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#137

Maio/2012

O FASCÍNIO
PELO HORROR

Por que o ser humano busca, através da arte, as sensações de medo?

Cinema

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Doc sobre “punkternidade” surpreende e emociona

Escrito por Thiago Lins   
Seg, 30 de Janeiro de 2012 17:30


Skates, guitarras, moicanos, tachinhas, rodas de pogo e... fraldas. Em cartaz no circuito alternativo americano e europeu (sem previsão de estreia no Brasil), o emocionante documentário The other F-word retrata o dia-a-dia de veteranos homens de frente do punk rock numa condição bem diferente: de homens da casa.


Oportunamente, o doc é narrado e protagonizado pelo dicotômico Jim Lindbergh (ex-vocalista e fundador do Pennywise), autor do livro Punk Rock Dad: No Rules, Just Real Life. A autobiografia detalha tanto sua vida na estrada com a banda quanto com a mulher e as três filhas. Lindberg, um pai presente, é o mesmo que passou anos à frente do Pennywise, a banda que sacudiu ginásios mundo afora com hits como Fuck Authority (imagine).


O vocalista deixou a banda em 2010, quando os colegas insistiam para que ele topasse uma turnê latino-americana de dez dias. Pela versão do guitarrista Dragge Fletcher, a banda teria passado por quatro meses de férias logo antes da turnê e os produtores brasileiros ainda teriam providenciado babás para as filhas de Lindberg, o que foi insuficiente: eis que o Pennywise veio ao Brasil com o novo vocalista, Zoli Teglás. Rock star atípico, casado com a namorada de colégio, Lindberg era o único pai de família da banda. O garotão Fletcher, por exemplo, tinha duas outras responsabilidades além do grupo: surfar e andar de skate. Romper era uma questão de tempo.


Durante o “divórcio” do Pennywise, Fletcher se mostrou tão respeitoso com os fãs (ficou claro seu ímpeto em excursionar a todo custo) quanto rancoroso com o ex-parceiro. O guitarrista conta secamente que Jim teria definido o Brasil como “um dos lugares mais problemáticos do mundo para se fazer turnê” e que o mesmo externava uma certa má vontade nas viagens. Um desertor para os fãs (todo fã que se preze é xiita), um herói para a lente da diretora Andrea Nevins – e para a família.


No filme, Jim lembra que se incomodava quando criança, porque o pai, um representante comercial, viajava constantemente e nunca podia acompanhar o filho nos jogos internos da escola (um costume bem americano). É Lindberg o responsável pela pergunta que todos os personagens de The Other F-Word tentam responder: - Como deixamos de nos rebelar contra nossos pais e nos tornamos pais?


Em sua jornada rumo ao autoconhecimento, Lindberg está bem acompanhado por Fat Mike (NOFX), Lars Friedriksen (Rancid), Mark Hoppus (Blink 182), Flea (Red Hot Chili Peppers), Art Alexakis (Everclear) e o lendário skatista Tony Hawk, entre outros. Homens feitos (embora se vistam e ajam sob os holofotes como adolescentes) unidos pelo trauma de terem crescido em meio a famílias disfuncionais e pais separados.


Chega a ser revelador ver esses homens que ganharam a vida pregando o niilismo e a anarquia mundo afora se esforçando no zelo pela manutenção daquela que é a instituição número um da sociedade: a família. Quem acompanha a carreira das bandas em questão, cujo repertório volta e meia “descasca” seus respectivos pais pode até fazer ideia do que esses punks (que em inglês é uma gíria para “vagabundo”) passaram quando jovens.


Que o diga Art Alexakis. Ele é o autor da bela Father of mine, hit da sua banda (dos versos My daddy gave me a name/ And then he walked away) sobre a tortura chinesa que é crescer longe da figura paterna. Alexakis, além de ter sido abandonado pelo pai quando criança e ter sofrido abuso sexual de vizinhos mais velhos, é assombrado pela perda de uma filha adolescente, tragédia que, conforme conta no filme, só não o levou ao suicídio porque logo depois ele teve outra filha.


O vocalista do Everclear constitui o estereótipo do pai que quer dar uma infância melhor do que a própria para suas filhas. Hoje, volta e meia Alexakis é incomodado com a solicitação de amizade de um “estranho” no Facebook: seu pai, que insiste em reaproximar do filho famoso. “Não, nunca seremos amigos”, declara o rock star atormentado.


Outro a ter um colapso sob o foco de Nevins é o baixista do Red Hot Chili Peppers. Flea, que em certa altura faz um dueto com a filha tocando Beethoven (!) no piano, lembra de como se sentia inferior sempre que discutia com os pais. “Meus pais sempre diziam que eles tinham me dado a vida (quando brigava com eles). Mas foram meus filhos que o fizeram”, declara, antes de desabar frente à câmera.


Lágrimas à parte, The other F-word ainda suscita risadas. O humor negro típico dessa geração do punk rock, que sobrecarregou a MTV da década passada com vídeos engraçadinhos, também permeia o longa. Fat Mike (NOFX) se revela tão hilariante em casa quanto no palco (numa passagem do filme ele praticamente disputa com a filha quem libera mais “flatulências”), enquanto Mark Hoppus (Blink 182) zomba de si mesmo:  "A parte boa de como ganho minha vida é que as expectativas ao nosso redor, como pais, sempre foram baixíssimas", profere: fica fácil surpreender em seu novo papel.


Pérolas como essas sintetizam o comportamento dos personagens, que oscilam entre adolescentes retardados (ok, eles estão na casa dos 40 ou quase lá, mas idade é algo meramente genérico e cronológico), e adultos disciplinados e disciplinadores: eles mudaram naturalmente, mas sem esquecer da máxima punk. Ainda são eles mesmos.

Doc sobre “punkternidade” surpreende e emociona
 
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