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#166

Outubro/2014

O PALHAÇO

Figura que remete aos antigos bufões e ao bobo da corte, o clown tem ocupado lugares simbólicos na sociedade, como o de ser aquele que diz a verdade e ridiculariza os absurdos do cotidiano

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Zéfiro, o erótico

Seg, 01 de Agosto de 2005 00:01
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Carlos Zéfiro, esse sucessor, à sua maneira, de Hans Staden, Gregório de Matos e da parte boa (e mais sincera) da obra de Gilberto Freyre, tem seus gibis eróticopornográficos relançados por uma carioca



Talvez seja difícil – nos tempos permissivos de hoje – imaginar o impacto dos “catecismos” de Carlos Zéfiro sobre duas gerações de brasileiros: os malsaídos da atmosfera do Estado Novo para o clima novacap de Juscelino e aqueles que, depois, iriam se tornar adultos na atmosfera pós-Woodstock do “liberou-geral”.


“Catecismos? De Carlos Zéfiro? E quem foi esse Zéfiro? Um padre?...”

Nos círculos mais jovens, só não farão tais perguntas os antenados com a boa MPB, que certamente conhecem “Barulhinho bom – uma viagem musical”, CD de Marisa Monte, de 1996, com capa e encarte produzidos em cima da obra de Zéfiro, o pornógrafo autor dos tais “catecismos” (livrinhos eróticos que circularam, sim, num tempinho bom).



Vai uma distância enorme entre saber ou não saber sobre CZ. Os que sabem de primeira mão (ôpa), são contemporâneos de “Banho de Lua”, na voz escolar de Celly Campello, e se escondiam no banheiro, nove entre dez, com algum dos catecismos de Zéfiro entre os joelhos. Coisa de meninos e coisa de velhos – se os velhos não tivessem, hoje, revistas de um erotismo sombrio e explícito demais (como nos vídeos pornográficos que matam o erotismo) para oferecer as alegrias das revistinhas de outrora.

 

Estou chamando de erótica a obra de Carlos Zéfiro porque o conteúdo “pornô”, digamos, das publicações desse fino desenhista não só parece até inocente, em retrospecto, mas porque carrega, ele, uma espécie de “descoberta” brasileira do sexo, até hoje – quando “a sinistra maré de sangue está solta e, por toda parte, submersa está a cerimônia da inocência”, nos versos proféticos do poeta Yeats.

O nosso Zéfiro foi mesmo um zéfiro (“Zephyr. s. m.: espécie de tecido muito fino para vestidos de senhoras; Zephyro. s. m.: vento brando e agradável; viração, brisa”). No tempo de “o petróleo é nosso” - tempos de certa inocência política que também se perdeu entre compras de votos e mensalões -, sua produção secreta significou, talvez, um equivalente moralmente inofensivo daquela era do presidente aloprado que “abriu” o antigo país no qual a bula de Regulador Gesteira podia servir de estimulação erótica para adolescentes cheios de espinhas nas caras ainda não pintadas para clamar pelas diretas (que só nos trouxeram sub-presidentes, até agora, sem exceção).

 

Há uma radiografia qualquer, ainda por ser feita, entre moral, política e sexo em ambas as cabeças, de baixo e de cima. E deve-se partir, no Brasil, do fundo do tapete debaixo do “Vestido de Noiva” – do pernambucano Nelson Rodrigues – passando pelas chanchadas do “teatro de revista” (tipo Tem Bububu no Bobobó etc.) até chegar ao ponto em que nos situamos, pós-modernos e integrados entre lulas & urnas, malícias eletrônicas e escândalos horrendos, na política e na vida íntima hoje devassada pelos reality shows. É por aí que Zéfiro dá saudade do Brasil de antes, pobre e cheio de uma bossa que já foi nova.

 

Perdemos o antropofagismo que reinava nos desenhos brasileiríssimos de Carlos Zéfiro? A nossa paixão de comer – no país do fracasso do Fome Zero – se tornou um rito que já não nos redime?

O nosso Pindorama, aliás, começou comendo um bispo chamado Sardinha (comendo-o literalmente, os índios tupinambás ou caetés, já não me lembro quais, da lição de escola levemente sexual nesse capítulo escabroso do jantar dos índios quinhentistas que fomos). Aqui, não havia “pecado” - abaixo do equador etc. - e tudo era verde, amoral e quase permitido, não fosse a pesada catequese jesuítica a remeter direto para cabeças como a do Bandido da Luz Vermelha do aviso piscando há muito tempo: há qualquer coisa nos transformando em tarados e políticos ineptos (porém, para os primeiros ainda há salvação)...


