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TEXTO Revista Continente

04 de Janeiro de 2021

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 241 | janeiro de 2021]

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ROMANCE
A importância dos telhados
(Vanessa Molnar)

2
O nome da falecida era Ana e lecionamos História e Sociologia juntas por mais de trinta anos, enfrentando todo tipo de adversidades, em escolas públicas e privadas: dos alunos, dos pais, das direções incompetentes, dos clientes insatisfeitos e das políticas fracassadas do governo. Às vezes trabalhávamos nas mesmas escolas, às vezes, em escolas diferentes. Quando concluímos nossas graduações, estudamos Psicanálise, e nossos temas preferidos eram a violência e os traumas. Não éramos estudantes nem pesquisadoras brilhantes; éramos apenas moças empenhadas que tinham se adaptado a sonhar dentro de uma burocracia estéril. Tínhamos muito em comum, da origem humilde ao embate quase irrefletido com o regime militar (um embate de meninas inocentes), e, no entanto, eu não conseguia sentir nada além de uma enorme preguiça ao me imaginar suada dentro do meu carro velho em um calor de quase quarenta graus, circulando por aquela cidade caótica em busca de uma vaga para estacionar.

Também senti uma enorme vontade de rir ao me lembrar das nossas aventuras ao tentarmos fazer pilates na terceira idade após anos de vida sedentária e dois maços de cigarros diários e tive certeza de que o cigarro tinha tido sua contribuição naquela morte, como teria na minha e, por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar se o marido dela ainda estava vivo. A única certeza que eu tinha era a de que ela tinha filhos: três, se não me engano, uma menina e dois meninos, filhos ocupados, talvez ocupados demais até mesmo para uma visita. Minha memória não andava boa, então anotei o horário e o endereço na agenda, tomei um banho, coloquei uma roupa leve e abri um livro.

3
Passava da meia-noite quando acordei e escutei a presença do gato. Imaginei que ele devia ter sentido fome e voltado.

Decidi sair para fumar e tomar um ar e constatei que, de fato, a comida havia sumido, eu tinha deixado a janela da cozinha aberta, mas não o avistei e fiquei observando o céu estrelado, garantia de mais um dia de calor insuportável.

A noite estava quente, abafada e monótona. Minha casa era antiga, uma das mais antigas do bairro, e por causa de um desnível natural do solo, típico do terreno amplo e inclinado, eu ainda possuía um pequeno quintal malcuidado que me permitia avistar a rua que ficava atrás da minha. Era uma rua calma, que dificilmente tinha movimento à noite. Apenas um homem, provavelmente um catador, se movia sorrateiro feito um rato, abrindo e fechando os sacos de lixo. De repente, as estrelas se apagaram e caiu uma chuva forte que me fez fechar a janela e entrar sem me preocupar com o morador de rua ou com o gato, dos quais só me lembrei no dia seguinte porque, quando levantei, um dormia enrolado em um cobertor sujo na entrada da minha casa e o outro miava desesperado na porta dos fundos.

4
Os gatos, ao contrário dos seres humanos, são animais limpos. Deixei-o entrar e se esfregar nas minhas pernas enquanto preparava um café. Os armários de casa estavam vazios e repletos de pó. O enterro estava marcado para as dez horas. Decidi aproveitar a saída e, na volta, passar no mercado. Se quando eu voltasse o gato ainda estivesse por aqui, tiraria uma foto e colocaria na internet. Talvez alguém estivesse procurando por ele.

Tomei um banho e coloquei um vestido sóbrio. Eu precisava cada vez menos de comida, de roupas e de descanso e, além disso, por mais que me arrumasse, me sentia sempre do mesmo jeito. Passei um perfume para amenizar o cheiro da velhice que me perseguia e saí sem me olhar no espelho; tirei o carro da garagem; ignorei o mendigo que continuava deitado na minha calçada e parti para o cemitério, com um sentimento indefinido pela morte da minha amiga, exceto, talvez, por uma pequena pontada de inveja que me doía reconhecer.

