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Reportagem

Maternidade e criatividade

Em pleno século XXI, conjugar a produção artística à opção de ser mãe, transformando essa experiência também em matéria criativa, é um desafio para as mulheres

TEXTO GIANNI PAULA DE MELO 

05 de Maio de 2020

Ilustração Clara Moreira

[conteúdo na íntegra | ed. 233 | maio de 2020]

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Quando estava perto de completar 70 anos, em 2016, Marina Abramovic deu uma entrevista ao jornal alemão Tagesspiegel que causou mal-estar entre algumas mulheres do meio artístico. Na ocasião, a performer afirmou ter realizado três abortos no decorrer da sua vida, explicando sem arrodeio que os fez em nome da carreira: “Tinha a certeza de que (ter filhos) seria um desastre para o meu trabalho. Temos uma energia limitada no nosso corpo e teria que a dividir”. A conversa talvez não gerasse tanto frisson se tivesse ido até aí, mas Abramovic avançou nas suas considerações: “Na minha opinião, essa é a razão por que as mulheres não têm tanto sucesso como os homens no mundo da arte. Há muitas mulheres talentosas. Por que é que os homens é que ocupam os lugares importantes? É simples. Amor, família e crianças – uma mulher não quer sacrificar tudo isso”.

Não é difícil perceber a fragilidade desse posicionamento, inclusive da ideia de sucesso que ele evoca. Marina Abramovic fala em sacrifícios que não são cobrados no mesmo peso aos homens. No caso deles, os “lugares importantes” são conciliáveis com “amor, família e crianças” porque lhes é dado o “direito” de escolher quanto tempo e como se dedicarão aos filhos – seu script é, culturalmente, mais flexível e generoso. Muitos, aliás, abdicam da prole que colocam no mundo sem que haja grande ônus à sua imagem. Talvez por falta de espaço para desenvolver seu argumento, a artista aborda “a razão por que as mulheres não têm tanto sucesso como os homens no mundo da arte” com uma dose de simplismo, ao mesmo tempo que alça a mulher sem marido nem filhos a uma posição heroica.

Abramovic recebeu muitas respostas às suas declarações. Um dos contrapontos de maior repercussão foi a reportagem You can be a mother and still be a successful artist, publicada no Artsy, que reuniu depoimentos de artistas como a fotógrafa Laurie Simmons, a pintora Nikki Maloof e a escultora Diana Al-Hadid. A reação coletiva evidenciava que uma ferida havia sido cutucada. Várias respostas de mães artistas, naquele momento, também sublinhavam certa dose de heroísmo em suas próprias trajetórias. Sabemos, afinal, que a mulher, com ou sem filhos, ainda é cobrada – descarada ou sutilmente – a dar explicações de por que se arvora a ter vida pública.


Mônica de Aquino dedicou o livro Continuar a nascer à sua filha Manuela.
Foto: Divulgação

Sinto meus dedos correrem na superfície de um assunto que requer delicadeza. Eu sonhava em ter filhos aos montes e hoje, aos 28, penso como nunca nas implicações sobre o meu trabalho. O dilema que envolve maternidade, vida profissional e vida criativa não é obrigatório, mas tampouco é leviano quando ele existe. No ensaio Contra os filhos, a escritora Lina Meruane, em meio ao seu ataque à cultura da maternidade compulsória, descreve com pragmatismo a dificuldade de conciliar a rotina materna à rotina artística.

Para ela, que escolheu não ser mãe, enquanto as “criadoras-sem-filhos” exercem, de forma simultânea ou alternada, o trabalho assalariado e o trabalho criativo (usualmente malremunerado), as “criadoras-com-filhos” assumem uma terceira atividade ainda mais demandante. “Se para a criadora-sem-filhos ter dois trabalhos é pesado e interfere na sua obra, para a outra, com-filhos, as horas do dia se mostram insuficientes porque, ao horário assalariado, é preciso acrescentar a implacável rotina materna e então: de onde tirar o espaço temporal e mental para o ofício criativo?”

Dito isso, antecipo a questão central desta reportagem: o impacto da maternidade nos processos criativos. Dediquei estes parágrafos iniciais a uma aproximação arredia do meu assunto, por meio de referências a não mães, que precisam estar sempre justificando para o mundo os seus não filhos. A partir daqui, é com as escritoras mães que começo a conversar.

