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Coco Bongar: Sob a égide de Oxóssi

Grupo lança DVD com registro de show e documentário que narra a trajetória artística iniciada em 2001

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2014

Foto Beto Figueiroa/Divulgação

Oxóssi é um orixá provedor e conectado às artes. Um caçador que sabe o que quer e do que seus pares necessitam, seja o alimento diário ou a cota essencial das linguagens artísticas. Nas palavras do etnólogo e fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996), seu arquétipo é o das “pessoas espertas, rápidas, sempre em alerta e em movimento, cheias de iniciativas e sempre em vias de novas descobertas ou de novas atividades”. Como nada é por acaso, ele, também conhecido como Odé, é quem rege o Coco Bongar, grupo nascido na comunidade Xambá do Portão do Gelo, em São Benedito, Olinda, e que neste mês lança seu primeiro DVD.

Festa de terreiro, com tiragem de 2 mil cópias, concretizou-se graças ao aporte de R$ 120 mil do Fundo de Incentivo à Cultura – Funcultura. Em 9 de fevereiro, na Torre Malakoff, o Bongar pede licença ao Dia Universal do Frevo para apresentar sua batida original, o ritmo sincopado, surgido nas celebrações do terreiro desde sua fundação, em 1951. Com produção da Ateliê Filmes, o DVD traz um show completo, gravado em junho de 2012 no Nascedouro de Peixinhos, e o documentário Quando a memória faz a festa, em que a história do grupo criado em 2001 é narrada pelos próprios integrantes e por membros da comunidade.

Como produto audiovisual, Festa de terreiro cumpre a dupla missão de funcionar como veículo difusor da obra do Bongar e de resgatar a trajetória de Cleyton Silva, Thúlio Nascimento, Moisés da Silva, Shirleno Gomes, Iranildo da Silva e João Alberto da Silva – ou Guitinho de Xambá (voz, composições e letras), Thúlio (caixa), Memé (congas), Nino (abê, a cabaça com chocalho), Iran (alfaia) e Beto (ganzá, pandeiro, maraca e efeitos). Primos de sangue ou de vínculos religiosos, definem-se como um “grupo que pretende realizar o que vivemos na infância”. “Temos laços antropológicos com a comunidade, crescemos participando das festividades, aprendemos com a vivência”, diz Guitinho, o porta-voz do Bongar.

TRADIÇÃO
Eles avaliam o DVD como o ápice de um percurso norteado pelo desafio de “manter a matriz musical dentro do terreiro em confluência com o que chega hoje”. “Somos um grupo de cultura popular dentro daworld music”, afirma Guitinho, refutando, porém, os rótulos fáceis “para não cair no genérico nem no folclórico”. Foi apegando-se às tradições, que o sexteto saiu de Pernambuco, circulou pelo Brasil e, em novembro passado, esteve na Alemanha para participar da Womex, a maior feira de música do planeta.

Alegram-se ao constatar que o som persiste no DVD tal qual registrado nos dois álbuns, 29 de junho (2005) e Chão batido coco pisado (2009): um diamante bruto, “sem ser lapidado ou burilado como os produtores pensam que deve ser o som da cultura popular”, reforça o vocalista. As participações de Juliano Hollanda, do pianista paulistano Benjamim Taubkin, do coquista Zé de Teté e de Adiel Luna corroboram a vontade de se manter íntegros mesmo quando alinhados com as inovações e ao dinamismo requisitados pela contemporaneidade.

Guitinho e seus companheiros acreditam na transmissão de uma paixão, na perpetuação de um legado ao qual eles expressam sua gratidão por meio da música: “As crianças daqui do Portão do Gelo aprendem conosco e já sabem tocar. É algo próprio, a questão sanguínea conta. Tudo que fazemos tem a participação da comunidade Xambá, assim como era com nossos pais. O DVD trouxe a oportunidade de dialogar com artistas que não são da cultura popular, mas que mantêm a nossa identidade”.

Odé, eles explicam, é aquele que vai investigar se a terra almejada pelo seu povo é fértil e produtiva. A pujança do Coco Bongar se reparte nos discos que já existem e no terceiro, já em gestação; no livro Nação Xambá: do terreiro aos palcos, publicado em 2006; e, agora, no DVD que encapsula mais de uma década de carreira. Sob a proteção da ialorixá matriarca Severina Paraíso, a Mãe Biu (1914-1993), e com incentivo das 100 pessoas que formam a comunidade Xambá, bem como dos fãs que em Quando a memória faz a festa enaltecem a transcendência da proposta sonora, Guitinho, Thúlio, Nino, Memé, Beto e Iran querem levar o Coco Bongar adiante, muito além de fronteiras, preconceitos e rasas classificações. Axé. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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