Conforme eu havia previsto, o trânsito estava caótico. Parei em uma padaria para comprar cigarros, senti uma vontade inesperada de tomar uma cerveja, mas resisti. O velório mais triste ao qual eu havia comparecido foi o da minha mãe. Tinha sido terrível ver aquele pequeno corpo, quase irreconhecível, retornar para a terra. Minha mãe tinha sido uma mulher bonita e alegre, tinha herdado o centro espírita do meu avô e o transformado em um terreiro de Umbanda quando ainda era bem jovem. Ela nunca se conformou com o fato de o centro espírita kardecista se negar a receber as almas dos velhos caboclos, dos escravos ou dos índios. Tinha se casado três vezes e tido quatro filhos, dos quais eu sou a caçula. Ela estava com quarenta anos quando eu nasci e, embora tivesse orgulho de mim, não se conformava, nem com a minha pouca fé nem com o que ela julgava ser um vago interesse pelos homens, e, mais de uma vez, fingiu espantada que não sabia de onde eu tinha arrumado aquele neto que ela aceitou e amou, acreditando ingenuamente que, com ele, eu não ficaria sozinha, e nunca precisei lhe dar nenhuma explicação.

Cheguei cedo. O cemitério estava vazio.

Dei uma última olhada na minha amiga que já começava a desaparecer e me afastei o máximo que pude para fumar e não ser importunada pelas pessoas ou pelas moscas que habitavam o lugar e já sobrevoavam o cadáver dispostas a acompanhá-lo, mas, mesmo assim, um homem se aproximou e pediu o isqueiro emprestado. Era o genro dela, expliquei que eu era uma colega de trabalho. Ele me perguntou se eu sabia a causa da morte e eu disse que não, então ele colocou a mão amarelada colada à boca, como costumam fazer as crianças quando querem contar um segredo ou brincar de telefone sem fio, e me explicou com um sussurro: “Câncer de pulmão”.

Não me surpreendi e ficamos em silêncio, envoltos na nossa própria fumaça, asfixiados pela culpa ou algo assim, inominável, e, para quebrar o constrangimento, ele disse que pensava seriamente em parar de fumar, e só me restou concordar com um aceno de cabeça mudo.

A hora do enterro estava se aproximando e as pessoas começaram a chegar e a se amontoar para a saída do caixão, espantando as moscas, recolhendo as flores e apagando as velas, e eu não pude deixar de pensar que deveria ter ligado para ela quando soube que estava doente. Ela era uma das poucas pessoas que conhecia meu passado, os segredos que eu escondia até de mim, e talvez fosse esse o motivo da minha ausência, ou, quem sabe, eu não queria enxergar um inevitável futuro no corpo frágil da mulher que se dissolvia. Juntei-me a um pequeno grupo de representantes da escola que tinha acabado de chegar e acompanhei, de longe, o ritual.

Estávamos no final de janeiro, não avistei nenhum aluno ou aluna e não reconheci nenhum dos seus filhos. A única pessoa que me chamou a atenção foi uma adolescente triste de cabelo azul, que destoava da multidão conformada, e que imaginei ser sua neta. Quando tudo terminou, fui embora o mais depressa possível, não cumprimentei nenhum dos seus parentes e, recusando um convite para um café feito pelos colegas da escola, aleguei um compromisso urgente, entrei no carro e acelerei aliviada batendo o pneu na guia e deixando para trás uma pontada de tristeza acompanhada pelo barulho oco e estridente do pneu girando em falso no asfalto, antes do carro acelerar e conseguir me tirar dali denunciando a pouca habilidade que sempre tive para fugir.

5
Passei no supermercado e comprei tudo o que precisava, inclusive, ração e areia para gato. Só tinha conseguido agendar a consulta para a próxima semana e, até lá, não pretendia sair de casa.

Quando retornei, tanto o gato quanto o mendigo haviam sumido.

Eu tinha que limpar a casa, mas não estava disposta, sentia os dentes e o corpo cada dia mais dormentes e moles. Coloquei a roupa na máquina e me deitei tentando recordar do rosto da Ana, porque aquela do caixão era muito diferente da jovem que eu tinha conhecido há mais de trinta anos; aquele corpo estava usando uma máscara branca parecida com ela, mas que ocultava sua essência: era apenas a casca de uma fruta que já tinha apodrecido. É incrível como a pessoa que enxergamos no espelho e a pessoa que de fato somos, ou pensamos ser, muitas vezes, não são as mesmas, e não pude deixar de pensar que estamos todos condenados ao esquecimento. Nada envelhece mais rápido do que os seres humanos.

