| O dono da música |
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| Escrito por Ângela Fernanda Belfort | |
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PREFÁCIO A vida de jornalista traz momentos de beleza e outros de uma profunda tristeza, quando constatamos o quanto a nossa miséria (incluindo a pobreza, a corrupção e a violência) é de quinto mundo. Estava preparando um caderno para o Jornal do Commercio com o colega José Teles sobre os 100 anos do frevo. Distribuímos as tarefas. A minha parte incluía produzir uma matéria sobre Nelson Ferreira. Depois de ler o que tinha disponível, marquei uma entrevista com o seu filho Luiz Carlos Ferreira. Quando me encontrava no apartamento – que foi a última morada do maestro –, Luiz Carlos colocou no seu aparelho de som uma versão de Evocação nº 1 que nos deixou (eu e o fotógrafo Rodrigo Lobo) totalmente extasiados, escutando aquela canção tão bela. Imediatamente me veio a vontade de saber mais sobre a pessoa que fez aquela música. Encontrei pouca coisa impressa sobre Nelson e pensei em escrever um livro sobre ele. No entanto, isso só se concretizou porque 24 horas antes do encerramento das inscrições no edital do Funcultura de 2007, elaborei um projeto baseado nas informações que tinha levantado na época do caderno. O projeto foi aprovado com um corte significativo na sua planilha de custos. Apesar das inúmeras dificuldades que esta diminuição de recursos me causou, hoje me sinto muito feliz em ver concluído o trabalho, que se desenvolveu de forma intensa e paralela aos meus outros compromissos profissionais. Nos últimos dois anos, li tudo que foi escrito sobre o frevo e que pude ter acesso no Arquivo Público de Pernambuco, sebos, livrarias e bibliotecas públicas de Olinda e Recife. A pesquisa realizada para elaborar esse livro também me trouxe novos momentos de prazer, como os que passei entrevistando o ator Reinaldo de Oliveira, o historiador Leonardo Dantas Silva, o professor Leonardo Saldanha, o pesquisador Samuel Valente, o jornalista Renato Phaelante. Agradeço a Leonardo Dantas Silva por ter me autorizado a usar a expressão O dono da música, título que ele deu ao capítulo que fala de Nelson no seu antológico livro Carnaval do Recife. Ao pesquisar sobre Nelson, descobri vestígios de uma geração que ajudou a construir o mundo de hoje. Entendi porque Guerra Peixe dizia que o frevo é um ritmo semi-erudito. Conclui que o passo (a dança do frevo) pode ter surgido do povão, dos capoeiras. No entanto, o ritmo surgiu de pessoas que vieram de famílias simples, mas que possuíam um grande conhecimento musical. Exemplos: Raul Moraes foi pianista, Nelson e Capiba idem. Isso não é uma simples coincidência. Eles tiveram acesso ao repertório dos clássicos e se dedicaram com afinco ao estudo da música. Ao contrário do que muitos pensam, o frevo não é um ritmo simplório. É sofisticado. Também constatei uma certa influência da música norte-americana nesse ritmo tão pernambucano. Não sou especialista em música, mas considero o fato bastante curioso. O compositor Mário Filho disse numa carta que “falar de Nelson Ferreira é contar uma coisa do Recife, uma história sóciomusical da cidade”. Ele tinha razão. Invejo Sérgio Cabral que passou 25 anos para escrever a biografia de Nara Leão. Não pela biografada, mas pelo tempo que ele pode dedicar a elaboração desse livro. Pesquisador auxiliar desse projeto, Jorge Costa diz que para fazer o estudo antropológico sobre o frevo e Nelson Ferreira – que eu gostaria de fazer – seriam necessários, pelo menos, quatro anos. Espero que esse livro venha a acrescentar um pouco mais de informação sobre Nelson a todos aqueles que têm algum interesse pelo frevo e por este compositor tão importante para a cultura pernambucana. Tentei recriar a história de Nelson com as informações publicadas sobre o compositor em entrevistas, cartas e manuscritos dele e de outras pessoas que foram da sua convivência. Me ajudou o hábito da sua irmã, Linda Ferreira de recortar e guardar as matérias que mencionavam o maestro direta ou indiretamente. Esses recortes foram o roteiro básico desse livro e pertencem, em sua maioria, ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Uma outra parte deles está com a sobrinha do maestro, Lucia Helena Gondra. Com exceção do primeiro capítulo, optei por agrupar as informações por década. A última cena foi baseada em todas as matérias que li sobre a despedida do maestro e acho muito provável que ela tenha ocorrido. Boa Leitura. Angela Fernanda Belfort Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. OS VESTIGIOS DE NELSON NO RECIFE O maior vestígio que o compositor e maestro Nelson Ferreira deixou está na boca do povo do Recife, principalmente durante o Carnaval... É comum ver os blocos passarem com foliões cantando ou dançando vários dos seus sucessos, como Evocação nº 1, o Bloco da Vitória, Dedé, Evocação nº 3 (Cadê Mário Melo?), Gostosinho, Gostosão, entre outros... Uma parte da vida do maestro girou em torno do Carnaval e do frevo, embora ele tenha feito composições em quase todos os ritmos... Até as buzinas dos carros são usadas para tocar o refrão do frevo de rua de sua autoria Casá, Casá nos dias em que o Sport Club do Recife joga e, principalmente, se sai vencedor nas partidas que disputa. Também