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Lançamento

A queda de José Nogueira Leal

Leia trecho do livro ‘O espião silenciado’, do historiador Raphael Alberti, lançado pela Cepe Editora

TEXTO RAPHAEL ALBERTI

01 de Julho de 2020

Diante dos materiais sobre o pré-1964, a maioria dos especialistas sequer cita a morte de um agente duplo da Marinha, que caiu do seu prédio no Rio, nas vésperas do golpe

Diante dos materiais sobre o pré-1964, a maioria dos especialistas sequer cita a morte de um agente duplo da Marinha, que caiu do seu prédio no Rio, nas vésperas do golpe

Imagem KURT THOMAS HUNT/FLICKR/CREATIVE COMMONS

CAPÍTULO 2
Uma vida curta e intensa

O quão difícil é encontrar documentação de um agente secreto? E de um agente do Serviço Secreto da Marinha e do Cenimar, tratado por especialistas como o serviço de inteligência mais fechado das Forças Armadas? E de um agente secreto do órgão de inteligência mais reservado em um país onde os torturadores da ditadura civil-militar não foram punidos e todos os presidentes da redemocratização fizeram acordos com militares para ocultação de documentos? Não é difícil prever que pouco se sabe sobre os detalhes da vida de José Nogueira. Durante oito anos, pesquisei em diversos arquivos no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Foi um trabalho árduo, solitário, arriscado e feito com recursos próprios. A tônica da pesquisa foi rotineiramente encontrar duas respostas para as buscas de registros desse espião: “Esses documentos não existem mais” ou “Não há registro de nenhum José Nogueira em nossos sistemas”. As frustrações foram em maior quantidade do que os contentamentos. Porém, a cada frase ou documento novo uma gama de possibilidades se abria e gerava mais otimismo na elucidação de história tão enigmática.

O começo de uma biografia necessariamente passa pela data de nascimento da pessoa estudada e, até nisso, a história de José Nogueira é truncada. Inicialmente, me baseava na data de 13 de março de 1936 como de seu nascimento por conta das citações em jornais da época. Porém, me causava estranheza quando mencionavam que Nogueira havia sido reservista da Aeronáutica em 1952, portanto tendo 15 ou 16 anos, ou seja, exercendo funções militares sendo menor de idade. Quando consegui sua certidão de óbito no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, em 2016, apareceu a data de 1932. Achei que já tinha resolvido o dilema, mas, em meados de 2017, obtive a confirmação que em sua certidão de nascimento consta o dia 13 de setembro de 1934 como a data em que veio ao mundo. O que faria mais sentido, pois o alistamento militar teria sido feito com 18 anos. Uso essa versão como a mais provável, mesmo considerando todas as imprecisões que podem existir em um registro de um morador de uma cidade do interior no Brasil em um cartório na década de 1930.

Além disso, na sua certidão de nascimento só aparece um sobrenome: Nogueira. O sobrenome “Leal” de José Nogueira Leal é encontrado em vários jornais do período, e em alguns documentos de suspeitos aparece como Joaquim Miguel Vieira Ferreira. Com todo o cuidado que tive na apuração dos fatos, afirmo que se trata da mesma pessoa. A filiação, local de nascimento e irmão ratificam a autenticidade. Achei pertinente registrar esses ocorridos para que não surjam dúvidas no desenrolar da narrativa.

José Nogueira nasceu em Mundaú, no Ceará. Seus pais se chamavam Antero Nogueira e Maria da Penha Nogueira. O pai foi delegado do distrito do Mundaú e segundo-sargento da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dando impulso aos seguidos alistamentos de seus dois filhos nesse braço das Forças Armadas. Era mestre de pequena cabotagem, inscrito na Agência da Capitania dos Portos do Estado do Rio Grande do Norte, em Areia Branca. Fez mais de duas viagens com o Iate Tamoio em zonas de possíveis ataques submarinos, entre 22 de março e 14 de maio de 1941. Quanto à mãe, só se sabe que foi doméstica e faleceu em 1973.