Talvez um psicanalista enxergue nisso uma crise de identidade típica da terceira idade, mas o que sabe um psicanalista jovem sobre a velhice? E o que eu sabia sobre a velhice quando era uma jovem professora que tentou abrir um consultório para fugir das aulas monótonas e cada dia mais vazias? Nada. A velhice é um buraco no tempo invertido que nos suga de qualquer forma e, além disso, é um problema contemporâneo concreto, com o qual ninguém gosta de lidar.


VANESSA MOLNAR, historiadora e mestre em Estudos Culturais pela Universidade de São Paulo. É autora do livro Crônicas de uma tara gentil, publicado pela Editora Escrituras, com recursos do Proac, e possui uma série de textos publicados em antologias. Além disso, foi conselheira de Cultura da cidade de Santo André (SP) e ministrou oficinas literárias na região do ABC paulista.

***

POESIA
As cartas de Maria
(Zulmira Alves Correia)

(I)

Minha querida mãe, te mando saudades infinitas
e todo meu afeto nessas palavras.
Escrevo-lhe brevemente para contar minhas aventuras.
Tu, sempre em teu silêncio, me confidenciou uma vez
sobre a grandiosidade do mundo,
mas hoje, sob meus olhos de viajante, vejo o quão gigante ele é.
Trilhei no lombo de um cavalo estradas de poeira,
lá pelas bandas de Exu,
foi minha primeira parada.
Depois para o Crato.
As terras são escuras e os rostos queimados de sol ardente.
Ninguém olha em meus olhos.
Será que eles sabem da verdade?
Que fugi de ti, minha pobre mãe?
Tu havia rezado aos meus pés para que eu não fosse,
eu fui, entretanto.
Tomada inteira por este amor latente,
tomada por ele e seu sorriso que se arrasta por eras.
Veja só, minha mãe, estou apaixonada!
Como uma menina, semeei inocentemente estas sementes
que crescem como uma floresta.

Espero que tu me compreenda.
Ainda rezo em teu nome todos os dias.
Por favor, me escreva também,
quero ouvir sua voz através das palavras nuas que tu me deve.
Com todo o meu amor.

(II)
Minha querida mãe, hoje sinto sua dor.
Devo a ti, forte mulher, que me levou em teu ventre
naquela noite em que a senhora se encontrava entre a vida e a morte,
eu me alargando e te tomando inteira.
Hoje, essa mesma dor me toma.
Alguém segurou minha mão, não era tu.
Queria tê-la aqui, meu suor em teus dedos, tu com toda sua delicadeza.
Quando me disseram para ter força, eu te imaginei em tuas orações.
Hoje, rezo também, para outro santo, Padre Cícero.
É um homem forte aqui no sertão
e meu menino vai conhecê-lo.

(III)
Querida mãe, te escrevo com um pesar em meu peito.
Meu menino não sobreviveu.
Minhas mãos estão trêmulas, sem firmeza,
não sinto as pernas quando caminho,
não sinto nada,
uma parte minha morreu junto com ele,
e ficou enterrada nessa terra batida.
Vim escrevê-la, porque só agora as lágrimas secaram.
Acabou minha vontade de viver também.
Me dê notícias suas, não suporto essa dor,
ela me rasga, me parte ao meio.
Será castigo de Deus por tê-la deixado?
Me perdoe, minha mãe,
me perdoe com tua santidade.

(IV)
Te trago novidades nesses versos curtos,
não quero me demorar,
apenas preciso contar-lhe que em breve terá outro neto.
Ele poderá conhecê-la?
Como anda meu pai?
Ele ainda amaldiçoa meu nome?
Espero por vocês no último dia da minha novena,
em março, no dia que São José traz a chuva.
A senhora se lembra quando eu corria na lama?
Aqui quase nem chove,
o sertão é duro, mas eu sobrevivo como posso.
Manuel, meu bem, tem vendido seu ouro na feira, dias de segunda,
e trabalhado em nossa roça nos outros dias.
Sei que não era o que tu esperava, minha mãe,
sinto muito, vivo em pecado, mas o amo tanto.
Ele me trouxe de volta do meu luto e do vazio que me escondi.
Devo lembrar que ele esperava aquele menino também.
Dividimos nossas lágrimas, e, agora, nossa alegria para este.
Já temos até o nome!
Raimundo,
como o senhor meu pai.