compôs o frevo canção Pelo Sport Tudo, que registrou no título e na letra da música, o grito de guerra tão repetido pelos rubro-negros. O futebol era uma das grandes paixões de Nelson, principalmente quando criança. A outra grande paixão, também iniciada na infância, foi a música. Além do Sport, o Clube Náutico Capibaribe também mereceu do maestro uma homenagem em forma de frevo de rua, o Come e Dorme. Para o seu time de coração, que era o Santa Cruz, Nelson compôs o frevo Supercampeão para comemorar o campeonato de 1957 no qual o time venceu o Náutico e o Sport. Nelson Ferreira compôs cerca de 600 músicas. Uma parte significativa desta produção esta disponível em CDs, seja por meio das reedições ou compilações. Um grande panorama da sua obra esta registrado nos seis discos da série Carnaval - Sua História, Sua Glória, da Revivendo Músicas Comércio de Discos Ltda. Os volumes 23 ao 28 contêm 147 músicas de todas as fases de sua carreira. A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) também editou um CD com 10 das suas mais expressivas valsas, incluindo várias que fizeram sucesso nas salas de cinema mudo do Recife e de outras capitais do Nordeste. Do acervo do maestro, uma parte a própria família doou a Fundaj e a outra se dispersou... “No estúdio mesmo, ele deixava as partituras que dali se perdiam”, lembra o historiador Leonardo Dantas Silva, que conviveu com o maestro, se referindo ao tempo em que eles trabalharam juntos na Gravadora Rozenblit. A produção dele era tanta, que uma parte da vida do Recife ficou registrada nas suas composições. “Todas as produções de Nelson têm uma história, ele não jogava as coisas fora e documentou a história contemporânea. O dia a dia. Passava a vida para as músicas”, comenta o pesquisador Renato Phaelante, acrescentando que o frevo teve dois grandes inovadores: Nelson e Levino Ferreira, que apesar do sobrenome em comum, não eram parentes. “Ele dava rompantes nas músicas, aproveitando os passos (a coreografia) dos passistas”, diz. Para alguns estudiosos, o maior legado que Nelson deixou foi ajudar na consolidação de um gênero musical próprio do Recife. “O frevo foi a grande música da mídia, em parte, graças a Nelson Ferreira. O frevo poderia não ser o que é hoje. Poderia ser uma coisa de gueto, mas é uma das principais músicas de Carnaval do Brasil”, argumentou o professor do Conservatório Pernambucano de Música e doutor em música pela Universidade Estadual de Campinas, Leonardo Saldanha, se referindo principalmente ao papel que o maestro desempenhou na Rádio Clube. Por onde passou, Nelson fez questão de colocar o frevo num lugar de destaque. Isso ocorreu na programação da primeira emissora de rádio no Estado, nas gravações da Rozenblit. Iniciativas que se ramificaram e contribuíram para fixar esse ritmo no nosso imaginário coletivo. Em fevereiro de 2007, o compositor baiano Moraes Moreira declarou que um dos fatores que o influenciaram a compor frevo foram os programas da Rádio Clube, que escutava quando era adolescente, em Ituaçu, no interior da Bahia... Na época, Nelson comandava a direção artística desse veículo. Além da música, poucos são os vestígios de Nelson no Recife. Nas duas casas que morou na Rua da Concórdia, não há qualquer indicação deste morador ilustre. Próximo ao local onde ficava o imóvel na Rua dos Palmares, onde residiu 38 anos, há um busto do compositor, mas a placa explicando quem era o maestro foi roubada. Colocada lá em 1982, por Leonardo Dantas Silva – então diretor da Fundação de Cultura da Cidade do Recife –, ela dizia: “Neste local, em casa não mais existente, Nelson Ferreira compôs o melhor de sua obra”. O local também tinha uma coluna de granito originária da antiga Ponte da Torre, que também foi furtada. Na sua cidade natal, Bonito, a 135 km do Recife, não há qualquer vestígio da passagem do músico, embora ele tenha nascido lá por acaso. A sua família passou apenas uma temporada naquela cidade. No entanto, o maestro sempre fez questão de mencionar a sua naturalidade. “É informação quase certa que eles não moraram na cidade e o que se fala é que ele nasceu no Engenho Verde”, afirmou o médico e memorialista de Bonito, Lucídio José de Oliveira. Na época, essa localidade tinha uma igreja e uma escola do Estado. Durante a pesquisa, fomos até Bonito na tentativa de fotografar o local onde o compositor nasceu. Lá, tomamos conhecimento que a rua foi destruída para aumentar o plantio de cana-de-açúcar nas terras que pertenceram à Usina Serro Azul... E finalizo essa pequena introdução com alguns versos de Nelson: Eu passo, tu passas, ele passa Todos nós passamos a cair no passo A vida passa, o tempo passa, tudo passa É por isso que no passo eu me esbagaço. CAPÍTULO 1 - A INFÂNCIA NO BAIRRO DE SÃO JOSÉ A vida na capital pernambucana fervia com o dinheiro do açúcar produzido nas usinas do Estado nos primeiros anos da segunda década do século XX. Os cafés se espalharam pela cidade, incluindo as ruas do Bairro de São José, um dos mais antigos do Recife. Um meninote observava o que acontecia naqueles lugares, nutrindo um fascínio especial por aquela atmosfera que girava em torno de um piano. Passava costumeiramente pela Rua das Hortas, onde havia um café e alguém dedilhando o instrumento... Um dia, o piano estava mudo. Entrou no