José Nogueira na infância

Nogueira era conhecido por familiares e moradores da região por sua força física. Quando visitei sua cidade natal no final de 2019, diversos contemporâneos do espião reforçaram em entrevistas essa característica. Contaram que Nogueira impressionava amigos sendo o único capaz de levantar um peixe de mais de 10 quilos pela boca usando somente dois dedos.

Além de José, seu irmão mais velho, Geraldo Majella Nogueira, foi também sargento da Marinha. José Nogueira fixou residência no Rio de Janeiro em 1952, servindo como reservista na Aeronáutica. Começou a trabalhar no jornal Diário da Noite e seu grande faro investigativo chamou a atenção do chefe de reportagem, Calazans Fernandes, que o lançou como repórter. Na primeira investigação, em 1960, denunciou o escândalo da chamada “imprensa marrom”. Integrantes das revistas Escândalo, Moral e Confidencial faziam chantagens às vítimas como ameaça de divulgação de notícias e fotos comprometedoras se não pagassem milhares de cruzeiros para o grupo de extorsão. Essa reportagem ajudou a fechar as revistas no Rio de Janeiro e São Paulo. Pelo menos cinco pessoas se suicidaram devido às ameaças sofridas.

Por indicação do senador Vitorino Freire, trabalhou como conferente na Administração do Porto do Rio de Janeiro (APRJ), tendo o próprio presidente João Goulart o encarregado de investigar contrabandos, roubos e corrupções na orla marítima da Guanabara. Não teve filhos, não se casou e morreu cedo, com 29 anos. Ao longo da sua meteórica carreira, também exerceu as funções de agente secreto do Serviço de Informações da Marinha (SIM), que depois se transformaria em Centro de Informações da Marinha (Cenimar), agente de Contraespionagem da Embaixada Americana, principal informante do deputado Eloy Dutra na CPI do Ibad-Ipes e dos jornalistas Zuenir Carlos Ventura, do Tribuna da Imprensa, e Pedro Müller, do Jornal do Brasil. Possuía livre trânsito em movimentos políticos distintos e era influente entre conservadores, anticomunistas e progressistas.

É um erro idealizar a figura de Nogueira como um herói, acima de qualquer suspeita. Em momento da vida não especificado, foi intermediário de propinas pagas a jornalistas pelo Ibad e o MAC, mas desistiu dessa função posteriormente. A atitude provocou a ira dos periodistas, que passaram a exigir mais dinheiro dessas instituições.


Carteira de repórter do
Diário da Noite

Sua inteligência, competência e alta capacidade investigativa atraíram admiradores. Na Marinha conheceu o Almirante Carlos Penna Botto, chefe da Cruzada Brasileira Anticomunista (CBA). A entidade notabilizou-se por denunciar comunistas, solicitando punições às autoridades competentes, e tinha apoio de setores da Igreja Católica e de importantes comerciantes, industriais e banqueiros. Era uma espécie de reorganização da antiga Ação Integralista Brasileira (AIB), partido de ideologia fascista durante o Governo Constitucional de Getúlio Vargas. Novos documentos mostram que o ex-líder integralista Orlando Ribeiro de Castro, um dos fundadores da CBA, era o responsável por atrair remanescentes da AIB nos estados. Endereçava circulares assinadas por Plínio Salgado, personalidade máxima da AIB, aconselhando os integralistas a entrarem na Cruzada Brasileira Anticomunista.

Em 1957, a CBAC começou a publicar um tabloide mensal denominado Tribuna de Notícias, em que José Nogueira foi alçado como redator-chefe. Boa parte do seu conteúdo era feito de críticas à União Soviética (URSS) e seu expansionismo, à infiltração de comunistas nas Forças Armadas brasileira e ao apoio financeiro empresarial ao PCB, inclusive com a divulgação de nomes e cifras doadas. Penna Botto tinha um grande destaque, com suas opiniões divulgadas em várias partes da publicação.