Será que ele concede permissão, ainda que eu tenha sujado o nome dele?
Já cheguei aqui? Eu que não queria me estender dessa vez.
Te espero num abraço apertado em meus sonhos,
já que não posso te ter comigo.

(V)
Minha mãe, hoje me encontro feliz,
feliz como aquela menina que tinha o mundo nas mãos.
Hoje eu tenho meu próprio mundo em meus braços.
Esta criança que carrego comigo,
tão delicada, pequena e sensível!
Ele corre pela casa e suja os pés na terra.
Fala que me ama em suas primeiras palavras, acredita?
Eu pego velhos livros e papel para ele,
o ensino brevemente, como tu fez comigo.
Te devo tanto por isso!
As pessoas vêm aqui em casa pedindo que eu escreva suas cartas
endereçadas aos seus filhos, seus amores, seus amantes.
Sei de tanta coisa!
Mas não é pelas fofocas que lhe escrevo.
Não! Sei que acha a fofoca invenção do Diabo.
Devo-lhe respeito, me perdoe.
Venho para dizer que meu ventre está abençoado outra vez.
Acho que será uma menina, se for, darei teu nome.
Espero que ela carregue também sua delicadeza.

(VI)
Como a senhora está?
Espero que bem.
Há tempos não escuto notícias suas.
Raimundo também te manda um pequeno verso,
sobre o amor que sente por ti.
Ele agora deu para rimar as palavras.
Diz que amor combina com amar e com o mar.
Não sei como este menino conhece o mar!
Ele fantasia demais, inventa suas histórias e se perde com elas,
igual a mim, se lembra?

(VII)
Minha mãe, espero que esta carta te chegue a tempo.
Minhas dores são monstruosas e eu temo por minha menina.
Ela se agita durante a noite,
numa dança,
me desperta e me conduz por uma insônia interminável.
Pobre menina!
Mãe, queria tê-la aqui só dessa vez,
Fuja das amarras do meu pai, assim como eu fiz,
e venha me encontrar.
Irei buscá-la em qualquer infinito,
serei teu abrigo.

(VIII)
Meu ventre irrompeu em sangue,
já era tarde da noite,
o calor fervia meu tecido,
fervia meus gritos.
As mulheres rezavam na sala, ajoelhadas, o rosário nas mãos.
Ouvi um pouco, quando elas clamaram por Padre Cícero.
São rezadeiras do Juazeiro, vieram de longe por mim,
para rezar pela minha vida e pela da minha menina,
mas não teve jeito.
Quando a parteira a tirou do meu ventre,
não ouvi seu choro,
nenhum movimento,
e eu soube.
Não desejo este tipo de dor a ninguém, minha mãe,
tu bem sabe, perder um filho é como se perder também.
Dessa vez, eu não podia ir por completo,
tenho Raimundo comigo, ele ainda precisa de mim
do meu cálido beijo à noite,
ou das minhas histórias que o fazem esquecer da fome.
Ele precisa de mim.

Manuel chorou tanto, até acho que ele sentiu mais dessa vez.
Ele desejava demais essa menina.
Deus ainda vai me castigar por quanto tempo?
Será que mereço?
Claro que mereço, eu te deixei, minha mãe.
Fugi, quando eu devia tê-la levado comigo.
Eu sinto muito.
Sinto,
sinto tudo.


ZULMIRA ALVES CORREIA nasceu no Crato, região do Cariri, no Ceará, em 1997. É artista, designer, pesquisadora e escritora. Nas suas investigações sobre o livro como objeto, realizou o projeto Respiros poéticos: percursos, poesia e materialidades, que virou exposição e esteve presente em catálogos e mostras internacionais. As cartas de Maria é seu livro de estreia.

