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O rádio como parte da vida

Radialistas e ouvintes dão testemunho sobre o que faz desse meio um lugar para se informar, ajudar os outros e conhecer pessoas

TEXTO PAULO CARVALHO
FOTOS LEO CALDAS

01 de Dezembro de 2012

O radialista Geraldo Freire pensa em jornalismo 24 horas por dia

O radialista Geraldo Freire pensa em jornalismo 24 horas por dia

Foto Leo Caldas

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 144 | dezembro 2012]

Naquela tarde de segunda-feira,
antes de receber a reportagem da Continente em seu confortável apartamento no Bairro da Madalena, o ouvinte Paulo Henrique do Cordeiro, 41 anos, realizaria mais uma interferência por telefone no programa de Ednaldo Santos, na Rádio Jornal (AM 780). Dessa vez, o assunto era a desapropriação judicial da Vila Oliveira, no Bairro do Pina. As palavras do servidor público seguiram no ar para os mais de 30 mil ouvintes da faixa de horário.

Há pelo menos 15 anos, é assim. Paulo Henrique participa diariamente de programas de emissoras do Recife via telefone. Tem predileção pela Rádio Jornal, em que opina, critica, denuncia, protegido por um codinome comum, mas marcante. Segundo o “ouvinte-celebridade”, o nome do seu personagem é conhecido “por quatro entre cinco taxistas”.

“Através de uma simples ligação telefônica, consigo passar uma mensagem, desenvolver uma visão crítica.” A observação é feita sem atropelos e com a voz grave de quem já pensou, na juventude, em se tornar também locutor. Paulo Henrique chegou a iniciar um curso na área, mas se formou em Administração de Empresas. Tem cerca de oito aparelhos de rádio em casa. Um em cada cômodo. “As pessoas precisam se posicionar publicamente, cobrar posições não apenas do poder público, mas também das corporações.” O último levantamento a respeito da audiência, realizado entre julho e setembro de 2012, mostra o perfil dos ouvintes da emissora à qual esse administrador participativo se filia: 28% fazem parte da classe A e B; 49% são da classe C, os demais, das classes D e E.

VISÃO DE DENTRO
Antes de Ednaldo Santos entrar no ar, às 16h, a apresentadora Graça Araújo comanda o programa Rádio Livre. Nele, dedica uma hora à revista eletrônica Consultório de Graça, em que médicos e profissionais de saúde são entrevistados a respeito de um tema. O programa tem quase 30% do share de audiência. Graça está há 12 anos à frente da atração. Chegou à emissora depois de passar pela TV Manchete e TV Pernambuco. Na TV Jornal, pertencente ao mesmo grupo da emissora, é âncora de um telejornal, ao meio-dia. “Quando fui convidada, achava que não ia dar certo. O ambiente, em geral, é muito machista. Lembro que, quando entrei, só tinha eu de mulher na cabine.” Hoje, 61,25% dos ouvintes da Rádio Jornal são homens.

Graça nasceu em Itambé, interior de Pernambuco. O pai faleceu quando ela tinha menos de um ano e a família mudou-se para São Paulo. Foi uma estudante pobre, de escolas públicas. Formou-se em Jornalismo em 1983, sem estagiar na área, porque sustentava a família com o salário que recebia como gerente numa rede de lojas. “Entendo tudo de vender coisas.” Cursou a Universidade Alcântara Machado, no Bairro do Morumbi, São Paulo.

Sonhava em fazer parte da Rádio Jovem Pan. “Eles faziam um jornalismo espetacular. Eu queria trabalhar lá. Mas, quando me formei, pensei: ‘Não posso bater à porta da Jovem Pan, se não tenho sequer um estágio’.” Acabou vindo para o Recife com a intenção de estagiar na Rádio Clube e depois retornar. Trabalhou seis meses na Rádio Transamérica, que praticava o que se chama, pejorativamente, no meio jornalístico, de “gilete press” (que significa “cortar” material publicado em outros veículos, dele apropriando-se sem citar a fonte, na maioria das vezes). “As FMs subestimavam muito o público, não investiam no jornalismo.” Depois da experiência, foi para a Rádio Clube, fazer jornalismo de rua e de serviço, que considera a principal vocação do rádio. Nunca mais trabalhou em São Paulo.