estabelecimento, procurou o proprietário e se ofereceu para tocar. O dono da casa estranhou a proposta vinda de um menino, mas concordou. Quando concluiu sua apresentação foi aplaudido e o comerciante lhe pagou pela performance, o que o deixou muito satisfeito. Essa foi uma das primeiras apresentações de um garoto que veio a ser conhecido, em todo o País, como Nelson Ferreira, o “dono da música”, em Pernambuco, por mais de 50 anos, passando pelo cinema mudo, as ondas da Rádio Clube e a primeira gravadora de discos do Nordeste, a Rozenblit. Também foi o autor do primeiro frevo lançado em disco (Borboleta Não é Ave) e da composição Evocação nº1, que produzida no Recife, tornou-se o maior sucesso no Carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife no ano de 1957. “Por acaso”, ele nasceu na cidade de Bonito, interior de Pernambuco, no dia 9 de dezembro de 1902. Professora do Estado, a sua mãe Josefa Torres Ferreira tinha sido transferida para ensinar numa escola da área rural daquele município, o que fez a família passar aproximadamente dois anos no local. Nelson chegou ao Recife com pouco mais de um ano de idade, quando Josefa voltou a lecionar na capital. Foram morar numa casa no Pátio do Terço e depois na Rua da Concórdia, ambas localizadas no Bairro de São José. As primeiras lições de música ocorreram aos quatro anos de idade, ministradas por sua irmã Laura, professora de piano, também responsável pela iniciação musical de outros membros da família, entre os quais o irmão mais novo, Luiz Alves Ferreira Filho e a sobrinha Lucia Helena Gondra. Ambos se tornaram músicos e compositores. Nelson e os seus cinco irmãos estiveram sempre envolvidos com a música, de forma profissional ou amadora. “Todos da família Ferreira cantavam e tocavam, variando do bandolim ao violino e todos dedilhavam o piano”, dizia Walter de Oliveira1 (1985, p.11), se referindo aos seis filhos do casal. O patriarca Luiz Alves Ferreira trabalhou muitos anos na Joalheria Krause e era “um excelente braço de violão”, segundo atestou o próprio maestro, já na maturidade2. Depois de aprender a tocar o instrumento, Nelson começou a improvisar as suas primeiras canções. “Não me lembro da primeira música que fiz. As calças ainda eram curtas e eu já fazia as minhas primeiras polquinhas e valsinhas”, revelou o compositor3. Na época, as crianças e adolescentes usavam as calças curtas e os meninos só vestiam as calças compridas quando passavam a ser vistos, pela sociedade, como adultos. O reinado de Momo chegava e, na época, já modificava a rotina da cidade. “Ruas da minha infância... / Quantas lembranças deixaram em mim! /...Daqueles carnavais / em que eu, menino, corria com medo dos alegres mascarados...”, lembrou o maestro na canção Evocação n° 7, lançada em 1972. Os grupos de mascarados desfilavam nos dias de Carnaval e só retiravam as máscaras diante da comissão organizadora da festa. Naquele tempo, os moradores das ruas mais populosas da cidade elegiam um grupo de pessoas para organizar os festejos momescos e arrecadar os recursos utilizados para pagar a decoração do local. A infância no Bairro de São José também trouxe ao menino uma intimidade com um gênero musical que estava nascendo e que marcaria a sua vida: o frevo, música própria do Carnaval do Recife. No começo do século passado, várias agremiações carnavalescas tinham a sua sede e faziam os ensaios naquele bairro, onde o ritmo vinha “frevendo”, como diziam os iletrados da época. Também desse tempo, ficou na memória do compositor a lembrança do desfile do Clube Vassourinhas, do qual foi “aficcionado” durante toda a sua vida. O Carnaval passava, a vida voltava a sua rotina... Os pais desejavam que fosse professor. Para satisfazer essa vontade, Nelson começou a frequentar a Escola Normal, na Rua da União, em 1914. O magistério deveria ser concluído em quatro anos, ele cursou até o terceiro. No colégio, se destacou em música, assunto que lhe despertava interesse cada vez maior. Além do piano, começou também a ter lições de violino, chegando, inclusive, a se apresentar como violinista na orquestra do Centro Musical de Pernambuco. A família então decidiu que o menino deveria aprofundar seus estudos de piano com o professor baiano Manoel Augusto dos Santos, diplomado na Alemanha. Os investimentos na formação aliados à vocação natural do garoto surtiram efeito. Aos 12 anos de idade, era um exímio pianista. E foi o piano que lhe introduziu na alta sociedade pernambucana. “Conheci aquele menino de calças curtas tocando piano como gente grande. A cadeira do piano era muito baixa para ele, mas não havia problema, dizia ele rindo: Eu toco mesmo de pé, já estou acostumado”, lembrou a socialite Cecy Cantinho Lobo, se referindo ao sarau onde viu Nelson ao piano pela primeira vez (OLIVEIRA, Walter, idem, p. 28). O evento ocorreu na casa de veraneio do governador Manoel Borba (que administrou o Estado entre 1915 e 1919), em Olinda, e foi oferecido a uma ilustre figura da época, o general Dantas Barreto, que hoje é nome de uma famosa avenida do Recife. O início da carreira profissional de Nelson ocorreu aos 13 anos, quando começou a tocar em locais como as pensões Chantecler, Mirim, Boemi e de Júlia Peixe-Boi, que eram frequentadas principalmente por usineiros, grandes comerciantes, artistas e prostitutas. As