***

CONTO
Erros errantes e afins
(Emir Rossoni)

A-escadaria-que-não-se-deve
Tinha uma escadaria por onde ninguém passava. Saber por que nela não se andava ninguém sabia. Era uma escadaria que ligava a Rua de Cima à Rua de Baixo. Uma escadaria por onde ninguém subia e ninguém descia.

A escadaria tinha dois nomes. Para os que moravam na Rua de Cima, chamava-se: “a-escadaria-que-não-se-deve-descer”. Para quem morava na Rua de Baixo era “a-escadaria-que-não-se-deve-subir”. Assim, habitantes da Rua de Cima e da Rua de Baixo jamais se encontravam. Assim, os habitantes destas ruas jamais se conheciam.

Proibido era subir pela escadaria. Proibido era descer pela escadaria. Mas nada dizia a respeito de proibido ser olhar através dela. E quem estava em cima, se olhasse, via o que havia lá embaixo. E quem estava embaixo, se pela escadaria olhasse, percebia a Rua de Cima. Mas medo tinham os caminhantes de ambos os lados. E o medo que não deixava na escadaria pôr os pés, não deixava na escadaria pôr os olhos.

Um dia, andava na calçada superior um moço. Era um moço de distraído olhar e pulsante coração. O moço andava sozinho. Seus olhos olhavam para prédios e pessoas. Passavam por lojas e lugares. Batiam em árvores e em bares. Era um moço que conversava com o que via, mas calava pelo que sentia. Seus olhos, sempre a olhar, distraído olhar, perderam-se na escadaria. E, lá ao fundo, ao outro lado descendo, encontraram o que não deviam.

Era uma escadaria que ligava a Rua de Cima à Rua de Baixo. Uma escadaria por onde ninguém subia e ninguém descia.

Quando então a calçada levou o moço adiante, os olhos não podiam mais ver o que viram. E a boca não disse “olá”. E o braço não acenou um “olá”. E os lábios que não se abriram não precisaram fechar-se, afinal seus olhos já tudo diziam. Mas não foram os olhos que cumprimentaram um amigo, não muito amigo, que no moço pela Rua de Cima esbarrara. E para este os lábios abriram em “Olá”. E para este a boca sons emitiu “Olá”. O amigo, mais falador, emendou um “... como vai?”.

Ia andando o moço e andava agora a pensar. Pensar na escadaria, pensar no olhar.

“Meus olhos atravessaram a-escadaria-que-não-se-deve-descer.”
“Ainda bem que só os olhos foram. Ainda bem que o resto não acompanhou.”
“Estás enganado. O coração atravessou-a também. Vi um par de olhos através dela.”
“Esqueça esse par de olhos, pois jamais terás o par de pernas que eles trazem.”

Intensa foi a frase que aos ouvidos do moço entrou. E sua boca palavras outras não falaram. As pernas outros passos deram. Os olhos mais nada viram. Sabia o moço em que rua estava.

Era uma escadaria que ligava a Rua de Baixo à Rua de Cima. Uma escadaria por onde ninguém descia e ninguém subia.

A moça de tranças ia para a padaria da Rua de Baixo. Uma moça que fazia os afazeres da casa. Moça que seguia os dizeres da mãe. Engordava o enxoval mês a mês. E suas vontades rugiam rendas, seus sonhos teciam tricô. Seu amor imaginava chegando. A mão aos pais ir pedindo. Um longo vestido branco arrastando. Moça de cor corada. Canela redonda, joelho apontado e pés delicados. Andava pela Rua de Baixo com olhar inspirado. Olhar que concebia uma casa, concebia os móveis, concebia a felicidade que não se concebe quando à padaria se caminha. Olhar que, quando imagina ver, vê o que não imagina na escadaria que outros olhos do outro lado tinha. Era uma escadaria que ligava a Rua de Baixo à Rua de Cima. A “escadaria-que-não-se-deve-subir”. A “escadaria-que-não-se-deve-descer.”

A moça estática ficou. Na padaria, o pão não comprou. A mãe preocupou-se com a filha que fazer compras foi. Na hora de voltar não chegara. Nem avisos mandara. Abriram-se os olhos da mulher, e a porta da casa também. E a calçada da Rua de Baixo caminho abria para a mulher que, lá adiante, em estátua, encontraria a filha. A mão de mãe pegou na mão da moça.