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O tema da maternidade ganhou nova evidência no meio literário recentemente. Enquanto observamos um debate mais amplo, sobretudo nas redes sociais, sobre maternagem, gestação, parto, violência obstétrica, puerpério, amamentação, rede de apoio, paternidade e criação dos filhos – uma articulação, política inclusive, que vejo com bem mais entusiasmo que a ensaísta Lina Meruane –, algumas escritoras contemporâneas de destaque se tornaram mães e escreveram textos que constelavam essa experiência. Marília Garcia publicou o poema Nave-mãe na revista Piauí (set/19, edição 156), uma espécie de mixagem de vozes que reagem ou dão palpites diante da gravidez alheia. Maria Carolina Fenati, em A infância prometida, fez um precioso relato lírico desde a anunciação até a chegada ao mundo da filha, que pode ser conferido na terceira edição da revista Gratuita. Mônica de Aquino lançou Continuar a nascer, livro desenvolvido enquanto gestava seu bebê, a partir das impressões do corpo.

Quando me propus a escrever esta reportagem, o recorte dizia respeito às poetas contemporâneas, afinal, além das citadas, também Alice Sant’Anna, Ana Estaregui e Mariana Basílio haviam se tornado mães. Junto a isso, o debate sobre o apagamento da experiência da maternidade na tradição da poesia brasileira já estava semeado, assim como a especulação de uma possível relação com a vida sem filhos de muitas das nossas grandes poetas, como Hilda Hilst, Ana Cristina Cesar e Orides Fontela.


A poeta Ana Estaregui, autora do livro Coração de boi, com Flora.
Foto: Divulgação

No início da apuração, porém, dei-me conta de que estava menos interessada em teorizar e mais em conversar sobre o processo criativo dessas escritoras com filhos, sobre os abalos e metamorfoses da maternidade na trajetória de uma artista. Nesse caso, como não conversar com Micheliny Verunschk e Laura Erber, mulheres cuja caminhada da produção criativa na companhia dos filhos já tem alguns anos? Como não buscar Julya Vasconcelos e Jhenifer Silva, mulheres cujo trabalho teórico e artístico com as letras precisou se ajustar a um compasso imprevisível? Ou, ainda, como não procurar Carolina Fenati, que desenvolve uma oficina intitulada Escrita e maternidade?

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O livro mais recente de Mônica de Aquino, o já citado Continuar a nascer, dedicado à sua filha Manuela, tem como eixo a própria experiência da maternidade. Ao contrário de suas publicações anteriores, nas quais o corte e a elipse se fazem mais presentes no poema, neste trabalho a poeta se propôs a algo mais fluido: “quis mesclar dados médicos e orgânicos, elementos mais secos e diretos, com uma escrita que transmitisse algo do fluxo de sentimentos e sensações da gravidez, do parto, da chegada da minha filha”, explica. No seu caso, o modo como essa experiência reverberou e conduziu ao novo projeto foi quase imediato. “O corpo e suas questões sempre foram um tema importante da minha poesia. Por isso, desde o início da gravidez, já senti o reflexo desta nova vivência na escrita, com todas as mudanças intensas na sensação corporal, com a virada radical na percepção de nós mesmos a partir da gestação de outra vida que cresce lenta, que vira a prioridade também do nosso corpo, que compartilha o sangue. Senti-me rapidamente impelida a escrever sobre a experiência que acabou virando um projeto mais amplo, o livro lançado no fim de 2019 pela editora Relicário.”

O vislumbre desse trabalho veio na ocasião de um sangramento. Com medo pela possibilidade de perder o bebê, Mônica foi encaminhada ao seu primeiro ultrassom, situação em que ouviu o coração do embrião batendo em alta velocidade. “Ainda havia poucas semanas de gestação, Manuela era um ponto na tela, mas já dava para ouvir seu coração que batia rápido, com uma velocidade que era mais ou menos o dobro da de um coração adulto. Comecei a lidar com esses dados médicos, que me impressionaram muito, junto com toda a transformação do corpo, tantas vezes violenta. Escrevi os primeiros dois poemas ainda sob o impacto dessa emoção e percebi que uma série nascia ali”, relembra Mônica.

Continuar a nascer percorre ainda a descoberta de uma pré-eclâmpsia grave e o nascimento prematuro.

No entanto, na opinião da escritora, a consequência artística dessas experiências não recai apenas sobre o livro lançado. “Ultrapassando essa criação imediata que foi o livro, acho que a maternidade trouxe renovação para a escrita na medida em que abalou a minha identidade, minha percepção de mundo. Acredito que esse lugar instável, frágil, de identidades fluidas e mutáveis, é muito favorável para a sensibilidade artística e, mais especificamente, para a escrita. E esse amor absurdo que agora sinto, maior que todos os outros (achava isso tão clichê, mas é verdade), me coloca em expansão e sem defesas, de tal forma que o sentimento transborda também na escrita.”

