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Eugenia: Ambição nazifascista, pesadelo da humanidade

TEXTO Gilson Oliveira

01 de Setembro de 2014

A crença de que era possível a

A crença de que era possível a "melhoria da raça humana" fomentou a eugenia durante o Holocausto

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de "História" | ed. 165 | set 2014]

Definida pelos dicionários como um conjunto de
conhecimentos e técnicas para evitar doenças e fortalecer a saúde, a higiene, com o tempo, ampliou muito o seu campo de atuação – hoje existem a pessoal, pública, mental, alimentar e ambiental – e incorporou vários significados e finalidades.

Um dos mais ideologizados conceitos surgiu em 1869, quando o antropólogo inglês Francis Galton publicou o livro O gênio hereditário, no qual sustentava a tese de que um “homem notável teria filhos notáveis” e defendia que a raça humana melhoraria, se não existisse o que chamou de “cruzamentos indesejáveis”, ou seja, o casamento de pessoas que não possuíssem “boas qualidades físicas e mentais”.

Batizada de eugenia, cujo significado é “bem-nascido”, a proposta de Galton não era nova – na Grécia antiga, Esparta chegava a assassinar as crianças doentes, e Platão, em A república, defende o aperfeiçoamento da sociedade a partir de processos seletivos –, mas foi influenciada por uma obra moderna e revolucionária, A origem das espécies, escrita pelo primo de Galton, Charles Darwin, na qual pontificava o conceito de “seleção natural”, segundo o qual só os seres capazes de se adaptar aos ambientes possuíam chance de sobreviver e se desenvolver.

Adaptando essa concepção à realidade social, Galton propôs a “seleção artificial”, por meio da qual se poderia promover melhorias hereditárias. Para isso, criou o conceito de “reprodução seletiva”, que, segundo ele, poderia ser corporificada com, por exemplo, a adoção de “testes de inteligência”, um dos instrumentos que permitiriam selecionar homens e mulheres superiores.

CIENTIFICISMO
Dotado de uma mente prolífera e vasta erudição, Galton se inseria perfeitamente no espírito de sua época, desfrutando de grande e imediata receptividade na Inglaterra. Um dos fatores foi o cientificismo que imperava naquele período histórico. “A novidade do século 19 foi a incorporação da história à natureza, principalmente através da noção de evolução e da ideia de que o determinismo presente no mundo natural seria o mesmo que rege o desenvolvimento da humanidade. Dessa forma, os valores morais, políticos e filosóficos passaram a ser vistos como manifestações do estágio em que se encontrava a humanidade”, diz Celso Castro, no livro Os militares e a república – um estudo sobre cultura e ação política.

E Galton não se limitava a ser um formulador de teorias, transformando muitas de suas ideias em tecnologias, o que o tornou inventor de equipamentos inusitados e pioneiros, como um dispositivo para abrir cadeados, um protótipo de impressora de teletipo e um tipo de periscópio apropriado a suas pesquisas de campo.


Primo de Darwin, o antropólogo Francis Galton trouxe às ciências humanas o conceito darwinista da "seleção natural" das espécies.
Imagem: Charles Wellington Furse/Reprodução

Visando pôr em prática as teses sobre eugenia, mais especificamente, sobre a reprodução seletiva, ele foi o primeiro a usar métodos estatísticos para estudar as diferenças e heranças de inteligência e a utilizar questionários e pesquisas para coletar dados sobre as comunidades humanas. Como estudioso da mente, fundou a psicometria (ciência de medição da força e dos fenômenos mentais) e a psicologia diferencial (que estuda as diferenças individuais no processo de aprendizagem).

DARWINISMO
Outro fator que concorreu para aceitação das teses eugenistas foi o “darwinismo social”, que, como os princípios defendidos pelo próprio Galton, consistia numa tentativa de aplicar os fundamentos do livro A origem das espécies às sociedades humanas, enfatizando que, na luta pela existência, apenas os mais aptos poderiam sobreviver, o que procurava dissimular as grandes injustiças sociais decorrentes do processo de industrialização, que explorava e marginalizava as camadas mais pobres da população. Segundo essa visão, as pessoas viviam na miséria exclusivamente por serem inferiores e lhes faltar capacidade de adaptação.

Apesar disso, o contingente de pobres crescia expressivamente, enquanto havia uma diminuição populacional entre as camadas mais ricas e cultas da sociedade. Essa situação levou alguns pensadores a afirmarem que a Inglaterra estava sofrendo um grande risco de “degeneração biológica” e a ressaltarem a importância de um controle demográfico, instituindo leis de esterilização compulsória.

Em pouco tempo, as ideias eugenistas conquistariam adeptos em várias partes do mundo, como Filippo Marinetti, poeta futurista italiano e um dos precursores do fascismo, autor da frase “Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo”. Outro que logo aderiu às teses foi o médico alemão Alfred Ploetz, autor de Noções básicas de higiene racial, livro usado pelos nazistas para elaborar a teoria da superioridade rácica. Uma das bases do nazismo, o conceito de raça e higiene assumiu caráter político com a edição das Leis de Nuremberg, em 1935, proibindo o casamento entre judeus e não judeus.

Para atribuir consistência científica às suas teses, Hitler e sua equipe mobilizaram os médicos alemães, que, atuando como higienistas raciais, muito colaboraram com o Holocausto, o projeto nazista de “limpar a Europa”, eliminando judeus, ciganos, sérvios, negros, homossexuais, comunistas, doentes mentais e adversários políticos.

A tragédia humana que isso representou fez com que, finda a Segunda Guerra Mundial, na qual o nazifascismo foi derrotado, o mundo rechaçasse veementemente as teses da higiene racial. Apesar disso, em 1977, ciganos ainda estavam sendo esterilizados na Noruega, o que deixou a comunidade internacional de cabelo em pé, por ver que, 32 anos após o fim da guerra, a eugenia continuava viva – e combatendo. 

GILSON OLIVEIRA, jornalista e revisor do suplemento Pernambuco.

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