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Cortejo: Entre o brinquedo e a religião

TEXTO ISABELLE CÂMARA
FOTOS DIEGO DI NIGLIO

01 de Dezembro de 2013

Não há distinção entre a vida laica e a religiosa, sendo o candomblé constituinte do grupo

Não há distinção entre a vida laica e a religiosa, sendo o candomblé constituinte do grupo

Foto Diego Di Niglio

[conteúdo vinculado à reportagem de "Tradição" | ed. 156 | dezembro 2013]

Mesmo aprendiz no maracatu,
o sacerdócio no candomblé e as heranças históricas, genéticas e identitária de Afonso Aguiar se afirmaram. É a ele que cabe proteger a memória, a arte, o saber, o segredo, o sagrado, o simbolismo e as habilidades da nação, transformando todos esses sistemas imateriais em música, dança, ação dramática e manutenção do brinquedo.

Na obra Folguedos e danças de Pernambuco (Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1989), Roberto Benjamin afirma: “O maracatu é um folguedo criado pelos negros no Brasil. A sua origem é a festividade católica de Reis Negros, celebrada na Festa do Rosário. Tanto nos arquivos da Irmandade do Rosário dos Pretos, do Bairro de Santo Antônio (Recife), há documentos sobre a celebração da coroação de reis negros desde os tempos coloniais, como nos grupos mais tradicionais há ainda memória daquela festa. Relatos de negros velhos testemunham a origem católica. Além disso, alguns grupos continuam a realizar reverências com cânticos em honra de Nossa Senhora do Rosário, na porta das suas igrejas (Rosário dos Pretos, Igreja do Terço, Matriz do Pina). Hoje o folguedo se resume ao cortejo – o desfile de uma corte real negra. A organização do cortejo obedece ao estilo das procissões católicas. (...). Como a religião é vivenciada plenamente por seus praticantes, é sempre possível encontrar aspectos religiosos nas manifestações profanas. Nos maracatus são realizadas cerimônias propiciatórias, para a obtenção da proteção dos orixás, visando o sucesso das apresentações e a realização dos desfiles sem incidentes. Também a boneca recebe reverências de natureza religiosa”.


Cintia de Aguiar Silva e Juliane Silva Costa  integram o
Leão Coroado desde a infância

A boneca parece representar a materialização desse diálogo da brincadeira com a religião. De acordo com Benjamin, ainda, Mário de Andrade chegou a escrever um ensaio exclusivo sobre a calunga dos maracatus: “A boneca seria uma divindade (a Calunga – o mar) cultuada pelos povos do Congo e Angola. Artur Ramos, considerando as ligações dos maracatus aos cultos gegê-nagô, portanto a uma origem iorubana, corrige aquele autor, para afirmar que os ídolos para os povos iorubanos não têm o sentido de fetiche, devendo ser entendidos apenas como representação da divindade. Ao estabelecer esta posição, Artur Ramos não levou em conta o intercâmbio cultural entre os negros de procedências diferentes no Brasil. Além destas duas hipóteses – isto é – ser um fetiche de uma divindade, ou ser um ídolo representativo da divindade, há ainda de se considerar a possibilidade de ser um objeto, que por causa da consagração (que pode se renovar) concentre uma força espiritual capaz de proteger o grupo. Em um plano não religioso, as bonecas poderiam ser encaradas como crianças de colo, príncipes e princezinhas da corte real. Nenhum dos estudiosos negou, porém, um fundamento religioso para as bonecas do maracatu. Ao ser introduzida no grupo, a boneca passa por uma cerimônia nos cultos gegê-nagô, recebendo um nome próprio e o tratamento de princesa – Dona Clara, Dona Isabel, Dona Leopoldina”.

E Afonso é rigoroso com a tarefa que lhe foi confiada: rege os tambores do Leão Coroado, seguindo à risca os ensinamentos musicais de Luiz; não admite calungas que não sejam de madeira; não incorporou abês à percussão, como fez a maioria dos maracatus de baque virado de Pernambuco; não participa do desfile oficial das agremiações no Carnaval do Recife, em que há disputas entre agremiações; fez da sua própria casa, no Bairro de Águas Compridas, em Olinda, a sede do grupo; não abre mão das obrigações religiosas; e expande todo o legado da tradição que lhe foi repassada por mestre Luiz, ao transmitir o conhecimento que adquiriu e construiu para os integrantes do grupo, em sua maioria moradores da própria comunidade.