apresentações começavam às 19h e se estendiam até meia-noite. O pai do músico, Luiz Alves Ferreira considerou os locais inadequados para seu filho, ainda um menino, e o impediu de continuar atuando. Com a proibição, Nelson foi tocar em alguns cafés que já se destacavam no Recife, como o Café Chile, localizado na Praça da Independência, no Bairro de Santo Antonio, e o Café Chileno, na Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife. Ambos eram frequentados pela fina sociedade recifense e abriram outras portas na carreira do músico, que passou a exibir suas composições para um público seleto, que influenciava o dia a dia da cidade. Pouco tempo depois, aos 14 anos, teve a sua primeira música editada. Foi a valsa Vitória, publicada com o patrocínio da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. Na época, as músicas eram editadas – com a partitura impressa - e comercializadas dessa maneira nas casas que vendiam esses produtos e outros afins, como instrumentos musicais. Outro assunto que lhe interessava muito era o futebol. “Meu estudo era chegar na escola, colocar o livro na banca e ir jogar futebol no 13 de Maio”4, contou em depoimento concedido ao Mispe. Das “peladas”, surgiram amizades com intelectuais, como os compositores Osvaldo Santiago, Leovigildo Júnior e Samuel Campelo, que se destacou como ator e diretor de teatro. Os três criaram poemas que vieram a ser musicados por Nelson. Além dos cafés, já existiam outros pontos de encontro na cidade. A partir de 1909, os recifenses passaram a ter duas opções de cinema, o Pathé, o primeiro a se instalar no Recife, e o Royal, que só encerrou as suas atividades em 1954. “Foi no cinema Pathé, na Rua Nova, que comecei minha carreira como pianista de orquestra. Isso em 1917, recebendo por noite cinco mil réis. No fim do mês, meu salário era de 150 mil réis ou 15 centavos de hoje”5, disse o compositor numa entrevista concedida à repórter Ariadne Quintela em 1972. O maestro da orquestra do cinema Pathé era Carlos Diniz, conceituado flautista e orquestrador. A nova função estava acrescentando novos conhecimentos musicais a Nelson. Aos poucos, ele foi abandonando o curso de magistério. O cinema mudo era a diversão, encantava as platéias e tornou-se um meio para divulgar a produção musical local. Geralmente, a programação incluía autores consagrados como Puccini (com árias de óperas como La Boheme e Tosca) e compositores da terra, que distribuíam as suas partituras com outros músicos, que as levavam para outras cidades e eram incluídas no repertório de determinados filmes em outras capitais... O cineasta sergipano Jota Soares recorda de uma valsa que lhe chamou a atenção, em 1918, ao assistir, no Cinema Rio Branco de Aracaju, um famoso filme da Fox intitulado A Filha dos Deuses, estrelado por Annete Kellermann. Ao final da sessão, Soares descobriu que a composição que ele mais tinha gostado, a valsa Milusinha, era de Nelson Ferreira6. No final da segunda década do século passado, surgiram mais cinemas e a orquestra mais importante era a do Cine-Teatro Moderno, regida por José Lourenço da Silva (Capitão Zuzinha), conhecido como o homem que dominava “os sete instrumentos”. A orquestra do Moderno era composta por um piano, dois violinos, sete clarinetas, violoncelo, contrabaixo, flauta, trompa, pistom e bateria. A maestria de Zuzinha era admirada pelos músicos do Recife e por estudiosos que, mais tarde, passaram a considerar esse compositor como o “pai do frevo”. Um dos primeiros que usou essa expressão foi o jornalista Mário Melo, amigo de Nelson e um dos grandes pesquisadores do gênero. Professor do Conservatório Pernambucano de Música, Leonardo Saldanha defende que Zuzinha foi o “responsável pela transformação da polca-marcha em marcha-frevo no princípio do século XX”7. Em 1920, Zuzinha convidou Nelson para substituir a pianista do Cine-Teatro Moderno, Madame Valery. O salário era de sete mil réis por dia e representava 40% a mais do que o cargo que ele ocupava ao iniciar no Cine Pathé, três anos antes. O compositor também levou em consideração a experiência e o conhecimento que ganharia na convivência com Zuzinha. E assim, ele ingressou na melhor e mais conceituada orquestra da cidade aos 18 anos de idade. CAPÍTULO 2 - O DONO DA MÚSICA Nelson Ferreira veio a ser o “dono da música” em Pernambuco a partir dos anos 20 do século passado, papel que exerceu por mais de 50 anos. O cinema mudo projetou as suas composições para um dos públicos mais importantes e influentes da região e foi o ingresso para entrar na casa das famílias de classe alta, onde sempre existia um piano. Algumas dessas músicas passaram a ser mais tocadas pelas orquestras que animavam as salas de cinema em outras capitais do Nordeste. Em1923, uma música de Nelson foi o primeiro frevo gravado em disco, Borboleta Não é Ave, feita em parceria com Júlio Borges Diniz para o Bloco Concórdia, uma agremiação carnavalesca improvisada que reunia os moradores da rua de mesmo nome, onde o compositor morava. O cantor do primeiro frevo gravado foi Manoel Pedro dos Santos, conhecido como Baiano, que fazendo juz ao apelido era filho de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. O acompanhamento ficou a cargo do Grupo Pimentel, de Ernesto Pimentel. Borboleta Não é Ave marcou a carreira