A poeta Ana Estaregui, autora do livro Coração de boi, também nota a presença da maternidade naquilo que tem criado desde que Flora entrou em sua vida, mas é uma inclusão mais sutil, sem uma intenção programática. “Escrevi alguns poemas durante a gestação e o puerpério e me dei conta de que palavras como cócoras, ancas, baciabebêmãe, duplicar-se apareceram entre o que tinha escrito. Gestar e parir um filho é ser literalmente atravessada por um outro corpo e por todos os impactos que esse novo corpo traz: uma transformação existencial profunda, uma mudança de perspectiva no modo de olhar as coisas, um amor louco que nos expõe às nossas imperfeições e aos nossos medos, uma doação sem fim. Não pretendo que se torne uma temática nos poemas, mas certamente passou a ser um ponto sensível em mim e, consequentemente, nos textos”, observa.


Alice Sant’Anna acredita que a maternidade renova o olhar.
Foto: Alexandre Sant'Anna/Divulgação


Essa força que se impõe também é percebida pela escritora e pesquisadora Carolina Fenati, que esperava um grande desafio da maternidade quando colocava em perspectiva a relação com sua própria mãe. “Quando era pequena, imaginava que teria filhos e me lembro de sentir vínculos com as minhas bonecas, com meus cães e peixes. Cuidava deles, e sabia que eles também cuidavam de mim, e isto era muito decisivo no meu cotidiano. A relação com minha mãe na infância não foi simples, e hoje em dia somos amigas porque, a partir de um certo momento da adolescência, decidimos mutuamente nos empenhar. Talvez por isso eu sempre tenha imaginado que ser mãe seria das minhas aventuras pessoais mais radicais – quero dizer que ser filha definitivamente me exigiu e exige muito. O meu projeto artístico e intelectual vive junto com essas movimentações internas, e por isso sempre pensei que, sim, a maternidade afetaria tudo o que eu continuasse a fazer. A experiência é a única autoridade, dizia Bataille, e sinto que é isso”, reflete. Porém, o modo como essa experiência entra em diálogo com a obra, a partir desse reposicionamento da subjetividade que parece contagiar a tudo, tem um aspecto imprevisível, imponderável.

“O Agamben, algures, escreveu que a revolução é um deslocamento mínimo de todas as coisas. Desde que fui mãe, tudo está noutro lugar, e para onde olho encontro questões que a maternidade trouxe para o meu trabalho. Por exemplo, o futuro: nestes tempos em que o presente está asfixiante, em que o tempo e o espaço são quase experiências claustrofóbicas, ter estado grávida e ser mãe me fazem ter um comprometimento com o futuro enquanto espectro de possíveis, me faz querer olhar no olho do impossível, e isto não como uma posição intelectualmente conquistada, mas, sim, cotidianamente vivida, espraiada nos meus gestos mais repetitivos de cuidado e atenção”,  avalia Carolina Fenati, que também é uma das editoras da Chão da Feira.

Para Alice Sant’Anna, autora de Rabo de baleia, esse modo novo de encarar o mundo também deriva de um convite feito pelas crianças pequenas, tal qual escreve Oswald de Andrade: Aprendi com meu filho de dez anos/ Que a poesia é a descoberta/ Das coisas que nunca vi. “Acho que o filho renova o olhar sobre as coisas. Envelhecer embrutece, a gente para de se surpreender, se acostuma com tudo. Não só com as injustiças, os erros, do mundo e os nossos também, mas com os objetos mesmo. Com um bebê, você é obrigado a mudar o seu ponto de vista. Explicar o que é uma cadeira, um cachorro, um piano. Como se você estivesse o tempo todo explicando o mundo a um ET que acabou de chegar: essa é uma abóbora, o vento faz a planta balançar, a chuva molha. Isso é muito bonito”, observa a poeta.

No entanto, a mesma realidade que tanto oferta obriga a fazer escolhas no campo da criação e demanda ajustes de todas as ordens. Ainda que o dilema entre filhos e obra não tenha existido, a convivência entre ambas as funções – mãe e artista – é uma equação que todas essas mulheres buscam resolver à sua maneira. “A maternidade foi muito determinante na minha relação com a carreira de artista, pois eu tinha certeza de que queria estar junto aos meus filhos e disponível para eles, sobretudo nos primeiros anos da infância. Isso não significava parar de trabalhar, isso nunca esteve em questão, mas encontrar um modo de trabalhar menos absorvente do que aquele exigido a uma artista hoje. Quando meu filho nasceu, eu estava começando o doutorado. Naquele momento, a carreira acadêmica me pareceu uma interessante alternativa, pois me ajudaria a criar uma rotina, algo que eu não tinha na minha vida de artista”, relembra Laura Erber, artista visual e autora do livro A retornada.