“A televisão é muito egoísta. Pouco interage e pouco se interessa pelas novas ferramentas de interação. Já o rádio tem todo tempo para atender o ouvinte”, compara, com a autoridade de quem comanda programas diários nos dois veículos. “Você não tem nem que pentear o cabelo para fazer o programa de rádio. Aliás, não tinha, porque agora colocaram câmeras no estúdio, também. Mas o fato é que a televisão exige que você passe um tempo pensando na forma, em detrimento do conteúdo. Ao passo que no rádio você fica tranquilo, só focado no conteúdo. Todo o resto não interessa. É você e o microfone.”


Graça Araújo tornou-se um dos ícones do rádio e da TV pernambucana

Para a apresentadora, a internet e o celular deixaram o rádio mais ágil. “E olha que ele já era o meio de comunicação mais rápido antes de tudo isso. Nenhuma mídia moderna ultrapassou essa potencialidade, pelo contrário, só aumentou sua agilidade”. No programa da tarde em que nos recebeu, um ouvinte mandara um e-mail da Espanha para pedir aconselhamentos médicos.

Graça diz que não é “louca por rádio”, na mesma intensidade que seu colega Geraldo Freire, que apresenta a Supermanhã, da mesma emissora. Mas, durante a semana, escuta rádio em todos os lugares. “Meu terapeuta até recomendou que eu ouvisse um pouco menos.” Quando está cansada da rotina, a apresentadora diz pensar nos ouvintes – e também vê o reflexo do trabalho diário com profissionais de saúde na própria vida. “Alguns ligam para o Consultório (de Graça) e dizem que não têm acesso a médico, plano de saúde, nada. O rádio é importante na vida dessas pessoas. Para mim também é. Me deu muita informação.”

EM EXTINÇÃO
Na sala ao lado, de chapéu marrom de abas largas, dois anéis em cada mão e bem-vestido, encontramos Gino César, “o repórter do Bandeira 2”, como diz o slogan. Mais de 20 anos de Rádio Jornal (“Mas não me venha perguntando datas, eu não me lembro de nada. Nada mesmo”, antecipa-se à entrevista). Gino apresenta o Plantão de Polícia e o Bandeira 2, pela manhã, e uma segunda edição desse mesmo programa policial ao meio-dia. Tem 71% do share pela manhã. Mais de 162 mil ouvintes diários. Ao meio-dia, tem mais de 37 mil. Em números, é a maior audiência da emissora.

Nasceu em Rio Formoso, em março de 1936. Com 11 anos, veio para o Recife, onde trabalhou no comércio. Em 1954, quando estava em casa, ouviu a Rádio Clube fazer uma convocatória para inscrições num curso de radioator. A chamada falava de Torres Filho, radialista que tinha criado uma escolinha de radioteatro. Gino se inscreveu e participou da escola. Ficou três meses interpretando as historinhas que Torres Filho criava. Foi aprovado e, em 1955, passou para o elenco da rádio. Em fevereiro, assinou o primeiro contrato como radioator. Atuava em novelas de rádio escritas por autores do Sudeste, como Mário Lago.

“Com o tempo, passei a ser galã. Durante muitos anos, fiquei também fazendo programas humorísticos. Mas, quando chegou a era da televisão, o rádio praticamente acabou. Os programas de auditório, novelas e humorísticos foram para o outro meio.” Na época, com a carteira assinada como radioator na Rádio Clube, Gino pediu a Ivan Lima, diretor da emissora, para colocá-lo também como motorista na Rádio Tamandaré, que pertencia ao mesmo grupo. Era um segundo salário e a chance de conviver com o departamento esportivo da outra rádio, viajar e acompanhar os jogos de futebol mais próximos do Recife. Num carnaval, foi mandado ao Hospital da Restauração para fazer pequenas matérias. Agradou. Passou para o departamento de jornalismo, no qual marcaria a história do rádio em Pernambuco, com sua entonação musicada, inconfundível. “Criei um estilo para não parecer com ninguém e para que ninguém pudesse ficar parecido comigo.”