A CBAC tinha elos com os Estados Unidos. No relatório da organização encontrado no CPDOC há a afirmação de uma clara colaboração do FBI com a Cruzada. A CBAC enviava notas aos jornais sobre células comunistas existentes em órgãos estatais e paraestatais por meio de minuciosos informes concedidos pelo FBI e pela Embaixada dos EUA no Brasil. O promotor Orlando Ribeiro Castro, membro da ala conservadora da Cruzada, relatou que as listas nominais de comunistas que a entidade possuía foram adquiridas por agentes do FBI infiltrados no PCB. O ponto de contato com a Embaixada dos EUA era feito por uma pessoa denominada “O Primo”, primo de Orlando Ribeiro Castro. Ele viajou aos Estados Unidos para explicar a personalidades políticas os propósitos da organização. Além disso, o prestígio de Penna Botto era tão grande junto à alta oficialidade militar estadunidense que um possível desligamento do Almirante de suas funções repercutiria mal entre os norte-americanos.

Orlando de Castro tinha livre acesso ao Serviço Secreto da Marinha e ao Dops por ser amigo do inspetor Cecil Borer. Levou dois sindicalistas ao Cenimar mostrando-lhes seu funcionamento e cotidiano dos agentes, com passe livre até mesmo para manusear os arquivos. Isso indica a grande influência existente de organizações anticomunistas nos órgãos de espionagem brasileira e o quanto seria malvisto um espião que atuasse contrariamente à pauta da Cruzada, revelando segredos de seus militantes.

José Nogueira também virou membro do Ibad e participou de reuniões do Movimento Anticomunista (MAC) com os contatos adquiridos dentro da Marinha. Inicialmente, foi delegado pelo Ibad-MAC para espionar os “setores adversários”, como eram chamados a esquerda partidária ou qualquer pessoa e instituto que simpatizasse com suas ideologias ou se voltasse contra os udenistas e a política de abertura ao capital externo.

Nogueira era admirado por sua coragem, mas em pouco tempo viraria um problema para os ibadianos, se voltando contra eles. Começou a divulgar informações confidenciais para políticos de linha nacional-reformista e imprensa, presume-se que por dois motivos centrais: 1) estímulo às investigações contra organizações terroristas de direita e seus dirigentes após a posse de Pedro Paulo Suzano como Ministro da Marinha; 2) discordâncias acerca da conduta dessas organizações conspiradoras. O MAC fez diversos atentados a pessoas físicas e espaços físicos de divulgação da cultura esquerdista ou estudantil e seus membros participavam de organizações protofascistas de cunho racista, além de se envolverem em casos graves de falsificação de documentos de repercussão nacional.

Não há informações temporais sobre o início e fim do trabalho de José Nogueira no Diário da Noite, na Tribuna de Notícias e na Administração do Porto do Rio de Janeiro (APRJ). A falta de detalhes sobre esses marcos temporais e sua rotina dentro desses órgãos dificultam uma melhor organização da narrativa biográfica. Em oito anos de pesquisa, acredito ter esgotado todas as possibilidades de acesso a fontes a respeito de José Nogueira. Em alguns casos, como o da APRJ, consegui seu número de matrícula e solicitei sua documentação na Companhia das Docas e no Ministério dos Transportes. Foi negada nas duas vezes. A Companhia das Docas alegou que ele não estava registrado no local e o Ministério dos Transportes rejeitou todos os pedidos e recursos que fiz por meio da Lei de Acesso à Informação nº 12.527/11.

Na Marinha, da mesma forma. O SIM (Serviço de Identificação da Marinha), o SDM (Serviço de Documentação da Marinha), o DPHDM (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha) e a Diretoria de Pessoal Civil da Marinha (DPCvM) em Brasília negaram a existência de qualquer registro de José Nogueira e de seu irmão Geraldo Majella Nogueira em seus arquivos. Mesmo assim, insistindo na pesquisa nos arquivos da Marinha na Ilha das Cobras, descobri um documento sobre a internação do espião no Hospital Central da Marinha que abordarei mais adiante.

