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Forró: Emblema sonoro do Nordeste

No ano do centenário do Rei do Baião, é lançado livro que narra a trajetória do gênero musical, desde sua origem mais remota ao dias atuais

TEXTO Olivia de Souza

01 de Dezembro de 2012

Imagem Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de "Gonzaga 100 anos" | ed. 144 | dezembro 2012]

"O sertão perdeu seus cantadores"
,  afirmava o potiguar Luís da Câmara Cascudo, em 1934, enquanto percorria os cerca de 1.307 km de estrada pelos interiores do Rio Grande do Norte. Integrante da comitiva do interventor federal Mário Câmara, o historiador, antropólogo e jornalista havia se incumbido de registrar tudo o que ali encontrasse. Publicados originalmente no periódico O Potiguar, e posteriormente reunidos no livro Viajando pelo Sertão, os 18 textos de Câmara Cascudo concluíam que o avanço tecnológico possibilitava a construção de estradas que moviam sertanejos para outros municípios, tão próximos quanto longínquos, gerando a descaracterização da região. De acordo com Cascudo, “o Sertão esvaía-se”. Dentre alguns apontamentos citados nos textos que comprovavam sua tese, a música regional estaria se acabando, resultado das transformações trazidas pelo progresso, e a influência de outros ritmos. Ele finalizava a série com a pergunta: onde estariam a música, o ritmo e a dança tão característicos do povo nordestino?

A introdução ao livro O fole roncou! Uma história do forró (Jorge Zahar Editor) oferece uma leitura sobre a importância que tiveram os forrozeiros no que concerne à manutenção da cultura tradicional, alguns anos depois daquelas andanças de Cascudo. Escrita pelos jornalistas paraibanos Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, e lançada no ano do centenário de Luiz Gonzaga, a publicação pode ser considerada a primeira biografia do estilo que teve o Velho Lua como seu maior representante. Por conta disso, a trajetória dele é esmiuçada no livro, sendo seu ponto de partida.

Entre fatos curiosos sobre o Rei do Baião, está explicitada sua vontade de se vestir de símbolos que pudessem ser diretamente associados ao Nordeste – daí sua escolha pelos acessórios de couro que o acompanharam pelo resto da vida, inspirados por sua admiração pelo cangaço. Também a influência do pai Januário, exímio sanfoneiro de oito baixos da região. O livro revela que a parceria de cinco anos com o letrista Humberto Teixeira possibilitou a Gonzaga perder a vergonha de “mostrar as coisas que tinha trazido do mato”, rendendo belíssimas composições que tinham como temática central a dor da ausência e a melancolia do sertanejo com saudades de sua terra (sendo Asa branca e Assum preto referências diretas a esse respeito).

O livro também oferece espaço para outros importantes representantes do gênero, como Jackson do Pandeiro e Geraldo Correia (o “João Gilberto dos oito baixos”), além de trajetórias como a do casal Marinês e Abdias, Genival Lacerda, Dominguinhos e Alcymar Monteiro. Dos cânones para a atualidade, chega-se ao “forró universitário” (em São Paulo) e o “forró eletrônico”, este último surgido no Ceará, na década de 1980.

Outra qualidade de O fole roncou é a abordagem de assuntos pouco comentados, como o fato de o forró não ter passado incólume à censura militar, que vetou letras de duplo sentido. Além disso, o livro dispõe de vasto material gráfico, fotografias de artistas e capas de discos. 

OLIVIA DE SOUZA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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