“Fazes o que aqui parada?”
“Olá, mãe, ia comprar pão, mas...”

A frase a filha não terminou. E arrastada, foi comprar, acompanhada, o pão que precisava.

“Pague o pão. O dinheiro dei.”

E foram ambas a casa. Mãe a carregar a moça a carregar o pão e, junto com ele, carregava os olhos que vira antes. E era só o que via. O caminho de volta não enxergava. Esquecendo-se quem era e onde estava, finalmente entrou em casa, que surgia como uma nova casa, pois seus olhos a velha não mais viam, nem varanda nem varal, nem sala de estar, nem de não estar.

Estava na hora da refeição, e mãe e filha e pai sentados à mesa. Os braços da moça estavam cruzados por só conseguir pensar no olhar que lhe foi dado. E quando só com a mãe finalmente ficou, se fez perceber o que se passava.

“Isso que te aconteceu, onde foi?”
“Foi lá. Eu vi um olhar. Um olhar que do outro lado passou. Encontrou o meu e agora com ele estou.”
“Lá, aonde?”
“Na Rua de Cima. Cruzou a escadaria-que-não-se-deve-subir.”
“Pois então esqueças. Jamais de novo o verás.”
“Engana-se, mãe. Agora mesmo o estou a ver.”

Desta vez, ocupou-se a mãe de ocupar a moça que a louça lavou. Mas seus olhos não viam pratos. Suas mãos não sentiam talheres. Sua pele não afagava-se à espuma. Seus pensamentos partiam do puro sentimento. Mas logo ela voltaria ao quarto. Depois, passaria a tarde. Dormiria a noite. E, quando saísse novamente de casa, perceberia em que rua estava.

No dia seguinte, o moço da Rua de Cima caminhava na calçada. Desta vez, inverso era o sentido que seus passos seguiam. Se antes ia de encontro ao poente, agora dirigia-se ao sol nascente. Um leste-oeste, oeste-leste que seu senso não compreendia. E, pelos passos que dava, uma coisa apenas via. Apesar de saber em qual rua andava, o moço não esquecia de uma coisa: do olhar que portava a moça, a andar pela rua em que ele jamais pisaria nos quadradinhos que compunham a calçada. Olhava muitos olhares que lhe eram permitidos. Mas nenhum entrou em suas entranhas. Enquanto procurava a distração, lembrava-se do inevitável. E em passos perpendiculares aos que deveriam ser dados, foi-se ele de novo para a direção da escadaria-que-não-se-deve-descer.

Lá, parou o tempo. E parou o céu que parou a vida, pois essa deixou de ser prioridade.

A pele do moço esmoreceu. O coração corou. As pernas paralisaram-se. E os olhos ondearam as imagens que invadiam sua fortaleza descomposta.

A moça, que de manhã acordara sorrindo, saiu de casa cedo, rumo à padaria, desta vez pela mãe acompanhada. A mulher segurava a filha pelo braço, mas os olhos miravam a calçada; enquanto isso, a moça, a imaginar despreocupada, passava por muito além dos rumos da Rua de Baixo. Andaram polidos passos até chegarem ao ponto que não se deve atravessar. Mulher parou. Filha também. E se a mãe impulsionou ar aos pulmões, moça impulsionou imagens ao coração. A escadaria-que-não-se-deve-evitar. Segundos seguintes passaram. Mulher esqueceu de comprar pão. Moça já não se lembrava loucuras e, como se atravessasse paredes, viu o que ninguém via. Flutuou olhares e a mãe nada fez. Gemeu suores e a mãe nada fez. Deu um passo em direção à escadaria e a mãe segurou pelo braço.

Então a carne da moça desfez-se. Por entre o braço dela a mão da mãe atravessou. Foi-se a jovem em direção à escadaria, conduzida por um cheiro de olhar. E a mãe nada pôde fazer, pois ninguém pisa na escadaria-que-não-se-deve-subir.

