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Novas gerações seguem cartilha de Vitalino

Criados no Alto do Moura, garotos que cresceram vendo o mestre fazer esculturas de barro também se tornaram referência na arte cerâmica

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Junho de 2009

Mãos da filha de Zé Caboclo, Marliete Rodrigues, evidenciam delicadeza na confecção das peças

Mãos da filha de Zé Caboclo, Marliete Rodrigues, evidenciam delicadeza na confecção das peças

Foto Roberta Guimarães

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 102 | junho 2009]

Mestre Vitalino deixou diversos seguidores. Desde que começou a exibir na Feira de Caruaru suas criações, chamou a atenção de garotos que habitavam o Alto do Moura, e que passaram a imitar o seu trabalho. Muitos deles se tornariam mestres talentosos, herdeiros da arte de modelar esculturas no barro.

Um dos mais respeitados desses discípulos é José Antônio da Silva, o Zé Caboclo, que nasceu no Alto do Moura, em 1921. Célebre pelo perfeccionismo de suas peças, é integrante do chamado “grupo inicial” dos produtores de objetos artísticos em cerâmica de Caruaru, formado por Vitalino, José Rodrigues, Manuel Eudócio, Ernestina e ele. É também considerado um inovador. Zé Caboclo foi criador de peças como a Nossa Senhora do vestido de chita, de maracatus e bumbas-meu-boi. Ao que tudo indica, foi ele quem começou a pintar olhos nos bonecos de cerâmica (característica das peças feitas em Caruaru), além de ter introduzido, com Manoel Eudócio, o uso de arame e também de carimbo na identificação das obras. Morreu em 1973.


São Jorge e o dragão, um dos principais temas de Mestre Elias Francisco, é lição de equilíbrio

Outro que surpreende pela criatividade é José Rodrigues da Silva (1914-1977), o Zé Rodrigues, que, assim como Vitalino, nasceu no Sítio Campos. Apenas um pouco mais novo que o amigo, era conhecido como o santeiro do Alto do Moura, arte pouco explorada pelos colegas da região, pois, nesse tempo, queimar imagens sacras nos fornos era considerado profanação. Zé Rodrigues também se destacou por outros temas, a exemplo de grupos de cavalo-marinho, bumba-meu-boi e retirantes.

Apesar de mais novo, o também caruaruense do Alto do Moura, Manoel Eudócio Rodrigues, 78 anos, foi contemporâneo e amigo de Vitalino. Sua produção é farta e uma das mais ricas da região, sendo o colorido das suas peças uma marca registrada. São famosos os seus bois em tons de vermelho e azul, motivo que recentemente foi incorporado a peças como O casamento no boi-manso, em que as personagens Dona Joana e o Dotô aparecem sobre o boi, fazendo parte do conjunto de bumba-meu-boi, que tem sido explorado em várias versões.


As peças de Galdino foram inspiradas em histórias bíblicas, nas tradições do folclore e em lembranças oníricas. Foto: Breno Laprovítera

Aos 85 anos, Joaquim Francisco dos Santos, o Elias Francisco, autointitula-se o primeiro discípulo de Vitalino, posição refutada pela família do mestre e por estudiosos do gênero. Ceramista desde os 10 anos de idade, quando desenvolveu um trole – espécie de vagão de trem usado para carregar operários –, a partir de uma fotografia, este caruaruense do Alto do Moura se notabilizou por peças como o Boi nelore, cavalos e cenas de vaquejada. Porém, sua marca registrada são as representações de São Jorge e o dragão, lição de anatomia e equilíbrio.


Luiz Antônio inovou ao retratar no barro trabalho e tecnologia, como na figura do cinegrafista

Outro que é considerado mestre-herdeiro é Manoel Galdino de Freitas, nascido em Volta do Jacaré, distrito de São Caetano, em 1924. Poeta e violeiro, chegou ao Alto do Moura em 1974. Tem uma vasta produção inspirada em suas memórias e sonhos, em histórias bíblicas e nas tradições do folclore. Seu personagem mais famoso, no entanto, é o prosaico Mané pãozeiro, criação inspirada num primo. Morreu em maio de 1996. Em sua homenagem, construiu-se o Museu Galdino (Alto do Moura).

Bem mais novo, mas não menos hábil, Luiz Antônio da Silva nasceu em 1935, e inovou ao confeccionar personagens e objetos da modernidade, a exemplo de cinegrafistas, fotógrafos, eletricistas e automóveis. Sua peça mais célebre é A máquina de fazer telha, que lhe rendeu um prêmio da prefeitura de Caruaru, em 1971. Hoje, aos 75 anos, conserva um constante ritmo de trabalho, preservando características da produção local — o rico colorido em tons primários e os traços fisionômicos expressivos. Sua mulher, Odete, e seus 10 filhos são seguidores do ofício.


A obra de Manoel Eudócio é reconhecida pelo rico colorido e
expressividade dos personagens criados, como o “dotô” acima

Apontada por estudiosos e por vizinhos do Alto do Moura como a primeira mulher a lidar com os motivos figurativos no barro, Ernestina Antônia da Silva (1919-1997) aprendeu as técnicas da escultura com Vitalino. Seu trabalho encanta pela delicadeza e simplicidade de detalhes. Entre seus temas recorrentes estão o Vendedor de peixesVelho voltando da roça, mendigos e pescadores, e até mesmo criações inusitadas como O moribundo, em que a alma de um homem é disputada por um anjo e um diabo.

A caçula dos mestres ceramistas da região é Marliete Rodrigues da Silva, 52 anos, filha de Zé Caboclo, artista bem-sucedida, cujos trabalhos são praticamente feitos sob encomenda, para exportação e para várias partes do Brasil. Especializou-se em miniaturas, hoje disputadas por colecionadores. Sua obra mais conhecida é o Xadrez nordestino em miniatura, em que as peças do jogo são representadas por Lampião (rei), Maria Bonita (rainha), cavalo-marinho (cavalo), entre outros. Marliete é também autora de obras como QuadrilhaA rezadeira e Mulher dando milho às galinhas. Devido à riqueza de detalhes, sua produção é resumida. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.
ROBERTA GUIMARÃES, fotógrafa.

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