O nome Bandeira 2 é uma referência aos assaltos a motoristas de táxi. Em função do programa, Gino já sofreu alguns atentados. Num deles, deram tiros na frente de sua casa, no Bairro da Imbiribeira. “Meu filho, Paulo Ricardo, aprendeu comigo a ser uma pessoa fria. Quando ligavam com ameaças, ele dizia: ‘Não precisa telefonar aqui pra casa, não. Mate meu pai e depois a polícia nos avisa’.” Segundo Gino, as tentativas de intimidação eram de “policiais policiáveis”. “Desses, eu sofri ameaças, atentados, mas jamais de bandido. Bandido não ameaça.”


Gino César comanda programa de maior audiência da Rádio Jornal, o Bandeira 2

Gino César, quase 60 anos de carreira, e o ouvinte Paulo Henrique do Cordeiro compartilham a mesma visão sobre o futuro do rádio. A despeito das novas tecnologias que permitem o acesso via computadores pessoais, tablets e telefones celulares, ambos pensam que falta um determinante menos técnico: o estímulo à cultura do rádio entre os mais jovens. Mais de 77% da audiência da Rádio Jornal é formada por ouvintes com mais de 35 anos. “Nós, radialistas, somos uma classe em extinção. Digo todo dia aos meus colegas. Não há mais nenhuma perspectiva”, lamenta Gino.

24 HORAS NO AR
Geraldo Freire é menos pessimista. O radialista, que recebeu a nossa reportagem em sua agência de publicidade, no Bairro do Prado, pensa o rádio como um meio de comunicação aberto à convergência. Mais novo e único filho homem entre duas irmãs, Geraldo chegou ao Recife vindo de Mimoso, distrito de Pesqueira, depois da morte da mãe, quando tinha 5 anos. Não sabe exatamente o ano em que nasceu. Oficialmente, é de junho de 1949. Mas, quando tinha entre 9 e 10 anos, uma irmã mudou seu registro para 14 anos. Era a condição para ter uma carteira assinada. Trabalhou em várias ocupações, entre elas, como empregado doméstico. Mas foi entregando cartas, em 1964, que o rádio atravessou o seu caminho.

“Cheguei à casa de uma senhora, ali em Salgadinho, para entregar uma carta e ela falou que o amigo do marido dela gostaria de ter alguém para mandados na sua agência de propagandas. Esse amigo do marido era um jornalista chamado Hermes de Melo, que me contratou para ser contínuo.”

O publicitário tinha comprado um horário na Rádio Capibaribe e a função de Geraldo era levar o gravador e o transformador, que pesavam mais de 20 kg, para as reportagens. “Eu carregava aquela parafernália, ligava e pensava: ‘qualquer pessoa faz essa merda’.” Numa ocasião em que Hermes de Melo faltou, Geraldo fez o trabalho e foi bem-recebido. Passou a apresentar, ainda sem a carteira assinada, um programa aos domingos.

A entrada oficial na profissão só aconteceria um pouco mais tarde. “Naquele tempo, não existia curso de Radialismo e as pessoas entravam via concurso interno. Juntavam 10 caras, testavam voz, leitura. Fui reprovado no primeiro, no segundo, no terceiro, em 10. Mas, um dia, em 1968, entrei. Fui para a Rádio Repórter, que era da Globo, e assinaram minha carteira.”