Comumente, o início da maternidade implica no adiamento e, por vezes, abandono de determinados projetos. Foi o caso da escrita de Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, de Micheliny Verunschk. “Eu engravidei quando eu quis, mas ainda assim me pegou de surpresa. Embora eu tenha me preparado muito racionalmente, eu não estava mais preparada para o que viria: as exigências físicas e emocionais da gravidez, a amamentação e a rotina daquelas novas pessoas, a minha filha e a pessoa que eu estava me tornando a partir dela. Como estava pesquisando o suicídio para a escrita, que é um tema muito duro, engavetei a narrativa para um momento mais propício. Mas os encargos de uma vida produtiva nos moldes capitalistas me tiraram o tempo de uma forma que precisei de muita reorganização emocional e física para retomá-lo. Comecei a escrever esse livro em 2003, mas só consegui terminar em 2013, quando meu filho caçula já estava com quatro anos”, conta a autora.


"Há uma expectativa de heroísmo em torno da mulher que é mãe e profissional", afirma Laura Erber. Foto: Divulgação

Esse tipo de adiamento resulta, muitas vezes, de uma cisão momentânea, mas traumática, com a vida criativa; o acontecimento da maternidade, não raro, pode intervir no projeto artístico e intelectual de uma mulher de maneira infrutífera, bloqueadora. De certo modo, foi o que experimentou a poeta e curadora Julya Vasconcelos. “A maternidade me distanciou muito da imagem que eu tinha de mim mesma, da mulher que eu performava no mundo, inclusive enquanto escritora. Quando engravidei do meu primeiro filho, Antônio, em 2009, eu era muita nova e estava em Buenos Aires, iniciando uma pós em literatura latino-americana. Estava 100% imersa na literatura pela primeira vez na vida, escrevia em blogs e sites, fazia parte de um coletivo, havia conseguido uma bolsa importante e estava em vias de publicar meu primeiro livro. Com a gestação, eu vivi um hiato superlongo na minha escrita. Simplesmente não consegui escrever por anos e, para mim, era inexplicável: larguei a pós, os projetos, o livro.” A sua primeira publicação ficou em suspenso por 10 anos, até 2019, quando lançou A súbita insistência das coisas, pela editora Urutau.

Julya precisou desse tempo para equilibrar a mãe e a poeta no mesmo corpo, era difícil imaginar um modo de coexistência no início. “Olhando agora com uma boa distância, acredito que é alimentada uma espécie de discrepância entre a figura da mãe e a figura da poeta. Era como se o meu mundo, de repente, não tivesse material suficiente ou adequado à minha poesia, como se não estivesse à altura dela. Como falar sobre choro, fraldas, a dor do parto, o cansaço extremo, a escola, o almoço, as brincadeiras no chão da sala, as frustrações, a solidão, as risadas, tanto amor, os dentes furando as gengivas, as músicas infantis remoendo o juízo? Tanta coisa besta. ‘Ser mãe é menor’, algo invisível e muito poderoso, me dizia. Eu saboreei a maternidade. Mas é isso: ela me distanciava da escritora que eu deveria ser, ela rivalizava em espaço e tempo com a escritora que eu queria ser.”

Hoje, no entanto, a poeta pernambucana percebe uma comunicação entre a sua obra e a maternidade; além disso, tem buscado explorar esta última como um tema a ser investigado na escrita. “A solidão, o embate entre medo e coragem e a passagem do tempo são questões que atravessam muito o que eu escrevo. São assuntos que estão comigo desde que me tornei mãe, e é uma forma de eu tangenciar a questão-chave que é a maternidade sem encará-la de frente. Acho que a maternidade, enquanto elemento literário, pra mim, é um touro a ser domado. Por muito tempo foi escamoteado enquanto assunto. Sinto que agora é que tenho escrito sobre isso de maneira mais direta, nesse exercício de olhar o touro de frente”, observa.

Desviar do tema da maternidade na obra pode ser uma escolha advinda de outras reflexões. No ensaio Raiva e ternura, no qual a poeta norte-americana Adrienne Rich revisita suas memórias, ela afirma que costumava ser questionada sobre por que não escrevia poemas falando de seus filhos, algo que os poetas homens de sua geração costumavam fazer. A escritora, no entanto, afirma que a poesia era onde vivia sem ser a mãe de alguém, onde podia existir como ela mesma. Para a pesquisadora de Literatura Jhenifer Silva, que, embora tenha alguns poemas publicados em revistas literárias, dispensa o título de poeta, também foi importante manter uma distância do assunto nas suas investigações teóricas.