Voltando a Zéfiro: foram os ventos da moral cristã portuguesa, para começar - e não a luz crua sobre as índias (e negras) - que nos perderam nas sombras do hardcore. Parece claro que a relação do brasileiro com a sexualidade poderia ter sido uma lição de “desencucação” perfeita, caso a história local houvesse caminhado pela alegria metafórica dos índios nus comedores de gente, a partir de quando Cabral aqui aportou, vestido até o pescoço com sedas e golas de renda, elmo de ferro e fivela nos sapatos de comandante da esquadra com a cruz pesada sobre a esfera armilar das Índias transformadas em colônias fornecedoras de pau (ôpa, de novo), ouro e açúcar exportados por mares navegados para isso mesmo. “Em se plantando, tudo se dá”, e, em tudo se dando, tudo tomamos ó pá! Era aqui o El Dorado - como hoje é o Hawaí (“seja aqui/ e onde tu sonhares/ todos os lugares”)... da pele dos meninos (e das meninas, Caetano) mais tarde cantada em prosa & verso, de São Salvador ao território livre de Carlos Zéfiro, esse sucessor, à sua maneira, de Hans Städen, Gregório de Matos e da parte boa (e mais sincera) da obra de Gilberto Freyre, o amante dos mamoeiros. 

 

Mas, enfim, quem foi esse Zéfiro?

 

Nascido em 1921, o funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha é, hoje, uma mera ficha – impecável, é verdade – nos arquivos do antigo Departamento Nacional de Imigração, órgão vinculado ao Ministério do Trabalho getulista. Entre burocráticos registros do gozo de merecidas férias, liçença-paternidade e aposentadoria compulsória, nada há que revele, por trás de Caminha (parente remoto do Pero Vaz que viu os índios completamente nus?), o pornógrafo Carlos Zéfiro, que faleceu em julho de 1992 como um mestre do erotismo nacional, um herdeiro visual do melhor apetite das populações nativas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.



Ele manteve, o tempo todo, vida dupla: durante o dia, era Caminha, no máximo um funcionário boêmio, com incursões pela música (compôs quatro sambas em parceria com Nelson Cavaquinho). De noite, entretanto, debruçado sobre a prancheta, no escritório caseiro, assumia a persona de Carlos Zéfiro, autor e ilustrador de mais de 500 “catecismos” desenhados em preto e branco, no tamanho de um quarto de folha ofício, com 24 ou 32 páginas e tiragens de 30.000 exemplares de um erotismo franco e cândido ao mesmo tempo, ou francamente pornográficos de um modo que hoje pode até ilustrar um CD de MPB.



Siglas & lacanismos (e lacanagens) à parte, as revistinhas – vendidas, dissimuladamente, em bancas de jornais – eram o produto das viagens mentais do carioca tímido e sereno, casado aos 25 anos com Dona Serat Caminha, mãe dos 5 filhos que cresceram ignorando a atividade paralela do pai barnabé.



Pela Lei 7967 (que regia, então, o funcionalismo público), Alcides teria perdido o cargo caso se envolvesse em “escândalos”, e, na época, o que Caminha fazia em casa, clandestinamente, era considerado um escândalo. A lei não vigorava mais – e o nosso herói já estava aposentado, por sinal, quando deixou de vigorar – ao tempo em que uma reportagem da revista Playboy afinal revelaria, em 1991, a verdadeira identidade de “Carlos Zéfiro”.



Alcides Aguiar Caminha morreu no gozo de uma breve celebridade, que durou menos de um ano. Durante esse período de exposição da “face secreta”, ele deu entrevistas, foi convidado de honra de festivais de humor & quadrinhos e recebeu até o Prêmio HQMix, “pela importância da sua obra”.



Agora, essa obra – com ou sem aspas – está sendo relançada pela editora “A Cena Muda”, de propriedade da carioca Adda Guimarães, dona de uma banca de revistas de Ipanema que se transformou em selo editorial e acaba de lançar seis títulos zeferianos vendidos sem subterfúgios, o primeiro dos quais: “O Viúvo Alegre”, a história de um cinqüentão que se apaixona por uma jovem prostituta...



Por fim, viajem pelas ilustrações aqui permitidas (as demais não o seriam) e leiam atrás do subtexto das imagens criadas, com quase ingênua franqueza tupiniquim, pelo único "Henry Miller" visual que tivemos.

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