Na Rádio Repórter, fez transmissões do campo de futebol durante “pelo menos uns 15 anos sem férias e sem folga”. Entre os anos 1970 e 1980, trabalhou na TV Jornal fazendo locução de cabine e futebol. “Quando me disseram que eu ia ser transferido da televisão para o rádio, me apavorei. Era o tempo das grandes vozes, dos grandes locutores e eu, um camelô. Tinha vindo de uma rádio modesta, a Capibaribe, e, depois, a Rádio Repórter. Rádio Jornal do Commercio? Era como você ir para Roma.”

“Empiricamente, fui analisando os caras que estavam no ar, fortões, como Geraldo Liberal e Tavares Maciel. Cheguei à conclusão de que eles falavam muito e pensei em fazer um programa falando o mínimo, pouco mesmo. Falar é correr riscos.”


Interação do radialista Alex Lucena com ouvintes já evitou até suicídio

Geraldo Freire peregrinou por muitas rádios. “Fui rolando.” Rádio Relógio, Rádio Jornal (está pela terceira vez na emissora), Rádio Olinda (quatro passagens), Rádio Capibaribe (duas passagens), Rádio Clube. Segundo os cálculos do radialista, ficou em primeiro lugar em muitas delas. Só na Rádio Jornal, é um dos recordistas de audiência há 22 anos. Seu horário, hoje, atinge 50% do share e picos de mais de 150 mil ouvintes.

Para Geraldo, o rádio não é arcaico, apenas teve que aprender a conviver com outros espaços e meios. “Houve um tempo em que o rádio era tudo. Do começo ao fim. Era o correio – por ele você mandava o recado. Era o jornal – por ele você sabia das notícias. Era a vitrola – por ele você ouvia as músicas. Daí que, hoje, as pessoas olhem para ele como sendo um dinossauro. Mas, como canal de convergência, o rádio é o meio mais fácil para você desaguar nele.”

O apresentador conta que “cansou de viajar” para São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, com a intenção de ouvir o que as emissoras de lá andavam fazendo. Hoje, escuta emissoras do México, Argentina, Itália, pela internet e pelo aparelho celular. Mas não aceita a câmera que colocaram no estúdio e transmite imagens da cabine em streaming. “É uma bobagem. O rádio envergonhado. Querendo ser televisão, o que não vai ser nunca. Eu nem olho para câmera. Sei exatamente o mal que ela me faz, porque, no fundo, você trabalha para voyeurs que ficam se masturbando para você.”

Pai de quatro filhos, mudou-se de Jardim Atlântico, Olinda, para o Bairro do Espinheiro. Queria se assegurar de que não chegaria atrasado, nunca. “Trabalhei todo esse tempo sem nunca ter faltado, sem nunca ter chegado menos de meia hora antes de entrar no ar.” Quando adoeceu, tomou providências para ser substituído a tempo. “Achava até que um dia ganharia hora extra por essa antecipação diária, mas nunca ganhei. É só para o meu sofrimento pessoal.”

Tanto amor pela profissão é sintetizada pela coleção de receptores de “rádios diferentes” e antigos, alguns comprados, outros oferecidos pelos amigos. Mas o prazer de ouvir rádio também vem junto com sofrimento. Esta entrevista chegou a ser adiada algumas vezes, porque o apresentador estava adoentado.

“Inventaram uns boatos de que eu teria infartado. Mas estou doente por não dormir. Eu me deito e fico pensando em notícia. Fico me perguntando o que a Globo News está veiculando, o que a Jovem Pan está transmitindo às 2h da madrugada, o que a CBN está fazendo. Quando durmo três horas numa noite, eu dormi muito. É uma tensão filha da puta. É péssimo, porque quem dorme pouco pensa pouco.”


O motorista Passarinho TX manda informações, das ruas, para
as rádios

A voz aveludada de Alex Lucena comanda há 12 anos o programa Momentos de Amor, que vai ao ar todos os dias da semana, às 20h, na Rádio Recife (FM 97,5). O radialista de 42 anos (“mas tem que falar mesmo?”) começou a carreira numa rádio comunitária de Jardim Paulista. Tinha 17 anos e decidiu estudar para adquirir a DRT. Formou-se em Radialismo no IFPE e, hoje, faz questão de lembrar que, em rádio, “não basta ter apenas uma voz bonitinha”.

