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Os desafios do meio em tempos de convergência

TEXTO Nelia R. Del Bianco

01 de Dezembro de 2012

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 144 | dezembro 2012]

“E agora, o que será do rádio?”
A pergunta é recorrente ao longo da história da mídia. Com o surgimento da TV, não faltaram profetas anunciando o desaparecimento do veículo. O ritmo exponencial de crescimento da internet tem sugerido que, em breve, todas as mídias vão convergir para a web e fora dela não haverá sobrevivência. Mais uma vez repete-se a crônica da morte anunciada do meio.

De fato, o surgimento de uma nova tecnologia carrega em si predições de toda ordem. Para os pessimistas, o novo destrói o velho, irremediavelmente. Enquanto os otimistas ficam eufóricos perante a perspectiva revolucionária do meio emergente. No entanto, a análise deve ser cautelosa. O processo de mudança de um padrão tecnológico para outro é bem mais complexo, segundo o jornalista americano Roger Fidler, um estudioso do assunto. Para ele, as novas mídias não surgem espontaneamente e independentes, mas emergem gradualmente, a partir da metamorfose das velhas. O novo meio se apropria de traços dos existentes para encontrar, posteriormente, a própria identidade e linguagem. Diante das novas mídias, as tradicionais normalmente não morrem, mas adaptam-se e continuam evoluindo.

O rádio vem se reinventando, fazendo a sua mediamorfose. Com o advento da TV, na década de 1950, perdeu prestígio junto aos patrocinadores. Sem dinheiro, não havia como investir na renovação técnica de equipamentos, e menos ainda manter um cast profissional, formado por cantores, músicos, comediantes e animadores. A saída foi remodelar a programação, adotando a veiculação de música gravada, notícia, esportes e prestação de serviços – informação sobre condições do trânsito, polícia, tempo etc.

Nos anos 1980, o radiojornalismo no Brasil revitaliza-se a partir da adoção de quatro recursos técnicos que contribuíram para melhorar a qualidade sonora do rádio: o transmissor-receptor (sistema de áudio em duas vias, que permite ao repórter entrar no ar ao vivo ou conversar com âncoras e entrevistados), a extensão da baixa frequência para telefone (acoplada ao telefone, aumentava a potência de transmissão e permitia que o sinal chegasse mais forte ao estúdio), os satélites (usados cada vez mais para transmissão em redes), e o CD, que substituiu as fitas magnéticas e os discos de vinil, colaborando para a melhoria da qualidade do som da música no meio.

Na década de 1990, o celular facilita a transmissão ao vivo e leva o repórter a participar intensivamente da programação, direto da cena do acontecimento, contribuindo para aprofundar e explorar a característica do imediatismo inerente à natureza tecnológica do rádio. O tempo entre o acontecimento e a veiculação da notícia fora encurtado. A cobertura ao vivo criou uma sensação de participação do ouvinte no cenário dos principais acontecimentos políticos da época. No final dos anos 1980 e começo dos 90, a população estava ávida por notícias a respeito das mudanças políticas após o fim de 20 anos de ditadura militar e a perspectiva de eleição direta para presidente. Cresce a importância dos apresentadores no lugar do tradicional locutor de voz empostada e distante.

Na década de 2000, o rádio, que era limitado ao que estava disponível nas frequências AM e FM, conquista novas possibilidades de escuta, com a popularização dos computadores, players de MP3 e celulares.

RÁDIO “SEM LIMITES”
O hábito de ouvir rádio alcança 80,3% da população, de acordo com pesquisa realizada pelo governo federal em 2010. O percentual é inferior ao de televisão, com 96,6%. Porém, esse dado revela apenas penetração do meio e não a audiência. Pesquisas de mídia do Ibope indicam que a audiência media do rádio FM é de 15% da população e 3% para o AM. Se for considerado o volume total de ouvintes nos 13 mercados com pesquisas regulares do Ibope, há algo em torno de 11 milhões de ouvintes por minuto. Ocorre que essa audiência é pulverizada, se dividirmos o percentual entre as 380 rádios AM e FM existentes nas praças abrangidas pela medição. Os índices mais baixos de escuta estão entre jovens de 20 a 29 anos; e, quando acontecem, na sua maioria, são pela internet. Enquanto isso, o consumo de AM restringe-se à faixa de 45 a 49 anos. O segmento de classe C é o que mais escuta rádio, segundo dados da Ipsos, pelo estudo Marplan EGM de 2010.