Não há qualquer listagem de ex-jornalistas que trabalharam nos jornais citados no Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro ou qualquer fonte que faça referências mais datadas sobre seu ofício.

Baseio-me nos artigos e matérias publicados por José Nogueira ou que façam referência a ele no Diário da Noite, Última Hora, Jornal do Brasil, Luta Democrática, Tribuna da Imprensa, etc. Além disso, consegui alguns documentos na Polícia Civil, Arquivo Nacional e Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) que abordam o caso.


Matéria
Silêncio expressivo (em cima e à esquerda da página) questiona a falta de providências do governador Carlos Lacerda nos casos que envolvem o MAC, tanto no atentado à Exposição Soviética como no metralhamento da UNE e na apuração do assassinato de José Nogueira

CAPÍTULO 3
O crime: hipóteses e indícios

3.1 Um corpo que cai

Tanto a queda de José Nogueira Leal de seu apartamento no dia 3 de março de 1963 como a véspera do crime e sua morte em um hospital militar 10 dias depois são bem documentadas pelas fontes jornalísticas e policiais. Primeiramente, abordarei minuciosamente os acontecimentos dos dias 2 de março de 1963 até alguns dias após sua morte em 13 de março de 1963. Em seguida, farei uma análise sobre os três possíveis motivos para a queda do espião, evidenciando as falhas policiais e explorando os questionamentos gerados com a investigação. Finalmente, um apontamento das principais pessoas denunciadas por Nogueira que poderiam ter ordenado ou cometido o crime e suas relações interpessoais.

De acordo com o Diário Carioca, por volta das 10h do dia 2 de março de 1963, um sábado, José Nogueira e seu amigo Berilo Dantas, repórter do Diário Carioca, se dirigem ao gabinete do ministro da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, aliado de João Goulart. Após saírem, foram a um bar na Rua do Ouvidor, no centro da cidade do Rio de Janeiro, com os repórteres Fabiano Vilanova Machado, do Diário Carioca e da Tribuna da Imprensa, e Carlos Castelo Branco, do Jornal do Brasil. No local, Nogueira apresentou manuscritos que mostravam uma grande negociata no Ministério da Fazenda envolvendo o perdão de uma dívida fiscal grandiosa de um poderoso grupo econômico paulista que daria milhões a alguns advogados. Teria admitido aos amigos que na semana anterior haviam assaltado sua casa e revirado seu quarto. Porém, mostrou alívio dizendo: “Eles não sabem onde está o que procuram”. Teria dito que outros papéis muito importantes também estavam sob seu poder e que comprometiam seriamente o Ibad e organismos subsidiários.

Berilo, Fabiano e Carlos teriam retornado ao Diário Carioca às 16h, e José Nogueira se despediu avisando que iria a um casamento mais tarde. Em sua companhia na festa estariam dois amigos: Fernando Macedo Moreira, 57 anos, secretário da Superintendência de Urbanização e Saneamento (Sursan) e proprietário do apartamento que dividia com Nogueira, na Cinelândia, e Luís Antônio Fernandes de Oliveira, advogado e morador do quinto andar do mesmo prédio em que residiam seus dois colegas.

À 1h teriam retornado do casório e entrado em um bar ao lado do Café Amarelinho, na Cinelândia. José Nogueira bebeu um copo de cerveja e se despediu dos amigos, indo em direção à sua moradia. Passou pelas ruas Alcindo Guanabara, Senador Dantas, Evaristo da Veiga e chegou, enfim, à Rua Juan Pablo Duarte. Nogueira estava sem a chave e, por causa disso, chamou o porteiro do prédio. Nesse ínterim, teriam chegado Fernando e Luís.