do compositor porque foi a primeira música que Nelson fez, quando passou a usar calças compridas. A canção, no entanto, já era cantada pelos integrantes do Bloco Concórdia desde o ano anterior. Na década de 20, a influência da música americana era tanta que Borboleta Não é Ave chegou a ser chamada de marchinha one-step, uma dança rápida de salão americana. A dança one-step surgiu nos Estados Unidos praticamente na mesma época em que o frevo apareceu em Pernambuco, no fim do século XIX e começo do século XX. Um dos maiores pesquisadores da obra de Nelson Ferreira, o musicólogo Samuel Valente explica que: É tão somente o compasso binário que une o gênero One-Step à marchinha brasileira, sobretudo, ao frevo, de origem pernambucana, música rápida e vibrante, que teve forte influência do dobrado, da polca e da marcha One-Step, mas que logo se tornou independente em sua construção rítmica1 (VALENTE, Samuel, 2009). Valente acrescenta que compositores como Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha também costumavam classificar as suas músicas carnavalescas como one-step e aponta a gravação de Borboleta Não é Ave como um dos primeiros registros da origem do frevo por não ter introdução, ingrediente que os frevos só incorporaram anos mais tarde. Outro detalhe: nos anos 20, o frevo era classificado como marcha pernambucana ou marcha nortista. Nelson tinha uma banda e continuava tocando no Cine-Teatro Moderno, o que o aproximava de outros artistas que passavam pelo Recife. Em 1921, conheceu Pixinguinha, um dos maiores compositores brasileiros, autor de algumas canções que se tornaram clássicos da Música Popular Brasileira, como Carinhoso. Pixinguinha atuava como flautista de um grupo chamado os 8 Batutas. De passagem pela capital, o grupo se apresentou no Cassino Moderno. Os jornais da época noticiaram que o show deles foi “completado” pelo grupo Os Boêmios, formado pelo paraibano Severino Rangel (conhecido como Ratinho) e pelo alagoano José Luís Rodrigues, que frequentavam a casa de Felinto de Moraes, uma das figuras ativas do Carnaval do Recife nos anos 20 e 30, que esteve à frente de blocos que marcaram época como o Apôis Fum (nos anos 20), Lira da Noite e Flor da Lira do Recife (nos anos 30). Pixinguinha gostou tanto do grupo que incorporou uma das músicas do grupo local, Espingarda Pá ao seu repertório, num show que o compositor carioca apresentou na França pouco tempo depois de ter passado pelo Recife. Não foi só para Os Boêmios, que esse encontro rendeu. Anos depois, Pixinguinha pediu a Nelson um frevo para gravar no Rio de Janeiro. E assim ocorreu com a marcha nortista Não puxa Maroca!, gravada para o Carnaval de 1930 com a regência do compositor carioca. Existem pelo menos mais dois frevos de Nelson Ferreira (Morena lançado para o Carnaval de 1932 e Que é Que há, para o de 1933), que foram registrados em disco com o acompanhamento do grupo da Velha Guarda, liderado por Pixinguinha. Isso era muito comum na época, porque não existia gravadora local. As partituras eram enviadas às fábricas do Sudeste, gravadas pelas orquestras e cantores que faziam sucesso naquela região e, consequentemente, no restante do Brasil. Voltando a 1922, Nelson estava com 20 anos quando assumiu o cargo de regente do Cine-Teatro Moderno, em substituição ao maestro Zuzinha que se desligou da orquestra e o indicou para ocupar o posto. Essa orquestra era a melhor da cidade e continuaria assim até o final da década. Segundo Walter de Oliveira (1985), o Cine-Teatro Moderno e a Confeitaria Bijou eram os pontos mais frequentados pela requintada sociedade pernambucana. Na época, Nelson já era indicado para acompanhar os artistas famosos que vinham se apresentar no Recife. O maestro aperfeiçoava a sua orquestra de jazz e foi pioneiro aqui em Pernambuco, ao introduzir um instrumento chamado baixo tuba (bass tuba) no seu conjunto, instrumento que até então aparecia apenas nas fanfarras de rua. Isso foi uma influência de um ritmo novo que estava se expandido pelo mundo afora, o jazz (OLIVEIRA, Walter, 1985). Ensaiando com a orquestra do Cine-Teatro Moderno, Nelson tomou conhecimento que o Navio Caxias2, ao fazer a rota Rio-Hamburgo, precisava substituir o pianista da embarcação, que adoecera na Bahia. O maestro achou que aquela era uma boa oportunidade para conhecer a Europa. Licenciou-se do seu emprego no Cine-Teatro Moderno e embarcou no dia 5 de agosto de 1922. Na viagem, Nelson passou pela Antuérpia, na Bélgica, e seguiu para a cidade alemã, destino final do cruzeiro. Na primeira noite em Hamburgo, os músicos que faziam parte da orquestra foram a um cassino. O maestro ficou sozinho na mesa, porque os companheiros tinham saído para dançar. Passou uma menina linda de seus 17 anos, riu para mim. Eu, um matuto de Bonito, fiquei desconfiado e não correspondi. Olhei para trás e não vi ninguém. Era para mim que ela estava sorrindo3, lembrou Nelson. A moça se chamava Marta. Quando ela passou de novo, o maestro fez um sinal e apontou para a cadeira. Assim começou um namoro. “Os dias que passei em Hamburgo foram uma verdadeira lua de mel. Estava levando uma carta para o irmão de Conrado Krause, que morava em Berlim”4. Na correspondência, o pai do compositor pedia para o maestro ficar hospedado na casa do parente de Krause. No