Depois de formado, o início foi como operador de áudio da extinta Rádio Caetés FM. O diretor Pedro Vilela propôs um programa romântico e Alex Lucena aceitou. “Me espelhei muito em Ari Corione, que apresentava um programa chamado Love songs, na década de 1980, na também extinta Rádio Cidade. Algumas coisinhas eu até roubei dele. Hoje tenho minha linha, meu segmento, quadros que deram certo, outros, nem tanto.”

O apresentador se diz “realizado nesse segmento”. Cria quadros constantemente e testa a popularidade com os ouvintes. Alguns são sugestões da própria audiência. “Tinha a mania de mandar beijos para os ouvintes e, geralmente, colocava um estalo no ar. Aí, um deles disse, certa vez: ‘Manda um BB, beijinho com barulhinho, pra mim. Pegou. Hoje, os ouvintes pedem simplesmente um BB’.”

Segundo Alex, os quadros são mantidos por um determinado tempo no ar e depois substituídos por outros, “para não se tornar cansativo”. “As pessoas acham que, por ser um programa romântico, ele tem que ser algo paradinho, na linha empostada do ‘olá, tudo bem’. Eu já não vejo dessa forma. Brincamos muito com a imaginação.”

Um dos quadros de maior sucesso é o da letra traduzida. “Uso ‘cacos’, como se eu tivesse recitando um texto em cima da música. Tento viver aquele sentimento.” Mas nem sempre a interpretação deu certo. Alex conta que, no começo da carreira, não entendia muito bem o inglês e fez uma tradução sem pé nem cabeça de uma música romântica.

Nas cinco horas em que está no ar, o radialista também manda textos de motivação e valorização à vida. Num desses momentos de mensagens, ele conta que, do outro lado, estava uma ouvinte em meio a uma tentativa de suicídio. Quando escutou a voz de Alex, ligou para o hospital e pediu socorro. “Ela diz que sou o anjo salvador da sua vida. Até hoje somos amigos.”

VOU DE TÁXI
Não é à toa que Paulo Henrique do Cordeiro fez o levantamento pessoal de sua audiência entre os taxistas. A profissão une duas coisas importantes para o rádio de serviço. Em primeiro lugar, os taxistas têm acesso constante ao rádio e fazem uso de suas informações para escolher itinerários. Em segundo, conhecem a cidade como a palma da mão. José Francisco da Silva, também conhecido como Passarinho TX, é um desses ouvintes. Mas é também um pouco mais que isso. Seu táxi funciona como um estúdio móvel, de onde o motorista de 50 anos manda informações diárias para programas da Rádio Clube e da Rádio Jornal.


A ouvinte Zezé Taxista costuma participar ao vivo de programas

Passarinho TX recebeu a reportagem da Continente em sua casa, no Bairro de Afogados. O carro, um Siena ano 2011, sofrera uma batida e estava na seguradora há dois dias. O apelido de Passarinho veio da cidade natal, Limoeiro, onde escutava a Rádio Difusora (hoje pertencente ao mesmo grupo da Rádio Jornal): quando era criança, soltava os passarinhos dos vizinhos. “Não gostava de ver ninguém preso.” Hoje, denuncia por telefone as calamidades que vê na rua.

Trabalha no ponto do Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, no Bairro de Joana Bezerra. Mora há 20 anos em Afogados, 12 deles dedicados à atividade de taxista. Quando o encontramos, preparava-se para ir a uma lan house próxima, assistir aos programas de Graça Araújo e de Ednaldo Santos, ao vivo, pelo site da emissora. “É o mesmo que na TV.”

Filho de policial aposentado, Passarinho diz não ter medo de confusão. Fala dos guardas da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano, dos canos de água e esgoto estourados (um deles foi na própria rua), dos buracos e do tráfego cada vez mais travado. As reclamações surtem efeito. Segundo o taxista, não é raro que, no mesmo dia da intervenção no ar, os órgãos públicos façam os reparos reclamados por ele.

