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D Mingus: A sujeira da sonoridade

Um dos nomes da chamada Cena Beto, o músico e produtor arcoverdense lança 'Saturno retrógrado', disco - assim como os anteriores - feito no home studio do seu "quarto de trás"

TEXTO Diego Albuquerque

01 de Setembro de 2015

D Mingus

D Mingus

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 177 | set 2015]

Domingos Porto, mais conhecido na música pernambucana
pelo codinome de D Mingus, é natural de Arcoverde, cidade do interior do Estado, passou a infância em Pesqueira, e mora no Recife faz muitos anos. Na década de 1990, brincava com processos de gravação musical caseira, tanto que sua banda mais popular tem o nome de um desses processos. Estou falando da instrumental Monodecks.

A banda esfriou, mas ele resolveu assumir-se como um artista solo. Lançou três discos com sonoridades e temáticas distintas, porém todos com o espírito lo-fi nas gravações. Filmes e quadrinhos tem uma linha roqueira psicodélica; Canções do quarto de trás é uma ode ao folk; e Fricção, uma viagem pela música eletrônica, com nuances roqueiras. Nesses três trabalhos, ele apareceu como um dos principais nomes de uma nova movimentação de músicos pernambucanos, Cena Beto.

Diferente dos três primeiros trabalhos solos, Saturno retrógrado é um disco atemático e o mais “desencanado” da sua carreira, segundo o próprio artista. A sonoridade não segue uma estética linear, arrisco dizer que sonoramente o trabalho parece uma mistura de todos os anteriores e também soa completamente diferente! O vocal sujo é proposital, seguindo a única característica sonora que reverbera na carreira de D Mingus, a sujeira da sonoridade e da vida lo-fi.

Uma questão a ser considerada é que Saturno retrógrado foi pensado como tendo um lado A e um lado B, em que a primeira parte teria um tom mais interiorano e a segunda traria um som mais urbano. Porém, com o andar das coisas, este último prevaleceu e podemos dizer que o lado A terminou com menos canções. O fato de esse trabalho ser o mais solto do artista influenciou até na arte do disco, criada por Matheus Mota, músico local e contemporâneo de Domingos. O nome do disco se refere a um aspecto astrológico que carrega de loops desarmônicos a vida do compositor. Ele optou por usar toda essa desarmonia trazida com as perdas da vida neste registro, tendo sido bem-sucedido no intento.

COMPUTADOR DOMÉSTICO
Este é mais um disco gravado no seu computador instalado no quarto de trás de seu apartamento, com o auxílio da internet. O registro contou com participação especial de nomes importantes do lo-fi/ psicodelia nacional, como Bonifrate, frontman da banda paulistana Supercordas, que gravou a viola de 10 cordas da canção que abre o disco Xamã Orubá, música que vem sendo composta desde 1998. Eis aqui uma característica do Domingos, a sabedoria de encaixar canções e letras antigas em seus discos, o que deixa claro quão atemporal é a obra do artista. Além de Bonifrate, diversos músicos locais, com quem ele têm uma relação de proximidade sonora e afetiva e que fazem parte desta nova cena recifense, estão presentes no disco.

A segunda canção Zeto, o tal é uma homenagem a Zé do Pajeú, poeta de região bastante rica nas músicas tradicional e psicodélica brasileiras. Após uma pesquisa, Domingos resolveu colocar letra em uma faixa que seria instrumental e homenageá-lo. Na sequência, a faixa O náufrago apresenta uma bela introdução e melodia, que se quebra em alguns momentos da canção, num clima interiorano e, ao mesmo tempo, antigo. Esta canção conta com a participação de Júlio Ferraz (da banda Novanguarda) cantando e tocando guitarra. Em Carnaval dos sentidos, Domingos deixa o lado soturno de suas letras e melodias e nos apresenta uma faixa alegre e muito dançante. Juvenil Silva é responsável pela guitarra barulhenta nesta canção. Já Clube dos 50’s tem um teclado pra cima e fervoroso, acompanhado de uma bateria também dançante, uma faixa instrumental com falas aleatórias em meio ao som e com participação de Zeca Viana tocando o baixo.

Mágica luz tem todo o clima do primeiro disco solo do artista, Filmes e quadrinhos, de 2010. Não me surpreende que tal canção seja dos tempos deste trabalho. O final, com nuances eletrônicas, nos faz voltar ao disco Fricção, lançado em 2013 e precursor deste atual. Ostracity fala de um tema comum para quem conhece o artista: sua crítica sobre como a política cultural da cidade do Recife é gerida. O instrumental é carregado, o vocal dobrado, sendo Matheus Mota o responsável pelo som do mellotron que ambienta ainda mais a canção.

Outra faixa animada, Jovem vampiro traz muita guitarra e um clima totalmente alto astral, que deve funcionar muito bem ao vivo. Gato da cidade nos traz a característica urbana de um bichano que vive andando por escombros deixados em meio ao caminho em todas as grandes cidades do país. Encontramos uma enorme presença das sonoridades roqueiras do ano 1990 em Revolução #3.1, cuja letra fala do poder da sonoridade.

Santanestesia talvez seja o ponto destoante do trabalho. Tem início com uma bateria eletrônica e segue num tom soturno e calmo, mas não chega a lugar algum. Talvez o clima mais rápido e roqueiro do disco exerça maior influência, capaz de isolar essa canção das demais.

Angelo Souza (o Graxa) emprestou sua voz ao trabalho e fez a introdução da ótima Sinfônico blues, que fecha em grande estilo este álbum. Graxa já apresentou a música ao vivo e expressou seu apreço por ela.

Em pouco mais de 37 minutos, Domingos evidencia que é um dos nomes que agrega, “dá liga” à cena que tem definido os rumos da música independente recifense nos últimos anos. Todas as participações deste seu recente trabalho são de artistas com discos lançados neste ano ou no ano passado, o que prova que eles estão em sintonia com as ideias e sonoridades do maior produtor da Cena Beto – estou me referindo a D Mingus! 

DIEGO ALBUQUERQUE, jornalista e blogueiro.

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