“A gestação e a maternidade transformaram completamente a minha perspectiva. E essa transformação foi bastante brutal e concreta, muito à força, diria. Contudo, foi importante para mim não interromper o desenvolvimento do trabalho que estava apenas começando e que era anterior à gestação. Então não havia a predisposição de trabalhar com assuntos referentes ao universo materno, embora estivesse tomada em absoluto. Às vezes acontece de a mulher ser arrebatada de tal modo pela gestação e pelo filho que envereda a carreira para os temas da maternidade. É evidente que isso não é um problema, mas, no meu caso, o meu desejo antigo de estudar poemas continuou vivo como sempre, então o esforço foi de não me trair nesse projeto bem anterior a Otto (seu primeiro filho, nascido em 2010).”


Julya Vasconcelos: “É preciso se rebelar e impor os assuntos que nos são caros”. Foto: Divulgação

Esses limites foram reconfigurados, no campo da criação literária, quando Jhenifer passou por um aborto em meados de 2013. “Nesse período, é possível notar que, mesmo quando não estou escrevendo sobre questões maternas, a maternidade invade o texto, seja pela evocação do filho – que se torna o meu grande interlocutor, como se o poema não pudesse escapar desse outro inevitável ao precisar se dirigir a alguém –, seja pelas imagens e pelo vocabulário. Então o tempo infantil, as tosses noturnas, o choro, o gemido, o grito de um bebê infernizante e até mesmo a perspectiva de um homem abandonado pelo pai desde o nascimento, todo esse universo vai construindo a base para o desenvolvimento dos poemas. A maternidade é uma intrusa de quem não consigo fugir”, avalia Jhenifer.

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A óbvia questão da insuficiência do tempo surge em todas as conversas, e um vocábulo repetido por três mães diferentes me chama atenção: luxo.

1) Quando a minha filha ficava com o pai por um período curto de manhã, eu aproveitava para fazer coisas básicas como tomar banho, cortar as unhas do pé ou simplesmente tentar dormir um pouco. Então, conseguir ler ou escrever se tornou um luxo total.

2) O filho exige atenção o tempo todo. Quando está acordado, não tem muito como fazer outra coisa. E, quando dorme, normalmente estou exausta e a última coisa que tenho vontade de fazer é sentar para escrever. Acho que, nesse ponto, a vida prática passa a ocupar muito mais espaço: preparar a comida, dar o banho, brincar, pôr para dormir. Escrever vira um certo luxo, na verdade.

3) Os percalços foram (e são tantos) que naturalmente às vezes surgia a indagação acerca do abandono dos estudos e da poesia, porque parecia até um luxo me dedicar a algo que não sustentava a mim e ao meu filho. Ao contrário, nos fazia passar necessidades.

Luxo pode significar ostentação, excesso, supérfluo, riqueza, suntuosidade, pompa, extravagância, capricho, manha, melindre.

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De um ponto de vista prático, as perdas e os ganhos na rotina de criação também variam muito. A escassez de tempo, para algumas, traz um melhor aproveitamento das horas disponíveis para o trabalho. “O contexto me deu muito mais foco e objetividade para produzir. Se, antes, eu podia me perder em referências e leituras ao longo do processo, depois de me tornar mãe precisei aprender a me concentrar para aproveitar ao máximo quando dispunha de algum momento livre”, diz Ana Estaregui.

Algo parecido também é experimentado por Mônica de Aquino, que comenta: “precisei aprender a escrever em qualquer contexto, no meio da rotina, aproveitando intervalos. Antes, o trabalho de rever os poemas e reescrevê-los, de organizar um livro, era bem mais metódico: eu podia me isolar por várias horas, mergulhar no fluxo da escrita. Ironicamente, escrevia menos. A maternidade me deu um novo senso de urgência, e também mais vontade de criar. Escrever entre atividades múltiplas, às vezes do lado da Manu, sem o silêncio a que estava acostumada, teve uma dimensão disciplinadora que virou, também, liberdade: a poesia misturou-se mais no cotidiano, abrindo brechas, impondo-se, ensinando-me novos ritmos e formas de criar”.


Micheliny Verunschk teve que adiar projetos quando engravidou.
Foto: Melissa Guimarães/Divulgação

Os caminhos são particulares em infinitos aspectos, apesar de existirem queixas e júbilos que ecoam nos discursos dessas escritoras. Não há fresta, porém, para a romantização da sobrecarga e da exaustão experimentada por tais mulheres. “Falta de tempo é falta de investimento. Investi pouco em leituras que, de fato, me interessavam para a construção da minha voz. Eram tantas exigências para aquela jovem mulher que precisava se formar dentro do tempo estimado para ingressar ao mestrado e, quiçá, melhorar as condições de vida familiar, e ainda conciliar, completamente sozinha, os cuidados com o filho, com a casa, com a saúde mental, que as leituras de outra ordem iam ficando. E a própria escrita foi se desenvolvendo muito lentamente. Fiz o que pude”, rememora Jhenifer Silva.