Em 2011, quando uma nova onda de boatos sobre o arrombamento de Tapacurá circulou pela cidade, Passarinho TX estava nas ruas. Ligou para a rádio a fim de ajudar a desmenti-los. “Na hora do desespero, as pessoas estão na rua, e não na frente da TV.” Passarinho é amigo de Zezé Taxista, outra ouvinte que costuma participar ao vivo.

Zezé é Maria José de Lima Cavalcanti, pesqueirense, 51 anos, mãe de um casal de filhos. Trabalha há 20 anos como taxista e traz, da infância, a paixão pelo rádio. Quando criança, morava atrás da antiga Rádio Difusora de Pesqueira. “Vivia dentro da rádio. Fui criada lá. Minha mãe me chamava de macaca de auditório.” Acompanhava todos os shows e festas da casa, apresentações de artistas como Sidney Magal e Sérgio Reis.

O espaço ao vivo, geralmente em programas da Rádio Jornal, é conseguido com obstinação e dois celulares, ligando para emissora simultaneamente, para aumentar as chances de ser atendida. Zezé, Passarinho e Paulo Henrique do Cordeiro não possuem um contato direto com as rádios. Tentam pela linha comum, sempre ocupada.


Para o radialista Aderbal Barros, ensino da profissão está defasado

Às vezes, Zezé tem que desligar o rádio do táxi. Alguns passageiros não gostam. “Fico agoniada.” Mas, com jeito e paciência, também acontece de Zezé mudar o hábito dos clientes. “Tenho uma passageira que não suportava o programa de Geraldo Freire. Ela achava o apresentador muito machista. Dizia: ‘Eu odeio esse homem’. Hoje, ela já entra no carro perguntando com quem é o debate do programa.” Porém, quando Geraldo “está com as coisas dele” ou sabe que o tema do debate vai descambar em algum assunto mais picante, não tem jeito. Zezé desliga o rádio para não perder a cliente.

ÍDOLOS DO INÍCIO
Ao lado de Aderval Barros e Rubem Souza, de segunda a sexta, às 13h, o narrador de futebol e comentarista Luciano Duarte, 68 anos, comanda o debate esportivo A Verdade É, na Rádio Olinda (AM 1030). O apresentador viu nascer seu gosto pelo futebol via ondas de rádio. Da cidade de Santa Inês, nas proximidades de Jequié, sudoeste da Bahia, acompanhava as partidas do Botafogo de Garrincha e Didi. Gostava mais de ouvir as informações sobre o Rio de Janeiro, via Rádio Nacional, que “sintonizava muito bem na região”, do que propriamente sobre Salvador. Assim, apaixonou-se pelo Botafogo antes do Vitória, que é o seu time na Bahia.

Na cidade de Santa Inês, havia três serviços de alto-falantes. O da igreja, um pertencente ao comerciante chamado Seu Nascimento, e o da prefeitura. Neles, começou a trabalhar e a tomar gosto pela profissão. Na época, o prefeito da cidade de Santa Inês era inimigo político de seu pai, mas isso não foi um impedimento. Mais tarde, mudou-se para Salvador, onde foi vendedor de jornal, vendedor de picolé, engraxate.

De Salvador foi para o Rio de Janeiro, trabalhar nas Lojas Americanas da Rua Uruguaiana, como conferente. Perto, na Rua Buenos Aires, estava a Rádio Vera Cruz. Na hora do almoço, ia para a emissora, na qual foi fazendo amizades, em especial com os radialistas de futebol. Passou a integrar a equipe e, certa vez, um colega faltou; entrou no ar pela primeira vez, substituindo-o. Tinha 20 anos.