entanto, nem Nelson nem a carta chegaram a capital alemã. Ele passou 15 dias em Hamburgo, estendendo a sua estadia na Alemanha, por causa do romance, só retornando ao Brasil em 1923. Ao chegar no Recife, encontrou outro patrão. O empresário cearense Luiz Severiano Ribeiro tinha comprado o Moderno. E lá, ele reassumiu a função de maestro. O cinema era o acontecimento da cidade. Em correspondência enviada ao compositor, o cineasta Jota Soares descreve o ambiente que girava em torno das sessões do Moderno: “O nome de Nelson Ferreira começava a ser discutido pelos meninos. Uns gostavam de uma valsa, outros de outra. Milusinha era a coqueluche, apesar das óperas, das fantasias e das partituras dos imortais”5, revelou. Um dos cineastas pioneiros do Ciclo do Recife6, Jota Soares costumava frequentar assiduamente as sessões do Moderno, tendo o hábito de colecionar o jornalzinho que a casa distribuía com “os seus habitués”. Soares dirigiu, em 1926, o filme A Filha do Advogado, um marco na produção cinematográfica pernambucana, que conseguiu uma proeza para a época: foi exibido em 31 cinemas na então capital federal, o Rio de Janeiro. Outro fã da orquestra de Nelson era o médico, teatrólogo, cronista e compositor Valdemar de Oliveira, que confessou ir ao Moderno somente para ouvir a orquestra da casa sob a batuta do maestro. Posteriormente, se tornaram amigos e parentes. O irmão do teatrólogo, professor Walter de Oliveira se casou com a irmã do maestro, Ladyclaire. Desse modo, o maestro ingressou numa das famílias mais importantes na cultura local, os Oliveira, que fundaram com Samuel Campelo o Grupo Gente Nossa, embrião do que viria a ser mais tarde o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), que contribuiu muito para o crescimento e amadurecimento da cena teatral recifense. Nas salas do cinema mudo, Milusinha era uma das valsas do compositor mais apreciadas pelo público. No entanto, no interior da Paraíba, um menino chamado Lourenço da Fonseca Barbosa tinha dor de cabeça só de pensar nessa música, porque seu pai tinha lhe dado um prazo de 20 dias para aprender a tocar sete valsas, incluindo essa composição, que ele considerava de difícil execução. Sua missão era substituir a irmã, Josefa, pianista do Cine Fox, em Campina Grande, que estava de casamento marcado. Na época, o machismo era tanto que não era de bom tom as mulheres continuarem trabalhando depois de casadas. Mas os tempos eram difíceis e a família nem cogitava perder a renda do trabalho de Josefa. O pai do jovem Lourenço era regente, todos os filhos músicos e o escolhido para fazer a substituição foi um adolescente que não tinha intimidade com o piano. “Eu não tinha mais tempo para jogar futebol, tampouco dormir. Era em cima do piano que eu vivia, e, até tarde da noite, eu estava lá azucrinando os vizinhos com Milusinha”7, relatou o músico, que mais tarde ficou conhecido como Capiba, ao lembrar desse aprendizado forçado, numa autobiografia. As valsas de Nelson eram apreciadas por outros intelectuais, como o escritor Nilo Pereira, que ainda adolescente, escutava a sua tia tocando o piano no Ceará-Mirim, interior do Rio Grande do Norte. “Duas valsas me ficaram na lembrança: Milusinha e Realidade de um Sonho. Quando as ouço, um mundo todo me volta à alma”8, disse nas notas que escrevia para o Jornal do Commercio. As duas músicas citadas eram de Nelson. Ainda no Jornal do Commercio, o compositor Valdemar de Oliveira chegou a defender, numa crônica, que Nelson tinha criado um estilo próprio de compor valsas que poderia ser denominado como valsas pernambucanas devido às alterações feitas pelo maestro na forma tradicional desse gênero musical. Também marcou época a valsa Último Suspiro de Valentino. As outras valsas que marcaram a carreira do compositor foram Noemi, Realidade de Um Sonho e Juro-te. Essa última ele fez para “a minha Aurorinha, quando vivíamos um romance difícil porque o nosso amor era proibido pelos pais dela”9, disse Nelson, se referindo a Aurora Salgueiro Ramos, seu grande amor. Bonita, ela havia vencido um concurso que escolheu os mais belos olhos do Recife. Seu pai era um comerciante português, proprietário de uma casa comercial no Pátio de São Pedro, em Olinda. “Já conhecia Aurora há anos. Mas quando voltei da Europa, em 1923, é que comecei o namoro”10, contou Nelson. A troca de olhares do casal começou na Rua da Concórdia, onde ambos residiam. Ocorreram alguns encontros e os dois se apaixonaram. O pai da moça percebeu o entusiasmo da filha e proibiu o romance. Eles passaram sete meses sem se encontrar, mas trocavam cartas diariamente. Os “pombos correios” eram os amigos em comum do casal. Segundo Walter de Oliveira (1985), quando Nelson queria que Aurora aparecesse na janela, assoviava um trecho de Juro-te. Eles não desistiram e continuaram se correspondendo até que o velho Ramos faleceu, em 1925. Pouco tempo depois, a mãe de Aurora, Dona Balbina, deu sua autorização para que os dois namorassem. E assim se casaram no dia 17 de julho de 1926 na matriz de Santo Antonio, no Centro do Recife. Após o casamento, foram morar no nº 390 da Rua da Concórdia, na casa onde Aurora residia com a família. “Meu pai morreu sem conhecer Nelson. Não soube de sua alegria, de seu bom humor, de seu excelente caráter”11, disse Aurora numa entrevista