Com a emergência de multiplataformas digitais, o rádio expande a entrega de conteúdo para além do aparelho receptor tradicional e conquista audiência que ainda não é computada pelas pesquisas tradicionais. Uma enquete realizada pelo Grupo dos Profissionais do Rádio, em 2009, com 2.580 ouvintes que acessaram o site www.radioenquete.com.br, revelou que o hábito de ouvir o veículo pelo aparelho portátil ou receiver já rivaliza com outras formas de consumo. De acordo com a pesquisa, 74% disseram que ouvem no aparelho portátil, receivermicrosystem; 63% internet, via computador; 61% no rádio do carro; 37% sintonizam no celular; 37% no MP3/MP4/iPod; 12% pelos canais de áudio da TV a cabo/parabólica; e 3% pela internet, via celular. Quando perguntados se ouviamrádio na internet ou visitavam os sites das emissoras, 82% dos pesquisados confirmaram o hábito.

Outra mudança significativa é que a audição acontece simultaneamente a outras atividades, como também ao consumo de outras mídias. A pesquisa do Grupo dos Profissionais do Rádio realizada em 2009 mostra que 79% dos entrevistados disseram ouvir rádio quando estão em casa, 64% enquanto dirigem automóvel, 45% durante o trabalho, 26% enquanto caminham pelas ruas, e 25% ao fazer exercícios.

A integração do rádio à internet torna-se cada vez mais necessária como estratégia de sustentabilidade, considerando o crescimento do acesso à rede e seu uso aos poucos sendo integrado ao cotidiano da população. A quantidade de domicílios brasileiros com computador aumentou 264%, de 2005 para 2011. E se forem considerados os que têm acesso à internet, o crescimento foi de 292% no mesmo período.

A Fundação Getúlio Vargas aponta que o Brasil tem, hoje, 99 milhões de computadores em uso – incluindo tablets – e deve chegar a 140 milhões em 2014. Isso significa ter dois computadores para cada três habitantes do país, daqui a dois anos, podendo chegar à taxa de um por um em 2017.

As emissoras têm explorado essa nova fronteira de transmissão, especialmente as de maior porte. Aos poucos, as suas páginas ganham densidade e muitas já apresentam variedade de oferta de produtos como podcast, arquivos de programas, canais de interatividade, blogs de locutores, articulistas, comentaristas e promoções. Ao contrário de vilã, a internet tem sido uma aliada na disputa pela audiência, diante de competidores que passaram a rivalizar com o rádio na oferta de informação em tempo real.

Paralelamente à internet, metade dos celulares vendidos no país atualmente possui dispositivo para se ouvir uma FM, sem qualquer custo adicional. As emissoras já estão investindo em aplicativos para conexão para ouvi-las em tempo real pelo celular.

A estratégia de permanência do rádio no cenário de convergência midiática tem sido a de buscar o ouvinte onde estiver, em diferentes suportes. Mas isso ainda não é o bastante para atraí-lo. É preciso oferecer conteúdo significativo que estabeleça vínculos com o local, a comunidade, o entorno cotidiano. Esse é o grande diferencial do veículo: o sentido de proximidade, o localismo.

Em tempos de internet e celular, a mobilidade é potencializada. O desafio é manter-se necessário frente à emergência de muitos outros meios que passaram a competir com uma antiga capacidade do rádio de dar a notícia em primeira mão, de ser o primeiro a informar. Esse sentido primordial está sendo rivalizado fortemente pela internet, graças à mobilidade conquistada com a ampliação da rede 3G no país. A questão central é por que o rádio ainda seria necessário nesse novo ambiente de consumo midiático, ou seja, em que medida pode oferecer algo de que os outros não são capazes?

A resposta pode estar na sua própria natureza constituída pelo código sonoro. A ausência de imagens, que poderia ser considerada uma inferioridade, é, ao contrário, uma superioridade, segundo o filósofo francês Gastón Bachelard, porque na unisensorialidade reside o eixo da intimidade. É por meio das imagens, que se formam na mente do ouvinte, que se constrói o caráter pessoal da comunicação, ou seja, uma relação de proximidade e de interação informal. É o vínculo com a tradição da cultura oral que tem sido capaz de suscitar efeitos junto à recepção, colaborando para manter o poder de mobilização e a permanência do rádio. Mas os tempos são outros e requerem que esse poder de mobilização pela sonoridade seja reinventado. O futuro pertence aos que forem capazes de reinterpretar a sonoridade em tempos de conexão com o ambiente digital. 

NELIA R. DEL BIANCO, jornalista, doutora em Comunicação e professora da UnB.

Leia também:
O rádio como parte da vida
BBC: Um exemplo a ser seguido

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