Escadaria abaixo, moço desceu. Escadaria acima, moça subiu. E o amigo do moço de costas caiu. E a mãe da moça de medo morreu.

Andaram passos de pena. E encontraram-se na metade marcada.

Ele, no último degrau de cima. Ela, no último degrau de baixo.

Passaram três dias a olharem-se nos olhos. E, ao meio do quarto dia, quando o sol em cimo não fazia sombra, a mão direita do moço avançou a metade da escadaria-de-cima em direção à mão esquerda da moça, que entravou-se. Levou o resto do dia até atingir a pele dos dedos dela. E quando lá chegou, não só os dedos, a mão era-lhe necessária; e o braço inteiro seria-lhe necessário, assim como era necessária a boca dela junto à sua; e o peito palpitante era necessário; e o sexo sedutor era necessário. Assim como era necessário afagar a ponta do dedo que acabara de alcançar.

Pensou o moço em avançar a última barreira e pisar no primeiro degrau da escadaria-de-baixo. Mas era já de noite. Pois quando a noite chegou, a moça fechou os olhos. Adormecera de pé, ao último degrau, com os dedos apoiados à mão do moço. Ele não sentia sono. Mas fazia já três noites que não dormia. Então, fechou os olhos. Abriu o livro de receitas de sonhos, e dormiu o sono dos apaixonados.

Dormiram a noite inteira. Dormiram o dia seguinte inteiro. E acordaram quando o sino badalou seis da tarde.

Acordaram juntos. E nada mais viram que não fosse um ao outro. Eram-se tão necessários que nem as brumas produzidas pelas horas chamavam-lhes a atenção. Nem os mundos que giravam acima e abaixo chamavam-lhes atenção. Nem a família da moça chamava atenção. E atenção também não chamava o degrau-do-meio, mas este ninguém ultrapassava.

De joelhos à escadaria, a moça sentiu a mão de plumas afagar-lhe o rosto; deslizou sobre elas até o pulso, que não continha plumas e, sim, sangue, muito sangue a ferver de tanto furor. Julgou-se com sede, e sua boca atacou a parte do corpo onde as veias mais apareciam. Os lábios comprimiram o braço dele, que tratou de mais sangue mandar correr para mais dentro da moça que sugava ilusões poder ficar. Por mais seis horas grudara-se à pele do moço. Depois, deitou-se de novo. Parecia com sono. Mas não dormiu. Estendeu a mão de menina com os dedos abertos ao rosto do outro.

Um a um, os dedos foram beijados. E, um a um, com a saliva da noite, que penetrava à boca do moço, foram lavados. Quando já estavam limpos, nascia o sol, mas os raios não alcançavam o degrau-do-meio-da-escadaria.

Deitou o moço ao seu degrau. E novamente dormiram, até o badalar do sino das seis.

Porém, desta vez, quando o moço acordou, já não portava roupas. E a moça também já não portava roupas. Neste instante, perceberam não estarem sozinhos. Os três atraiam-se: moça, moço e degrau-do-meio. Este último emitia ávida atração. Fascinava por ser o centro-da-escadaria. Fascinava por ser o divisor entre os polos. Mas fascinava, principalmente, por ser único, e por não ser possível de duas pessoas permanecerem nele ao mesmo tempo.

A moça deu leve impulso ao quadril. E quando sorriu, já sentada estava no degrau que fascinava. Sem pinçar planos, mirou o céu orvalhado, fechou olhos, encostou costas ao chão, virou piso plano: parte do degrau-que-não-se-pode-ultrapassar.

Sanha seca de desejo tomou de todo o moço. Olhava com olhos, pensava com pele. Sentiu o corpo a inclinar-se para baixo. O corpo inteiro, a não resistir à gravidade das órbitas. A deixar-se adormecer acordado pelo peso sobre os cílios. Sentia-se descer e fruía. Já sentia o prazer de estar prestes a tocar o degrau-do-meio, que na verdade era o corpo nu da moça por sobre a laje, estático, mas a arrepiar-se com a brisa, sereno, mas a palpitar de ansiedade, fugidio, mas deitado devoto onde ninguém antes deitara e prestes a sentir o que somente ela não sentira.

