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Avia: Pulsão afetiva pela razão

O cantor e compositor Geraldo Maia lança seu 11º álbum, realizado a partir de crowdfunding e com colaboração de novos e veteranos compositores

TEXTO Ulysses Gadêlha

01 de Fevereiro de 2016

Geraldo Maia

Geraldo Maia

Foto Teresa Maia/Divulgação

Na linguagem popular, o verbo “aviar” designa pressa, agilidade; “não há tempo a perder, avia!” No dicionário, a palavra ganha sentido mais robusto, de fazer, executar, aprontar. O 11º disco do cantor e compositor Geraldo Maia, Avia, abriga esse sentimento de realização urgente, algo como do it. Com uma ideia na cabeça, o cantor convocou seus parceiros Juliano Holanda e Breno Lira, que produziram um disco pensado para cortar intermediários, deixar a mensagem direta, um compositor com um violão na mão, cantando suas canções e visões de mundo.

O disco tem 14 faixas e uma vinheta (na voz de Aninha Martins); a arte produzida pelo designer Luiz Arrais traz uma montagem com o rosto de Geraldo Maia na capa, sobreposta por um homem sozinho ao longo de uma paisagem cinzenta, uma proposta fincada no olhar de perfil, de pescar no íntimo do autor inserido no mundo. Geraldo Maia é o criador das melodias do disco, adicionando frescor à poesia das letras. Em todas as músicas, ele faz voz e violão, conectando-se a essa ideia da sonoridade acústica presente em discos importantes lançados recentemente, comoNo osso, de Marina Lima, e Dois amigos, um século de música, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O financiamento ocorreu através de um crowdfunding pessoal, em que o artista contou com parentes e amigos.

O autor da música-título, Avia, é Juliano Holanda; essa canção ratifica o espírito do projeto, de sentimento e de ação, uma pulsão política pela realização, cujos versos deslizam na melodia. As canções assinadas pelo poeta Everardo Norões exprimem uma poesia mais dinâmica, mais próxima do lirismo musical, enquanto as letras de Marcelo Pereira quebram o fluxo para desaguar na reflexão e proporcionam o som experimental, cerebral. Norões se sai como cronista do cotidiano em Goiaba, quando traceja um perfil mais lúdico da vida. Já Marcelo atinge a epistemologia das coisas, questiona e sugere com rigor, numa frequência semelhante à de autores excêntricos, como Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro.

Desmundo, de Paulo Marcondes, e O olho do menino, de Norões, com a roupagem que ganharam, lembram as canções performáticas de Lula Queiroga. O rock do ofício é um misto de folkblues, rock’n’roll, realizando um tratado filosófico sobre corruptos políticos, religiosos sem escrúpulos, torcedores doentes e assassinos de plantão.

O melhor desempenho do disco é o da canção Nudez; Marco Polo é quem assina a letra, estruturada em quatro quartetos. Violões plangentes delineiam a poesia de amor que é a composição, cuja matriz combina a música popular brasileira, o brega e um toque de fado português. O poema percorre o caminho das cartas de amor, o jogo entre dor e prazer, a admiração e o desejo. O dueto entre Geraldo Maia e o cantor altinense Almério reforça essa partida amorosa, as vozes apaixonadas, um recital doce dos sentimentos.

A sequência, com os violões de nylon e aço, é a progressão do ritmo para o frevo, em A fada e o rouxinol. Essa canção é um poema contemplativo, de Juliano Holanda; olhar para a carnavalesca cidade de Olinda e suas belezas. O disco ainda conta com músicas do companheiro de Geraldo, John Holtappel (Changes, canção que cita Bob Dylan), além de Silvério Pessoa (Se me quer bem), Tibério Azul (Afiado) e Xico Bezerra (O rato roeu), com o mesmo tanto de lirismo lúdico e amoroso das letras que se comportam como poesia e as melodias que lhes caem justas, dançantes e atraentes. 

ULYSSES GADÊLHA, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

 

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