a repórter Leda Rivas. Na década de 20, muitas transformações estavam ocorrendo no Recife. A febre do jazz chegou à cidade e aumentava o número de bandas dedicadas a esse gênero. A influência americana entrou em Pernambuco pelo piano ou com a sua colaboração, como diz o historiador Leonardo Dantas Silva (2009). Na Rua Nova, já existia uma loja de discos em 1923. Dois anos depois, a firma Dantas Bastos & Cia. abriu uma filial na Rua 1º de Março, no Centro do Recife. “Contratamos os serviços de Nelson para gerenciar essa casa, pois aquele departamento se destinava à venda de pianos, violões e outros instrumentos, como vitrolas que na época eram importadas”12, revelou o empresário Jorge Dantas Bastos. O local comercializava também partituras para piano, executadas ao vivo pelo maestro. O aumento desse comércio era um dos reflexos da realidade econômica do Estado, o maior produtor nacional de açúcar nos anos 20. O Recife era o centro cultural e econômico do Nordeste. Os engenhos estavam descapitalizados, mas surgiam muitas usinas de açúcar. A capital já tinha alguns serviços implantados, como os bondes e trens, explorados pela Great Western. A cidade já dispunha de uma certa infraestrutura que incluía abastecimento de água, a luz elétrica e o telefone, serviços destinados a pouquíssimos. Outro símbolo da era moderna começou a transitar pelo Recife: os primeiros automóveis. No campo das ideias, começavam as discussões sobre uma identidade nacional, dividida em dois grandes grupos: os futuristas – influenciados pela Semana de Arte Moderna de 1922 que mudou a forma de ver e fazer arte no Brasil – e os regionalistas, que desejavam rever a arte produzida localmente. Os últimos divulgavam suas ideias principalmente no Diario de Pernambuco e tinham como figura central o sociólogo Gilberto Freyre, que organizou o Livro do Nordeste, em 1925, mostrando a Região como berço da nacionalidade brasileira. O Recife também passava por mudanças. O governo de Sérgio Loreto (1922-1926) realizou reformas na Escola Normal, na Avenida Beira-Mar (em Boa Viagem), no Porto do Recife e aterrou uma parte dos mangues que já estavam na área urbana da cidade. Nesse cenário, o Carnaval ocupava cada vez mais espaço na vida da cidade. Em 1922, os jornais registraram um aumento tão grande na quantidade de músicos – que se apresentariam durante o reinado de Momo –, motivando a fundação da Liga Carnavalesca de Pernambuco. Os compositores estavam fazendo mais músicas para oferecer aos blocos. A combinação desses dois fatores criou uma atmosfera para que fossem iniciados os concursos para eleger as melhores marchas pernambucanas. Um dos primeiros concursos para escolher a melhor marcha de Carnaval foi o de 1928, promovido pelo Clube Internacional do Recife. O frevo Não Puxa Maroca, de autoria de Nelson Ferreira, obteve o primeiro lugar. O pesquisador Samuel Valente (2009) recorda que o seu pai, o antropólogo Waldemar Valente, contava que Maroca era uma prostituta muito prestigiada no início do século passado no Recife. Ele acrescenta que no final dos anos 20, ela passou a ser alvo de brincadeiras relacionadas aos figurões da época, porque não tinha mais o frescor da juventude. Outra composição que participou dessa concorrência foi Mulata, de Raul Valença e João Vitor do Rego Valença (os irmãos Valença), que depois de ser modificada por Lamartine Babo, recebeu o nome de O Teu Cabelo Não Nega e tornou-se um grande sucesso nacional13. Ainda no Internacional, Nelson tocou, pela primeira vez, o violino num baile de Carnaval. A sede do clube ficava num prédio ocupado pela Prefeitura Municipal do Recife, na Rua da Aurora, um dos cartões postais da cidade. Nos anos 20, as músicas que faziam sucesso nasciam nos blocos. Os compositores que desejavam ver a sua música bem cantada durante o Carnaval entregavam a canção a um bloco carnavalesco. Os blocos Flor da Lira, os Pirilampos, o Apôis Fum, o Bloco das Flores, as Andaluzas construíram a fama de muito sucesso da época, deram renome a Raul Moraes, José Capibaribe e ao próprio Nelson Ferreira, segundo um comentário da coluna Imagem e Som, que finaliza dizendo que “o bloco decidia, praticamente, o que ia ser mais cantado no Carnaval”14. Ainda se referindo aos carnavais dos anos 20, o cineasta Jota Soares deu o seguinte depoimento: Parece que ainda vejo o velho Pedro Salgado vestido de camisa cor de abóbora e touca de pompom à cabeça... Ouvi através das vozes alegres e inesquecíveis das meninas do Bloco das Flores as músicas Borboleta Não é Ave e Cavalo do Cão Não é Reoplano15. A primeira foi citada no início deste capítulo. A segunda também é de autoria de Nelson Ferreira, em parceria com Leonidas do Amaral e foi lançada para o Carnaval de 1927. Envolvido com cinema, Jota Soares também era músico e acompanhava com o seu cavaquinho os blocos carnavalescos Apôis Fum, Bloco das Flores, Jacarandá, Bobos em Folia, Príncipe dos Príncipes e Batutas da Boa Vista. Antes de chegar o Carnaval, o Bloco das Flores ensaiava duas vezes por semana na casa do seu presidente, Pedro Salgado, que era cineasta e participou do Ciclo do Recife. “Quando terminava o ensaio, Pedro Salgado servia o bate-bate de maracujá, o mais gostoso que já tomei na minha vida”16, afirmou Nelson. O bate-bate é um tipo de batida que tem como