No caso de Micheliny Verunschk, que trabalhava em uma instituição de cultura de São Paulo quando teve sua primeira filha, a opção foi a de priorizar a escritora e a mãe, renunciando à estabilidade financeira e passando a atuar como freelancer, algo que ela percebe como privilégio. “Eu precisei reorganizar minha rotina de trabalho e por muito tempo isso parecia que não daria certo. Aos poucos, e muitas vezes aos berros contra o status quo patriarcal, fui abrindo brechas e fui conseguindo estabelecer o meu espaço. Mas isso é um privilégio que a maioria esmagadora das mulheres não tem. Tive depressão pós-parto da primeira gestação e ficou claro que seria impossível conciliar a maternidade, o trabalho artístico e a vida profissional da maneira que o capital exige. O capitalismo precisa de supermulheres parideiras e profissionais a todo custo, que não raro terceirizam 80% da criação dos filhos. Para mim, era um caminho muito sofrido. Assim fiz uma escolha: coloquei em primeiro plano o meu trabalho como escritora e a maternidade. Todos os dias pago o preço por isso, mas não me arrependo”, conta.

Julya Vasconcelos, por sua vez, ressalta a inexistência desse tipo de crise para a maioria dos pais. “Esse é um problema de todas as mulheres: ter filhos e manter seus trabalhos a todo o vapor. Quando conseguimos não é sem consequências e nem é porque é fácil, é porque a gente se desdobra em um milhão para fazer acontecer. Sabemos que para os homens ainda é diferente. Li numa matéria que Tolstói teve 10 filhos. Ninguém se pergunta como ele equilibrava a escrita com a paternidade. Hoje eu escrevo nos intervalos entre os trabalhos que me remuneram e o cuidado com os meus dois filhos (Tom de 10, Cora de três). Escrevo às vezes exausta depois que dormem, anoto uma frase no sinal vermelho, no caderninho enquanto Cora desce de um escorrego no parque...”

A esta altura do texto, dou-me conta da recorrência das expressões abrir brechas e precisei aprender na fala das minhas entrevistadas.

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Se o disputado território do simbólico e da tradição literária é historicamente hostil às mulheres, o que dizer do lugar das mulheres que possuem filhos? Talvez boa parte dos que integram esse meio ainda esteja distante de entender as implicações do acúmulo de papéis da escritora que é mãe. “A tradição literária deste país esteve tantas vezes concentrada numa fatia mínima desta sociedade que, estruturalmente, colaborou para a segregação e desigualdade. Imagino quantos escritores desapareceram tão antes de serem lidos. Talvez ser mãe tenha reforçado o meu pertencimento ao minoritário e, portanto, à luta para que a força democrática e diversa atravesse e transforme a literatura, as práticas de leitura e escrita, a partilha da palavra”, afirma Carolina Fenati.

Ainda sobre esse lugar no interior da tradição, Mônica de Aquino opina: “Acho que ser mãe e artista hoje implica uma responsabilidade política diante da questão da maternidade: é preciso desmistificá-la, tirar, cada vez mais, certo véu romântico para que possa ser vista e pensada em tudo o que tem de encantamento, desafio, sofrimento, mudança, escolha”. Também é pela perspectiva da responsabilidade política que Micheliny Verunschk enxerga o seu lugar no meio artístico: “Eu acredito que, por meus privilégios e pela voz que tenho conquistado, tenho uma grande responsabilidade para com o meu tempo e isso, essa responsabilidade, é atravessada pela minha história de vida. Eu não quero ser um exemplo para os meus filhos como o senso comum alardeia. Eu quero que minha história de vida, como mulher criadora, feminista, seja uma coordenada que possa inspirar tanto eles como quem necessite de algum ponto de partida, mas tendo em vista que sou absolutamente falível, como qualquer um”.

É necessário não esquecer que as dificuldades da maternidade se agregam às demais barreiras discriminatórias deste país e não disfarçar que a maior parte das que conciliam a vida de mãe e de mulher de letras com alguma constância e projeção, mesmo com todas as contrariedades, são de cor e classe privilegiadas. “O problema é que há uma expectativa de heroísmo em torno da mulher que é mãe e profissional. Como já disseram várias feministas, em formulações diferentes, espera-se que você trabalhe como se não tivesse filhos e que você tenha a disponibilidade e disposição de uma mãe que não trabalha. Por outro lado, e é fundamental acrescentar isso, vivemos num país desigual, onde as classes mais altas podem contratar o serviço de mulheres que não têm a mesma tranquilidade para trabalhar e cuidar de seus próprios filhos. Então, para mim, uma das implicações de ser profissional e mãe no Brasil foi a de lidar conflituosamente com a ajuda – obviamente remunerada! – de outras mulheres”, relembra Laura Erber.