A primeira transmissão esportiva foi no jogo Flamengo x Olaria, no qual também estreava como repórter Kléber Leite, depois presidente do Flamengo. Acompanhava os clubes pernambucanos que jogavam no Rio de Janeiro e, num desses encontros, recebeu o convite para trabalhar no estado. Chegou ao Recife para ser locutor da Rádio Repórter, que funcionava na Rua da Concórdia. Luciano Duarte conta que ouvia muito a Rádio Nacional, na qual tinha como referência os locutores Jorge Curi e Oswaldo Moreira. Também se espelhou em Paulo Gracindo, César de Alencar, Jair de Taumaturgo, Euclides Duarte, Haroldo de Andrade. Grandes nomes do rádio brasileiro, em especial do realizado no Rio de Janeiro, nos estúdios da já citada Rádio Nacional, da Rádio Mayrink Veiga, da Tupi e, posteriormente, da Rádio Globo.

“Eles tinham o dom da oratória, sabiam como se dirigir ao ouvinte e, muitas vezes, a falta de recursos estimulava a criatividade do locutor. Eram levadas ao ar histórias até inventadas, mas de uma invenção que não era prejudicial a ninguém. Uma mentira gostosa.”


Ralph de Carvalho é o mais celebrado dos comentaristas
esportivos locais

Da Repórter, foi para a Rádio Jornal do Commercio, onde trabalhou por 16 anos, a convite de Walter Spencer. Tentou a vida com o empreendimento de um estúdio de gravação. “Não me levou a nada ou quase nada.” Tornou-se superintendente da Rádio Clube, e mudou para a Rádio Olinda, na qual trabalha há mais de 16 anos.

Colega de Luciano Duarte na Rádio Olinda, em que é diretor-executivo, Aderval Barros, 54 anos, recebeu a Continente no coro da capela em que funciona a emissora (a rádio pertence a três padres da Arquidiocese de Olinda e Recife). O Implacável, como é conhecido, nasceu em Orobó, município localizado no Planalto da Borborema, mas foi criado em Peixinhos, onde morou por 46 anos. Tem 34 anos de profissão.

Aderval conta que, quando criança, era “torcedor de pé de rádio”, porque não tinha dinheiro para pagar o ingresso dos jogos. Brincava de narrador, quando tinha uns 8 anos, mas, antes de ser admitido pela Rádio Capibaribe e posteriormente pela Rádio Jornal, era vendedor de móveis. Teve como ídolos Ivan Lima, Paulo Marques, Jaime Cisneiros, José Santana, Ralph de Carvalho. “No começo, queremos imitar, até que você ganha sua identidade.”

O locutor também acena para o lugar estratégico do veículo – “Temos, hoje, várias plataformas de comunicação, e o rádio atravessa todas elas. Se o mundo acabar, quem vai informar primeiro é o rádio, mesmo que seja ele via internet” –, mas critica a formação dos novos profissionais. “Antes, tínhamos uma mão de obra extraordinária e poucos recursos técnicos. Agora, temos recursos extraordinários, e falta mão de obra de qualidade, com talento, especialização.” Para Aderval, o ensino da profissão está tecnicamente defasado. “A universidade não acompanhou o avanço tecnológico. Há faculdades que não têm um laboratório ou, se têm, é muito precário, rudimentar. Por exemplo, é possível baixar, em casa, programas avançados de edição, como o Sound Forge, e, mesmo assim, os estudantes saem da universidade sem conhecer esses recursos.”

COMENTÁRIO DE FUTEBOL
Mas, entre os comentaristas esportivos em atividade, nenhum é mais celebrado que Ralph de Carvalho, 67 anos. Nascido em Riachão do Dantas, interior de Sergipe, interessou-se pelo rádio quando tinha 12 anos. Na época, começou a fazer um curso de radiotécnico por correspondência. Tinha um interesse especial por radio frequency (transmissão), o que o motivou enquanto ouvinte.

Quando tinha 14 anos, um narrador esportivo e também dentista, Carlos Magalhães, convidou-o para cobrir o carnaval de Aracaju. Era sua estreia, amadora, na Rádio Jornal de Sergipe. “O rádio não tinha esse tom profissional, era meio amador. Então, na cobertura, ele me deu uma pontinha para ficar falando de um lugar por onde o carnaval ia passar. Fui inoculado com o vírus da profissão, aí.”

