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Irmãs Brayner: Um limite na militância

Mesmo participando de ações básicas, como panfletagem e pichações, elas evitaram a clandestinidade, quando o regime recrudesceu

TEXTO Samarone Lima

01 de Março de 2014

Cléa, Paula, Lourdes, Fátima, Maria e Nadja dividiam os mesmos ideais no início dos anos 1960

Cléa, Paula, Lourdes, Fátima, Maria e Nadja dividiam os mesmos ideais no início dos anos 1960

Fotos Diego Di Niglio

[conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 159 | mar 2014]

Cléa, Paula, Lourdes, Fátima, Maria e Nadja*.
Eram as “seis irmãs Brayner” que se dividiam na militância, em sonhos, esperanças e impasses, num tempo em que ser estudante era, essencialmente, participar da vida política do país. Mais especificamente, ocupar as ruas do Recife, engajar-se em diretórios acadêmicos, pichar muros, distribuir panfletos. O tripé foi vivido intensamente – estudo, militância, trabalho. E havia tempo para os namoros.

Três delas eram da militância no movimento secundarista, três eram do movimento universitário. O pai, José Brayner, definia-se como socialista. Tocava violino. Começou a trabalhar aos 11 anos. Depois de 25 anos na Fábrica da Torre, pediu demissão para virar comerciante. Deu tudo errado. A família foi à bancarrota e a mãe, Zuleide, teve que vender as joias para sobreviverem. Nadja foi trabalhar no Banorte. Maria do Carmo, na Fábrica da Torre.

No dia em que Lourdes nasceu, Zuleide não tinha como sair da maternidade, por falta de dinheiro para pagar a conta. Brayner jogou no bicho e acertou na cabeça. Pegava os pacotes de dinheiro e ficava chutando para o alto. Pagou o hospital, depois emprestou quase tudo aos amigos.

–“Isso não vale nada”, dizia.

Os pais olhavam o envolvimento das filhas na militância. Ele, que tinha um primo na polícia civil, amicíssimo do temido Álvaro da Costa Lima, recebia informações sobre “certas coisas” que ainda não eram divulgadas. José avisava, sempre que podia:

–“Não entrem nessa. A barra vai pesar. Se vocês quiserem seguir, a vida é de vocês, mas a barra vai pesar. Esses caras são uns bandidos.”

A mãe ficava preocupada. A cada manifestação, quando as filhas demoravam, ficava tensa. Contava a chegada de cada uma. Só quando completava o número seis, sossegava.

Todas se envolveram, participaram, lutaram, mas não deram o passo adiante, o da clandestinidade, das organizações revolucionárias. Talvez tenham gravado aquelas mensagens esporádicas que o pai repassava:

–“A barra vai pesar. Esses caras são uns bandidos.”

Maria do Carmo foi convidada para participar de uma reunião fechada de uma organização, recebeu um material e soube que “já era” do partido.

“Já me entraram”, conta, repassando com as irmãs um período intenso, vivido até o limite.

Tese do 5o Congresso. Organização da “Corrente”, dentro do “Partidão”. Comício-relâmpago que terminou com duas palavras: “Povo pernambucano...” Bolas de gude ou rolhas, para derrubar os cavalos da PM. O Núcleo Duro. Um rapaz que entrou na organização porque todo dia lia o Última Hora. Dissidência da Guanabara. O “Comitê Universitário”. AP. Povo da JUC. POC, Polop. Reorganização do Movimento Estudantil. Eleição na Faculdade de Direito. Aliado. A “Tarefa do pichamento”. Quase todo dia, elas estavam na rua. Pedágio para ajudar a UNE. Todos os amigos de militância passavam pela casa das seis irmãs.

A memória escorre. O período vertiginoso de experiências e de um fervilhar de ações foi de 1964 a 1968. Depois, com o AI-5, a situação mudou. Passeata com 30 mil pessoas, após a morte de Edson Luís, no Rio de Janeiro. O fim do curso universitário chegando. “A opção, companheira, é profissionalizar. Vamos à luta clandestina”.

As irmãs foram terminando seus cursos e ingressando no mercado de trabalho. Apoiariam, claro, no que fosse preciso.

–“Me sugeriram ir para o campo”, conta Nadja.

–“Estou fora. No campo, eu não fico uma semana”, respondeu Sônia.

Era a “debreada”, a “desbundada”.

“A pior ofensa que se podia dizer na época – fulano ‘debreou’. Mas o horizonte estava cada vez pior”, lembra Nadja. Até as secundaristas foram chamadas, mas não toparam.

A BARRA PESANDO

Nadja se formava em 1969, precisava da famigerada “folha corrida”, instrumento de controle e barganha da ditadura, para fazer um concurso da UFPE. Deu entrada no pedido, junto à Secretaria de Segurança Pública, mas não tinha resposta. E agora? Ir sozinha à sede do Dops?

Invocou a amizade de um colega reconhecidamente de direita, que tinha bom relacionamento com “os homens da repressão”.

Ele fez os contatos.

–“Sua folha corrida está na mesa do delegado Silvestre, no Dops.”

Ela já tinha “debreado”, mas era loucura, ir à toca do lobo.

–“Eu vou com você”, disse o amigo.

Nadja se arrumou toda, parecia uma madame. Foi ao Departamento de Ordem Política e Social suando frio.

–“Silvestre, esta aqui é a Nadja, veio pegar a folha corrida.”

Nadja deu a mão. Na outra mesa, Álvaro da Costa Lima.

Silvestre: “Qual o problema?”

Nadja: “Não tem problema nenhum. Dei entrada na minha folha corrida, mas ela não sai. Falei com o meu amigo da faculdade, ele me sugeriu vir aqui, para saber se tinha algum problema.

Silvestre: Qual seu nome mesmo?

–“Nadja Brayner.”

–“A senhora conhece Yara Brayner?”

(Era a prima distante Yara, militante do PCB, que já tiha sido presa.)

–“Com esse nome, só se for alguma prima...”

Silvestre olhou para a folha corrida. Estava com o nome de Yara.

–“Pegue a folha dela.”

Nadja pegou finalmente a folha.

Álvaro da Costa Lima, que estava o tempo todo calado, falou:

–“Nadja... Conheço seu pai. Como ele está?”

– “Ele está bem.”

Com a folha corrida na bolsa, Nadja deve ter lembrado do aviso fortuito do pai:

“ A barra vai pesar! Esses caras são uns bandidos!”

Hoje, Nadja Brayner faz parte da Comissão da Verdade. (SL)

*Duas foram funcionárias da UFPE (Cléa e Paula), duas professoras da mesma instituição (Maria e Nadja), Fátima é sócia de uma consultoria e Lourdes, funcionária da Prefeitura do da Cidade do Recife. 

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