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“A desobediência civil é um direito”

O dramaturgo Ruy Guerra fala sobre a nova encenação de 'Calabar - O elogio da traição', que retornará aos palcos no próximo ano

TEXTO Luciana Veras

01 de Agosto de 2015

Ruy Guerra

Ruy Guerra

Foto Bárbara Cunha/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 176 | ago 2015]

Calabar 
– o elogio da traição voltará à ribalta em 2016.
Quem garante é o próprio Ruy Guerra, 83, coautor do texto, ao lado de Chico Buarque. À Continente, no intervalo de uma breve estada no Recife, o cineasta e dramaturgo moçambicano falou sobre suas ideias para a nova encenação, orçada em pouco mais de R$ 5 milhões via Lei Rouanet. “Quero mudar um pouco o tratamento de cor na visualização e preciso de um outro tipo de arranjo musical, mais duro, mais pesado, pois um espetáculo mais sujo, mais esfarrapado, mais desagradável visualmente, não se passa num palácio e, sim, numa selva”, antecipou.

CONTINENTE Qual a situação atual da nova encenação de Calabar – o elogio da traição?
RUY GUERRA Na metade de novembro, começaremos os ensaios. Vamos estrear no Rio de Janeiro em fevereiro, logo depois do Carnaval, no Teatro Casa Grande, e depois de uma temporada de três meses seguiremos para São Paulo, para o Teatro Geo. Uma das coisas que fizeram a nossa estreia atrasar foi justamente isso: precisávamos de que o intervalo entre a passagem do Rio e a ida a São Paulo não fosse grande. Tinha que haver uma proximidade, principalmente por causa do elenco, e essa conjugação atrasou, mas já foi resolvida. Nós já temos alguns quadros definidos. Maneco Quinderé vai fazer a luz, Egberto Gismonti foi convidado a fazer os novos arranjos musicais e, para a cenografia e os figurinos, chamei um pernambucano de trabalho extraordinário, José de Anchieta, que conhece tudo sobre aquela época.

CONTINENTE E o elenco?
RUY GUERRA Por enquanto, os atores com quem falei têm problemas de data, pois já estão apalavrados com projetos anteriores. Hoje em dia, para compor um elenco de teatro, tem que ser feito com muita antecedência. É uma engenharia para conseguir o ator que você quer para aquele determinado momento, pois você só pode fechar quando tiver a confirmação do teatro. É difícil. Mas, garantidos e certos, já temos os papéis das duas mulheres: Letícia Sabatella vai fazer a Bárbara e Claudia Ohana a Ana. Aguardamos agora outros atores que já foram sondados. A vantagem é que todos conhecem bem a peça.

CONTINENTE Como foi revisitar um texto escrito há mais de 40 anos por você e Chico Buarque? Este, aliás, está envolvido de alguma forma na remontagem?
RUY GUERRA Quando me perguntaram se eu ia mexer, respondi que não iria mexer em nada. Mas aí comecei a ler e a perceber algumas coisas. Espero que, com o que pretendo mexer, quem tiver lido antes nem vá notar. Não será uma mudança radical, será mais uma mudança de dinâmica de cena ou passar uma informação complementar que acho importante. Minhas intenções de mudança são pontuais. Quanto ao Chico, ah, o Chico não quer nem saber de nada. Mas claro que ele autorizou tudo. Eu nada faria, se ele não tivesse autorizado ou se sentisse que ele, de alguma forma, não quisesse. Temos uma amizade muito boa e, também, a obrigação de perceber o que o outro quer dizer. Mesmo que ele dissesse sim, mas se fosse um sim reticente, eu jamais faria. A amizade é mais importante.

CONTINENTE O que pensa, hoje, sobre Calabar? Ele entrou para a História como sinônimo de traição, muito embora houvesse outros tantos.
RUY GUERRA Não é que tinha muitos – eram todos traidores. Havia tribos indígenas inteiras que saíam com os portugueses e depois se passavam a ajudar os holandeses. Havia oficiais que trabalhavam de lá para cá, praticando aquelas cooptações, e não havia sequer o conceito de pátria. Acima do Equador, a Holanda e Portugal eram aliados; abaixo do Equador, era terra de ninguém. Se atravessasse o Equador, Calabar não seria traidor. É por isso que a peça se chama O elogio da traição. Não podemos esquecer que o texto é de 1972, feito justamente para contestar a ditadura. O conceito de traição traz em si valores mais altos que a administração do momento, como se diz nos Estados Unidos, decide sobre o que é ou não é a pátria. A desobediência civil é um direito. Era um direito que cabia a Calabar, que era um conhecedor tão grande de Pernambuco, que desequilibrou a guerra. Mas não era traidor coisa nenhuma. Se discordarmos do poder vigente, nós podemos ser traidores, mas a nossa traição é que merece ser elogiada. Na ditadura, eles, os militares, é que eram os traidores; estávamos invertendo os valores. Daí o elogio da traição, que é algo que ninguém elogia ou tampouco apoia. Elogiar a traição parece errado, mas há traições que são necessárias e indispensáveis, principalmente quando se opõem ao poder vigente. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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