Em torno de 1h25 do dia 3 de março de 1963, José Nogueira, Fernando e Luís teriam subido de elevador para seus apartamentos, na Rua Juan Pablo Duarte, nº 29. Nogueira e Fernando teriam ficado no terceiro andar, no apartamento que dividiam, e Luís no quinto andar, onde morava. Fontes divergem sobre a localização de Fernando e José no apartamento 302 naquele instante. Alguns afirmam que Fernando dormiu na sala e outros, no quarto. Como o apartamento era de Fernando, e dificilmente encontraremos uma moradia em que a porta de entrada esteja ligada diretamente a um quarto, presume-se que Fernando dormiu no quarto e José Nogueira num sofá-cama na sala. Ao entrar no apartamento após a queda, a polícia observou que a luz da sala tinha sido queimada. Sendo assim, é provável que Nogueira estivesse dormindo na sala e as pessoas que, supostamente, o torturaram tenham danificado a luz para que ele não reconhecesse seus rostos e tivesse dificuldade em se defender. Em 2016, pude ir pessoalmente no endereço onde ocorreu a queda de Nogueira e, apesar de algumas mudanças estruturais da localidade, a porta de entrada não direcionava a nenhum quarto específico.

O Diário Carioca relata que, por volta de 1h50, José Nogueira Leal foi projetado de sua varanda ao solo. A queda se deu em diagonal. O corpo passou pela marquise e por um táxi grande da marca Hudson que estava encostado ao meio-fio em frente ao prédio, e caiu em posição horizontal (paralelo ao chão) a 4,1 metros do edifício. O impacto da queda foi ouvido pelo vigia do Edifício Mesbla, do outro lado da calçada, que fazia a ronda noturna. Ele teria visto um homem caído e uma poça de sangue. Entrou em contato com Stoessel de Oliveira, porteiro do prédio de Nogueira, que ouviu um barulho naquele instante, mas não atribuiu grande importância ao que escutou.

Após ser alertado pelo segurança, Stoessel encontrou policiais fazendo ronda num carro perto do corpo e reconheceu José Nogueira, que já havia entrado em coma. Em seguida, chamou uma ambulância, que levou Nogueira ao Hospital Souza Aguiar, próximo ao Campo de Santana, no centro da cidade. Depois que o corpo foi levado por socorristas, Stoessel subiu com os policiais até o apartamento 302. Arrombaram a porta e entraram na escuridão, pois a luz da sala estava queimada. Abriram a porta do quarto com uma chave-mestra e encontraram Fernando Moreira dormindo.

Acordaram-no e perguntaram sobre o paradeiro de José Nogueira e ele respondeu que o mesmo estava dormindo na sala. Contaram-no o ocorrido, e o proprietário começou a chorar e ter uma crise nervosa. Fernando, posteriormente, foi ao 3º Distrito Policial, na Praça Marechal Âncora e contou o que sabia à polícia. Familiares de Nogueira foram chamados, principalmente o irmão Geraldo Majella Nogueira, que à noite entrou em contato com autoridades do Ministério da Marinha. Uma fonte relata que alguns familiares pediram para a polícia que o caso fosse concluído como acidente.

No Souza Aguiar, ele é diagnosticado com um traumatismo craniano, e, às 11h do dia 4 de março, o Almirante Pedro Paulo Suzano, junto com o Diretor de Saúde da Marinha, conseguiu a remoção de José Nogueira para o Hospital Central da Marinha, na Ilha das Cobras, na Praça Mauá. O informante do Cenimar passou para o estado semicomatoso dias depois de sua chegada ao hospital militar. Os médicos optaram por aplicar-lhe uma calafetação geral por gelo para resolver o problema das hemorragias internas. Entretanto, a calafetação acabou provocando uma pneumonia na vítima. O agente secreto resistiu por alguns dias, mas, quando parecia vencer a pneumonia, seus rins pararam de funcionar e Nogueira morreu no dia 13 de março de 1963.

