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De quando a renda da rainha quase deixou o rei nu

Registra a história que o artefato conquistou tanto prestígio entre a corte e o alto comércio, que chegou a provocar bombardeios aos países produtores e interditos

TEXTO Danielle Romani

01 de Agosto de 2011

Colo da condessa de Cambacérès se destaca no corpete de renda, em retrato de William Bouguereau

Colo da condessa de Cambacérès se destaca no corpete de renda, em retrato de William Bouguereau

Imagem Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 128 | agosto 2011]

A renda surgiu na Europa em meados
do século 16, início da Idade Moderna, fascinando reis, rainhas, sacerdotes e plebeus. Na França, éditos reais foram proclamados para evitar a “ruína” da corte na compra de peças importadas da Itália. Soberanas como Catarina de Médici foram censuradas, pois seus excessos estavam comprometendo a economia francesa. Os camponeses, que sustentavam os nobres com o pagamento de impostos, chegaram a considerar os tecidos e pontos “coisas do Diabo”.

No livro Fabuleuses dentelles, as autoras Janine Montupet e Ghislaine Schoeller afirmam que a história da renda caminha junto com a dos costumes e dos mobiliários. Dizem, também, que ela teria sido originada a partir do bordado. Afirmam, inclusive, que os dois principais tipos de rendas, as produzidas com agulha e as preparadas com os bilros, surgiram no mesmo período. O local preciso, entretanto, é ainda um mistério para os que amam e pesquisam o assunto. Alguns supõem que elas podem ter sido criadas na Itália. Mas ninguém assevera qual localidade teve a primazia de ser a precursora das finas tramas.

“Não há provas de que o puy-en-velay francês não precedeu os pontos de Gênova e de Milão ou os entrelaçados em ouro e prata espanhóis”, escrevem as autoras. Como outros pesquisadores, elas admitem que as rendas podem ter sido inventadas, remotamente, pelos orientais. Mas, como inexistem registros dessa suposição, convencionou-se datar seu surgimento na Europa renascentista, época em que pontos fabulosos foram criados por artesãs magníficas.

O que as autoras também apontam é que usar rendas, para os europeus quinhentistas, significava carregar moinhos e terras nos ombros. Significava ter poder. “Eram peças caríssimas, elas seduziam e fascinavam homens e mulheres nobres... e mesmo os reis e o clero estavam a serviço do luxo e da futilidade dessas belezocas.”


Rendas francesas foram criadas no século 17, sendo inigualáveis em
originalidade e romantismo. Foto: Reprodução

As peças criadas na Europa eram trançadas em linho, mas também em algodão, ouro e prata. Na Itália, cavaleiros e nobres usavam as chamadas camisas de pourpoint, com rendas da gola até a cintura, símbolo de dinheiro e de fidalguia. Até mesmo os ingleses, severos protestantes, sucumbiram à sua beleza.

No reinado de Luís XIV, elas atingiriam o ápice e ostentariam toda a suntuosidade da corte do Rei Sol. No de Luís XV, quando a França seria praticamente “invadida” pelas rendas, elas se tornariam mais flexíveis, leves. “Não seriam mais do que um tecido de malha semeado de pontos e florzinhas”, explicam as autoras.

A Revolução de 1789 eliminou a renda do vestuário por mais de uma década, período em que o país ficou privado de um dos seus mais charmosos ornamentos, assim como milhares de pessoas ficaram desempregadas. Napoleão I a traria de volta, coroada de glória.

No século 19, a Revolução Industrial daria um duro golpe nas rendas artesanais. Com o advento das máquinas, elas passaram a ser produzidas mecanicamente, desempregando milhares de artesãs. Após a Primeira Guerra Mundial, foram substituídas pelas industriais. Poucas casas tradicionais conseguiram se manter ativas. As italianas de Burano, que possuíam uma magistral técnica herdada das venezianas, perduraram até a década de 1970, quando, finalmente, foram massacradas pela industrialização.