“Talvez ser mãe tenha reforçado o meu pertencimento ao minoritário”,
diz Carolina Fenati. Foto: Divulgação

Ainda sobre esse assunto, Julya Vasconcelos faz a seguinte análise: “Se atendo à nossa tradição literária, acho que determinado gênero, raça e classe social ainda são predominantes. No caso brasileiro, podemos colocar ainda um recorte geográfico, privilegiando os sudestinos, e acrescentar que homens não dão à luz, não amamentam, não abortam. Então uma mulher, mãe, nordestina, como eu, falando sobre determinados assuntos que pouco interessam aos homens, não faz uma entrada triunfal dentro dessa tradição. Acho que essa tradição é que, por muito tempo, não me deixou abraçar o assunto da maternidade dentro da minha poesia. É preciso se rebelar e impor os assuntos que nos são caros e urgentes, e é importante que tentemos nos fortalecer enquanto grupo. É o que o mais tenho pensado ultimamente”.

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Quando o assunto é o apagamento das imagens e do tema da maternidade em perspectiva, pensando na tradição literária brasileira, a poesia chama mais atenção. Digo, a prosa parece ter explorado mais nuances dessa experiência, com algumas personagens marcantes, enquanto na poesia o apagamento é mais sistemático. Também, como se vê, a tentativa de reivindicar o lugar da mãe no espaço artístico, de um ponto de vista coletivo, é um gesto recente e ainda embrionário. “Não sei em que momento fizemos essa escolha, a de que o papel da mulher era definido como o do cuidado e, portanto, um papel privado de solidão. A escrita exige solidão, então é como se a mulher com filhos só pudesse participar do círculo literário como exceção, na melhor das hipóteses como uma ave rara. Isso está obviamente baseado numa denegação gigantesca: sabemos que todas as pessoas sem exceção nasceram de uma mulher. Ainda assim, esta mulher não existe fora desse lugar de mãe. É uma injustiça terrível. Há um impedimento de que as mães ocupem os espaços literários, e uma censura do que é possível dizer”, critica Carolina Fenati.

Micheliny Verunschk acredita que a mulher que é mãe precisa lidar não só com o machismo, mas também com a hostilidade de certas vertentes do feminismo: “Há um apagamento, mas não só no cânone literário – o cânone reflete a sociedade. E, para a sociedade, a mulher gestante é tão somente um receptáculo, e a mãe, uma espécie de idiota que deve ser monitorada e culpabilizada quando algo sai fora do script. Mas não é só no patriarcado que gestantes e mães são tidas em tão baixa conta. Há certas vertentes do feminismo que ignoram a mulher gestante e a mãe. A gestante, a mãe e a mulher considerada velha (aquela que entrou no climatério ou passou pela menopausa) são tidas, de modo geral, como cidadãs de terceira categoria”, analisa.

A escritora, aliás, é uma das que integram regularmente o assunto em seus romances. Na Trilogia infernal, há uma mãe que procura saber se a filha foi vítima de um feminicídio. No romance que lança este ano, intitulado O som do rugido da onça, há interseccionalmente o drama de mães que tiveram seus filhos roubados. E o romance que escreve no momento é todo a partir de questões que tocam o feminino materno. Contudo, no campo da poesia, ela já precisou lidar com reações pouco entusiasmadas devido à abordagem desse universo. “Lembro que, anos atrás, escrevi um poema sobre o cotidiano da maternidade e um poeta para o qual enviei o poema o descartou para publicação por ser, digamos, comezinho demais. Era e é um excelente poema, mas seu tema não pareceu digno de poesia para aquele ‘interlocutor’. E isso diz bem sobre uma certa falta de vontade de leitura sobre o universo da mulher de um modo geral. Não é por acaso que um dos livros que mais celeuma causou no meio literário nos últimos tempos seja Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas.”