3.2 As investigações

A Polícia Civil investigou o caso ao longo de aproximadamente sete meses por meio do 3º Distrito Policial, responsável pelo registro de ocorrência. O legista da Polícia Civil, Manoel Seve Neto, e o chefe da Clínica Ortopédica e Traumatológica da Marinha, Brás Itapaci Magalhães, fizeram a perícia do corpo e três hipóteses foram levantadas: acidente, suicídio ou homicídio. Nota-se uma divergência clara entre a análise criminalística da delegacia e a dos dois legistas.

O registro de ocorrência nº 526 foi aberto no dia 4 de março de 1963 pelo 3º Distrito Policial. As investigações preliminares do caso ficaram a cargo do detetive Dadaut. Afirma-se no documento que, às 2h, o detetive Odilon levou ao conhecimento daquela delegacia que um homem de cueca estava caído no chão da Rua Juan Pablo Duarte, em frente ao número 29, respirando com dificuldade e ensanguentado. Abordou Fernando Moreira sobre os acontecimentos da virada do dia 2 para o dia 3 de março e ele afirmou que os três voltavam de uma festa de casamento. Fernando afirmou que José Nogueira tinha como hábito se sentar no muro de pequena altura de seu apartamento para tomar bebida alcoólica e, por isso, seria provável que tivesse caído. Baseado nesse depoimento e no de Luís Antônio de Oliveira, as investigações foram encerradas no mesmo dia 4 de março com a conclusão do caso como “simples queda”.

A Polícia Civil não chamou a perícia ao avistar o corpo de José Nogueira no chão. Não fez exames de medicina legal nas dependências do apartamento da vítima, buscas nas proximidades do local e levantamentos dos fatos da noite do crime. Além disso, não apurou as informações levantadas pelo perito da Marinha, Brás Itapaci Magalhães, que comunicou à polícia as queimaduras na mão esquerda, perna e outras escoriações. Arquivou o caso baseado na credibilidade que auferiram ao depoimento da única pessoa que se soube até o momento estar presente na cena do crime. Tal certeza na veracidade da fala de Fernando Moreira foi explicitada no final do pequeno relatório de três laudas: “Determinado Sr. (Fernando Moreira) é de inteira confiança da família do acidentado”.

Não cabe a mim como pesquisador tratar como inegável o envolvimento de Fernando Moreira na morte de Nogueira, porém é meu dever, no processo de interpretação das fontes, contestar as incongruências de seu relato e a falta de um rigor investigativo adequado da morte de uma pessoa que investigava e denunciava crimes de interesse nacional. É impensável que se possa arquivar caso de tal magnitude se contentando com a versão de uma pessoa, mesmo que ela seja inocente. Caso se considere que a morte de Nogueira tenha sido resultado de crime, é muito improvável que Fernando Moreira, ainda que não tenha participado do crime, não tenha escutado nenhum barulho dentro de seu apartamento. Isso ficará mais claro quando destrincharmos as conclusões dos dois legistas sobre o ocorrido naquela noite.

A possibilidade de suicídio foi descartada por amigos e familiares. O jornalista não se mostrava depressivo, pelo contrário, estava cada vez mais feliz com sua vida profissional. José Nogueira vivia um período de prosperidade econômica na carreira e afirmava que nunca tinha ganho tanto dinheiro como ultimamente com tantos empregos. Como conferente do Porto do Rio de Janeiro, ganhava mais de 100 mil cruzeiros mensais, sendo agregado ao Serviço de Relações Públicas. Planejava sua mudança da Cinelândia para um apartamento em Copacabana, que iria mobiliar. Não gostava do ambiente pesado daquele bairro, como revelou a Pedro Müller, e tinha condições financeiras para morar na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ademais, o perito da Marinha afirmou que a vítima caiu do prédio sem esboçar os instintos elementares dos seres humanos ao entrarem em queda livre. Isso quer dizer que qualquer pessoa que tente se matar, segundos antes do choque com o solo, demonstra reações de defesa ao corpo, como colocar as mãos no rosto ou virar a cabeça para evitar um impacto frontal.