ingre- dientes aguardente, maracujá, canela, açúcar e um pouquinho de mel de abelha. Quase no final da década, Nelson lançou o frevo Me Deixa, Seu Freitas para o Carnaval de 1929 e assinou a composição com o pseudônimo de Zig Bum, para evitar sofrer qualquer tipo de perseguição. A autoria da canção foi dividida com o cantor e compositor Nelson Vaz, que gravou a música a qual se referia ao inspetor de polícia José Ramos de Freitas, ocupando esta posição de forma arbitrária no governo de Estácio Coimbra. A convivência com ele era tão complicada, que Valdemar de Oliveira também compôs uma marcha chamada “Sai Cartola”, descrevendo a perseguição que o policial fazia aos estudantes. O médico assinou como José Capibaribe, pseudônimo adotado em algumas das suas canções para Carnaval. Nelson já tinha conquistado um certo grau de reconhecimento. Em alguns eventos, o seu piano era transportado exclusivamente para a ocasião, o que era incluído no contrato, como ocorreu com a festa promovida pelo Sport Club Flamengo, cuja sede ficava na Rua da Aurora. Entre os anos de 24 e 25, a turma mais jovem do clube, incluindo o professor Walter de Oliveira, decidiu produzir uma festa fora dos moldes da época. Foram contratadas duas orquestras para que a música ao vivo não fosse interrompida nem por um instante. Também ocorreria um concurso para escolher a melhor orquestra da noite. Na ocasião, outro Ferreira se destacava na vida musical do Recife. Era o pianista Luiz Alves Ferreira Filho, irmão de Nelson, exímio pianista e também compositor. “Eu não conheci, mas dizem que ele tocava qualquer instrumento com um talento excepcional”17, recorda a compositora Lúcia Helena Gondra, sobrinha dos dois compositores. Neste “duelo de orquestras”, o conjunto escolhido para rivalizar com o de Nelson foi o de João de Andrade, que tinha como pianista justamente seu irmão. A orquestra de Nelson iniciou sua apresentação, como era de costume, com os sucessos de Peter Packay, cujas partituras eram importadas diretamente dos Estados Unidos. Essas músicas passavam antes pelo Rio de Janeiro, onde o pintor Lula Cardoso Ayres residia e trabalhava para companhias de teatro desenhando cenários, inclusive de musicais. Ayres conseguia as partituras com os músicos que trabalhavam nos espetáculos e trazia para o compositor. O maestro João de Andrade começou tocando o fox “Maybe It’s Love”. As duas orquestras ficaram se revezando e a comissão organizadora decidiu que a melhor da noite foi a de João Andrade. A cena que marcou os presentes foi o abraço que Nelson deu no irmão, lhe parabenizando por estar no grupo vencedor. A década já estava quase acabando, quando em 1929, o Cine-Teatro Moderno foi arrendado pelo empresário cearense Luiz Severiano Ribeiro. O maestro e a sua orquestra transferiram-se para o Teatro Helvética, que foi fechado em seguida. Com isso, Luiz Severiano convidou os músicos para irem ao Rio de Janeiro. Somente Nelson e o baterista João Gama aceitaram o convite. No Rio, eles foram trabalhar no Cine-Teatro Central, na Avenida Rio Branco. O cinema ficava em cima do Café Nice, famoso ponto de encontro dos artistas da época. Ainda no Rio, Nelson passou a dirigir a orquestra de variedades do Cine-Teatro Central porque o seu titular, maestro Gianetti saíra de férias para concluir uma ópera. Quando chegaram ao local, o próprio Luiz Severiano Ribeiro apresentou Nelson aos músicos da nova orquestra. A programação das músicas já tinha sido feita. A descrição da primeira vez que ele atuou como regente dessa orquestra no Rio, é feita por Walter de Oliveira (1985, Op. cit. p. 24): Calmamente, sorriu e, de pé ordenou: Guarany. Com a mão direita golpeando o ar e a esquerda no piano, iniciou a execução. Pouco a pouco a sua maestria ia se agigantando e no momento em que a flauta não conseguia chegar ao andamento desejado, a mão direita do maestro desceu ao teclado e ajudou o músico em dificuldade. Ao término da execução, todos os músicos de pé, batiam em seus instrumentos homenageando o maestro que havia regido com a partitura fechada. Nelson havia vencido uma batalha. Risonho e feliz, Luiz Severiano Ribeiro aplaudia. Nelson morou no Rio de Janeiro apenas cinco meses. Pouco tempo depois, pediu a Luiz Severiano Ribeiro para voltar. Aqui, Nelson era amigo de muita gente influente, as portas eram abertas. Ele tinha relações de amizade com os Rosa Borges, família muito influente no Clube Internacional. Também tocava no Clube de Tênis de Boa Viagem, um dos locais mais bem frequentados da cidade, e se relacionava bem com outras figuras notórias do Recife, incluindo industriais, usineiros e até governantes. No regresso ao Recife, voltou a se apresentar no Cine-Parque, às vésperas da transição entre o cinema mudo e o falado. “Foi aí que o cinema mudo se despediu dos músicos...”18, disse Nelson numa entrevista concedida à repórter Ariadne Quintela. O cinema falado chegou ao Recife em março de 1930. A empresa tentou manter a orquestra de Nelson, se apresentando no intervalo das sessões. No entanto, o custo das películas norte-americanas era alto e o cinema não precisava mais de um acompanhamento musical ao vivo. Nelson voltou a dar aulas de piano, música e solfejo em sua residência, passando a trabalhar à tarde na Casa Parlophon, onde executava músicas ao piano. |