Ana Estaregui aponta ainda uma possível opção pelo distanciamento do tema como estratégia para não ser estigmatizada e obter legitimidade em um meio pouco afeito ao feminino. “Talvez isso se deva ao fato de a maternidade ter sido atrelada a uma concepção um pouco limitada do que é ser mulher; talvez ela tenha sido deliberadamente evitada pelas escritoras como uma forma de rebater esse estereótipo e fincar uma estaca na disputa do imaginário literário, como se vincular-se a esse assunto pudesse enquadrar a escritora dentro de uma caixa de ‘literatura feminina’, por exemplo. Não sei, estou especulando. É como se, para ser uma escritora consistente, você devesse equilibrar esse ponto de partida de ser mulher com assuntos a priori ‘antifemininos’. A poeta argentina Susana Thénon tem um poema que diz mais ou menos isso sobre o que se espera de uma escritora mulher e acho que traduz um pouco essa minha percepção: ‘porque você sabe que na realidade/ o que me interessa/ é não apenas que escrevam/ mas que sejam feministas/ e se possível alcoólatras/ e se possível anoréxicas/ e se possível estupradas/ e se possível lésbicas/ e se possível muito muito infelizes’.


Jhenifer Silva, com seu filho na foto, questiona a ideia de a maternidade ser um tema menor para a literatura. Foto: Divulgação

Nessa mesma direção, Jhenifer Silva dá um exemplo dessa recepção das imagens da maternidade no debate poético. “Lembro-me da Adelaide Ivánova, num texto em que criticava a Sylvia Plath. Adelaide cita rapidamente a maternidade como um dos tópicos desenvolvidos aos moldes de uma mulher presa ao universo masculino e não construindo um universo próprio, como se esse tema fosse menor, como se poetas comprometidas com a transformação do paradigma da poesia (ainda masculino) não devessem se prestar a escrever sobre esse assunto ‘tão banal’ (palavras minhas, não dela). Discordo frontalmente disso. Transformar o paradigma ditado pelo patriarcado perpassa, também, por recolocar os aspectos biológicos vividos por muitas mulheres. Fica parecendo que falar de maternidade é ser mulherzinha, nesses termos pejorativos que a gente conhece bem. E, por favor, se gestar, parir e criar sozinha outro ser humano enquanto se milita, estuda, pesquisa, escreve, dá aulas e realiza os trabalhos domésticos é ser mulherzinha, muito prazer.”

Para a geração mais recente de mães escritoras, sobretudo, talvez, as poetas, legitimar a experiência materna como matéria-prima criativa – caso haja desejo, interesse, sentido dentro dos seus projetos, obviamente –, assim como conciliar suas demandas de mãe e artista seguem sendo grandes desafios, em pleno século XXI. No entanto, muito lentamente, algo parece se mover na direção de um rearranjo. “Sheila Heti fala sobre o senso comum que diz que uma artista espetacular geralmente é uma mãe medíocre, e uma mãe espetacular geralmente é uma artista medíocre. Enfim, são tabus que estão incrustados na nossa cultura de um jeito muito antigo e muito nocivo. A literatura por muito tempo foi relegada a uma visão masculina, em que a mulher era vista como a musa, fugidia, misteriosa, sedutora. Ou como mãe, carinhosa e dócil, com a casa sempre em ordem e o jantar posto à mesa. Isso vem mudando. As mulheres estão cada vez mais presentes nas prateleiras, de modo que velhos assuntos passam a ganhar novas perspectivas”, conclui Sant’Anna.

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[EXTRAS]

• Indicações de leitura feitas pelas entrevistadas:
- Livros:
Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo
Continuar a nascer
, de Mônica Aquino
Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves
Quarto de Despejo, de Carolina de Jesus
A Filha Perdida, de Elena Ferrante
Por favor, cuide da mamãe, de Shin Kyung-Sook
Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende
As pequenas virtudes, ensaios e fragmentos, de Natália Ginzburg
Retrato de uma mãe quando jovem, de Friedrich Christian Delius
Maternidade, de Sheila Heti
- Artigo: The secret to being both a successful writer and a mother: have just one kid, de Laura Sandler
- Poema: Three women, de Sylvia Plath
- Poetas: Cláudia Roquette-Pinto e Leila Danziger

• Poema Alice in Wonderland, de Micheliny Verunschk (com leitura feita no podcast Trópicos #oito):

O sorriso da minha filha cintila
entre as xícaras de chá e o seu irmão

se gruda em minhas pernas como um gato,
uma orquídea,
queijo no pão.

Venho de um lugar onde as casas
são todas brancas
e onde o círculo do real se confunde

com os limites do sonho. Chama-se Ítaca,
talvez.

O sorriso da minha filha gira
entre os brinquedos
e o seu irmão rodopia em torno de mim.

Meu rosto no espelho já não é o mesmo
e posso jurar
que não tenho mais do que seis anos.

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GIANNI PAULA DE MELO, jornalista, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp e arteterapeuta em formação.

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