As conclusões dos peritos Brás Itapaci Magalhães, da Marinha, e Manoel Seve Neto, da Polícia Civil, que analisaram o cadáver de José Nogueira, são semelhantes. Há poucos acréscimos que diferem uma análise da outra e a certeza é uma só: o agente secreto da Marinha foi assassinado. Pelo menos é o que afirmam as fontes jornalísticas que ouviram depoimentos dos dois legistas sobre o laudo cadavérico de José Nogueira. As torturas a que teria sido submetido antes da queda comprometeram sua vida tanto quanto o forte impacto com o solo.

De acordo com o chefe da Clínica Ortopédica e Traumatológica do Hospital Central da Marinha, a vítima apresentava queimaduras de cigarro na mão esquerda, uma “ferradura” no braço direito, um ferimento na perna que a queda não poderia ter causado e escoriações no corpo que foram comunicadas à polícia por Brás Itapaci e solenemente ignoradas.

A hipótese de acidente também é refutada devido à trajetória do corpo desde a queda até o chão, mostrando uma forte propulsão. A vítima foi parar a uma longa distância do prédio onde morava, já desacordado. Seu corpo foi direcionado em diagonal e caiu em posição horizontal, longe do parapeito e do táxi estacionado embaixo do prédio. O despropósito do caráter acidental se torna mais evidente quando se percebe que o corpo não encostou nas marquises do prédio e na janela do apartamento. Se a história que Fernando e Luís contaram na delegacia fosse verdadeira, alguma parte do corpo de José Nogueira teria se chocado com as paredes do prédio e o local e a forma da queda seriam diferentes da conhecida. Provavelmente, teria caído em posição vertical e em cima ou perto do carro estacionado embaixo do edifício.

Já Berilo Dantas, do Diário Carioca, suspeitava que o criminoso fosse íntimo de José Nogueira, já que não houve indícios de luta entre os dois ou três, e Nogueira o recebeu com trajes de dormir (cueca). Além dos ferimentos que a queda não consegue explicar, a luz de onde dormia estava queimada. Por ser um indivíduo extremamente atlético, com mais de 70 quilos e exímio praticante de jiu-jitsu, presume-se que mais de uma pessoa o tenha agredido e atirado da varanda, como afirmou o legista Manoel Seve Neto, que também constatou ferimentos na cabeça e nas costas.

Especialistas da época acreditavam na hipótese de “pau científico”, quando uma pessoa é espancada por métodos que não permitem o aparecimento de equimoses pelo corpo. Isso explicaria a causa mortis por paralisação dos rins, já que a queda não foi responsável pelos ferimentos para esses dois órgãos. A certidão de óbito se refere a “fratura do crânio, contusão cerebral, hemorragia subdural e ventricular”. Fazendo uma leitura documental a contrapelo, baseado em todas as considerações feitas pelos legistas, pode-se subentender uma necessidade de registro do motivo da morte por decorrência de danos cerebrais para a confirmação do caso como um acidente e não como assassinato antecedido de tortura. Acrescento ainda o fato que José Nogueira sobreviveu à queda por mais 10 dias. Além disso, o Hospital Central da Marinha qualificou a causa mortis como “secreta”, causando estranhamento de um policial que leu a documentação junto com o delegado-substituto Bruno Bivochi, já que é ilícito ocultar a causa mortis de uma pessoa.

Dias antes da morte de Nogueira, o amigo e jornalista Fabiano Vilanova Machado fez uma armadilha para comprovar a tese de homicídio. Anunciou na Tribuna da Imprensa que José Nogueira havia saído do coma. Imediatamente, apareceram diversas ameaças de morte contra Fabiano Vilanova Machado por telefone. Porém, seu plano de marcar um encontro com quem o ameaçara acabou sendo frustrado, já que divulgaram com antecedência o forte esquema de segurança que o protegia, com vigilância de fuzileiros navais, e isso certamente afugentou quem o coagiu. 

RAPHAEL ALBERTI é carioca, mestre em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV-RJ), bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professor de História no município de Caruaru, em Pernambuco.

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