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Carreira on the road

Em lances rápidos e reviravoltas, a pernambucana Juliana Guedes constrói currículo sólido nos EUA

TEXTO Luciana Veras

01 de Janeiro de 2014

Após gradução em Cinema, Juliana Guedes mudou-se para os EUA e está radicada em Los Angeles

Após gradução em Cinema, Juliana Guedes mudou-se para os EUA e está radicada em Los Angeles

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 157 | janeiro 2014]

A vida de Juliana de Morais Guedes daria um filme.
Talvez até um road movie, tantos foram – e ainda são – os deslocamentos. Nascida no Recife em janeiro de 1978, tinha 10 anos quando a mãe, Rosa, levou-a junto com seu irmão caçula Marcelo para os Estados Unidos, onde faria doutorado em Athens, no estado da Geórgia. Cinco verões depois, Juliana voltou a Pernambuco, estudou Artes Plásticas na Universidade Federal de Pernambuco, deu aulas de inglês e aqui permaneceu até 2000. Outra viagem, dessa vez para o Rio de Janeiro, colocou-a no caminho que singraria pelos anos seguintes. No curso de cinema na Estácio de Sá, entrava em cena a produtora, a assistente, a faz-tudo que entende o funcionamento e conhece as variáveis essenciais para o êxito de um set de filmagem.

Cinema, porém, era amor antigo, conta Juliana, numa série de entrevistas concedidas à Continente entre Los Angeles e Londres, por e-mail, Whats App e FaceTime, ferramentas tecnológicas que facilitam seu trabalho e mitigam os efeitos de viagens, jet lags, saudades e afins. “Sempre gostei muito de ir ao cinema. Lembro-me de ir com meus pais e eles traduziam praticamente o filme todo, bem baixinho, no meu ouvido. Cresci querendo ser atriz de filmes antigos, profissão meio impossível, porque para isso teria que voltar no tempo. Quando me mudei para os EUA, fiz coleção de VHS dos clássicos americanos e italianos. Tinha uma paixão secreta por Montgomery Clift e queria morar na casa de Donna Reed”, confessa.

A página dela no site Internet Movie Database – IMDB, bíblia para aficionados, profissionais e jornalistas, testemunha que o envolvimento prático com o audiovisual logo substituiu a relação afetiva. Em 2004, atuou como supervisora de set em A máquina, longa-metragem dirigido por João Falcão, a partir de peça homônima, dirigida por ele e de autoria de Adriana Falcão. No mesmo ano, outra mudança súbita, como as que ocorrem nas tramas de ação de Hollywood. “Tinha acabado uma série de trabalhos no Rio e só queria ir para São Paulo, passar um tempo com o namorado. Recebo uma ligação do meu chefe pedindo para ir a Foz do Iguaçu, mas sem me dizer o porquê ou qual era o trabalho. Me senti a própria femme Nikita, em uma missão secreta”, relembra, fazendo alusão a um personagem televisivo inspirado, por sua vez, na espiã do filme dirigido por Luc Besson em 1990.

Não tardou para Juliana ser apresentada a Michael Mann, cineasta americano que, àquela altura, acabara de lançar Colateral (2004), com Tom Cruise e Jamie Foxx, e tinha dirigido Ali (2001), O informante(1999) e Fogo contra fogo (1995). “Ele chegou num avião fretado para fazer um scout (visita para pesquisa de locações) para Miami vice. scout foi uma verdadeira loucura… cinco cidades em quatro dias. O dia em que a equipe foi embora foi um dos mais felizes da minha vida. Uma semana depois, recebo uma ligação na minha casa do próprio Michael Mann. Ele dizia que estava voltando para um segundo scout e me perguntou se eu não queria fazer o filme todo. Dias depois, estava na Flórida filmando as primeiras cenas”, recorda.