Criados nos século 16, os elaborados pontos venezianos foram copiados por
toda a Europa. Foto: Reprodução

CONSUMO E DISPUTAS
O vestido de casamento usado pela princesa Kate Middleton, cujas núpcias com o príncipe Williams mobilizaram, há alguns meses, habitantes de todo o planeta, são um exemplo claro da beleza e da perfeição alcançada pelas rendas europeias. Mais do que isso: são a prova de como elas estão associadas à realeza, ao sublime, ao transcendente.

As notícias divulgadas sobre o vestido da noiva, produzido por Sarah Burton, da casa Alexander McQueen, afirmam que o trabalho, de inspiração vitoriana e pautado numa técnica irlandesa de 1820, foi feito à mão pela Royal School of Needlework (Escola Real de Costura). Uma comprovação da competência técnica europeia na confecção de trabalhos elaborados, história que começou a ser criada há cinco séculos, em vários centros do velho continente.Também segundo as autoras de Fabuleuses dentelles, Veneza foi um dos mais importantes e renomados deles. Na cidade italiana, no século 16, foram criados pontos originais, como o de rosa, de neve e o gordo, aplicados como detalhes em golas, golões e toucas usadas pela nobreza e pelos grandes comerciantes.

Os pontos venezianos eram considerados de uma perfeição única na Europa. Imitados por todos, foram amplamente copiados pelos franceses, que, em poucas décadas, conseguiram aprender a técnica, e até superá-la.

Outras cidades italianas também fabricavam e exportavam rendas belas e trabalhadas. Gênova foi, inclusive, bombardeada por Luís XVI, em represália ao fato de as francesas gastarem muito com os produtos da cidade. Lá, o que imperava eram as peças em bilro, que também eram produzidas em Milão, com fios de ouro. Em 1613, um edital do rei proibiu o uso, pelas francesas, de todos os produtos milaneses. A França travou verdadeiras batalhas para coibir a importação das rendas produzidas pelos italianos.

MIL DETALHES
Foi Catarina de Médici quem introduziu o uso da renda na corte francesa, provocando um consumo exagerado e desenfreado, o que fez com que os cofres da França fossem praticamente esvaziados, devido aos custos de importação. Por isso foi promulgado um decreto real que proibia o uso da renda pela corte e pela população. A partir desse momento, os franceses se deram conta de que lucrariam mais produzindo do que importando. Colbert, ministro e general de Luís XVI, foi quem teve a ideia de recriar os pontos italianos em território francês.


A princesa Kate Middleton usou vestido e inspiração vitoriana, com renda produzida pela Escola Real de Costura. Foto: Divulgação

Em 1665, fundou em Alençon as manufaturas reais, nas quais 30 rendeiras de Veneza e 200 de Flandres criaram o ponto de agulha da França, ou o ponto de Alençon. “A artesã Marthe Laperrière, que seria sua grande mentora, copiara certas características venezianas, mas criara outras geniais, que as tornariam únicas”, escrevem Janine Montupet e Ghislaine Schoeller. Essas rendas eram caracterizadas por medalhões e uma enorme diversidade de detalhes. Outras cidades francesas se tornaram famosas pela confecção de rendas: Chantilly, Lille, Bailleul e Valencianne, que se destacou pela produção em bilro.

Em Portugal, existem relatos de que, no ano de 1560, durante o reinado de Dom Sebastião, se falou pela primeira vez em renda. No reinado de Dom João V, o país foi influenciado pelas rendas produzidas em Flandres, uma vez que o protocolo da corte obrigava o uso das rendas flamengas, o que veio a prejudicar as rendas nacionais.

Essa proibição, relata Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães, em Bordados e rendas de Portugal, acabou deflagrando uma revolta das rendeiras nortenhas, que enviaram seus protestos ao rei. A livre confecção de rendas nacionais somente foi autorizada em 1751, no reinado de Dom José. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.

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