Esposa do líder do grupo, Janeth de Aguiar é a Dama do Paço,
que tem a incumbência de carregar a simbólica Calunga

Gente como Juliane Silva Costa, 24, que entrou no Leão Coroado aos 8 anos de idade, para dançar como índia e, ao longo de 16 anos, desempenhou diversas funções. Hoje, Juliane está casada, mora na Cidade Tabajara (Olinda), faz faculdade de Recursos Humanos e trabalha como recepcionista, mas todos os finais de semana vai a Águas Compridas para ensaiar com o grupo, em que atualmente é batuqueira, e aprender outros ofícios próprios da manifestação cultural, como manutenção e confecção de instrumentos e corte e costura das fantasias, ajudando Dona Janeth. “O maracatu me proporcionou muitos conhecimentos culturais. Tive oportunidades de viajar para outros países e conhecer pessoas que, sem ele, não conseguiria.”

Cinthia de Aguiar Silva, 25, entrou no grupo no mesmo período de Juliane. “A raiz chama quando o tambor toca, é uma coisa da qual você tem que participar”, afirma. Ela já saiu como princesa, catirina, baiana, e hoje, licenciada em Letras, além de atuar como professora de português e inglês em escolas particulares do Grande Recife, dança e participa do coro. “A gente aprendeu muito, não só sobre a arte, mas sobre a vida. Infelizmente, o nosso país não nos permite viver de cultura, a gente tem que seguir outra carreira, mas hoje eu posso dizer que faço parte da cultura pernambucana e isso é um orgulho danado!”, comemora.

UM PATRIMÔNIO VIVO DE PERNAMBUCO



O Maracatu Nação Leão Coroado foi fundado em 8 de dezembro de 1863, embora haja a hipótese de que ele já existisse em 1852. Não há documentos que comprovem quem o fundou, mas todo o conhecimento que Luiz de França portava lhe foi ensinado por seus pais, Manoel dos Santos, africano que chegou escravizado ao Brasil e, depois de liberto, virou estivador, e Philadelpha da Hora, ambos brincantes do maracatu.

No ensaio Gente dos maracatus, publicado no livro Artes do corpo, organizado por Vagner Gonçalves da Silva (Selo Negro, 2004), Roberto Benjamin escreve que Luiz de França contava que havia recebido a direção do maracatu de seu padrinho, José Luiz, que era dirigente da irmandade de N. S. do Rosário dos Pretos do Bairro de Santo Antônio.

Coincidentemente ou não, o dia 8 de dezembro é dedicado à Nossa Senhora da Conceição que, no sincretismo religioso, é associada a Iemanjá. Este dia também é dedicado à Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, protetora das pessoas escravizadas, de quem o mestre Luiz era devoto.

A primeira sede do grupo estava localizada no Bairro da Boa Vista, numa rua que agora leva o nome do maracatu. Depois, o grupo migrou para Afogados, rumou para Água Fria, até chegar em Águas Compridas, onde permanece até hoje.

Em 2005, o Leão Coroado foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco, recebeu o Prêmio Cultura Viva (2006), do Ministério da Cultura, e se tornou um dos grupos da cultura popular tradicional que mais viaja pelo mundo, representando a cultura afro-brasileira.

Segundo Benjamin, no ensaio Gentes do maracatu, “Luiz de França tinha plena consciência da importância do Leão Coroado como um bem do patrimônio imaterial de Pernambuco, embora não usasse essa expressão. Ele destacava o fato de que era o único que não havia suspendido as atividades em mais de 100 anos, tendo as sucessões ocorrido dentro da comunidade da religião dos orixás, conservando os seus símbolos, estandartes, bonecas, toadas e ritmos tradicionais”.

O título de Patrimônio Vivo de Pernambuco garante ao Leão Coroado uma bolsa mensal de R$ 2 mil, que é investida sobretudo na aquisição e manutenção dos instrumentos e da indumentária. 

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