Quando todas as pessoas da cidade por três segundos pararam de respirar, a moça expeliu um ar diferente. Expeliu de boca aberta. O moço não percebera, pois por três segundos também parara de respirar. E a moça expelia o ar mansamente, de sorriso simples e derradeiro, capaz de acompanhar a língua na busca do sabor escondido não se sabe onde, mas que procurava pela extensão dos lábios, pelo céu da boca, pelas gengivas molhadas de menta e pelo pescoço do moço grudado aos seus cabelos. Sentia também a pele do moço grudada e querendo suar sobre seu peito. Sentia a pele sacudir-se e, finalmente, quando passaram-se os três segundos e o ar todo de boca aberta fora expelido, libertou mudo soluço e forçou para cima a virilha. O moço, então, pela boca, soltou o ar que lhe entrara pelos olhos.

O degrau embaixo da moça embaixo do moço. O moço dentro da moça a cobrir o degrau. Era tão certo que os três formavam uma só entidade como era certo que ninguém estivera àqueles degraus anteriormente. Era uma hora embrumada a hora em que o jardim feito de pele da moça abrigara o corpo do moço. Uma hora embrumada, em que os movimentos deixaram de ser leves e passaram a desenhar flores ao cimento, feitas de suor e sangue. E depois das flores, também fariam-se folhagens naquele jardim, estas feitas de raspas que caíam dos joelhos do moço. E, no jardim que se desenhava, também tinha espaço para um pequeno lago ornamental, composto pelas lágrimas virgens da moça e por tudo que havia nas costas do moço que as unhas dela lhe arrancariam.

Depois do caminho praticamente traçado, a moça contraiu dentes, apertou olhos. O moço correu quadril, ovalou boca. A moça suspendeu respirar, agarrou orvalhos que nasciam. O moço esfolou pés, avermelhou instantes que aceleraram. E para que fatal não fosse o ritmo, bocas abriram-se para que o ar não explodisse os corpos arrefecidos. Abriram-se sem mais respirar. Nem mais gota de ar entrou, nem mais gota de ar saiu. Moça gritava. Moço urrava. Houve medo no entendimento dos dois. Medo de que o avesso em que estavam seus corpos assim permanecesse para sempre. Mas quando soltou o urro mais forte, o moço e seu corpo tão grande dentro da moça se fez, esta apenas sorriu: seu grito maior foi para dentro, dirigido para todo sítio que o sangue circula, e seu grito foi amaciado, umedecido por amor que o moço, com tanto esforço, transplantou para o corpo dela, deitado sobre o degrau.

Olharam-se nos olhos por leves segundos. Depois a moça sentiu o queixo contrário apoiar-se ao seu ombro. Adormeceram. Nas faces, ainda restavam sulcos rosados e a sombra do esforço físico, mas as pálpebras esboçavam satisfação. Os longos dedos da moça roçavam às costas nuas por sobre seu corpo, mesmo ao dormir. Parecia segura, maternal, mas o que buscava mesmo era proteção e afeto que todas as meninas buscam durante o sono. O moço sonhava pesado. Sonhos que não se lembra depois que se acorda.

Abaixo deles, um degrau. O único degrau por ambos tocado. Degrau que sentia deslizar os cabelos negros lisos da moça e que ao centro possuía a mancha de amor que nenhuma chuva conseguiria apagar. Este degrau ligava a escadaria-de-cima à escadaria-de-baixo. E quando, no dia seguinte, o sol nasceu, moço e moça já não estavam lá. Durante anos anunciou-se a história dos dois desaparecidos. Mas quando o vento de cima da escadaria soprava para baixo, e o vento de baixo soprava escadaria acima, ouvia-se um assobio de criança. Era como se um vento entrasse para dentro do outro. E tudo acontecia no degrau-do-meio. O degrau onde os casais fazem amor e geram filhos abscônditos. O degrau-que-não-se-deve-ultrapassar.


EMIR ROSSONI é agricultor e mestre em Escrita Criativa. É autor de Domanda Nísio, livro vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, e de Caixa de guardar vontades, livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura, vencedor do Prêmio Guarulhos de Literatura de Livro do Ano, além de finalista do Prêmio Ages e do Prêmio Minuano.

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