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Kafka e Felice, a função das cartas

TEXTO Alfredo Cordiviola

01 de Abril de 2011

Durante cinco anos, Felice Bauer e Franz Kafka trocaram longas cartas, publicadas, posteriormente, em 1967

Durante cinco anos, Felice Bauer e Franz Kafka trocaram longas cartas, publicadas, posteriormente, em 1967

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 124 | abril 2011]

A fotografia foi tomada num desses ateliês
que, como diria Walter Benjamin, “parecia um híbrido ambíguo de câmara de torturas e sala do trono”. Exibe uma mulher sentada, com as pernas cruzadas e uma bolsa no seu colo, e um homem em pé, de terno. Apesar do fundo neutro e opaco, cuja única função é destacar as figuras que aparecem no primeiro plano, e apesar da previsibilidade do figurino e da postura calculada e convencional dos retratados, há entre esses dois personagens uma delicada intimidade que o registro não consegue encobrir. Talvez o olhar levemente sarcástico e inquisidor do homem, ou sua mão encostada com certa dissimulação na nádega da mulher, ou talvez a displicência e a placidez que ela revela diante da câmera, contribuam a singularizar uma imagem que teria sido definida pela banalidade e pelo esquecimento. Uma imagem comum, como outra qualquer de felicidade breve, que teria se perpetuado apenas em lojas de antiguidades ou em recônditos álbuns de família, se esses dois personagens retratados não fossem Franz Kafka e Felice Bauer.

Os dois tinham se conhecido em Berlim, através de Max Brod, em 1912. A foto em questão fora tirada em Budapeste, em 1917. Nesses cinco anos houve entre Felice e Franz um namoro marcado pelas ausências, pela distância, pelos anúncios de noivado, pela promessa de um casamento que nunca se consumaria. E pelas cartas, longas, numerosas cartas que se escreveram durante esse período. Ao longo da sua vida, Kafka foi um entusiasta leitor de cartas redigidas por escritores (como as dos seus favoritos Flaubert ou Kleist) e manteve o hábito de escrever cartas para seus amigos, seus parentes e seus amores, textos que de forma alguma poderiam ser considerados menores ou meramente suplementares. A famosa Carta ao pai e os profusos vínculos epistolares com Grete Bloch e Milena Jesenska já seriam suficientes para evidenciar o papel central que as cartas desempenham no conjunto da sua obra.

Kafka começa a escrever para Felice apenas algumas semanas depois de conhecê-la. Felice é a condição da escrita, e também seu limite. Paradoxalmente, será a musa que inspira a febril tarefa de escrever, será sua ouvinte sempre paciente e disponível, e sua copista fiel; será também uma eventual intrusa e um perigo latente, uma intromissão do mundo capaz de multiplicar em vão os pensamentos e consumir o tempo que resta para escrever. Nos cinco anos seguintes, haverá poucos encontros e muitos desencontros entre eles; o conturbado vínculo amoroso será sustentado pela escritura, a leitura e a espera ativadas pelas cartas. Escritas enquanto a Europa era devastada pela guerra, em um período extremamente prolífico durante o qual Kafka escreve textos tão fundamentais como O veredictoA metamorfoseDiante da leiO processo e alguns capítulos da inconclusa Amerika, as cartas a Felice operam como longas e intensas descrições de uma luta: por se tornar escritor, contra as armadilhas do corpo, contra o fracasso, o silêncio, a impossibilidade de escrever, a necessidade imperiosa e quase fatal de escrever.

Kafka escreve a respeito de si o tempo todo: sobre seu penoso corpo, os inconvenientes do matrimônio (e da união com alguém como ele), a indolência que toma conta da sua vida, sobre a rejeição, o valor extremado da solidão. Se toda carta de amor se imprime acerca da ausência do outro e repete de muitas formas possíveis uma mesma frase que retorna (“você não está aqui”), no caso de Kafka,as cartas parecem querer alimentar o tênue vínculo sob a condição do afastamento. Como se as cartas fossem escritas não para aproximar os amantes, mas para mantê-los a distância, porque essa distância seria a condição indispensável para que a literatura pudesse acontecer. Como as anotações de viagem, os lembretes, os rascunhos e os diários privados que compõem a escritura de Kafka, as cartas parecem estar sempre urgidas pelo tempo (tanto pelo excesso quanto pela falta de tempo) e pela necessidade manifesta de reclusão.

Felice, que tinha se casado em 1919, guardara zelosamente as cartas; conseguiu fugir do nazismo e se exilou nos Estados Unidos. Quiçá intuía que, com o tempo, essas cartas de alguma forma já tinham deixado de lhe pertencer e, em 1955, cinco anos antes de morrer, vendeu as centenas de páginas para a editora Schocken Verlag. A editora, que, além de muitos outros textos de Kafka, difundiu obras de autores diaspóricos fundamentais do pensamento do século 20 como Walter Benjamin, Hannah Arendt e Elie Wiesel, publicou as cartas, em alemão, em 1967. As respostas de Felice permanecem desconhecidas ou perdidas até hoje, o que enfatiza ainda mais a unidade fantasmática de uma trama feita de intervalos, omissões e lacunas. A partir de então, e da sua posterior tradução para o inglês, as cartas despertaram um enorme interesse pelo que mostravam, pelo que ocultavam e pelas continuidades que permitiam estabelecer com as ficções e os biografemas de Kafka.

Certamente, as cartas foram escritas para um destinatário único, sem a intenção de serem conhecidas por um público massivo, dentro dessa condição peculiar que transforma a epístola em uma das maneiras da conversação privada. Contudo, longe de pensar as cartas como gênero meramente subalterno dentro do corpus kafkiano, autores como Elias Canetti (O outro processo: as cartas de Kafka a Felice), Gilles Deleuze e Félix Guattari (Kafka – para uma literatura menor) e Ricardo Piglia (O último leitor) souberam enxergar esses textos como elementos cruciais dentro do universo kafkiano. Canetti vê nas cartas um contraponto que, situado no limiar entre a imaginação e o episódio biográfico, ilumina a elaboração e os sombrios labirintos de O processo. Piglia lê as cartas como palco dos conflitos e interferências entre a “realidade” e a “literatura”, e como ponto de acesso exemplar para analisar as relações entre os escritores e as mulheres. Para Deleuze e Guattari, as cartas, tanto como os contos e romances, são definidas como componentes da máquina literária em Kafka. Para eles, que as cartas sejam parte integral da obra não depende da intenção de publicação, nem do destinatário inicial, nem do suposto estatuto do real, mas das funções indispensáveis que cumprem dentro da sua escritura, e das operações de leitura que permitem atravessar os mecanismos que imperam dentro dessa máquina: “Impossível conceber a máquina de Kafka sem a intervenção do móbil epistolar. Quiçá seja em função das cartas, das suas exigências, das suas potencialidades e das suas insuficiências, que serão montadas às outras peças”. Assim, longe de ocupar uma função secundária, as cartas poderiam ser consideradas uma engrenagem principal, em torno da qual se articulam todos os textos de Kafka.

Dessa forma, vistas como um centro possível de gravidade que movimenta todas as órbitas textuais, as cartas constituem pontos e interseções dentro de uma rede sem fim, em constante expansão. Frutos de um pacto alguma vez vigente entre dois amantes íntimos e estranhos, traços de revelações parciais e de encobrimentos definitivos, as cartas de Kafka a Felice sobreviveram, como a literatura sobrevive, à fugaz e desencontrada existência dos seus interlocutores. 

ALFREDO CORDIVIOLA, doutor em Estudos Hispânicos e Latino-americanos pela Universidade de Nottingham.

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