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Da preguiça como método de guerrilha

TEXTO Pedro Salgueiro

01 de Março de 2012

Ilustração Victor Zalma

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 135 | março 2012]

Desde que me entendo por gente,
sou um sujeito lesado. Minha mãe diz ter suspeitado até quase o oitavo mês de que eu não nasceria, tamanha era minha imobilidade intrauterina: não chutava, não me virava, permaneci (para desespero dela e do médico) quietinho até a véspera do parto. Até a véspera não, até a hora exata, pois mesmo já enxergando a luz forte vinda da janela do quarto de minha avó, ainda aproveitei para uma última e descompromissada cochiladinha dentro daquele líquido quentinho. Claro, não sou bobo, nasci a fórceps.

Cresci um menino mofino: vivia pelos cantos, coçando a cabeçona cheia de lêndeas. Por conta disso, levei muitos cascudos de meu pai, bastantes gritos de minha mãe, além de mangação dos amigos e irmãos. Em compensação, na escola, eu era o mais comportado. Não por convicção, verdade se diga, mas por puro comodismo, preguiça mesmo de fazer bagunça. Logo, fui me tornando um adolescente atípico, preferia músicas lentas, ambientes despovoados, colegas tristes, os esportes menos radicais. Jogar bila e soltar arraia eram minhas brincadeiras preferidas, nelas desenvolvi grandes habilidades. Mesmo no futebol, esporte obrigatório no colégio e no bairro, escolhi (claro) a posição de “beque parado”: compensava com um bom passe a minha total falta de mobilidade.

Nunca entendi por que me apelidaram de “coqueiro”, que não foi o pior dos muitos apelidos que levei pela vida afora. “Marcha lenta”, “Devagar com câimbra”, “Recordista de 100 metros rasos para tartarugas” e mil outros mais. Se na época já se falasse em bullying, eu seria um caso a ser estudado pela universidade.

Mas, graças a Deus, tornei-me um adulto tranquilo, casei-me cedo... porque sempre fui caseiro, para desespero dos de casa. Tenho um verdadeiro fascínio por televisão, que minha adorada esposa diz (sem dó) ser o vício predileto dos malandros. Também adoro livros, muito embora passe meses para terminar um reles voluminho de contos. Poesia é minha preferência, haicais especialmente. Com o tempo, fui me aventurando pela prosa, contos e crônicas sempre, romances jamais. Até arrisco escrever alguns minicontos e ganhei diversos concursos literários. Ah, sim, meu livro preferido é Da preguiça como método de trabalho, do mais que “acomodado” e querido poeta Mário Quintana, e a música que vivo cantarolando por aí é Soy latino-americano, de Zé Rodrix, um “molenga” convicto.

Concluí a faculdade de Turismo em longos 12 anos, quase o triplo do tempo permitido e quando já havia recebido vários avisos ameaçadores da coordenação. Mas terminei, mesmo tendo que colar grau em data especial, pois esqueci o dia da solenidade. E, como todo bom “descansado”, passei mais alguns anos pensando num emprego que se adaptasse ao meu ritmo, o que, com a ajuda de amigos e familiares, não foi lá muito difícil. Hoje, sou um modesto funcionário público,que cumpre todo santo dia o calvário de bater ponto, não sem contar (e marcar no calendário sobre a mesa) religiosamente os dias que faltam para a minha tão sonhada (e ainda distante) aposentadoria.

Atravessando a meia idade, vou adquirindo o meu ritmo ideal, pois o avançar dos anos vai me concedendo os álibis necessários para uma vivência mais tranquila.

Mas, para fechar minha penosa missão aqui na Terra, decidi finalmente fazer um mestrado, sonho antigo de quando ainda terminava a faculdade (e lembrado até a exaustão por minha família em muitos enchimentos de saco). Escolhi o tema, soletrando na cartilha de Dom Gilberto Freyre e rezando na igreja de São Cascudo: a lenta e eficientíssima guerrilha (mais eficiente que o magistral pacifismo de Ghandi) movida pelos nossos “preguiçosos” indígenas contra o ganancioso explorador europeu que aportou em nossos “tristes trópicos”. Tática tão eficiente, que os forasteiros tiveram que recorrer ao continente africano para conseguir mão de obra escrava para seus nefastos projetos. Até escolhi (mentalmente, claro) a bibliografia a ser usada e, principalmente, já elegi a eficientíssima arma usada pelos nativos em seu paciente (e vitorioso) empreendimento: a rede. Esse que talvez seja o símbolo maior dessa maravilhosa guerrilha, com o qual nosso primeiro habitante enfrentou e venceu o poderoso inimigo. Objeto lúdico e mortal que, hoje em dia, apenas o vizinho e pobre estado do Ceará usa.

P.S.: Até já teria começado a rabiscar as primeiras linhas de meu projeto, não fosse a encomenda de uma croniqueta de duas páginas sobre a “preguiça”, feita pela prestigiosa revista Continente de Pernambuco, que me consumiu os meses de dezembro e janeiro todinhos, e que talvez ainda me leve uns bons dias de revisão. 

PEDRO SALGUEIRO, escritor, vencedor de prêmios literários, como o da Radio France Internationale – RFI.

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