Miami viceremake da série exibida na TV na década 1980, trazia Jamie Foxx e Colin Farell como os policiais Tubbs e Crockett, respectivamente, e um elenco que contava com Gong Li e Ciarán Hinds. As jornadas de trabalho de Juliana consumiam quase o dia inteiro, em especial quando sua função migrou de assistente de set para assistente do próprio diretor. Isso significa que ela estava sempre colada a Michael Mann, que o precedia no set para checar se tudo estava OK com as cenas a ser rodadas no dia; e que passava o tempo inteiro ao lado dele, de prancheta e walkie-talkie, sem hora para dormir ou largar. “Foi uma loucura. Ainda tivemos furacões, um destruiu nosso set inteiro. Mas fiz grandes amigos e ainda tive uma ponta no filme”, diz. Ela pode ser vista como a secretária de Isabella, personagem de Li, em uma cena no aeroporto.


Miami Vice foi o primeiro filme em que a produtora trabalhou ao lado do diretor Michael Mann. Foto: Divulgação

Após nove meses de filmagens, entre Uruguai, Paraguai, República Dominicana e Estados Unidos, Juliana voltou ao Brasil. Em janeiro de 2006, resolveu espairecer na Califórnia. “Queria passar duas semanas, para esquecer um namoro. Saindo do aeroporto, pedi para o motorista do táxi me levar de volta, porque tinha mudado de ideia. Como estava muito nervosa, ele me largou num hotel, na Sunset Boulevard, e disse que, se no dia seguinte eu acordasse com vontade de voltar, ele me levaria de graça. Isso foi há oito anos”, rememora. Não demorou nem dois dias no ócio. Entrou no time que rodava um comercial e, algumas semanas na frente, foi procurada pelo antigo chefe: “Fui visitar o escritório de Michael Mann em LA e ele me propôs ser full-time assistant. Assim, passei três anos e meio com ele”.

Foram mais três longas na bagagem: O reino (2007), Hancock (2008) e Inimigos públicos (2009) – dos dois primeiros, Mann era o produtor, do último, assina a direção. Will Smith, Johnny Depp, Charlize Theron, Jennifer Garner, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup e Carey Mulligan são atores de alto quilate com os quais Juliana conviveu. Sem deslumbre ou afetação, porque ela logo aprendeu que tais verbetes não rimam com expertise, no léxico hollywoodiano. “É um trabalho intenso, estressante e exigente, e você precisa estar sempre atento. Tenho a sorte de fazer o que gosto e ter a oportunidade de conhecer muita gente talentosa. Pessoas que cresci assistindo no telão, hoje, são meus companheiros de trabalho.”

Em Nightcrawler, com direção de Dan Gilroy, Juliana Guedes assumiu uma nova tarefa. “Agora, meu nome vai aparecer logo no início dos créditos”, brinca. Ela é produtora associada de Jake Gyllenhaal, o protagonista do filme, rodado entre setembro e novembro de 2013. Tantas temporadas em Los Angeles lhe deram cancha para perseguir objetivos mais autorais. “Comprei os direitos do livro Venceremos, de Howard Waxman, para transformá-lo em filme.” Filha do jornalista e autor Lula Falcão, ela não descuida da escrita. “Estamos atualmente na fase de ajustar o script, enquanto vamos escolhendo o elenco e levantando dinheiro. Já que a trama se passa na Cuba dos anos 1960 e tem muitas cenas em canaviais, adoraria poder filmar no Brasil”, adianta.

Como toda produtora que se preze, ela desenvolve várias ideias em simultaneidade. “Em 2012, lancei pela Ecstatic Civilians, minha produtora, o clipe de Jam da Silva. Agora, tenho um projeto de televisão com a Laura Malin, chamado Valentina, que estamos adaptando para o mercado americano”, antecipa, despedindo-se, porque chegou a hora de voltar para o set. A julgar por sua rotina, conclui-se que é dedicação, e não glamour, a palavra que melhor define a vida de qualquer profissional dos bastidores em Hollywood. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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