Mais tarde, Ralph de Carvalho se mudaria para o Rio de Janeiro. Entrou para a Aeronáutica, e lá encontrou nomes famosos, como José Cabral, narrador de futebol da Rádio Tupi. Jairo de Souza, do Plantão Esportivo da Rádio Globo. Carlos Ramiro, da Rádio Nacional. “Aproximei-me desse povo em função do fascínio pelo rádio.”


O rádio despertou a paixão do narrador Luciano Duarte pelo futebol

A primeira oportunidade como profissional foi na Rádio Difusora de Caxias, emissora pertencente ao político Tenório Calvalcanti. Era 1964 e Ralph tinha 18 anos. Em seguida, foi para a capital do estado, convidado pela Rádio Vera Cruz, hoje Rádio América. “Com as viagens, senti a necessidade de optar. Deixei a Aeronáutica.” Surgiu o convite para a Rádio Olinda, em março de 1972.

De lá, foi para a Rádio Clube, na qual trabalhou por 27 anos. Da Rádio Clube, resolveu dar voo próprio. Formou a equipe Escrete de Ouro, e seguiu para a Rádio Capibaribe, Rádio Sat, e, há seis anos, está na CBN e Rádio Jornal. “Vinha do Rio, cuja cadência de transmissão era diferente. Aqui, era mais rápido. Busquei um padrão próprio, por carência de comentarista (na época, só tinha José Santana e Luiz Cavalcanti. Barbosa Filho já estava indo embora para São Paulo). O próprio Barbosa me estimulou para que eu analisasse futebol. Tinha muita facilidade de fazer a leitura tática e técnica do jogo.”

Fez sete Copas do Mundo. Todas a partir de 1982, com exceção da realizada no Japão/Coreia, em 2002. “Copa de madrugada, a rádio achou que não valia a pena.” Descobriu a rara vocação de narrador por acaso. Foi para o campo comentar o jogo, e o narrador, Paulo Roberto, faltou. O ano era 1969 e a partida, São Cristóvão x Flamengo.

“A retaguarda disse: ‘Transmite, que não temos outra alternativa, temos que colocar alguma coisa no ar’. Transmiti. Quando terminou, as pessoas disseram ‘Rapaz, nem parecia que era a primeira vez’. Daí, fiquei.” Foi melhorando, aprimorando-se. “Daqui e dali tirava alguns defeitos. Ouvia as gravações e pensava, “bem, aqui eu posso gritar menos, fazer o grito de gol mais curto, para não ser tão cansativo...”. Narrou futebol até 1986.

Para Ralph, entre os principais desafios do comentarista, há o de oferecer um posicionamento a respeito de um lance, logo quando ele acontece. “Hoje, está mais fácil. Se você tiver dúvida, pode eventualmente conferir na televisão o replay, quando o jogo é transmitido. Mas existe, na minha cabeça e na de muita gente que faz rádio, uma coisa chamada convicção do lance. Você fotografa mentalmente o lance, e não muda nem que o cara aqui do lado diga que não foi. É o que você viu naquele flash, naquele momento, pode até estar errado, mas a prática diz que você deve segurar.”

“O cara de rádio é diferente do da TV, porque ele não relaxa. Ele tem que confiar no seu taco. Não desligar. O ouvinte não aceita que você diga ‘espera um pouco que vou ver na TV para te dizer’. Ora, se ele está ouvindo agora, ele quer saber agora.” Ralph já teve atritos com um dirigente de clube pernambucano, que proibiu a entrada de profissionais da emissora no campo. Acabou cedendo, diante da pressão da imprensa. Hoje, é seu amigo. “Como dizia Carlos Alberto, a gente não pode ser o tribunal da inquisição, que fica falando daquilo o tempo todo e não perdoa nunca.” 

Leia também:
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Os desafios do meio em tempos de convergência

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