada 10 dias ninguém ficaria de modo algum doente; ficaria indisposto”. Portanto, agora, quando alguém for ao médico, esse dirá: “Qual é o problema com você?”, e o paciente responderá: “Bem… uns três litros, doutor”.

Ou o médico, após examinar um de seus pacientes habituais, dirá: “Nossa, você está com uma aparência ótima; seu caso evoluiu de dois litros para um. Se você não se cuidar, vai melhorar”.

Em vez de estudarem Medicina, como é comum, os doutores agora podem apenas fazer um curso de caligrafia. Parece que este vai ser um belo ano para fábricas de canetas-tinteiro.

Outra produção da Companhia Capitólio de Comédia se chama O título não tributável, ou Deixe a conta para os de baixo. Fez sucesso entre o público mais rico por algum tempo, mas foi um tremendo fiasco nas salas de cinema mais baratas.

Outro filme que muitos de vocês lembram é Sobretaxa. O protagonista era um operário, sem dinheiro de investimentos para se valer, pagando mais imposto de renda do que o camarada rico que vive, justamente, de rendas. Esse filme foi vaiado em algumas das melhores salas.

Então eles decidiram começar uma superprodução que todos no país estavam esperando e exigindo; o título era O nascimento do bônus, ou Não me esqueça jamais. Mas, por motivos financeiros, eles não puderam produzir esse e O título não tributável ao mesmo tempo, então desistiram do Bônus.

Estão trabalhando em dois projetos formidáveis nesta semana. Um se chama Reembolso, reembolso, estou sempre reembolsando. Irá principalmente para o mercado britânico. O outro é um seriado, desses lançados todo ano. Todos no estúdio estão interessados nele e têm participação nos lucros. É realmente seu bônus anual, adicionado ao salário. O título é Terei o que é meu.

LUCAS COLOMBO, jornalista, professor, colaborador de revistas e cadernos de cultura, editor do site Mínimo Múltiplo e organizador do livro Os melhores textos do Mínimo Múltiplo (2014).

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